Vertigo

Escrito por Mariana Ribeiro
Beta-Reader: Anne

Capítulo 01 - Hell-O

acordara terrivelmente irritada naquela manhã de domingo.
Primeiramente, detestava saber que só por que passara algum tempo fora de Redmont, tudo havia mudado. Ela só tinha deixado há cidade por um ano e agora todos nem se quer lembravam de sua existência. Até mesmo Caroline, que sempre pensou que seria a primeira a comemorar sua volta, estava alheia a sua situação. Tudo bem que elas duas não se davam tão bem assim, mas um mês era tempo demais para ser ignorada por uma cidade inteira.
E depois, detestava ter voltado. Detestava ter voltado para a cidade das casas de "vidro", já que todos sabiam o que acontecia dentro delas. A cidade onde não havia como evitar qualquer um, pois todos estavam em todo lugar. A cidade que a prejudicava mentalmente e fisicamente. Era assustador o quanto ela detestava aquele lugar, seu ódio era tão grande que quase podia ser tocado.
Então, para ver se melhorava seu dia, acordou mais cedo que família inteira, colocou seu tênis Nike, um moletom rosa mais quente do que suas roupas normais e saiu para correr.
Todo final de semana ela saía para correr. Há muito tempo atrás ela usava os finais de semana para se divertir ao lado de Caroline, mas agora preferia passar esse tempo sozinha e já estava voltando a pensar no problema... Enquanto corria, seus cabelos presos em um perfeito rabo de cabelo balançavam velozmente, seus olhos cintilavam olhando atentamente para a rua, mas não prestavam tanta atenção assim na paisagem. Na verdade, o que ela mais queria era qualquer um que pudesse lhe ouvir e dizer – mesmo que mentindo – que tudo ficaria bem. Acelerou o passo e cumprimentava as pessoas que falavam com ela vagamente. Ela já estava acostumada a ser uma garota desejada e sempre fora vista pela vizinhança como uma boa menina. Namorou apenas uma vez durante toda sua vida, tirava notas altas, era inteligente e tinha um sério problema com livros de drama, afinal, vivia lendo-os. Caroline sempre brincava dizendo que todos queriam ser ou, pelo menos, estar perto de . Ela riu por meio momento quando lembrou das brincadeiras feitas pela amiga.
Quando finalmente se acalmou, já estava chegando ao parque no centro da cidade. Era um lugar muito visitado no final de semana, famílias felizes, namorados, amigos e casais da terceira idade enfeitavam o ambiente mostrando o quanto a cidade estava acostumada com a ideia de ter paz e perfeição para todos os moradores. Talvez a falta de animação fosse um dos motivos que tinham levado ela a ir embora daquele lugar e agora que parara para pensar nisso, estava quase certa de que esse era mesmo o motivo.
O relógio já marcava 08h04min quando resolveu voltar para sua casa. Agora que havia se acalmado, caminhava de uma forma mais compassada e até mais equilibrada. Estava mais sorridente, mais certa de que tudo melhoraria, mais confiante e até mais feliz do que quando saíra de casa. Atribuiu essa sensação ao efeito da endorfina liberada pela atividade física no sangue. Quando estava chegando à rua de sua casa não pode deixar de notar que havia um caminhão de mudança na frente da casa do vizinho. A casa, anteriormente, pertencera aos Kertp, um casal de meia idade russo que, segundo ouvira, morreram em um trágico acidente de carro no ano em que esteve fora. Sentiu-se triste pela perda, mas logo começou a imaginar quem seriam os novos habitantes daquele lugar que possuía um jardim tão bem cuidado. Ao entrar em casa, deparou-se com Tyler assistindo desenho animado na televisão. Ela sorriu maternalmente.
- Me deixa adivinhar, você ainda não tomou café, estou certa?
Tyler, ao ver a irmã, sorriu e acenou com a cabeça. não pode deixar de sorrir também, Tyler era o irmão mais adorável que podia ter pedido para si mesma. Ele tinha sete anos, cabelos louros grandes e bagunçados, olhos verdes e uma curiosidade tão grande que quase sempre se metia em encrencas por causa dela. Ela sentou ao lado dele e continuou a falar:
- A que horas você acordou?
- Quando você saiu.
Respondeu sem nem ao menos desgrudar os olhos da televisão e, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Miranda, a babá de Tyler, adentrou a sala correndo procurando pelo garoto. Foi notável seu alivio quando o viu assistindo desenho animado com a irmã.
- Ah, senhorita , fico aliviada que esteja com seu irmão! Bem, você sabe como ele é...
balançou os cabelos do irmão que sorriu com a atitude.
- Claro que sei, Miranda! – tinha começado a rir – E ainda me pergunto como você sobrevive a ele todos os dias do ano.
Tyler fez biquinho quando ouviu a última frase e como se não tivesse ouvido nada, voltou a olhar para a tela da tv.
- Então, temos alguma coisa para comer? – ela adicionou percebendo que estava esfomeada.
- Providenciarei isso agora mesmo.
subiu para seu quarto, tomou banho, colocou um vestido-de-dia-de-domingo e rumou para a cozinha. Agora, todos estavam acordados e aparentavam um excelente humor.
Sua família era relativamente feliz, sua mãe, Stella , era uma pintora que passava a maior parte do tempo tentando ser música, o que era engraçado sabendo que ela não possuía talento nenhum, seu pai, Noel, era um juiz consagrado por todos na região. Ao presenciar tamanha harmonia durante o café da manhã, espantou-se. Afinal, os últimos dias estavam sendo difíceis para todos eles. Especialmente para ela que, a cada segundo que passava, sentia cada vez mais falta de Londres e de todas as pessoas que lá conhecera.
- Alguém acordou radiante hoje!
A senhora foi a primeira a se pronunciar. Apresentava um sorriso amigável no rosto, os mesmos olhos verdes vivos dos pais e se você olhasse para suas unhas, perceberia que ela era uma pessoa um tanto nervosa.
- Bem, Mãe. – sentou-se a mesa para fazer sua refeição matinal – Digamos que hoje há um grande motivo para sorrir.
- Ah, não me diga que é a nova vizinhança? Eu falei para você, Stella. Toda essa mudança repentina de humor tinha alguma relação com o caminhão de mudanças que está parado aqui do lado.
A filha deu um olhar carregado de sarcasmo para o pai que retribuiu com um sorriso. Anos convivendo com o fizera aprender que, não importa se você está certo ou não, ela nunca se dará por vencida e o melhor a fazer é não discutir.
- Fico grata pela informação, mas sinto em decepcioná-lo se não sabia que vocês já conheciam a nova vizinhança e também não estou nem um pouco interessada nos "novos moradores".
O pai e a mãe riram, tentou manter a fúria, mas desatou a rir também. Depois de alguns segundos de riso em família, o pai de continuou:
- É muito engraçado o jeito que você fala comigo quando quer discutir. Essa sua forma de me afrontar me faz querer rir.
- Eu não pedi para você ficar me empurrando para o filho do vizinho.
- E – a mãe de recomeçara a falar – ainda nem sabemos quem eles são. Quero dizer, eles vieram se apresentar formalmente enquanto você tomava banho e devo dizer que Ella me pareceu uma pessoa muito simpática. Você poderia ir dizer um “olá” para o filho dela, não poderia ?
- Poderia, mas não quero. Não ainda... Afinal, tenho que me preparar mentalmente para meu primeiro dia de aula.
Todos na mesa ficaram sobressaltados. Como puderam esquecer que o primeiro dia de aula de era na manhã seguinte?
Tyler começara a rodar sua colher na xícara sem interesse algum em beber o líquido escaldante que fumaçava lá dentro e também, parecia muito tentado a deixar de comer para voltar a assistir desenho. Percebendo isso, o repreendeu com um olhar e o garoto voltou a se empenhar em engolir o líquido.
- Caroline passará aqui amanhã? Vocês vão juntas para o primeiro dia de aula desde que eram pequenas...
- Não sei, pai. – sentia saudades da antiga Caroline e a queria de volta, mas um laço pode se quebrar em um segundo e passar anos para ser reconstruído, por fim, resolver continuar a falar – Acho que ela não virá. De qualquer forma, vou poder vê-lá na escola.
Repentinamente ela sentia um vazio dentro de si, uma saudade de momentos que já se foram e vontade de voltar para o passado. Como chamam isso mesmo? Nostalgia. Sim, essa era a palavra. Apesar de toda a felicidade que estava sentindo naquela manhã, aos poucos, sentia as garras frias da tristeza se aproximando e a puxando de volta para a escuridão. Fechou os olhos por meio minuto, levantou-se da mesa e começou a caminhar para a escada para poder voltar para seu quarto.
- Ah, ! – protestou a mãe de – Você estava tão bem! O que aconteceu?
- Só um pouco de cansaço. – ela forçou um sorriso – Vou voltar para o meu quarto e descansar um pouco. Ok?
Mas ela não esperou a resposta, antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa, ela já estava subindo a escada para seu quarto. Tyler se aproveitou do momento saindo de mansinho da mesa e voltando para frente da televisão. Ao chegar lá, trancou a porta do quarto e atirou-se sobre a cama.
Não havia motivos para não ser aceita. Não havia brigado com ninguém, não havia saído às escondidas e até teve uma festa de despedida que lhe causava um sorriso torto nos lábios só de pensar no quanto se divertira. Se alguém tinha o direito de estar zangado com ela, este alguém era Alex, o seu melhor amigo de infância e ex-namorado. Ela gostava dele, mas jamais colocaria um romance adolescente a frente de seus planos, então, ela teve que dispensa-lo quando foi embora. Isso tudo só a chateava cada vez mais, era melhor parar de pensar naquilo. Levantou-se para pegar um livro de drama, mas antes que chegasse a estante ela o avistou através de sua janela semiaberta.
Jeans azul, camiseta branca e com cabelos bagunçados, o filho do vizinho carregava um caixa para onde, possivelmente, seria seu novo quarto. Os músculos no braço do garoto estavam tencionados pela força que ele estava fazendo, sua camiseta estava ensopada de suor e alguns fios de seus cabelos estavam grudados em sua testa. Com um movimento rápido, ele atirou a caixa em cima de alguma coisa e virou-se para a janela, fixando seu olhar, por meio momento em , ela, que não havia gostado nenhum pouco de saber que o filho do vizinho tinha uma visão privilegiada de seu quarto, fechou a janela com um único movimento.
Já tinha entendido tudo, não precisa de explicação alguma. Pelo tom bronzeado de sua pele branca, ela sabia que ele tinha vindo de algum lugar quente. Devia frequentar muitas praias, pegar muitas garotas e talvez até fosse surfista. Ou seja, ela estava diante de um típico caso de adolescente idiota e convencido que veio pegar todas as garotas da cidade pequena. Mas pensando bem, tinha alguma coisa diferente na imagem dele, algo que ela havia deixado passar, porém ela não estava tão preocupada com ele ao ponto de passar mais do que alguns segundos fazendo reflexões sobre o garoto. Caminhou até sua estante de livros, puxou Lolita de Vladimir Nabokov do lugar, se atirou na cama novamente e decidiu que se afogaria em literatura russa.

Quando a noite chegou, batia o pé impacientemente na sala de estar. Miranda serviria o jantar em alguns instantes e ela não estava com estomago nenhum para comer. Estava preocupada, novamente, com seu primeiro dia de aula e considerava seriamente a ideia de faltar. Talvez precisasse mesmo de mais um dia de descanso. Foi surpreendida por um barulho na cozinha e foi verificar se era Miranda servindo o jantar. Para sua surpresa, não era. Sua mãe tinha acabado de puxar alguns cupcakes de dentro do forno.
- Cupcakes? Vamos comemorar alguma coisa?
A mãe de riu.
- Não é para nós, sua boba. Fiz para nossos novos vizinhos.
sentiu a barriga revirar cada vez mais agora que via aqueles bolos açucarados enfeitados com flores de chocolate e cerejas.
- Nossos vizinhos? – sua mãe não fazia cupcakes nem para a família e agora andava fazendo para os novos vizinhos? – É mais uma chance de saber em que eles trabalham, é?
- Só se você for lá perguntar.
abriu a boca para perguntar o que aquilo significa, mas no instante seguinte, calou-a. Não iria fazer isso, não estava com ânimo algum para levar bolinhos para a casa ao lado. Mas, antes mesmo que pudesse dizer qualquer coisa, ouviu passos vindo da escada.
Tyler adentrou a cozinha usando roupas que deveriam ter sido escolhidas pela mãe. Ele detestava camisas de mangas compridas e calça jeans. E para falar a verdade, que criança que gostava de usar esse tipo de roupa durante suas brincadeiras?
- Tyler! – a mãe sorriu animadoramente – Você está tão lindo! Um verdadeiro rapaz!
O garoto colocou uma expressão de tédio no rosto e sua mãe começou a lhe rodar pela cozinha com um abraço de urso. Era incrível a necessidade que ela tinha de fazer tudo parecer perfeito, mesmo sabendo que não estava.
- Espera aí, eu vou levar Tyler comigo também?
- Claro que sim! – A senhora disse aquilo como se fosse à coisa mais óbvia do planeta, como se tivesse perguntado qual era o resultado de dois mais dois – Tenho certeza de que todos ficarão encantados em conhecer ele!
Tyler não tinha tanta certeza disso, agora olhava para seus sapatos distraidamente.
Meio empurrando, meio conduzindo, Stella guiou até a porta que levava para a rua. Claro que ela não esquecera de dizer uma pilha de perguntas que a garota deveria fazer e como deveria se portar na frente da nova família. Quando por fim sua mãe fechou a porta deixando e Tyler sozinhos, ela comentou:
- Somos somente nós dois agora, ein?
Tyler assentiu com a cabeça. Começaram a caminhar em direção a antiga casa dos Kertp e ao chegarem lá, notaram que a porta estava aberta e a casa as escuras.
Atravessaram o jardim que dava um ar meio aterrorizante para a casa durante a noite. pensou em bater na porta, mas como já tinha observado, já estava aberta. Sussurrou uma última observação para Tyler dizendo que ele não deveria tocar em nada e falou um "Olá" tão baixo que teve certeza que nem seu irmão ouvira direito. Sem resposta alguma, adentraram a sala de estar que estava imersa na completa escuridão, exceto pelos raios da lua que entravam pela janela que se encontrava no extremo oposto da sala.
- Olá?! Senhora...
Droga, ela não sabia o sobrenome deles.
Tyler agarrou sua mãe com um pouco de pavor que começava a perturbar sua mente. Talvez fosse apenas à falta dos vizinhos russos, mas aquela casa realmente a estava deixando amedrontada.
Com um estalo súbito, as luzes se acenderam e pode ver no alto da escada uma senhora com roupas muito requintadas.
- Ah, visitantes!
A mulher acenou animadíssima para que retribuiu o sorriso. Tyler soltara a mão da irmã e também sorria para a mulher. Esta desceu a escada e abraçou maternalmente.
- E também temos um rapazinho por aqui hoje! – disse ela se referindo a Tyler que sorria um tanto constrangido. – Vocês devem ser os filhos da família que mora ao lado, certo? Sou Ella .
- Eu sou e este é meu irmão, Tyler.
A senhora analisou-os por alguns segundos e em seguida pediu para que se sentassem. Diferentemente da mãe de , a senhora não tinha nenhum ar de arrogância, pelo contrário, tinha um ar maternal de pessoa que faz cupcakes todos os finais de semana para a família. Trajava roupas requintadas, mas se comportava como qualquer pessoa normal. Ao perceber isso, ela se sentiu mais a vontade. O que menos queria era mais uma vizinha perua desfilando pela rua.
- , seus pais me falaram de você quando fui lá esta manhã, mas eu não imaginei que você fosse tão linda!
- Obrigada, – corou um pouco – senhora .
- Ah não! Não precisa se preocupar com títulos. Chame-me de Ella, querida. – então a mulher se voltou com o mesmo sorriso maternal para Tyler – E por falar em beleza, vejo que o pequeno Tyler não ficou nenhum um pouco atrás.
- Obrigado, a senhora também é muito bonita!
Tyler sabia se comportar muito bem quando estava ao lado da irmã, a verdade é que qualquer se irritaria tendo que se portar magnificamente bem ao lado da senhora e do senhor . Após alguns minutos de conversas introdutórias – o que fez descobrir que o marido de Ella, Peter, havia morrido em um trágico acidente de carro e que ela sustentava seu filho trabalhando em um hospital como cardiologista – comentou sobre os cupcakes que havia trazido, Ella sorriu:
- Eu costumo recusar essas pequenas bombas calóricas, mas para uma jovem como você, não há como dizer não.
Ella começou a provar os bolinhos e comentou que a textura da massa estava perfeita e que pegaria a receita com a mãe de com toda a certeza.
- Eu – Tyler interrompeu a conversa – não estou vendo seu filho.
quis matar Tyler com o olhar, mas como sabia que isso era impossível, começou a observar nervosamente os bolinhos distribuídos em cima da mesa.
- Ah, está no seu quarto. Deve estar lendo ou ouvindo música.
- Será que eu poderia comer um cupcake? – pediu Tyler delicadamente.
- Claro que sim. Sirva-se querido. Você aceita um, ?
Puxada abruptamente do nervosismo para a terra, fez que não com a cabeça e então a sala ficou em silêncio. Um silêncio desconfortável que fez com que quisesse voltar logo para sua casa. Ella colocou seu bolinho em cima da mesa e começou a falar:
- , você poderia me fazer um favor?
Por meio momento, ela considerou em responder que estava com pressa e que iria embora para sua casa, mas apenas ouviu o que Ella tinha a dizer.
- Você poderia levar alguns cupcakes para ? Bem, eu sei que pode ser pedir demais, mas ele não irá falar comigo. Ele anda com alguns problemas e talvez ouvisse você.
Ouvir uma completa desconhecida?! Isso é loucura! Pensou , mas, mais uma vez, o sorriso amigável e agora um pouco triste da senhora a fez dizer que sim. Não perderia nada agradando aquela senhora que se mostrava tão receptiva com ela e seu irmão.
- Sim, eu levarei, sem problemas. Qual o quarto dele?
- Suba a escada e você verá uma porta a direita. Tyler eu ficaremos por aqui nos empanturrando com os bolinhos que sobraram, não é mesmo, Tyler?
O garoto, que estava com a boca cheia, apenas acenou com a cabeça. sorriu para ele e começou a caminhar para o alto da escada.
Por que diabos ela tinha que levar cupcakes para um garoto adolescente? Era muita arrogância de sua parte, mas não gostava daquele garoto desde a cena na janela e nem sequer sabia o motivo. Não teve muito tempo para pensar, pois logo havia chegado à porta do quarto do tal garoto. Deu uma leve batida na porta e após alguns segundos, uma voz rouca e aveludada disse que ela podia entrar.
Ao abrir a porta, não soube exatamente o que fazer. O quarto estava apenas com um abajur ligado, o que pouco iluminava o lugar. Havia uma música tocando na mesa pra Ipod do garoto que ela reconheceu imediatamente, Speacial Death da Mirah.
- Oi, eu vim trazer alguns bolinhos de boas vindas para você e sua mãe.
Arrependia-se do que tinha dito, mas, infelizmente, fora a única coisa que ela conseguira pensar. O garoto, que estava estirado na cama lendo alguma coisa, continuou calado. largou o prato com os bolinhos em cima do criado mudo e aproximou-se mais um pouco.
- Sou .
Sem tirar os olhos do livro, ele respondeu.
- Prazer .
Seu tom de voz era seco e não aparentava sentir prazer algum. Por que ele estava tornando as coisas tão difíceis?
- E você não vai me dizer seu nome? – indagou com mais segurança do que realmente estava sentindo.
- Creio – ele encostou-se contra a parede, de modo a ficar de frente para ela – que você já saiba meu nome.
- Bem, eu realmente sei, mas acho falta de educação chamar alguém pelo nome sem dar a chance da pessoa se apresentar.
Ele sorriu sarcasticamente. Agora que estava perto o suficiente, pode notar que ele não parecia tão bronzeado quanto estava na janela, na verdade, tinha a pele tão branca quanto a de um vampiro. Seus olhos pareciam diamantes de tão brilhantes e seus cabelos estavam bagunçados, exatamente como o vira durante a manhã. Ela olhou para o título do livro que ele estava lendo, intitulava-se Ulisses de James Joyce.
- Eu conheço esse livro.
- Todo mundo conhece. – atirou ele contra ela, fazendo-a se sentir demasiadamente ofendida com o comentário, só não entedia o porquê.
- Você gosta de literatura russa? Estou lendo Lolita.
- O livro que tem o coração de vidro na capa?
ficou surpresa.
- Achei que as pessoas de hoje não lessem mais esse tipo de coisa.
- Eu também – ele ajeitou-se na cama, espalhando um pouco de seu perfume amadeirado no ar – Já li Lolita duas vezes, mas é minha primeira vez lendo Ulisses.
- Então estamos empatados. Já li Ulisses duas vezes e é minha primeira vez lendo Lolita.
Os dois riram e, curiosamente, descobriu que gostava do som da risada dele, mesmo que ela não durasse muito tempo. Então, ela percebeu que já estava ficando tarde e que devia ir para sua casa, se não, estaria cansada demais para ir para a escola no dia seguinte.
- Bem, eu tenho que ir. Foi um prazer, .
Ela começou a caminhar para a porta quando ouviu a voz rouca dele soar.
- Não vá se apaixonar. – ele disse.
- Como? – ficou assustada e achou que não tinha ouvido o comentário direito.
Ele riu mais uma vez.
- Com o professor...
Ela continuava sem entender muita coisa.
- De Lolita!
Com um som de esclarecimento, ela sorriu e desceu as escadas. Era impossível se apaixonar pelo professor.
Tyler já estava bocejando quando chegou lá. Despediu-se rapidamente de Ella e afirmou-lhe que era encantador. Ela não pode deixar de notar a forma estranha com a qual Ella reagiu quando fez aquele comentário, bem, só estava retribuindo todos os elogios que ouvira dela naquela noite. Com um "Boa Noite!" de despedida, ela e Tyler foram para casa onde foram torturados com perguntas sobre a nova família. A mãe de achou muito inconveniente a morte do marido de Ella e falava como se fosse culpa dele ter morrido. Por fim, exausta de responder todas as perguntas da família, subiu cansada para seu quarto a apenas quando se fechou no seu próprio mundo foi que percebera o que havia de diferente em .
Sua tornozeleira, que não era bem uma tornozeleira e sim um dispositivo com GPS implantado para vigiar uma pessoa de perto e, principalmente, coloca-lá sobre prisão domiciliar. Era muito mais comum nos Estados Unidos, mas também era encontrado na Europa. Quando alguém, geralmente algum adolescente, comete um crime considerado leve ou no qual não existem provas o suficiente para mandar a pessoa para a prisão, eles a colocavam sob prisão domiciliar. E isso também justificava a pequena cerca que circulava o jardim da casa deles, esse era o limite máximo para ele, qualquer passo fora do terreno da casa era considerado zona proibida. Mas o que ele teria feito para merecer tal punição?
Perdida em seus pensamentos, adormeceu.
Enquanto dormia, ela sonhou, o que raramente acontecia. Tinha lido, certa vez, que pessoas que tinham uma capacidade mental muito acelerada pouco sonhavam e por vezes, acreditava nisso.
Nos seus sonhos, ela estava parada no meio de um jardim, fugindo de alguma coisa e quando tentava ultrapassar os limites do jardim, uma barreira a jogava de volta contra o chão. A coisa da qual ela estava fugindo continuava a se aproximar e ela continuava a correr desesperadamente pelo jardim, sem saber o que fazer. Fugiu durante a noite inteira e só acordou quando ouviu batidas na porta do quarto.
- ! – seu pai gritava do lado de fora – Você está atrasada para seu primeiro dia de aula!
levantou em um pulo e logo viu que o relógio marcava 07h10minh. Correu para o banheiro, tomou banho e escovou o dente. Não teve tempo de escolher uma roupa especial para o primeiro dia, pegou qualquer coisa do seu armário e desceu correndo para a cozinha. Enquanto Miranda colocava seu café, procurou seu sapato pela casa inteira. É claro que ela poderia usar qualquer um, mas não achava aquele que lhe era tão confortável. Por fim, passou correndo na mesa para pegar uma pêra, calçou uma sandália de dedos e entrou no carro junto com seu pai que também já iria para seu trabalho. Chegar atrasada no primeiro dia de aula era tudo que ela menos queria. Não teria tempo de fazer um posicionamento estratégico.
Não demoraram a avistar os portões gigantescos da Hivler High School. Sem nem se despedir do pai, entrou correndo no corredor principal. Sabia aonde tinha que ir.
- Bom dia, sou .
A secretária lhe olhou com cara de desdém. Digitou seu nome no computador, imprimiu seu horário de aula e fez questão de ressaltar que deveria chegar mais cedo. A garota analisou o horário, sua primeira aula era Química com o professor Finnegans na sala 01. Pelo menos não estou tão longe, pensou. A garota continuou a caminhar lentamente pelos corredores, o que menos queria era causar uma imagem ruim logo no primeiro dia de aula e também, já não poderia escolher sua dupla de aula. Possivelmente terminaria ficando com um daqueles idiotas que ninguém consegue aturar, ou na pior das hipóteses acabaria ficando sozinha. Chegou à porta da sala 01 e bateu delicadamente. O professor Finnegans, um homem que aparentava muita saúde para seus 43 anos abriu a porta.
- Senhorita – ele já tinha dado aula para ela durante o seu primeiro ano – gostaria de saber o motivo do atraso.
- Me desculpe professor. Eu tive alguns problemas...
- Todos que chegam atrasados têm algum problema, senhorita .
A turma atrás dele riu e pode sentir seu rosto corar. Ótimo jeito de começar um novo ano.
- Vamos entre logo – ele fez um gesto para ela entrar.
analisou a turma e rapidamente viu alguns rostos conhecidos. Alex estava sentado na primeira cadeira da segunda fileira e ao seu lado, Caroline, que a olhava de uma forma engraçada. Como se estivesse vendo um fantasma ou alguma coisa pior. Sentiu-se vulnerável por estar em pé no meio de uma sala com várias pessoas analisando-a.
- Bem, você poderá fazer dupla de laboratório com o senhor .
? Ela não conhecia esse sobrenome de algum lugar? Como se fosse acertada por uma bala, ela viu um par de olhos feitos de diamantes faiscarem em sua direção. estava sentado no fim da sala, encarando-a com o mesmo olhar que usara na noite passada. Ela começou a caminhar sentindo o mundo todo se desfazendo ao seu redor, aquela, definitivamente, não era a forma que ela queria começar seu ano letivo. Nem longe parecia com aquilo que ela tinha planejado.

Capítulo 02 - Infectious

continuou a caminhar pela sala, ela podia sentir os olhos dos colegas de classe pesando em suas costas. Aproximou-se da bancada onde estava e ao sentar-se, teve certeza de que ele deu um pequeno sorriso sarcástico. O professor, felizmente, resolveu continuar sua aula.
- Para quem não falava muito, você está até muito engraçadinho hoje.
Ela atirou as palavras de uma vez só. Ele virou-se em sua direção e, instantaneamente, ela sentiu o perfume amadeirado sair do seu corpo e adentrar suas narinas.
vestia uma camisa pólo branca com detalhes em azul, calça jeans e sapatos já um tanto gastos. Próximo ao seu tornozelo, ela pode ver o volume que o aparelho GPS fazia sob sua roupa.
- Bem, - falou ele arrancando-a para fora de seu transe - cada dia é um novo dia.
Mais um sorriso debochado e mais um motivo para tirar do sério. Ela não saberia explicar os motivos, mas tinha o poder de, com meia dúzia de palavras, arranca-lá do estado de calma no qual ela geralmente se encontrava.
- Eu poderia simplesmente dar um chute no seu tornozelo direito e fazer levarem você daqui agora mesmo, mas acho que não causaria boas impressões no primeiro dia de aula. Estou certa?
Ele ruborizou, trincou os dentes e por cinco segundos ela pensou que ele teria uma reação violenta. Então, lentamente, ele voltou a se espalhar pela cadeira, deixando o corpo mole e curvando a cabeça sobre a mesa.
- Você é muito observadora.
- Mais do que gostaria. - começou a copiar seja lá o que fosse que professor estava passando no quadro, mas logo continuou - Achei que pessoas sob observação não pudessem vir para a escola.
- Não podem. - disse com a maior naturalidade - Mas eu tive um bom advogado. Posso vir a escola, desde que cumpra o percuso que eles escolheram.
- Brilhante. - disse ironicamente.
Ele se calou. De repente, se sentiu vulnerável. Vez ou outra alguém que sentava nas fileiras da frente virava-se para olhar para ela. Caroline fez isso pelo menos três vezes. Seus cabelos castanhos estavam soltos e penteados em ondas perfeitas. Seu rosto não demonstrava qualquer sinal de infelicidade, pelo contrário, só mostrava o ar arrogante que ela usava com pessoas que considerava que não eram boas o suficiente para ela. Então, o olhar das duas garotas se cruzou. sentiu que fosse cair da cadeira com a energia que emanava da garota para ela. Caroline sorriu, não verdadeiramente e sim como se fosse uma presa que seria devorada antes mesmo de ter a chance de fugir.
Ela sentiu uma leve movimentação ao lado de sua cadeira e perguntou:
- Você está bem?
permaneceu parada, encarando o vazio e ouvindo Caroline contar alguma piada para Alex e isso o fazer morrer de rir.
- , você está bem? - agora a sacudia e, aos poucos, ela foi recobrando a consciência.
A garota sorriu envergonhada, ajeitou uma mecha de cabelo e agiu com a maior naturalidade possível.
- Por que não estaria?
O garoto deu de ombros.
- Não sei. - ele fez um olhar cético - Talvez por que você estava quase desmaiando do meu lado. Tem certeza de que tudo está bem?
Ela não teve tempo de responder. Como um trovão a voz do professor soou na sala e ela pode ouvir perfeitamente a parte final da frase que ele dissera:
- ... Talvez o senhor e a senhorita possam dizer qual o resultado dessa reação e o que está faltando para que ela se torne uma reação equilibrada, não poderiam?
de pálida passou à vermelha. Quase nunca era chamada atenção durante as aulas e a situação piorou quando ela ouviu a risada de Caroline ecoar pela sala.
- Eu... - a garota olhou para o quadro e tentou achar o que faltava na reação, mas estava nervosa demais para isso - Eu...
- Faltam sete moléculas de mercúrio, professor. Se o senhor adicioná-las na primeira parte da reação, o ciclo final estará perfeito.
A sala ficou em silêncio. encarava o professor com uma expressão tempestuosa no rosto, como se ele tivesse atacado alguma coisa muito importante para o garoto ou insultado sua inteligência. O garoto fez contato visual com todos da sala, à medida que olhava para as pessoas, elas desviavam o olhar e voltavam a fazer o que estavam fazendo antes da pergunta do professor. Quando ele olhou para Caroline, ela deu um pequeno sorriso e voltou a conversar com Alex.
- Perfeito, senhor . - disse o professor - Só gostaria que você e a senhorita dessem um pouco mais de atenção a minha aula.
acenou com a cabeça e voltou a se preocupar com que estava cada vez mais pálida.
- , fique com a cabeça baixa. Tente descansar.
- Mas eu preciso...
- Não se preocupe, eu copio para você.
O garoto pegou o caderno dela e começou a transcrever a matéria do quadro para o objeto, sua letra era completamente diferente da caligrafia organizada e cheia de floreios que usava, na verdade a letra dele se assemelhava muito a letra de um médico que estava morrendo de vontade de voltar para sua casa. se sentia aquecida perto dele. Era como estender as mãos sobre uma fogueira e sentir o calor aos poucos confortar seus dedos. Perto de , não havia frio forte o suficiente para pertuba-lá.
Quando a aula de Química estava quase chegando ao fim, ele sacudiu que sorriu em retribuição. Então o sinal tocou e após arrumar suas coisas, saiu da sala. Sua próxima aula era História na sala 6 do bloco B. Para evitar encontrar qualquer pessoa desagradável, ela tomou o caminho mais longo e acelerou o passo para não se atrasar. Ao chegar à sala, sentou-se na primeira cadeira e sentiu que seu dia voltaria ao normal. Passou os olhos pelos alunos e, apesar de saber que ele tinha a mesma aula que ela, percebeu que não estava ali. Matar aula nos primeiros dias não o levaria a lugar algum, principalmente com as condições especiais que aquele dispositivo GPS adicionava a sua vida.

Quando a campainha do intervalo tocou. já estava cansada de ouvir falar sobre a monarquia britânica. Saiu da sala como uma bala e rumou para seu armário com o intuito de aliviar um pouco o peso que ela carregava, e qual foi sua surpresa ao ver que alguém já a estava esperando lá.
Caroline, impacientemente, batia o pé que estava calçado por um salto agulha vermelho e ajeitava com os dedos o batom rosa que cobria seus lábios.
- .
Ela sorriu carinhosamente para a garota. Caroline estava bem mais alta do que no primeiro ano e com toda a certeza passara a ser uma das garotas mais desejadas da escola. Isso significava dizer que Caroline estava muito mais atraente que e isso a incomodou um pouco.
- Olá, Caroline.
respondeu secamente e se ocupou em tirar os livros da sua bolsa e colocá-los no armário, Caroline assistiu tudo curiosa por algum tempo, mas logo começou a falar.
- Quanto tempo! Vejo que Londres não mudou você nenhum pouquinho.
Se aquilo era para ser um elogio, não encarou como um, porém decidiu que o melhor a fazer era ignorar. Parecia que Caroline tinha percebido que não queria falar muito, pois passou a ser mais direta.
- Então, . - era estranho ouvir um "" saindo da boca da amiga depois de tanto tempo sem qualquer tipo de contato - Há quanto tempo você esta saindo com o garoto bonito e inteligente da aula de Química?
recuou com a pergunta. Intimamente, ela sabia que Caroline estava interessada por e isso a pertubou, embora não fizesse sentido algum.
- Eu não estou saindo com ele. - ela jogou o último livro para dentro do armário.
Caroline sorriu satisfeita.
- Ainda bem. - agora aquele falso tom de amizade havia sumido de sua voz - Pois eu já estava pensando que teria que tirar você do meu caminho para chegar a ele.
- Veneno só faz mal se você engolir. - foi a vez de Caroline recuar com a impetuosidade das palavras de - E, além do mais, creio que ele não pareça nenhum pouco com você.
deu dois passos na direção da amiga e continuou a falar:
- De qualquer forma, você está saindo com Alex, não está?
- Estou, mas isso...
- Era só o que eu queria saber.
começou a caminhar no sentido oposto ao do refeitório.
- Você não vai lanchar? - Caroline gritou enquanto se afastava cada vez mais.
Não, ela não ia lanchar. Tinha perdido a fome.
Furiosamente, caminhou para o jardim da escola. Sua mente estava endoidando com a imagem de e Caroline juntos. Droga, ela não podia gostar de alguém um dia depois de conhecer essa pessoa, podia?
Talvez estivesse enlouquecendo ou talvez tivesse alguma doença infecciosa que fazia as pessoas se apaixonarem terrivelmente por ele em pouco tempo. Meu Deus, estava admitindo gostar do garoto problemático? Isso era impossível. Não condizia com sua vidinha perfeita, com sua família perfeita e tudo mais que era perfeito para ela. Não daria certo, ela tinha que tirar esse pensamento psicótico de sua cabeça. Porém, era difícil esquecer de alguém quando a pessoa se materializa na sua frente sentando no banco que você costumava ocupar durante os intervalos solitários.
- Oi, .
Sua voz tinha o mesmo tom de sarcasmo, arrogância, rouquidão e charme que faria qualquer garota parar, simplesmente, para ouvir tudo que ele tinha a dizer. Mas não ! Ela iria lutar contra esse topor que se apoderava do corpo dela.
- Matar aulas não é boa coisa viu, senhor sou-melhor-que-todo-mundo?
Ele sorriu torto. Daquele jeito que só mostrava o quanto ele era convencido e egocêntrico.
- Não sou melhor que todo mundo. - ele falou de uma forma muito vaga e depois, continuou a falar - Mas, aparentemente, sou melhor que você em Química.
sentou fulminante ao lado dele. Ele não era melhor que ela, ela só havia sido pega de surpresa.
- Eu só estava distraída!
Ele riu ainda mais e o som da risada dele foi contagiando por dentro. As mulheres eram mais fracas em relação aos sentimentos, não era isso? Claro que não!
- Você tem cara de quem nunca sentou a mais de três cadeiras de distância do professor. - ele se aproximou mais e ela pode sentir o perfume amadeirado a deixar bêbada, como se fosse uma bebida com um teor altíssimo de álcool - Você deve ter tido poucos namorados na sua vida. Você está sentindo falta das suas amigas. Admita, eu sei mais de você do que você sabe de si mesma!
virou-se estupidamente para longe dele. Não deixaria qualquer idiota falar o que bem pensava dela e sair por aí espalhando para todo mundo.
- É mesmo? Então me diga alguma coisa que eu ainda não sei sobre mim mesma.
Ele ia responder, mas então considerou melhor e calou-se. levantou e começou a caminhar de volta para dentro do prédio escolar. deu-se como vitoriosa.
- Viu, - a garota resmungou - você não sabe nada sobre mim!
- Na verdade, eu sei. - Ele caminhava sério agora - Só não sei se você gostaria de saber disso.

O resto do dia na escola tinha passado como uma brisa. Brisa no sentido de velocidade, pois se fosse ao sentido de calma, ele teria passado como uma tempestade marítima. Caroline infernizou a vida de durante todas as aulas que tiveram juntas. , por sua vez, vivia desviando dos encontros acidentais que tinha com Alex, ela não se sentia capaz de falar diretamente com ele ainda. E, para completar, sumiu da escola depois do intervalo. achava que ele tinha ido mais cedo para casa e ela estava certa.
atirou a mochila em cima do sofá da casa com estilo colonial. Observou as fotos felizes que jaziam na estante de livros de sua mãe. As fotos mostravam um criança muito mais sorridente fazendo bolhas de sabão ao lado do pai, que, para a desgraça da família inteira, tinha morrido em um trágico acidente de carro. Sentindo-se deprimido, decidiu não olhar mais para o resto das fotografias. Tirou sua camisa e ia para o banheiro quando encontrou sua mãe no corredor.
- Cedo demais em casa. Você fugiu, estou certa?
- Não, você está errada. Eu não precisei pular nenhum muro, eu apenas saí pelo portão principal. - ele sorriu ironicamente para ela.
- , quanto tempo vai levar para você perceber que eles só querem meio-motivo para lhe culpar?
ficou em silêncio de frente para a porta do banheiro, ele pensou em abrir a porta e entrar, mas sua mãe fora mais rápida e colocou-se no caminho entre ele a porta.
Ella sentia muito culpa por tudo que tinha acontecido ao filho. O incidente, a morte do pai, a depressão da mãe e a mudança. Nada disso fazia bem para ele. Ele nunca fora o tipo de garoto problemático, mas estava se comportando como um. A mãe olhou para o corpo do filho e sorriu, pelo menos as cicatrizes haviam sumido.
- De quantas cicatrizes a mais você vai precisar para lembrar de tudo que aconteceu?
bufou, olhou para os lados e, repentinamente, os diamantes brilhantes haviam se transformado em um mar de profunda escuridão. Ella sentia vontade de confortar o filho, mas já tinha aprendido, na prática, que quanto mais tentasse fazer isso, mais ele correria para longe dela.
- Bem - a mãe do garoto sorriu - pelo menos você assistiu aos primeiros tempos, isso é um avanço, não é?
- Eu acho que sim.
Mas ele usou uma expressão diferente das que usava para responder a mãe, usou uma expressão de quase felicidade (seria essa a palavra certa?) e, por meio momento, a mãe pensou que estava diante do que havia debaixo dessa carcaça de tragédias.
- Tem alguma coisa haver com a filha do vizinho, ?
- Que ?
A mãe sorriu. Estava tudo bem, parece que as coisas estavam voltando aos trilhos. Saiu do caminho para que o filho entrasse no banheiro e quando ele passou, deu um tapinha nas costas dele.
- Vá com calma, viu rapaz?
fechou a porta com uma expressão de seriedade no rosto, mas assim que percebeu que estava sozinho soltou um pequeno sorriso de satisfação.

chegou em casa cansadíssima da escola. Depois de tanta tormenta, pode finalmente tomar um banho quente e relaxar calmamente no seu quarto. Pensou em continuar a ler Lolita, mas era melhor perder algum tempo atualizando suas redes sociais e, como acontece com quase todo mundo, perdeu mais tempo do que deveria no computador. Tyler ainda não tinha chegado de sua escola, ele passava o dia todo lá e era fácil saber quando o garoto havia chegado já que, geralmente, ele fazia muito barulho.
ficou surpresa ao notar que os malditos sapatos que tanto procurou naquela manhã estavam debaixo da mesa do computador, o que não fazia sentido, já que ela tinha certeza de não ter deixado eles naquele lugar. A porta do quarto da garota se abriu e seu irmão entrou correndo por ela.
- Oi !
Ela sorriu. Ele, como sempre, estava suado e coberto de sujeira.
- Oi porquinho!
Ela fez cócegas no irmão e tirou a camisa dele. era praticamente uma mãe para Tyler, Stella não se importava tanto com o garoto, exceto quando eles precisavam fazer algum tipo de aparição social. O pai deles, bem, ele se importava muito com os filhos, apenas não tinha tempo para demonstrar isso. Miranda adentrou a porta do quarto e observou a irmã brincar com irmão por algum tempo, por fim, disse:
- Vamos Tyler, hora do banho.
O garoto seguiu a babá e se pegou sozinha no quarto novamente. Não, ela não estava sozinha... Novamente, após olhar pela janela, viu que estava debruçado na sacada de seu quarto olhando para ela. Ele usava apenas uma bermuda branca, mas a falta de luz não permitia que nenhum enxergasse o outro muito bem. caminhou até a janela e berrou:
- Você não tem outra coisa para fazer, não?
Mesmo no escuro, ela pode perceber que ele deu de ombros. Ele entrou para seu quarto, acendeu a luz e voltou à sacada. Agora ela tinha uma visão melhorada dele: o corpo esculpido por um artista grego - mas não os exagerados, os lábios vermelhos e a capacidade de ficar bonito em qualquer coisa que dessem para ele vestir. Então o garoto rabiscou alguma coisa numa folha de papel e mostrou para ela.
"O que você está fazendo?"
pensou em responder com outro berro, mas seus pais já deviam ter chegado em casa, então, arrancou uma folha de seu caderno e respondeu:
"Vou começar a fazer a atividade de história". Ele fez cara de compreensão quando ela mostrou a placa e talvez até tivesse respondido alguma coisa, mas, nessa hora, os pais de gritaram para que ela descesse a escada.
Ao chegar ao andar de baixo, os pais pediram um relatório completo do primeiro dia de escola. contou, resumidamente e omitindo certas partes, como o dia havia passado.
- E Caroline? - perguntou a mãe de - Quando aparecerá por aqui para nos visitar?
- Em breve, creio eu. - ela ponderou sobre o que realmente devia dizer, pois não achava que Caroline fosse aparecer tão cedo.
- Nenhuma novidade?
- Nenhuma.
- E , ele não está estudando com você?
O pai de perguntou em um tom muito casual, mas que soou para ela como uma sentença de morte.
- Como você s-sabe?
- Ella me contou agora a pouco quando estava saindo do carro.
- Agora que você falou - a garota tentou parecer a mais desinteressada possível - acho que devo ter visto ele durante a aula de Química.
- Devo colocar um prato para você, senhorita ?
Miranda apareceu na cozinha, muito prestativa, como sempre.
- Não, obrigada. Não irei jantar.
E em seguida a garota subiu para seu quarto. Distraidamente, começou a revirar as páginas de Lolita com suas mãos. Se colocasse o primeiro dia de aula em uma balança, ele sairia a favor de Caroline. Ela pode presenciar o quanto à garota se tornara influente no tempo em que ela esteve fora. Todos pareciam ama-lá e mesmo os que odiavam, na verdade, só sentiam inveja. Duas coisas intrigavam seriamente : Desde quanto ela e Caroline eram inimigas e da onde vinha todo aquele interesse por ?
Não fazia sentido... Ou talvez fizesse todo sentido. era novo na cidade, bonito, inteligente e misterioso, estranho seria se Caroline não tivesse ficado interessada nele. O telefone fez barulho ao seu lado. assustou-se e atendeu.
- Alô?
- Passando as mãos pelos cabelos. Andando de um lado para o outro no quarto. Olhando para os lados.
O interlocutor acabara de descrever todas as ações que tinha executado. Ela olhou para a janela e viu um sorridente acenando, ele, obviamente, estava com o telefone no ouvido.
- Onde você conseguiu o número do telefone daqui de casa?
Ela ouviu uma risada no outro lado da linha.
- Telepatia.
- Eu não estou brincando, onde você conseguiu?
- Relaxa, peguei na lista telefônica.
- Verdade?
- Não, pra ser sincero, pedi pra minha mãe. Ela tinha pedido o número para o seu pai, para emergências e essas outras coisas.
Os dois riram. O som da risada dele, novamente, fez alguma coisa que desconhecia dentro dela mesma se animar.
- Qual o motivo da ligação, senhor sabichão?
- Vou provar que não sou um sabe-tudo. Preciso de sua ajuda com a atividade de história.
- Eu imaginei que você precisaria, nem assistiu à aula! Vou mandar as páginas para você.
- Na verdade, eu estava pensando se você não poderia vir aqui.
Ela olhou para a janela, então pode ver nos lábios dele e ouvir também quando ele disse um sussurrado "Por favor".
- Passo aí em cinco minutos, então.
Exatamente cinco minutos depois estava cumprimentando a senhora no hall de sua casa.
- Boa noite, senhora .
- Lembra do que eu lhe falei? - Ella sorriu carinhosamente para a garota.
- Me desculpe. Boa Noite, Ella.
- Boa noite, ! disse que você viria, pode subir.
Ella parecia muito mais sorridente do que na noite passada. Estava tão feliz que emanava uma onda de energia para a casa inteira, até a casa não parecia tão assustadora quanto na noite passada.
bateu na porta e no instante seguinte ela estava aberta. sorriu e pediu para que ela entrasse. Ela não pode deixar de notar que ele estava usando uma camisa preta agora. O garoto começou a caminhar na direção de sua iDeck quando falou.
- Se eu vou estudar com você, eu escolho a música.
Passou os dedos pelos botões do aparelho. tinha um gosto musical muito "dark", mas que parecia excepcionalmente com o gosto musical de . Procurando por algo que gostasse, a garota encontrou My Boy Builds Coffins da banda Florence + the Machine e logo o quarto inteiro estava imerso na música.
Ela e ele se sentaram na cama. Então, a garota disse quais as páginas do livro e que atividades teriam que fazer. No começo eles ficaram em silêncio, mas logo começou a fazer perguntas sobre a monarquia inglesa e , prontamente, respondia. Quase sempre ele soltava um sorriso estranho, que perturbava a garota durante suas explicações.
- Está rindo de quê? - ela perguntou indignada quando, pela milionésima vez, ele começara a rir durante sua resposta para a pergunta dele.
- Nada. - ele sorriu indiferente - Só estava percebendo o quanto você é inteligente.
A garota corou.
- Bem, obrigada. Você também não fica atrás.
- Está falando isso por quê?
- Ah, por nada. Ou talvez seja por causa da aula de Química.
gargalhou e com isso aproximou-se um pouco mais de . Os cabelos dele estavam completamente bagunçados, de qualquer forma, eles quase sempre estavam assim.
- Eu só sou bom de exatas, sou um fracasso em qualquer outra coisa.
- Com tanta preguiça... Eu me surpreenderia se você se saísse bem nas outras - depois disso, adicionou - Acho que respondi a última questão e...
encarou a janela de sua casa e pode ver claramente, Tyler entrar sorrateiro e esconder as sandálias que ela tinha usada nesta manhã debaixo do guarda roupa.
- Tyler, estava escondendo minhas coisas?
- Todas as noites ele faz isso. Ele sempre esconde alguma coisa sua.
riu agora que sabia o motivo de suas coisas desaparecerem de seus respectivos lugares. e ela encaravam a janela, sob a luz da lua a pele do garoto parecia quase translúcida.
- Sabe o que eu acho?
Perguntou a garota colocando-se de frente para ele.
- O quê? - ele encarou-a fixamente dentro dos olhos.
- Que você tem o espírito de um menino magricela preso no corpo de um cara que faz natação.
começou a rir de novo.
- Não! - protestou - Não ria! Eu tenho como comprovar minha teoria!
- Certo, certo. - ele tomou fôlego para continuar a falar - Me diga que provas são essas, ?
- Primeiro, você lê livros antigos. Segundo, você ouve músicas clássicas e só gosta de música contemporânea culta e outra coisa, você é inteligente. Se eu fosse julgar pelo seu corpo, acharia você um completo idiota.
- E eu não sou?
- Eu não disse que não era... Droga, talvez eu tenha dito.
Os dois riram mais um pouco. Então, perdida na imensidão que eram os olhos de . Eles começaram a se aproximar, mas antes de haver qualquer tipo de contato. A janela do quarto do garoto se estilhaçou em um milhão de pedaços fazendo cacos de vidro voarem em todas as direções.
- Mas que merda foi essa? - disse o garoto.
olhou para a janela, mas logo pode ver o motivo da quebra do vidro. Havia uma pedra jogada no chão do quarto de .
- Alguém atirou uma pedra na janela - a garota concluiu.
No mesmo instante a mãe de apareceu na porta do quarto.
- O que acon... Meu Deus! Quem fez isso?
- Algum moleque deve ter atirado a pedra da rua - falou .
- Vou pegar uma vassoura e uma pá para limpar o chão - a mãe de desceu as escadas novamente.
se levantou e puxou o ombro de que estava concentrado olhando para a rua.
- Ei - a garota falou - onde ficam os lençóis de cama? Vamos ter que trocar este, está cheio de vidro.
foi até o guarda-roupa e tirou um lençol de lá. Ele e começaram a arrumar a cama, mas em momento algum ele deixava de olhar para a janela, talvez estivesse esperando pela próxima pedra. Ou por coisa pior.

Capítulo 03 - Can You Handle The Truth Now?

O barulho do despertador incomodou os ouvidos de . O bip infernal se prolongava e continuava soando cada vez mais alto. O garoto apertou um botão e o alarme parou imediatamente, ele olhou para o relógio digital. Oito de fevereiro, 06h:32min. Oito de fevereiro? Oito de Fevereiro... Esse com toda certeza era um dia para se acordar feliz!
O garoto saltou da cama e correu para o andar de baixo. Sua mãe já estava conversando com a empregada quando ele chegou lá. Ella, ao ver o filho, sorriu maternalmente.
- Sim, eu sei! Nem me fale!
carregou a mãe e começou a roda-lá pela cozinha.
- Para! – a mãe do garoto começou a gritar – Eu tenho que estar viva até mais tarde!
O garoto sentou-se a mesa. Impaciente, logo começou a bater o pé sem parar.
- Que horas eles disseram que viriam?
- Não sei. – a mãe respondeu levemente – Eu falei que você tinha escola, então eles não devem demorar muito.
Mal Ella terminara de falar e ouvi-se o barulho da campainha. A empregada foi verificar quem eram as pessoas na porta e então, uma série de policiais adentraram a casa dos . Todos trajavam o típico uniforme de policial, dentre todos os homens, havia uma mulher e era ela quem faria o serviço que esperou tanto tempo para ser feito.
A mulher aproximou-se e ele pode ver seu sobrenome escrito no uniforme. Ela não sorriu enquanto retirava o aparelho do tornozelo de e quando, por fim, sentiu-se livre de toda aquela vigilância, comemorou:
- Enfim, livre!
A mãe lhe sorriu, mas essa não fora a mesma reação da agente Firefighter e dos homens que estavam ali. A mulher olhou para o garoto curiosamente.
- Eu não preciso repetir as condições. – ela estava muito séria, nem parecia uma daquelas policiais que ficam comendo rosquinha nas horas vagas – Qualquer outro deslize, senhor , e você será preso.
- Não se preocupe oficial. – adicionou Ella – Não haverá qualquer outro problema com ele.
Depois de ouvir a mesma ladainha de que adolescentes que estão sob prisão domiciliar há mais de cinco meses e que apresentam bom comportamento podem se libertar do cárcere, subiu as escadas. Estava livre, não podia acreditar! Ia poder sair sem se preocupar em atrasar um pouco e ter viaturas atrás dele. Não era mais um criminoso! Estava livre. Livre para ir aonde quisesse e sair com qualquer pessoa.
Livre para, finalmente, levar a um restaurante descente! Depois da última frase, ele se acalmou. Não podia precipitar as coisas. Ele sabia que qualquer deslize o condenaria antes mesmo de ter a chance de fugir, mas, mesmo assim, ele estava feliz. Finalmente, a sua vida estava começando a melhorar.

não era o único na vizinhança que havia acordado feliz. cantava alegremente o refrão de Fidelity da Regina Spektor no café da manhã enquanto conversa com Miranda sobre as melhores formas de não destruir um suflê. Haviam se passado dois dias desde o incidente com a janela de vidro e ela e só estavam cada vez mais próximos. Era ótimo ter alguém com quem você finalmente se identifica completamente. Seja nos livros, nas músicas ou nos problemas, ela e tinham tantas coisas em comum que era impossível não perderem horas e mais horas conversando. Mesmo assim, ainda não sabia o motivo da prisão domiciliar de e isso sempre a colocava um pé atrás com ele em qualquer conversa.
Em relação à Caroline, bem, ninguém precisa dizer que ela continuava infernizando a vida de , mas, agora, havia uma mudança. Caroline também começara a infernizar a vida de e isso só fazia o garoto soltar aquele sorriso torto que mostrava o quanto ele se importava com a opinião da garota. Percebendo que estava na hora de ir, a garota se despediu da empregada e foi para a escola.
sempre prezou por uma vida saudável e sempre que podia, ia andando para a escola. Enquanto caminhava, continuava a cantarolar a música e ajeitou suas mãos dentro do casaco. Redmont era uma cidade fria, mas durante o inicio do ano, o frio era muito mais rigoroso.
Enquanto caminhava, pode notar o barulho de passos arrastados. Virou-se e contemplou a longa rua vazia que se estendia atrás dela, o que era muito estranho já que ela tinha certeza de que ouvira alguém andando atrás dela. O vento frio arranhou sua pele e um calafrio percorreu seu corpo. Voltou a seguir caminho, mas, antes mesmo de virar-se, ela tombou contra uma muralha parada a sua frente. Ela pensou que fosse cair, mas uma mão com punho de aço puxou-a para cima e ela pensou em gritar, até que sentiu o familiar cheiro amadeirado e no instante seguinte pode ver encarando-a com olhar de preocupação.
- Eu não queria te assustar.
- Não, você não me assustou. – disse a garota se recompondo.
Os dois voltaram a caminhar e seguiram a avenida principal que levava até a escola. , como sempre, caminhava calado, mas tinha uma expressão diferente da usual no rosto. não pode deixar de notar isso.
- Você parece diferente... Feliz, na verdade.
Ele sorriu e olhou para a garota que, com o frio, estava com as bochechas rosadas.
- Acabou, .
lançou-lhe um olhar de incompreensão, mas no instante seguinte, quando levantou um pouco a calça e deixou a mostra sua perna direita, ela pode ver claramente do que ele estava falando. Sem pensar duas vezes, a garota se atirou nos braços dele. Ele rodopiou-a um pouco, mas se afastou assim que percebeu o que tinha feito e resumiu tudo que sentia num simples "Fico muito feliz por você" fazendo com que soltasse um sorriso que não continha nenhum pouco de arrogância.
Durante todo o restante do percurso eles conversaram sobre o clima e como o aquecimento global não permitia mais que as pessoas prevessem os períodos de chuva e os períodos de sol. Quando chegaram a Hivler os dois se separaram, já que não tinham o primeiro período juntos e só compartilhariam as aulas a partir do terceiro tempo. A aula de economia doméstica estava tão entediante que se viu obrigada a pedir para ir ao banheiro. Ao chegar lá, percebeu que já havia pessoas lá dentro e pode claramente ouvir algumas partes da discussão:
- Você nunca vai conseguir fazer nada certo, agora fique aí que é o seu lugar.
reconheceria aquele tom de voz no meio de uma multidão. Era Caroline, mas ela não entendia e muito menos conseguia identificar com quem ela estava falando. Ouve mais algum tempo de silêncio, então, outro grito e Caroline voltou a dizer:
- Faça isso rápido! Você já devia ter se acostumado.
Seja com quem fosse que Caroline estivesse falando, aparentemente estava sofrendo muito. Sem pensar nas consequências, entrou no banheiro como se não tivesse ouvido nada. Caroline ficou surpresa ao encontrar alguém tão cedo por ali. A garota usava calça jeans e uma blusa vermelha que escorregava sobre seu ombro esquerdo, ao ver , Caroline sorriu.
- , gostaria de ingressar na festa?
Agora que observava o banheiro com mais atenção, pode ver uma garota ruiva ajoelhada na frente de um vaso sanitário. Lágrimas escorriam pelo rosto da garota, sua maquiagem estava borrada e sua face tinha um machucado vermelho. Era muito bonita, mas parecia desesperada.
- Não no seu tipo de festa. – caminhou até a garota e começou a falar com ela – Levante. Vamos sair daqui.
Caroline ficou paralisada por um tempo, mas assim que recobrou a consciência, colocou-se no caminho das outras duas.
- Não se meta onde não é chamada, .
O olhar fulminante de Caroline fez com que quase caísse para trás, mas, juntando todas as forças que tinha, apoiou a garota ruiva no seu ombro e saiu do banheiro, deixando uma Caroline furiosa para trás.
e a garota caminharam até a biblioteca e sentaram numa mesa afastada de todos os outros alunos que estavam ali. Depois de tomar um copo com água, aos poucos, a ruiva foi voltando ao normal.
- Obrigada. – Falou a garota assim que se sentiu um pouco mais segura.
- Não foi nada, qualquer um teria feito isso com você.
A ruiva sorriu amigavelmente, mas, intimamente, ela sabia que ninguém teria feito aquilo por ela e estava mais surpresa ainda, por ter feito. Pelo que sabia, tinha sido muito amiga de Caroline. Vendo que a conversa se tornaria um monologo se não fosse mais direta, perguntou.
- Então, você não vai me dizer seu nome?
- Victoria. -- depois de uma pausa, completou - Victoria Piltsbury.
Mais silêncio. Era desconfortável ver alguém sendo tão evasivo. Os olhos amarelados de Victoria passavam por todos os lugares da biblioteca, menos por que se matinha sorrindo amigável para a garota. ofereceu um lenço para que Victoria pudesse limpar o sangue que continuava escorrendo pelo machucado que tinha no rosto, a garota prontamente aceitou e sorriu.
- Bem – acenou alegremente com a mão – eu sou ...
- . Eu sei, e esse é o problema de você ter me ajudado.
ficou curiosa com o comentário de Victoria e antes mesmo de pensar em perguntar o porquê daquilo, a garota continuou a falar:
- Achei que você fosse parecida com Caroline. Quero dizer, ela me detesta e achei que você sentia o mesmo por mim... Vocês foram grandes amigas, eu lembro disso... – houve uma pausa na qual Victoria considerou se deveria continuar falando ou não – E depois apareceu o Alex, eu gosto dele e acho que ele gosta de mim, mas Caroline não consegue aceitar isso e fica infernizando minha vida!
Era um desabafo e tinha tanta intensidade nas palavras que Victoria chegou ao ponto de chorar. Lágrimas reluzentes rolaram pela face da garota. apoiou sua mão sobre a dela e encarou-a afetuosamente.
- Eu não tenho nada contra você, Victoria. E com relação ao Alex, eu acho que ele merece alguém muito melhor que eu ou Caroline. Ele pode estar diferente agora, mas o Alex que eu conhecia jamais será esse Alex prepotente que anda pela escola. Eu te apoio completamente, pois antes de ex-namorado, ele foi meu melhor amigo.
Victoria sorriu e aos poucos foi recuperando o ar angelical que lhe vinha naturalmente.
- Muito obrigada. Eu sei que não dei explicações tão esclarecedoras, mas prometo contar tudo quando tiver mais tempo. , eu estava enganada sobre você.
- Tudo bem, todos se enganam. – o olhar de voou por cima dos ombros de Victoria e ela levantou-se da mesa para dar mais privacidade para a garota – Você não deve nada a mim, mas você deve explicações para Alex.
Assim que saiu da mesa, Alex chegou e sentou-se de frente para Victoria. O garoto tinha a pele muito clara, cabelos castanhos que possuíam um leve topete e olhos cor de madeira que sempre transmitiam uma profunda sinceridade.
nunca fora apaixonada por Alex Summers. Só tinha namorado o garoto, pois achava que ele era a pessoa certa para ela, mas agora que conhecia , ela sabia muito bem qual era a sensação de gostar verdadeiramente de uma outra pessoa.
Virou-se para trás novamente e viu Alex encarando-a com um olhar engraçado. Victoria sorriu quando percebeu que estava olhando e deu mais um aceno que logo foi retribuído pela outra garota.

Quando a campainha declarou que a última aula de matemática havia chegado ao fim, sentiu-se muito mais feliz. tinha passado a aula inteira atirando bolinhas de papel nela e quando virou-se para conversar, ele disse que tinha um assunto muito importante a tratar com ela na saída. Enquanto arrumava suas coisas, pode perceber o garoto aproximando-se com sua aura angelical e seu temperamento pecaminoso. Ele era uma combinação exótica, daquelas que tinham que ser estudadas para nunca mais serem reproduzidas novamente. Obviamente, ninguém fazia isso, pois todos nós adoramos uma combinação fatal.
- , eu preciso falar com você...
- Já está falando. – era impressão da garota ou estava realmente ficando vermelho?
- Você gostaria de jantar comigo hoje? Você sabe, para comemorar minha liberdade e tudo mais...
encarou e pode perceber que ele estava ficando cada vez mais rubro, o que não era típico dele que sempre possuía um sorriso frio e desdenhoso nos lábios.
- Já que você falou nisso, - aproximou um pouco mais do garoto e começou a brincar com a alça de sua mochila – eu pensei em uma coisa melhor. Poderíamos ir ao Sticks comer muitos doces e aproveitar para ter uma sessão de karaokê.
sorriu com a ideia, mas logo sacudiu a cabeça em negação.
- , eu não sou um bom cantor.
- Ninguém é, mas todos podem pelo menos tentar.
encarou-a sério e com um olhar de quem deu uma ordem final atirou:
- É isso, meu caro. Cantamos no karaokê ou você pode esperar até eu arranjar um espaço livre na minha agenda para você.
- Tudo bem!
- Isso! Passe às 20h:00 min na minha casa, tudo bem?
- Fechado.
Cheios de pontualidade britânica, às 20h:00 min os dois estavam prontos para irem ao Sticks. , como qualquer cavalheiro, foi buscar em sua casa e ao tocar a campainha foi informado por Miranda que ela já estava descendo e que ele deveria esperar na sala. Quando a garota finalmente desceu as escadas se sentiu um mendigo. usava um vestido preto curto e brilhante que associado ao diadema prateado que estava apoiado sobre seus cabelos livres, transformava a garota numa espécie de deusa ou qualquer que fosse a palavra que expressasse tamanha perfeição.
- O que foi? – perguntou a garota vendo o olhar de vagar pelo seu corpo – Acha que eu exagerei?
- Não, absolutamente. Você está linda! Se eu soubesse que você viria assim, eu também teria me vestido muito melhor. – disse ele mostrando sua simples camisa azul com gola V e mangas cumpridas que se fundia perfeitamente com sua calça jeans.
- Você também está muito bonito. – disse ela sorrindo e dando um tapinha no peitoral do garoto.
O Sticks ficava a apenas quatro quadras de distância da casa de . Era um barzinho simples que todo mundo de Redmont visitava pelo menos uma vez por semana. Todos diziam vir pela comida que realmente era maravilhosa, mas a grande parte vinha apenas por causa do karaokê. Todos adoravam cantar ou simplesmente observar os outros cantando.
Ao entrar no bar, causou os mesmos efeitos de sempre sobre todas as pessoas que não eram cegas para olhar para ela e, curiosamente, provocou o mesmo efeito nas garotas – e até em alguns garotos – que não paravam de olhar para ele. Caminharam discretamente para uma mesa na frente do palco onde uma senhora muito engraçada fazia um cover estranhíssimo de Pappa Don’t Preach.
- Muito agradável. – disse passando os olhos pelo lugar.
- Eu costumava vir muito aqui. Antes da minha viagem eu considerava esse bar o melhor lugar do mundo.
- É tão requintado que nem parece um bar e sim um restaurante de luxo.
riu e seus olhos faiscaram para que sentiu o coração apertar com aquela cena. Como ele podia ser tão bonito? E o melhor de tudo: Por que ele parecia ter sido feito exclusivamente para ela?
O serviço de mesas do Sticks não deixava a desejar e logo um dos garçons perguntou o que eles desejavam comer e se beberiam alguma coisa. e pediram uma porção de diversos tipos de comida e ambos preferiram evitar o álcool. Talvez os dois estivessem com medo de que uma dose de insanidade a mais no sangue fosse provocar uma reviravolta naquela noite.
- Sinceramente? Não encontrei uma torta de cereja tão boa quanto essa em Londres. – arrancou uma bala de manjar turco do arranjo – Nossa, como eu senti saudade desse lugar!
- Eu sou suspeito pra falar, faz muito tempo que não vou a nenhum restaurante descente, então, para mim, tudo está perfeito.
- Eu tinha esquecido completamente de que você foi tirado da prisão domiciliar hoje! Isso merece um brinde!
ergueu uma taça de chá preto gelado ao ar e retribuiu o movimento. Quando as taças voltaram à mesa vazias, os dois se encararam e novamente aquela sensação estranha percorreu o estomago de . Mesmo que não parecesse, também se sentia assim, apenas sabia disfarçar muito bem.
O garçom apareceu trazendo a segunda rodada de guloseimas para que eles degustassem. , dessa vez, resolveu colocar como cobaia e testou os doces que estavam dispostos sobre a mesa no garoto. Alguns eram muito azedos, outros muito açucarados, mas uma coisa nenhum dos dois poderia negar, ambos estavam se divertindo como há muito não se divertiam.
- Então – falou depois de deixar uma taça de creme de limão sobre a mesa – você não vai me contar o motivo da prisão domiciliar?
desviou o olhar e começou a agir nervosamente. O motivo da prisão não era algo que se deva comentar durante um jantar feliz. O motivo da prisão não deveria ser comentado com ... Não agora, pelo menos.
- , eu lhe devo respostas e prometo dar elas para você. Só me dê um tempo, tudo bem?
encarou o mar profundo que eram os olhos de e o sentimento de sinceridade que estava presente ali era tão grande, que foi impossível para a garota não consentir involuntariamente com a cabeça. Ele sorriu agradecido e ela apenas adotou um ar de quem tinha um plano mirabolante na cabeça.
- Tem razão, não devemos falar disso esta noite, porém eu pretendo fazer uma coisa que você vai ser obrigado a assistir.
- O quê voc...
Antes mesmo que pudesse terminar de desenvolver a pergunta, já estava correndo em direção ao palco para apresentar uma música. Depois de algumas palavras rápidas com o programador do karaokê, os acordes iniciais de Make Me Wanna Die ecoaram pelo lugar.
Enquanto a música não começava, se balançava e se apoiava no microfone. Seus cabelos mais brilhantes do que nunca, a luz incidindo no seu vestido preto e atraindo o olhar e atenção de todos no salão.
- Take me, I’m alive. Never was a girl with a wicked mind, but everything looks better when the sun goes down. I had everything, opportunities for the eternity and I could belong to the night.
As pessoas dentro do Sticks começaram a gritar assim que a garota começou a cantar os primeiros versos. só podia assistir tudo terrivelmente maravilhado com a beleza de . Seus olhos tentavam registrar cada momento da fantástica apresentação da garota.
- Your eyes, in your eyes. sussurrou essa parte da música e encarou diretamente – I can see in your eyes. You make me wanna die, I'll never be good enough. You make me wanna die and everything you love, will burn up in the light and everytime I look inside your eyes you make me wanna die.
O refrão parecia ser cantado especialmente para ele e talvez realmente fosse. manteve sua postura que a deixava deslumbrante durante toda a música. Aquela visão deixaria qualquer um bêbado de prazer. se sentia no paraíso e era o anjo mais lindo que ele já havia visto e ele era impuro demais para ela.
Quando a música acabou, foi ovacionada por todos no bar. A garota desceu sorridente a escada do palco e voltou para a mesa. estava de pé e assim que a garota chegou perto o suficiente, ele a abraçou. O cheiro do cabelo de penetrou as narinas do garoto.
- Taylor Monsem que tome cuidado, não é?
socou o garoto.
- Não exagera. Eu não canto tão bem quanto ela.
Os dois se encararam por um tempo que pareceu uma eternidade para só então acabarem com a distância que separava seus lábios. teve a sensação mais estranha da sua vida quando beijou . Primeiro, sentiu-se violando alguma regra imaginária que tinha estabelecido para si mesma. Depois, sentiu o gosto doce dos lábios dele e o estranho fenômeno estomacal se intensificar cada vez mais. Por último, sentiu a urgência de querer voltar a beijar o garoto que logo foi controlada pelo seu lado racional que lhe disse para voltar ao seu lugar na mesa.
- Desculpe. – falou com um tom de voz que mostrava expressivo arrependimento.
- Se eu não tivesse gostado, eu não teria beijado você.
e ruborizaram ao mesmo tempo, mas ele foi o primeiro a quebrar o silêncio:
- Então, devo entender isso como?
- Bem, tudo ainda é muito confuso para mim e...
engasgou no meio da frase. Havia uma nova melodia preenchendo o salão e ela se perguntou como não ouvira antes. Caroline encontrava-se no palco e cantava com sua voz de sereia o refrão de uma música que fez com que se arrepiasse completamente.
- I'm gonna rain on your parade. No, I won't take it again and I'll keep raining, raining, raining over you.
Caroline encarava com aquele mesmo olhar de predador-presa que usava na escola, mas a trilha sonora deixava aquilo tudo muito mais macabro. Involuntariamente, levou as mãos até a boca.
- Rain on your parade.
pagou a conta o mais rápido que pode e arrancou pelo braço para fora do Sticks. Ele não sabia qual era o problema de Caroline com , mas sabia que Caroline não era aquele tipo de pessoa que jogava limpo e tinha entendido muito bem o quê ela queria dizer com a letra da música. Ela sabia alguma coisa que faria chover na praia de , algo que estragaria seus planos, algo que a incomodaria constantemente e ele não queria esperar nenhum pouco para saber o que era.

Os olhos de foram se abrindo lentamente e, aos poucos, começaram a se adaptar a nova luminosidade. A garota ainda usava o mesmo vestido da noite passada, porém sua mente estava confusa demais para lembrar dos detalhes. Então, seu cérebro começou a trabalhar mais aceleradamente e ela foi lembrando. Tinha saído com , tinham ido ao Sticks, ela tinha cantado Make Wanna Die, tinham se beijado e Caroline aparecerá do nada cantando Rain On Your Parade. Pelos seus cálculos, tudo isso tinha acontecido na quinta feira e, como era sexta, ela estava atrasada para a escola.
Droga, pensou a garota que começou a correr pelo quarto em busca de roupas descentes para ir para a escola. Ela ainda usava a maquiagem da noite passada e isso só piorava ainda mais o estado de sua aparência. Ela começou a usar um produto de limpeza para remover a maquiagem do rosto e espantou-se quando uma leve risadinha fez barulho no quarto. deu um pulo e encarou o ambiente que, infelizmente, não estava vazio.
Caroline estava sentada na poltrona do quarto de . Ela folheava distraidamente Hamlet de William Shakespeare. Estava vestida como uma garota normal, uma camisa branca e uma calça jeans que deixava bem claro quem das duas garotas tinha o corpo mais bonito.
- Eu estava me perguntando quanto tempo você levaria para a acordar, e aí você acordou.
Caroline tinha fechado o livro e agora voltava sua atenção completamente para .
- O que v-você está fazendo aqui? – pega de surpresa, não conseguia parar de gaguejar enquanto falava com Caroline.
- Vim visitar você. Não se preocupe, seus pais deixaram que você faltasse a aula para ficar comigo. veio aqui de manhã e seu pai disse para ele que você colocaria os assuntos em dia com uma velha amiga. E, antes que você pergunte, Miranda acabou de sair para levar Tyler para a escola. Então, somos apenas nós duas.
O “apenas nós duas” fez eco na mente de que começou a ficar cada vez mais apavorada. Nada disso fazia sentido! O amor por , o medo de Caroline, a vergonha de Alex e todos os outros sentimentos que vinham lhe atordoando.
- Vou recolocar a pergunta, Caroline. – agora que tinha se recuperado do susto, podia reconhecer o toque de confiança retornando para sua voz – O que você veio fazer aqui?
Caroline soltou um sorriso sarcástico.
- Bom, primeiramente eu pensei que você fosse me contar o que aconteceu em Londres. – a garota de cabelos castanhos começou a caminhar pelo quarto – Depois, eu ia te contar tudo que aconteceu nesse meio tempo que você estava fora.
- Eu pulo os procedimentos iniciais. O que você realmente veio fazer aqui?
Mais um riso irônico, mais uma pontada de nervosismo brotando dentro de .
- Vejo que você continua tão apressada como sempre foi. Achei que o ar londrino fosse melhorar seu tempo, mas, pelo visto, eu estava enganada.
Caroline abriu sua bolsa e tirou um envelope de dentro da bolsa e continuou a falar:
- Eu vim trazer isso para você. Achei que seria justo você descobrir quem seu príncipe encantado realmente é, mas, se eu fosse você, abria isso antes de tomar café, pois tem coisas nada bonitas de se ver nesse envelope.
encarou o papel amarelo na sua mãe. Pelo peso, ele deveria conter algumas folhas de papel dentro e talvez algumas fotos. Não aguentando a curiosidade, abriu o pacote e pensou que fosse desmaiar com o quê viu.

Capítulo 04 - Victorious

Quando você encara um buraco muito grande, você pode ter a impressão de que ele está rodopiando ou que você cairá nele mesmo que esteja longe. Era isso que sentia. Ela pode sentir as folhas dentro do envelope encarando ela com toda a severidade possível. Um grito ficou preso na sua garganta e as folhas rolaram pelo chão.
Caroline começou a dar passos em volta de como se soubesse que a qualquer momento ela desmaiaria e precisaria de alguém para segura-lá.
- Algumas coisas não podem ser simplesmente ignoradas... – sussurrou Caroline no ouvido da amiga.
Eram apenas fotos. Fotos que não fariam o menor sentido se não houvesse uma manchete gigantesca intitulada "CRIME BRUTAL ACONTECE EM SEATTLE". As fotos que estavam espalhadas pelo chão mostravam uma garota nua e cheia de cortes que percorriam toda a sua pele. Estava azulada e aparentava ter sido encontrado muito tempo depois de morta. Na página do jornal, um nome cintilava para .

"[...] , o namorado de Selena Birdy, foi culpado pelo crime por ser o único suspeito. O acusado alega não ter qualquer envolvimento com o crime e também diz não ter usado drogas, apesar de não lembrar do que fez durante a noite inteira. foi a última pessoa a ver a garota – filha de um influente magnata - viva. Selena e se conheciam desde a infância e a perícia acredita que o garoto assassinou-a brutalmente por ter distúrbios mentais que afetam seus relacionamentos amorosos. "Crimes passionais não são tão incomuns hoje em dia. matou Selena por ter um desequilíbrio químico – semelhante à psicose – que faz com que seu subconsciente tenha ânsia pela morte do "objeto" amado", diz o psicólogo que investigou o caso. O psicólogo ainda afirma que pessoas como ele, psicopatas, tem um talento natural para seduzir qualquer pessoa do sexo oposto, fazem analises profundas do ser humano em poucos encontros e adotam o perfil mais sedutor possível para englobar a próxima vítima [...]"

ficou parada. Não havia o que dizer ou fazer. Ela tinha sido enganada e corria risco de vida estando perto de alguém que lhe proporcionava tanto prazer. Prazer que, segundo o artigo, nascera com e a conduziria a morte. Então, esse era o motivo da prisão domiciliar, ele era um assassino sádico que matou sua namorada de infância a sangue frio e faria isso com qualquer outra pessoa que se envolvesse com ele, talvez ele até estivesse planejando agora mesmo a morte de enquanto lia um romance russo que ele estava lendo somente para fazer ela se render o mais rapidamente. Admita , tudo estava lindo demais para ser verdade.
- A verdade machuca, . – Caroline arrancou a outra dos pensamentos que atormentavam sua cabeça – Nem preciso lhe dizer como fiquei quando descobri que um garoto tão lindo fosse capaz de cometer uma brutalidade dessas. Por isso eu não podia deixar de avisar você e...
- Caroline, saia daqui.
tentou soar a mais zangada possível, mas sua tentativa havia falhado. Tudo que conseguira fazer fora um chiado estranho que fez Caroline perceber que ela estava prestes a chorar.
- Ah! Não chore ! Eu sei que vai ser difícil esquecer aquele diabinho com aura angelical, mas lembre-se que podia ser você estampada na primeira folha da página policial.
- Caroline, se isso é algum tipo de brincadeira...
- Não há brincadeira. – a voz de Caroline soou metódica e tão clara que não deixou duvida alguma sobre a autenticidade dos fatos – Se quiser saber mais, pesquise no Google. Eles têm ótimas reconstruções do crime.
ouviu tudo calada, repentinamente seu estômago começou a dar voltas e mais voltas que a deixavam com vontade de vomitar. Traída, enganada, estúpida e idiota. Ela se perguntou quanto tempo mais levaria até admitir que um garoto em prisão domiciliar representa perigo de vida? Talvez nem a mãe dele quisesse mais ter ele por perto e, por isso, pediu a para levar comida para ele. E o pior de tudo... Agora ela tinha que ouvir tudo da boca de Caroline que não parou nenhum segundo de sorrir audaciosamente. Caroline tinha feito chover na praia de , como tinha prometido.
- Se me permite, eu não pretendo passar o dia com você e acho que você precisará de muito tempo para digerir as novas informações.
encarou Caroline pegar sua bolsa e sair do quarto vagarosamente. Logo os primeiros minutos de silêncio foram fazendo barulho aos ouvidos e ela se sentia cada vez mais aterrorizada. As imagens da garota continuavam assombrando sua mente. A imagem de continuava atormentando-a como um fantasma que volta para se divertir todo final de tarde. A casa continuava vazia, o terror aumentava e qualquer farfalhar da janela era motivo para que ela se aterrorizasse. Deveria ligar para alguém, mas ela sabia que não havia ninguém. Tinha cruzado a linha. Estava apavorada, sozinha e parecia pronta para o abate.
Aterrorizada, correu para o banheiro de sua casa e se encarou no espelho, ela ainda usava a mesma roupa da noite passada. Começou a lavar as mãos compulsivamente, queria se livrar de qualquer marca da noite passada. Encarou o espelho novamente e ainda parecia um cordeiro pronto para o abate.
As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de e como, qualquer ser humano que não sabe o que fazer, atirou todos os objetos da pia no chão. Socou a parede do banheiro até ferir as mãos. Seu reflexo no espelho continuava encarando-a e com mais um tapa violento, abriu a portinha do armário que estava por trás do espelho.
Então, ela viu sua salvação. Calmantes, muitos deles. Todos intocados. Todos esperando para serem consumidos. Ela abriu o primeiro que sua mão conseguiu alcançar e virou o frasco de uma vez só na boca. A maior parte das pílulas se perdeu dentro do banheiro, mas pelo menos cinco entraram no organismo de .
As lágrimas escorriam quentes pelo rosto de que agora se contraia com o amargo que as pílulas tinham deixado na boca. Precisava sair dali, precisava ir para seu quarto. A garota começou a caminhar pelo corredor e logo viu que esse não seria um trajeto fácil. Sua visão ficou embaçada, as pernas bambas e tanto andando, quanto se arrastando, conseguiu chegar a seu quarto, mas já estava tonta demais. Atirou-se contra a estante de livros e centenas de livros vieram para o chão. Estava realmente sufocando ou tudo isso era fruto da sua imaginação?
Mais livros caíram em cima dela e o telhado não parava de rodar. Seus olhos percorriam o quarto em busca de algo para se agarrar. O topor foi se aproximando e ela pode ouvir claramente quando o cheiro amadeirado e uma voz claramente familiar lhe perguntaram:
- Você está aterrorizada agora?
Então, tudo se apagou.

***

A fumaça que saía do cigarro de Alex fez círculos no ar e ele continuou encarando o jardim da escola com um olhar muito vago. Poucas coisas dali lhe interessavam, poucas pessoas por ali chamavam atenção. Há muito tempo atrás, ele se achava o garoto mais comum do mundo, mas Caroline mostrou-lhe o quanto ele podia ser especial. Então vieram as noites de sexo, a violência, o cigarro, algumas coisas piores e aquela ambição desmedida que só te puxa cada vez mais para dentro do poço. Ele nem se reconhecia mais, não sabia se aquilo era bom e interiormente, sua mente pedia para que tudo acabasse, mas já era tarde demais para voltar atrás.
Mesmo antes de Victoria fazer qualquer barulho, Alex pode vislumbrar seus cabelos ruivos brilhando no sol. Ela estava caminhando muito rapidamente e nem cumprimentou o garoto quando chegou perto.
- Você viu Caroline? – Victoria estava ofegante.
- Não – respondeu calmamente – mas ela não virá para a escola hoje.
Victoria fez expressão de confusão, o quê obrigou Alex a dar mais informações.
- Ela foi passar o dia com , disse que tinha uma coisa muito importante para contar para ela.
Victoria ficou pálida instantaneamente e Alex pensou que ela fosse desmaiar ali mesmo. Em um movimento rápido, o garoto levantou-se e passou seu braço ao redor de Victoria, ao sentir o toque da pele da garota na sua um arrepio lhe percorreu.
- O que aconteceu? – seu ar de arrogância foi deixado de lado instantaneamente. O velho Alex, por vezes, tomava controle da situação e isso quase sempre acontecia quando se tratava de Victoria.
- Merda! Precisamos correr!
Victoria se virou e saiu em disparada pelo corredor. Alex a seguiu de perto, pois a expressão que dominava o rosto da ruiva era de extrema preocupação. O que Caroline e estariam fazendo? Logo eles estavam correndo pelo corredor principal, no qual vários alunos curiosos encaravam a estranha cena que eles dois estavam proporcionando. Quando Victoria avistou , ela praticamente se atirou em cima dele.
arrumava suas coisas no armário quando a garota ruiva chamou seu nome no meio do corredor.
- !
Ele se virou e se deparou com uma garota ruiva com feições apavoradas na sua frente.
- Você falou com hoje?
- Não, mas...
- Eu realmente não tenho tempo para explicações. Vem comigo, rápido.
ficou parado processando as informações e iria duvidar da sanidade da garota se não fosse a estranha figura que pairava atrás dela: Alex Summers. falava muito nele e pelo que lembrava, ele tinha sido o melhor amigo da garota por muito tempo. Quando processou essa informação, começou a correr atrás dos outros dois.
- Precisamos chegar à casa de o mais rápido possível. – falou Victoria que ofegava devido ao cansaço da correria.
- Aconteceu alguma coisa com ela? – Alex e perguntaram ao mesmo tempo.
Victoria considerou seriamente se deveria contar logo tudo que havia descoberto, mas ela não tinha tempo para isso e aconteceria um grande mal entendido se eles não se apresassem.
- Conto tudo quando tiver tempo, tudo bem? Existem informações demais para serem ditas e...
Victoria estacou e percebeu que estava alguns minutos atrasada. Tudo era muito pior do que ela pensava...
Os três estavam de frente para o mural da escola aonde, pelo menos, umas três dúzias de alunos se acotovelavam para saber o que estava escrito, mas ninguém precisava chegar muito perto para ver.
Centenas de panfletos intitulados “O assassino pode estar bem atrás de você” estavam espalhados pelo chão. As letras pretas piscavam sobre o chão e no mural várias fotos mostravam o corpo de uma garota morta. Em vermelho sangue, um nome estava sendo lido por todos que viam a imagem que estava no centro do Mural: .
- Meu Deus...
Alex nunca havia se deparado com uma cena daquelas na sua vida. As fotos da garota eram aterrorizantes, mas o que mais incomodava era o número de alunos que encaravam aterrorizados ele, e Victoria.
Victoria foi a primeira a tomar uma atitude, caminhou até o mural e arrancou a foto que tinha o nome de escrito. Ela evitou olhar a imagem, embolou-a e começou a puxar para longe da multidão. não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Ele tinha se mudado para a Europa por causa disso e nem aqui estava seguro. Agora teria que se mudar de novo, teria que ir embora – para o Alasca talvez – e tentar arranjar um jeito de viver normalmente. Longinquamente, uma voz lhe chamava. ... ... ...
- – a voz de Victoria estrondou em sua mente quando ele percebeu que ela estava falando com ele – precisamos sair daqui.
Ele acenou com a cabeça e logo sentiu um par de mãos fortes puxarem ele para longe da multidão. Alex arrastou até o portão principal da escola e o garoto dos cabelos bagunçados se atirou num dos bancos que ficavam próximos à entrada.
- Nunca vi algo desse tipo. – falou Alex com o tom arrogante retornando aos poucos a sua voz.
continuava calado e olhando para seus pés. Você pode encobrir a verdade por um tempo, mas jamais poderá escondê-la eternamente.
- Eu sei que é verdade.
Victoria falou com um tom muito cuidadoso. sorriu desdenhosamente.
- Se você sabe, por que ainda está aqui?
- Por que diferentemente de algumas pessoas eu sei ver os dois lados da moeda. Segundo a matéria que li, não existiam provas conclusivas contra você.
Alex passou os olhos de Victoria para e, aos poucos, foi entendo do que se tratava e para evitar qualquer tipo de transtorno, resolveu ficar calado.
- Por isso você veio atrás de mim? – continuou que tentava esconder o tom de tristeza em sua voz – Você sabia que isso aconteceria?
- Não, eu não achei que Caroline fosse capaz de fazer isso. Eu sabia que ela iria contar para , pois ouvi uma conversa dela com alguém no corredor.
Aos poucos, todos foram retornando ao ponto x da conversa: . O que teria acontecido com ela e se estavam tão preocupados com ela, por que ainda estavam ali?
- Precisamos ir atrás dela. – falou Alex.
- Eu vou sair pelo portão da frente, pegar as coisas de vocês e...
Antes que Victoria pudesse terminar a frase Alex já estava escalando o muro de trás da escola.
- , você não vem? Afinal, é você quem precisa tomar conta dela. Eu sou apenas um amigo.
começou a subir logo atrás de Alex e Victoria saiu em disparada para dentro da escola.

Poucas coisas podem aterrorizar verdadeiramente alguém e uma delas é o medo de ser esquecido completamente ou odiado por todos aqueles que deveriam lhe amar. Enquanto corria para a casa de era esse pensamento que passava pela cabeça de . A ideia de que passasse a detesta-lo, fazia-o sentir arrepios pela coluna. Alex corria ao lado dele, apesar de ter certeza de Alex estava fazendo o maior esforço do mundo para manter sua postura rígida e ranzinza, sabia também que o garoto estava morrendo de preocupação e isso não o incomodava, pelo contrário, isso o fazia ficar feliz, pois pelo menos teria Alex para tomar conta dela caso qualquer coisa ruim acontecesse. E coisas ruins sempre aconteciam com ele...
- Espere um pouco!
Alex rugiu do outro lado da rua. O suor escorrendo pelo rosto do garoto e seus cabelos castanhos estavam grudados na testa. parou e virou-se para trás, Victoria vinha correndo uma rua atrás deles dois e quando ela se aproximou, fez sinal para que eles continuassem correndo. Apesar de estar desesperado com a ideia de já saber a verdade sobre ele, estava feliz. Duas pessoas naquele lugar, indiretamente, se preocupavam com ele e esse era o maior número de pessoas com quem ele já tinha falado desde o incidente.
Quando eles chegaram à rua da casa , a sensação de pânico tomou conta do garoto. Uma ambulância estava saindo da casa dos e a mãe de conversava preocupadamente com o pai que quando viu os três garotos, começou a caminhar em direção a eles.
- Alex, você sabe de alguma coisa?
Alex fez cara de desentendimento. Noel parecia muito preocupado e ao mesmo tempo confuso.
- Se você não sabia de nada – continuou o pai de – o que vocês fazem aqui?
Victoria se meteu no meio da conversa para arranjar uma saída mais discreta.
- Senhor ? Eu sou Victoria Piltsbury e eu estava vindo para a casa de pegar um trabalho que o professor de literatura passou. Eu encontrei Alex e no caminho e eles me acompanharam até aqui. O senhor parece muito preocupado aconteceu alguma coisa?
O pai de passou as mãos pelos cabelos.
- Eu não sei, minha filha. – o desespero se fez presente no olhar de Noel foi encontrada no seu quarto, desacordada e a empregada ligou para a ambulância quando viu que ela não estava simplesmente dormindo. Ninguém sabe o que aconteceu, mas os enfermeiros acreditam que ela tenha tentado se matar.
O barulho de um carro chegando foi ouvido e todos viraram para ver quem era a pessoa que estava saindo dele. Caroline Evans desceu do carro e caminho em direção ao pai de .
- Eu vim assim que soube. Estou me sentindo tão culpada senhor , como ela poderia tentar uma coisa dessas?
Caroline usava uma roupa com cores tão leves que qualquer um acreditaria que ela era uma santa. Qualquer um, menos os três garotos que estavam na sua frente.
- Ninguém poderia evitar querida, estou indo para o hospital você vem conosco?
- Claro que sim!
O pai de começou a caminhar para em direção ao carro, mas antes que Caroline pudesse dar qualquer passo em direção ao carro. Victoria se colocou no caminho de Caroline. Os olhos da garota ruiva vibravam de fúria.
- Eu não sei o quê você faz para enganar as pessoas tão bem, mas eu não deixarei que as coisas terminem assim.
Caroline soltou um sorriso de deboche.
- Escute aqui, ruivinha bobinha. Eu realmente detesto , mas jamais tentaria mata-lá. Tudo que eu queria era que ela soubesse a verdade – e apontou para como quem aponta para um pedaço de carne que há muito passou do ponto – sobre esse aí.
- Caroline – a voz de Alex soou como um tiro – você passou dos limites. Envenenar uma garota e sujar a imagem de um cara que você nem sabe quem é!
- Não tente me dar lições de moral, Alex! Você só está assim por que prefere o delinquente a você!
O grito de Caroline foi tão alto que fez a mãe de , que ainda estava no jardim, encara-los com uma expressão de quem suspeita de alguma coisa.
- Não vou perder meu tempo. – Caroline começou a caminhar em direção ao carro – Acreditem no que quiserem! Tenho um hospital para ir e vai precisar que alguém esteja lá com ela, mesmo que este alguém seja eu. Só quero que saibam que eu realmente não sei quem fez isso com ela!
Caroline e Alex seguiram em direção ao carro, afinal, os dois eram amigos de infância de . e Victoria ficaram plantados no jardim esperando por respostas que demorariam muito para chegar e que quando chegassem, trariam seus piores pesadelos a tona.

***

sentiu as pernas dormentes sobre a cama branca do hospital. Tinha fios cheios de soro enfiados em suas veias e a sensação era completamente desconfortável. Aos poucos, seus olhos se adaptaram a luminosidade que incidia da janela que estava aberta no extremo do quarto. Pensou que estava sozinha, mas logo percebeu que havia duas pessoas no quarto e não ficou nenhum pouco feliz quando percebeu quem eram.
- , se acalme. Estamos aqui só para conversar.
estava tentada a gritar, mas quando Alex a chamou de o gritou ficou preso no meio de sua garganta. Alex não estava mais zangado com ela... Ela finalmente tinha sido perdoada.
Tentou falar alguma coisa, mas as palavras não saíram de sua garganta e quando saíram, não pronunciaram o que ela queria:
- Onde estão meus pais?
- Eles passaram as últimas quatro horas com você e nós dissemos que ficaríamos aqui e avisaríamos caso você acordasse. – fora Caroline quem respondera e sua voz estava isenta de qualquer piadinha ou zombaria.
encarou a parede do outro lado da parede. A pergunta que foi feita logo em seguida foi dita com tanto cuidado que parecia porcelana próxima ao ponto de se partir, mas a voz de Alex foi muito clara quando a disse:
- , você tentou se matar?
encarou Alex e Caroline assustada. Ela só tinha tomado uns comprimidos a mais e todos já estavam dizendo que ela tinha tentado se matar?
- Você quase teve uma overdose de remédios, .
Aos poucos, as imagens foram clareando na mente de e ela se viu saindo do banheiro, derrubando livros por todo o quarto e apagando completamente.
- Acreditam que você tenha feito de propósito, pois você foi encontrada na sua cama. Seu quarto estava arrumado e não havia sinais de ingestão acidental. – Alex continuou a falar com aquele tom de quem desarma uma bomba.
A bomba que Alex achava que estava lidando não era nem comparada a que sabia que estava para se formar. Ela lembrava perfeitamente de ter derrubado compridos no chão e os livros de seu quarto haviam caído da prateleira quando ela tentou se apoiar neles. Ela não tinha ido para sua casa e ainda havia a alucinação que tivera antes de desmaiar. Essa era a parte aterrorizante: talvez ela não tivesse alucinado, talvez alguém realmente estivesse na casa. Não, alguém estava na casa e esse alguém arrumou o banheiro e o quarto de . A expressão de ficou branca como o papel e com tamanho terror estampado no rosto da garota, Alex teve que perguntar o que tinha acontecido, mas antes mesmo que pudesse responder, Caroline se colocou no meio das palavras da amiga:
- Havia alguém na sua casa, não é?
ficou ainda mais pálida. Como Caroline sabia?
- C-c-omo você...
- Pode parecer loucura, mas eu senti que estava sendo observada quando estava lá e pela sua cara, tenho certeza que estou certa.
tinha mil perguntas para fazer, mas teve que engolir todas, pois os seus pais tinham acabado de entrar no quarto. Caroline e Alex saíram para dar mais privacidade para a família. respondeu, na medida do possível, todas as perguntas que eles faziam, mas em momento algum ela deixou de pensar no que tinha acontecido na sua casa.

Muito distante do hospital, Victoria voltava para sua casa. Ela tinha passado o dia na casa de para conversar com o garoto que não lhe respondeu tantas perguntas quanto ela desejara. Victoria tinha uma intuição feminina aguçada e algo a dizia que não era o vilão da história. Andando pela rua escura, Victoria não se dava conta de que talvez não estivesse sozinha naquele estranho final de tarde. Victoria não se dava conta de que, talvez, tudo que ela sabia fosse lhe custar muito mais do que uma manhã de preocupação.
Quando bateu a porta de sua casa, ela passou os olhos pela última vez pela rua para se certificar de que estava tudo bem. A intuição de Victoria podia ser excelente para detectar a inocência das pessoas, mas jamais seria tão boa para dizer quando ela mesma se encontrava em perigo. Sozinha em casa, Victoria subiu para seu quarto e começou a refletir sobre tudo que tinha acontecido naquele dia. Ouviu barulhos no andar de baixo e desceu para verificar o que era. A casa fazia um silêncio macabro que incomodava os ouvidos. A garota adentrou o salão principal da casa e reconheceu seu pai entrando pela porta da frente. Ela sorriu aliviada. Estava salva... Agora, pelo menos.

Capítulo 05 - A lot of love, a lot of blood.

olhou para seus pés que estavam para fora das cobertas. Tentou relaxar e encarou o telhado do seu quarto procurando uma forma de não pensar nos acontecimentos que tanto a atormentavam. Uma brisa leve soprou pela janela do quarto de e a luz da meia noite adentrou o quarto, fazendo a garota sentir um leve calafrio percorrer-lhe a espinha. O vento começou a soprar mais forte e o quarto parecia um frigorífico quando decidiu levantar para fechar a janela... E, curiosamente, ela não se lembrava de ter deixado a janela aberta...
O calor, repentinamente, foi voltando para o corpo de e ela sentiu-se aliaviada por não ter que levantar. O calor era quase líquido... Não, o calor estava realmente no estado liquido. Algo escorria pelas costas de . A garota sentou-se sobressaltada para checar o que estava acontecendo e um grito agudo escapou de sua boca quando ela se deparou com um lençol completamente manchado de sangue. Por reflexo, tentou-se colocar de pé, mas algo a impediu, algo a forçou a se deitar na cama. Centenas de frias e gélidas mãos azuis prendiam o corpo da garota contra a cama. A essa altura, não parava de gritar, seus gritos ficaram mais estridentes quando ela percebeu que havia alguém parado no quarto e esse alguém estava com uma faca na mão, caminhando em sua direção. Ela teria sentido o golpe da lâmina contra seu corpo, mas acordou no meio daquele pesadelo horrível.
Ainda não era hora de ir para a escola e ela estava suando frio. Os pesadelos não paravam e não a deixavam mais dormir em paz. Uma semana havia se passado desde a falsa tentativa de suicídio, a verdade sobre e as surpresas com Caroline. Para , a semana fora de dúvidas e incertezas. Seus pais ainda acreditavam que ela tinha realmente tentado se matar – metade da escola acreditava piamente que ela tinha uma tendência suicida, até os professores estavam nesse meio – e por isso não a deixavam sozinha por mais de trinta minutos. Ela freqüentou terapia a semana inteira, o que era completamente desnecessária já que ela NÃO havia tentado se matar. Apesar de tudo, algumas coisas boas aconteceram. Alex e ela voltaram a se falar, Victoria provou ser uma amiga brilhante e até Caroline estava sendo mais simpática, do jeito dela, mas ela estava tentando. ainda não tinha falado com , pois ela não queria falar com ele. Intimamente, ela culpava por tudo que tinha acontecido. Se ele tivesse contado a verdade para ela no jantar do Sticks nada daquilo estaria acontecendo, mas ela sabia que os problemas que o garoto tinha eram muito piores que os seus. Sua mãe havia sido chamada à diretoria e o diretor deixou bem claro que não poderia conter as piadinhas dos alunos contra (piadinhas que incluíam agressões físicas, verbais e outras coisas muito mais humilhantes) e que a senhora deveria estar feliz dele não ter expulsado o filho da escola depois de tudo que acontecera. Não havia um motivo real para que não falasse com , mas qualquer razão imaginária passava a ser motivo suficiente.
Não aguentando mais ficar deitada na cama, decidiu que iria para a escola mais cedo que o usual. Colocou uma roupa qualquer e desceu correndo as escadas de sua casa deixando apenas um recado na porta da geladeira para avisar seus pais de que já tinha ido.
Lá fora a rua estava fria e uma falsa primavera caminhava por entre o quase onipresente inverno. Quanto mais frio Redmont ficava, mais roupas as pessoas usavam, mais lindas as meninas ficavam e mais rosadas ficavam as bochechas dos garotos. Algo dizia a que o inverno deste ano seria inesquecível. virou-se para olhar se estava sozinha na rua e para sua surpresa, não estava. acenou quando percebeu que ela estava olhando e acelerou o passo para se distanciar o máximo possível dele. Não queria falar com ele e não iria falar com ele.
As aulas estavam ficando cada vez mais complexas e intensas. Isso significava que as matérias exatas estavam com cálculos complicadíssimos e que as outras matérias tinham textos enormes. Quando o sinal do intervalo tocou, caminhou até a mesa na qual Alex e Caroline estavam sentados. Os dois sorriram amigavelmente quando ela se sentou.
- Estávamos falando de você. – disse Caroline ajeitando o seu batom vermelho com a ajuda de um lenço e de um espelho.
- Espero que bem, não é mesmo?
- Na verdade, estávamos falando mal de você.
Fora Alex quem dissera a última frase e um sorriso maroto escapou pelos lábios do garoto. Era bom saber que tudo estava voltando ao normal. O medo causava um efeito estranho nas pessoas, ele aproxima todo mundo fazendo parecer que a união é a única chave do problema e talvez esse efeito não seja tão ruim assim.v - Falavam mal, não? – fez biquinho – Posso saber por quê?
- Falávamos da festa que vai ter esse final de semana. Você sabe, com um pouquinho de diversão a mais do que deveria...
Caroline encarou com um duplo sentido explícito no olhar.
- Calma aí. – pensou um pouco sobre o que Caroline disse – Você não está falando de drogas, está?
- Depende. Se você estiver interessada, sim, eu estou falando de drogas, mas se você não estiver, então, eu nunca disse isso.
não podia acreditar no que estava ouvindo. Alex brincava distraidamente com uma batata frita em seu prato.
- Desde quando vocês são assim?
- Ah, vamos lá, ! – repreendeu Caroline – Você estava em Londres! Uma das cidades com as melhores festas do mundo e você me diz que não fez nada demais!? Por favor!?
- Não, eu realmente não fiz nada demais. – a garota havia se sentido ofendida com aquele tipo de comentário – E espero que Alex também não esteja fazendo nada demais.
Caroline gargalhou e algumas pessoas do refeitório começaram a encarar o trio de forma estranha.
- Se Alex não me fizer companhia, quem fará?
fez cara de desgosto e levantou-se da mesa. Procurando algum outro lugar para se sentar, ela pode ver no canto mais afastado do refeitório e Victoria sentados e algumas bolas de papel voando em direção a mesa. O mais triste de toda essa confusão com era que ele não podia se defender, já que se fizesse isso poderia ser enviado diretamente para um instituto de reabilitação para jovens problemáticos ou até mesmo para uma prisão. Talvez não fosse tão ruim assim, ele merecia tudo que estava acontecendo com ele, com esse pensamento saiu do auditório e foi para a sala de aula mais cedo do que deveria.

A escola estava realmente acabando com e ela sempre tinha certeza disso quando chegava em sua casa. Ela estava cansada, moída mentalmente e fisicamente, estava mutilada. Sem nem almoçar, subiu para seu quarto, colocou um suéter e alguma coisa mais confortável e estava prestes a se deitar quando a campainha soou lá embaixo. Amaldiçoando quem quer que estivesse incomodando e xingando por Miranda ter saído para almoçar e não ter voltado ainda, desceu para atender a porta.
As pessoas não deveriam ser tão importunas e incomodar os outros em horas impróprias. Estava prestes a agir mal-educadamente quando abriu a porta e viu fios de cabelos ruivos que passara a conhecer muito bem. Victoria Piltsbury estava parada a sua porta com a mesma expressão angelical que sempre carregava no seu rosto.
- Posso entrar? – perguntou educadamente.
fez sinal para que Victoria entrasse. A ruiva estava mais bonita do que em qualquer outra ocasião que já a tinha visto, mas desconsiderou isso já que nem tinha visto Victoria tantas vezes assim. Havia algo de diferente com Victoria, algo que fez franzir as sobrancelhas para tentar descobrir o que era.
- Victoria, estou surpresa. Não achei que você fosse vir aqui em casa. Não hoje, pelo menos.
tentou manter o tom de voz amigável, mas Victoria não soltou nenhum sorriso.
- , eu sei que não conheço você desde a sua infância, mas eu preciso conversar com você.
- Prossiga. – disse enquanto as duas sentavam-se à mesa da cozinha.
- Para ser mais específica, quero falar sobre você e .
- Se ele pediu para que você viesse aqui...
- Quem disse que foi ele quem pediu?
calou-se. Se Victoria não estava fazendo isso por que havia pedido, estava fazendo por ela mesma? Por quê?
- Eu quero esclarecer coisas que uma pessoa atordoada, como você, não enxerga. – Victoria sorriu amigavelmente para – Veja bem, você foi precipitada ao decidir de que lado ficaria na história. Então, vamos ao que interessa. Preparada para ver mais algumas fotos? Além das que Caroline mostrou?
fez que sim com a cabeça e Victoria começou um longo discurso.
- Você deve saber que a policia americana condena qualquer pessoa à prisão perpetua ou coisa pior muito facilmente, então, por que não foi condenado? – Victoria abriu sua bolsa e começou a tirar vários envelopes amarelos – Primeiramente, porque não havia nenhuma prova conclusiva contra ele.
Victoria jogou um dos envelopes para que abriu e viu os dados da perícia sobre a arma que haviam usado para assassinar a tal Selena Birdy.
- Nem mesmo a arma do crime foi encontrada pela perícia. E somente foi acusado por ser a única pessoa que entrara em contato com Selena na noite do crime. Também, temos um detalhe muito crucial. – Victoria abriu outro envelope que continha várias fotos de e Selena ao longo do tempo – Selena e eram muito amigos e quando falo amigos, quero dizer só isso mesmo. Selena teve apenas um affair que não durou nem uma semana com , foi a imprensa sensacionalista que, para dar mais atenção ao caso, disse que eles eram namorados.
interrompeu Victoria antes que ela recomeçasse a falar:
- Victoria, esses dados são da própria policia! Como você conseguiu isso?
- Isso é o de menos, , mas não se preocupe com nada. Agora, onde eu parei? Ah, sim. O carro de foi atirado no córrego pelo por ele mesmo, isso é o que os acusadores dizem, e foi deixado para trás com chaves, carteira e tudo mais. Se ele fosse um psicopata como o psicólogo que tratou do caso afirmou, você acha que ele teria dado tantas bolas fora?
Um último envelope foi aberto e Victoria recomeçou a falar:
- Essa é a ficha do psicólogo que estudou o caso, alguns dados foram ocultados, mas o que eu quero que você veja está no fim da folha. – correu os olhos para o final da folha e viu uma afirmação que não fazia nenhum sentido – Explicando o que você acabou de ler. O pai de Selena fez questão de contratar o psicólogo que tratou do caso, aparentemente, ele já sabia que a policia não conseguiria incriminar e tratou de mover alguns pauzinhos para que isso acontecesse.
- Você acha que ele matou Selena? – perguntou horrorizada.
- Não, claro que não! Só acho que ele não queria que a morte de sua filha não levasse ninguém para a cadeia e tratou de jogar a culpa em cima de .
ficou calada por alguns minutos. Ela entendera muito bem o que Victoria queria com toda aquela demonstração da inocência de .
- Você acha que devo voltar a falar com ele?
- Finalmente mulher! Achei que teria que levar você até a casa dele.
- Mas...
- Não há nada de mais nem menos, ! Milhares de pessoas são presas inocentemente todos os dias e se você for se importar com o que dizem sobre elas, vai esquecer quem elas são!
voltou a ficar calada e começou a se sentir culpada por ter tratado de forma tão indiferente. Ela apenas tinha sido surpreendida por Caroline e engoliu tudo como uma criança obediente, não procurou nada a fundo e se deixou convencer por meia dúzia de fatos.
- Eu vou pensar no que você disse, Victoria.
- Eu sei que vai. – a ruiva deu uma piscadela para enquanto colocava os papeis dentro da mochila e se levantava da mesa.
- Por que você fez isso?
- Eu te devia um favor desde aquele dia do banheiro e essa foi a forma que achei de pagar.
Victoria começou a caminhar em direção a porta e quando passou pela entrada, virou-se disse:
- Pense bem, . Toda história tem, pelo menos, duas versões.

A noite caiu muito rápido em Redmont e junto com ela o frio chegou de forma bruta e cruel. Os primeiros flocos de neve caiam sorrateiramente sobre a cidade e isso só acentuava ainda mais aquele clima de perfeição que era visto em cada maldita casa de cada quarteirão. Redmont era fria durante quase o ano todo e o frio não costuma perdoar ninguém.
e sua mãe estavam na sala de casa assistindo um programa de audiência no quais os participantes faziam suas versões – sejam elas boas ou ruins – para músicas famosas.
- Nossa, como ele é desafinado! – disse pegando mais um pouco de pipoca de dentro da vasilha que estava no sofá.
Depois da morte do senhor , Ella e tinham se aproximado muito, mas essa aproximação havia sido interrompida pela morte de Selena. Agora, misteriosamente, estava voltando a ser o garoto que era antes da vida daquela família quase virar ruínas.
- Você não está em condições de falar nada, viu? Você é tão desafinado quanto ele!
- Pelo menos eu não vou pagar mico nos programas de TV!
Ella riu e começou a comer mais pipoca. Não tinha plantão nos próximos dois dias, pois um médico substituto estava cobrindo seu horário, mas, em compensação, passaria o final de semana inteiro no hospital.
A campainha tocou.
- Deve ser a pizza. – concluiu a mãe de .
- Espero que você tenha acertado desta vez, mãe. Estou cansado de comer combinações que definitivamente não agradam o paladar de ninguém nesse mundo. – levantou-se do sofá e caminhou em direção a porta.
Quando abriu, ficou surpreso ao ver que não era o entregador de pizza quem estava ali. Usando um suéter verde e calças para dias frios, se encontrava parada a porta da residência dos .
- ? – estranhou a aparição da garota.
- Eu posso entrar? Está bastante frio aqui fora...
saiu do caminho para que ela entrasse.
- Então, cadê a pizza? – berrou a senhora do sofá.
- Boa noite, Ella. – cumprimentou tomando nota de não se referir à mãe de com a palavra “senhora”.
- Ah, ! Que bom que você veio! Gostaria de se juntar a nós? – a mãe de fez um gesto indicando o sofá.
- Eu adoraria, mas...
- Mãe, e eu vamos subir, tudo bem? Descemos daqui a pouco.
A mãe de concordou com a cabeça e deu um sorriso de incentivo para .
Os dois subiram a escada para o quarto de sem pronunciar uma única palavra, somente quando entrou em seu quarto e foi seguido por que o garoto quebrou o silêncio:
- Se você quiser, eu posso deixar a porta do quarto aberta, só pro caso de você achar que tenho um taco de beisebol aqui dentro e vou usar ele para bater em você.
- Hey, eu vim em paz! – levantou as mãos acima da cabeça com as palmas estendidas para frente – Na verdade, eu devo a você um pedido de desculpas.
cruzou os braços e encarou com uma postura que a fazia querer avançar em cima dele.
- Eu... E-eu quero me desculpar por ter me afastado de você sem nem saber o que aconteceu direito, você sabe, com relação à Selena e tudo mais...
O garoto continuava com a mesma expressão, mas percebeu que ele vacilou um pouco ao ouvir o nome de Selena.
- Bem, eu me sinto lisonjeado pelo seu pedido de desculpas, . – o garoto soltou um sorriso irônico ao prosseguir – E aposto que ele será muito útil assim que você me provar que está falando comigo porque gosta de mim e não porque está com algum peso na consciência...
continuou a falar, mas não ouvia mais nenhuma palavra que saia de sua boca. Tudo que ela conseguia perceber era o quanto tinha sido tola em tentar dizer para si mesma que aquele garoto era perigoso. Ela sabia – ou pelo menos achava saber – que jamais a machucaria. Ele ainda continuava falando, mas não podia mais ouvir. Ela só queria estar perto dele e com um movimento rápido, caminhou em direção ao garoto e o beijou desesperadamente. Sentiu aquela mesma sensação de estática percorrer seu corpo, logo as mãos de estavam entrelaçadas pelo corpo de . As mãos do garoto percorriam brutamente o corpo da donzela em perigo, os lábios vermelhos e intensos se chocavam como mares em fúrias. passou as mãos pelos cabelos do garoto e mordeu os lábios dele. Eles só pararam de se beijar quando não havia mais fôlego para continuar com aquilo.
- Você sabe que é geralmente o menino que cala a garota com um beijo, não sabe?
- Pena que eu não sou nenhuma garotinha para seguir um típico roteiro de cinema.
voltou a beijar , dessa vez o calor e o perfume amadeirado vindos do garoto se fundiram ao seu corpo. carregou pelas pernas, mas não afastou seus lábios dos dela. Ele andou com ela pelo quarto e sentou-a em cima da estante. No instante seguinte, a iDeck do garoto começou a tocar e passar centenas de músicas ao mesmo tempo. Tudo era perfeito, ela podia sentir seu corpo ansiando por cada músculo do corpo de . afastou seus lábios dos dele, sorriu, e apertou o botão de stop no aparelho.
- Isso diz quais são meus motivos para estar aqui com você? – perguntou inocentemente.
- Acho que demonstrou um pouco, mas vou precisar de um pouco mais para entender melhor.
Ele voltou a beijar a garota e com o corpo dela sendo pressionado de novo contra a iDeck, os acordes de Vampire Money da banda My Chemical Romance estouraram pelo quarto. carregou para longe da estante e a atirou em cima da cama. Lá fora, a neve continuava caindo sobre a cidade e as ruas só ficavam cada vez mais pintadas de branco.
- Você... Sabe... Mesmo... Como... Pedir... Desculpas. – disse de forma intervalada, pois ele dizia uma palavra e deixava um beijo sobre os lábios de .
- Toda mulher sabe, querido.
sorriu. Tanto ele, quanto sabiam que ainda não era a hora de se precipitar e fazer qualquer besteira, mas era extremamente difícil resistir. soltou o garoto, saltou para longe da cama e ficou em pé no meio do quarto. fez cara de quem estava decepcionada com a saída da garota.
- Não, cavalheiro. As coisas não funcionam assim comigo, viu?
sorriu maliciosamente e correu em direção a . Ela empurrou o corpo do garoto com as mãos, mas nem se quer conseguiu afastar o corpo de centímetros para longe do seu. Ela sabia que era muito mais forte que ela, então começou a socar seu abdome e o garoto se afastou.
- Tudo bem, eu já entendi! – disse ele rindo.
olhou para o espelho em cima da cômoda e começou a arrumar seus cabelos.
- Que bom que você entendeu. – ela podia ver atrás dela pelo reflexo do espelho – Será que a pizza já chegou?
abriu a porta do quarto e desceu as escadas correndo, logo foi seguida por e quando os dois adentraram a sala de estar. Ella sorriu vendo a felicidade dos jovens. A campainha tocou.
- Acho que agora é realmente a pizza.
sorriu e foi atender a porta.

Quando o sábado chegou a Redmont, a neve já se acumulava aos montes sobre várias partes da cidade. Meteorologistas afirmavam que a tempestade devia continuar durante o final de semana inteiro. Muitas festas foram canceladas, outras ficaram ainda mais interessantes e estava muito claro que meio metro de neve não seria capaz de impedir Caroline de ir à festa que tinha programado. Durante a semana, a garota ficou insatisfeita ao ver que e tinham voltado a se entender completamente, obra de Victoria, julgou. Mas o que mais decepcionara Caroline fora a atitude de Alex para com ela algumas horas mais cedo, o garoto tinha tido que não poderia ir à festa com ela e que ela também deveria ficar em casa. Irritada, Caroline colocou um vestido ainda mais curto e adentrou um táxi com um rumo a um dos subúrbios de Redmont. Enquanto Caroline dançava sem parar, Alex e Victoria estavam sentados nos balanços de um playground próximo a residência dos Summers.
- Eu sempre gostei do inverno. – Victoria resmungou encarando seus pés cobertos por botas protetoras contra neve – Não sei, algo nele me passa a sensação de que coisas boas estão chegando.
- A maior parte das pessoas acha o oposto.
Alex estava coberto com roupas de inverno que possuíam desenhos geométricos que pareciam dançar a luz branca que emanava do poste. Seu cabelo castanho estava coberto por um gorro azul, sua respiração fazia fumaça sair de seu nariz e suas bochechas estavam rosadas devido ao frio.
- O inverno me trouxe você. – Victoria voltou a olhar para seus pés.
- O inverno não pode trazer para você algo que sempre esteve com você.
Victoria sorriu e alguns cabelos ruivos influenciados pela estática invernal saíram de dentro de seu gorro. Alex sorriu e com um leve e singelo gesto de sua mão, arrumou os fios de cabelo da garota. Ele se aproximou mais de Victoria e beijou-a delicadamente. Não se sentia mal por não ter acompanhado Caroline a uma festa qualquer, ela estaria bem em qualquer lugar, mas Victoria precisava dele. Victoria precisava de alguém para lhe proteger e lhe dizer que ela ficava linda quando ficava vermelha porque estava com vergonha ou com raiva. Alex beijou a garota novamente. Victoria o lembrava quem ele realmente era. Victoria era uma espécie de cura para um doente sem esperança de vida.
- Sabe, você ficava muito engraçado com roupas de lã.
Alex sorriu.
- Você também, Vic.
- Achei que você fosse fazer alguma piada pela presença de roupas.
- Ah, você prefere uma dessas? Pois eu ainda sei fazer...
- Não, não. – Victoria levantou-se do balançinho e passou as mãos pelo rosto de Alex – Eu prefiro o Alex romântico ao garanhão.
- Os dois gostam de você, sabia?
- É mesmo?
- Sim. – Alex empurrou seu peso contra o corpo da garota e dois caíram no chão.
Victoria e Alex gargalharam. A neve estava fria, mas não incomodava tanto quando eles dois estavam tão próximos. Alex perdeu tempo demais de sua vida tentando evitar que Victoria se aproximasse e agora estava disposto a recuperar tudo aquilo que tinha perdido.

Higher than a motherfucker!
O salão inteiro explodia com o remix que o DJ tinha feito de Starships. Caroline estava dançando inconstantemente no meio de centenas de desconhecidos. Em sua mão havia um drink laranja e ela ficou furiosa quando um garoto derrubou o copo em seu vestido e saiu dançando de fininho para longe dela.
- Cuidado seu idiota! – gritou para ter certeza de que ele ouviria.
Não podia ficar com seu vestido sujo, tinha que limpar. Abrindo caminho pelo mar de pessoas, Caroline conseguiu chegar ao banheiro feminino. Dentro do banheiro, só havia uma garota terminando de vomitar e logo que Caroline entrou, a garota saiu. Mesmo dentro do banheiro a música ainda era audível. Caroline se encarou no espelho e viu que para quem já tinha dançado tanto, ela não estava completamente destruída. Limpou seu vestido com alguns lenços que tinha trazido dentro da bolsa e começava a reconstruir sua maquiagem quando ouviu alguém abrir a porta do banheiro e passar correndo para dentro das cabines. O drink não estava bom, tinha um gosto amargo extremamente atípico, talvez estivesse quente. O lápis de olho de Caroline escorregou de sua mão e caiu na pia e antes mesmo de Caroline baixar os olhos para ver onde o lápis tinha caído, sua visão já tinha começado a embaçar. Tudo bem, ela realmente tinha consumido algumas coisas que não devia, mas essa sensação de tontura tão forte nunca tinha acontecido com ela antes. Apoiou-se na pia e começou a caminhar em direção aos boxes. Sua visão estava completamente turva e a garota acabou tropeçando nos próprios pés e caindo próxima ao vaso sanitária do box. O drink realmente não estava bom, foi a última coisa que pensou antes de suas pálpebras fecharem-se completamente.
Quanto tempo tinha se passado? Um minuto, dois minutos, duas horas? Caroline não saberia dizer. Só sabia dizer que estava cansada e que não gostava da sensação de calor que percorria seu braço. Calor? Espantada, Caroline abriu os olhos e viu o liquido vermelho escapar levemente pelo seu ombro. Abriu a porta do box assustada e caminhou em direção ao espelho onde uma garota loura se maquiava. Não tinha muito sangue nos seus braços, mas uma estranha sensação de ardor percorria o local da onde o sangue escorria. A garota loura começou a encarar Caroline com um olhar estranho e apressadamente saiu do banheiro.
Caroline abaixou a aba do seu vestido e viu que havia um enorme corte na parte da frente de seu ombro. Não, não era um corte, eram várias cortes pequenos. A garota molhou a mão na pia e começou a lavar a ferida. À medida que o sangue ia sendo retirado, os cortes iam ficando mais visíveis e Caroline percebeu que eles adotavam um padrão estranho sobre sua pele. Colocou seu ombro mais próximo do espelho e percebeu que os cortes não seguiam um padrão, eles escreviam alguma coisa na sua pele. Letras. Tinham letras escritas na pele de Caroline. . Era isso que estava escrito na pele de Caroline e o mais assustador era que ela não conseguia lembrar de como essas letras tinham ido parar lá.

desceu as escadas do segundo andar para o primeiro. Ela tinha acordado com fome e não conseguiria dormir sem colocar alguma coisa descente no estomago. Andava com passos silenciosos e rápidos, passou pela porta da frente e chegou a cozinha. Tirou uma enorme bandeja de frutas da geladeira e caminhou para a sala. O controle da TV não estava perto da televisão e ela teve que procurar no escuro o objeto, mas antes de encontrá-lo, tomou um susto ao ver que alguém estava parado na porta da frente de sua casa.
correu até a porta e falou quase que em um sussurro:
- Caroline, você é maluca? O que está fazendo aqui?
- , me deixa entrar, por favor. – Caroline estava chorando e soluçando enquanto falava.
Mesmo com a fraca luminosidade, pode ver manchas de sangue no ombro da amiga. Abriu a porta e Caroline entrou rapidamente.
- Onde você conseguiu isso, Caroline? – apontou para o ombro da garota.
- Eu não sei e acredite, , essa não é a parte mais aterrorizante.

Capítulo 06 - Warning

Uma xícara de café fumegante pousou na frente de Caroline. Agora, com roupas mais quentes, protegida pelas paredes do quarto de e acompanhada por alguém em quem realmente confiava, ela se sentia melhor.
- Tudo que você me disse não faz o menor sentido, Caroline.
ainda estava atordoada com aquela história. Drinks e drogas? Desmaio no banheiro e depois o nome de aparece escrito no ombro de Caroline? Tudo muito bizarro.
- Foi exatamente isso que aconteceu. Ainda estou tremendo e nem sei como consegui chegar até aqui.
caminhou até a janela do seu quarto e encarou a janela de . Lá dentro, ele poderia estar dormindo perfeitamente e ronronando silenciosamente como um gatinho que espera ser atacado por uma tigresa, mas, a parte mais obscura – e talvez a mais lúcida de – insistia em lhe dizer que ele poderia ser o causador daquela brincadeira sem graça. O olhar de repousou sobre um arbusto que estava no meio da rua e por algum motivo, ela achou que tinha visto ele se mexer. Talvez fosse o vento, pensou.
- Eu posso dormir aqui? – Caroline perguntou.
- Nem que você quisesse ir para a sua casa eu deixaria.
As duas sorriram uma para a outra. e Caroline eram amigas apesar de tudo. Tinham seus pontos divergentes, mas jamais tentariam matar uma a outra.
- Bem – voltou a falar Caroline – se eu vou dormir aqui, quero ficar com o lado direito da cama.
- Eu já estava comemorando a deixa da velha Caroline, mas já vi que não posso contar com isso.
- Claro que não!
sorriu e adotou uma postura mais séria. Ainda não entendia os motivos que levaram Caroline a ser tão fria nos primeiros dias. Essa dúvida a perturbava, assim como seu relacionamento com e a sensação de que algo ruim estava para acontecer a qualquer instante.
- Caroline eu não entendo...
Mas fora interrompida pelo toque do celular da amiga. O objeto vibrava em cima da cama e Caroline olhou assustada para o display.
- Número desconhecido – disse.
- Algum garoto tentando fazer piada com você, ignore.
Caroline apertou o botão vermelho e voltou a prestar atenção em .
- Por que você foi tão fria comigo nas primeiras semanas?
Caroline parecia desconfortável. Ela não era boa em dar justificativas.
- , quando você foi embora, eu fiquei completamente só. Eu me perdi e...
Desta vez, Caroline é quem fora interrompida. O celular de vibrava em algum lugar na estante de livros. A garota lcaminhou pacientemente até o lugar procurando pelo aparelho e assim que o encontrou, viu que o número que ligava também era desconhecido.
- Alô. – resmungou ao telefone.
Do outro lado da linha, silêncio absoluto, mas logo o silêncio foi quebrado pelo som de uma respiração calma e compacta.
- Alô?
Insistiu ficando um pouco irritada, vendo que não haveria resposta, desligou o celular e voltou-se para a amiga.
- Era uma amiga do colégio, deve ter ligado por engano. – Caroline assentiu, mas parecia desconfiada – Você se perdeu e o quê mais, Caroline?
Depois de um longo suspiro, a garota dos cabelos castanhos prosseguiu:
- Eu estava perdida. Não sabia o que fazer e quando você voltou, eu não consegui não descontar a raiva em você e também...
O telefone fixo do quarto de soou dando um susto nas duas garotas. Enfurecida, correu para o aparelho e gritou:
- Quem é?
A linha permaneceu muda. Atrás de , Caroline levantou-se assustada. Depois de algum tempo bateu o telefone e puxou o cabo da linha telefônica. Ela encarou Caroline por um tempo, mas antes que pudesse falar, Caroline comentou:
- Era o mesmo número desconhecido que ligou para mim, não era?
concordou com a cabeça.
- Parece que as pessoas estão irritadas por nós duas estarmos juntas de novo. – disse ajeitando algumas mechas de cabelo.
- Será que nós podemos assistir televisão?
- Isso ainda te passa segurança? Desde criança quando você ficava amedrontada pedia para alguém ligar a televisão.
Caroline apenas sorriu e com um gesto, ligou a tv.

O domingo amanhecera ensolarado em Redmont. Entenda ensolarado como alguns raios de sol e muitas nuvens. Apesar do frio, a vida daquela cidade não podia parar nunca. A neve já se dissipava com o vento quente que varria as ruas da cidade. acordara cedo naquela manhã, sua mãe havia voltado para a casa durante a madrugada e pedira para ele lavar o carro se houvesse uma manhã um pouco mais quente. E eis que a manhã chegara, o garoto passava a esponja molhadas nas laterais do carro e acompanhava com os olhos a movimentação da rua. Logo cedo, avistara na janela do seu quarto, a garota mandou um beijinho para ele e mais tarde, recebeu um SMS dizendo que ela e Caroline viriam almoçar na casa dele. Os domingos de Redmont eram a pior parte. Depois do incidente anônimo no mural da escola, ninguém mais era capaz de olhar para ele com os mesmos olhos. Na escola, todos debochavam, nas ruas, todos se afastavam e ele jamais poderia fazer nada para mudar a opinião deles. Dentro de sua casa, o telefone tocou. caminhou até a porta, mas decidiu que teria que tirar sua camisa para não encharcar todo o carpete da sala. Depois disso, adentrou o recinto e levou o aparelho ao ouvido.
- Olá.
- ? – a voz feminina no outro lado da linha perguntou.
- Sim, quem está falando?
- Victoria. Preciso falar com você e .
- Algo sério? – perguntou o garoto começando a ficar um pouco preocupado.
- Não, só tenho algumas noticias boas para dar.
- Caroline e virão almoçar aqui mais tarde, você poderia vir, tudo bem?
Victoria pensou um pouco no que responder até que, por fim, disse:
- Tudo bem. Eu levo a sobremesa, ok?
sorriu.
- Ok, Victoria. Até.
O garoto desligou o telefone e voltou para frente da casa. A movimentação na rua estava ficando mais agitada. Pegou o pouco de água que ainda restava no balde e despejou-a sobre o veículo. não percebeu que Tyler estava se aproximando do carro e levou um susto quando viu o garoto atrás dele.
- Ei cara, você me assustou!
- Desculpa, não queria fazer isso.
Ele voltou a limpar o vidro do carro enquanto Tyler se sentava na escada da casa dos e observava continuar o serviço.
- Então – começou para puxar assunto com o garoto – você avisou para Miranda que estaria aqui?
- Não, mas ela vai me achar logo.
- Ah, sim. – falou vagamente. Pelo visto o garoto não era de falar muito – E está animado para o Dia do Fundador? Já é nessa semana.
Tyler encarou vagamente o céu, como se estivesse procurando alguma explicação para um problema que só ele conseguiria compreender, o que era muito maduro para sua idade. Como se estivesse voltando para a realidade, respondeu a pergunta de :
- Não gosto do dia do fundador.
- Por quê?
- Odeio fantasias e, principalmente, as peças que as pessoas pregam nas outras.
observou que o balde estava vazio e ligou a mangueira para enche-lo.
- Peças? Que tipo de peças?
A mangueira não estava liberando a água. se perguntou se o tanque no qual a mangueira estava ligada não estaria vazio. Sacudiu o objeto rapidamente. Tyler apenas encarou tudo curiosamente. Depois de uma segunda sacudida, o objeto lançou um jato de água vermelha no rosto de . Assustado, o garoto deixou que a mangueira caísse e o carro foi sujo do liquido que agora jogava bolas vermelhas para fora. correu até o tanque e a água do mesmo encontrava-se suja de, aparentemente e pensando na melhor das possibilidades, tinta vermelha. Inverteu a pressão da água e esperou que o tanque esvaziasse.
- Esse tipo de peça. – falou Tyler aparecendo subitamente perto de .
sorriu nervosamente.
- Eu vou ter que lavar o carro novamente, pelo visto.
- Vou ajudar você, afinal, você está namorando a minha irmã.
sorriu e até recusaria a ajuda em condições normais, mas Tyler já caminhava com um balde cheio de água limpa até o automóvel.

Durante o restante da manhã ouviu todo tipo de comentário sobre o Dia do Fundador. Casas que foram atacadas por papel higiênico, vidros quebrados, muros pichados, ovos sendo atirados em desconhecidos na rua e centenas de baldes de tinta eram jogados em ruas e carros aleatórios pela cidade. Isso não deveria ser considerado perturbação da ordem pública? Em Redmont não, aparentemente, os moradores já estavam acostumados com as brincadeirinhas do Dia do Fundador e olha que ele só aconteceria na próxima semana...
Antes mesmo das 11:30 da manhã, e Caroline já estavam batendo na porta da casa de . Caroline, a principio, desconfiara que fosse quem tinha atacado ela na festa, mas essa suspeita foi logo descartada quando soube que ele estava com no momento do incidente (o que não era verdade, mas tinha dito apenas para evitar que Caroline criasse mais algum tipo de implicância com ) mesmo assim, ela ainda ficava arrepiada só de pensar na ideia de se aproximar do garoto.
A porta se abriu e um sorridente e receptivo cumprimentou as garotas. sorriu e deu um rápido beijo nos lábios do namorado, se é que já podia chamá-lo assim.
- Então, o que teremos para o almoço? – perguntou agindo receptivamente.
- Coisas indigestas. – disse Caroline colocando sua bolsa sobre a mesa no centro da sala e sentando-se na poltrona mais distante.
- Desculpe, Caroline, mas eu não ouvi...
- Não foi nada. – disse sorrindo nervosamente.
- Bem, vou procurar a agenda telefônica para ver o que vamos pedir para comer, tudo bem?
Com um movimento rápido, o garoto saiu da sala e subiu as escadas para o segundo andar. Assim que ele deixara o recinto, começara a falar.
- Caroline, assim não.
- , ele já adiou demais. É hora de responder algumas perguntas. Você não acha que isso já está ficando sério?
- Você nem sabe quem fez isso com você e você! Você estava...
- Drogada? – perguntou Caroline com sarcasmo explicito na sua voz – O amor está cegando você para as possibilidades.
- Do que vocês estão falando? – perguntou que voltava com um livro azul na mão.
- Da sua casa. – respondeu Caroline – Muito linda, quero dizer, sua mãe fez belas mudanças por aqui ou talvez sejam os novos moradores...
Caroline olhou com falsa cobiça para que retribuiu com um olhar de quem não tinha entendido muita coisa. suspirou.
- Já viu quais são nossas opções para o almoço? – perguntou tentando mudar o foco da conversa.
- Eu pensei em comida mexicana. Gosto de coisas apimentadas. O que você acha, Caroline?
Caroline virou-se e sorriu em concordância.
- Comida mexicana seria uma maravilha. – E um belo prato de verdade poderia vir de acompanhamento, senhor? Pensou em perguntar se podia pedir isso também.
- A sobremesa! – suspirou – Eu adoraria...
- Victoria irá trazer – disse interrompendo a namorada – Ela me ligou de manhã e disse que precisava falar conosco.
Caroline bufou.
- Maravilha!
Se o clima já não estava bom com apenas eles três, piorou ainda mais quando Victoria e Alex – que ligou para dizendo que também viria, pois também tinha algo importante para falar – chegaram. Na mesa da cozinha, só se ouvia o bater de colheres e garfos e o barulho que o pote de queijo derretido fazia ao passar de mão em mão pela mesa. Desconfortável, era essa a palavra que definia perfeitamente aquele ambiente.
- Você e Alex disseram que tinham coisas importantes para falar, Victoria.
Caroline sorriu debochadamente, incentivou a amiga a falar e Alex apenas sorriu contentíssimo para Victoria.
- Sim – disse a garota ruiva – Alex e eu temos uma atualização importante para fazer.
Como ninguém falou nada, Victoria prosseguiu.
- Estamos oficialmente namorando.
e sorriram amigavelmente, mas Caroline continuou concentrada no seu prato. Alex se levantou e deu um beijo no rosto de Victoria.
- Mas – a garota empurrou Alex para longe dela – as coisas boas não param por aqui. Vocês sabem que, todos os anos, Redmont faz uma festa na floresta em homenagem ao vilarejo onde os fundadores moravam. Eu consegui três chalés para que possamos passar a noite lá.
levantou-se de seu lugar na mesa.
- Isso é maravilhoso, Victoria.
Caroline largou estrondosamente o prato no qual estava comendo em cima da mesa.
- É maravilhoso, Victoria – começou Caroline – Mas acho que já chega de ignorar que algo está acontecendo por aqui e você – ao dizer isso, apontou para – nos deve respostas.
Todos que estavam na mesa ficaram calados. sabia do que Caroline estava falando, mas, intimamente, não queria estragar o almoço de domingo com assuntos que não eram agradáveis para a digestão.
- Caroline, você não pode dizer que algo está acontecendo com base nas poucas evidências que você tem. Afinal, metade das coisas que aconteceram levam as suspeitas para você.
Caroline acenou com a mão como se Victoria tivesse dito alguma coisa maluca. Com um gesto rápido, abaixou a parte da sua blusa que cobria seu ombro direito. Ninguém falou nada, não havia o quê falar, agora a raiva de Caroline era completamente compreendida.
- Onde você...
Ia perguntar , mas Caroline o calou com uma frase que saiu rápida como um tiro.
- Na festa de ontem à noite e não, eu não acho que tenha sido você quem fez isso. Embora isso não signifique que gosto de você.
Mais silêncio na mesa, mais tensão. Caroline recomeçou a falar.
- Existem mais coisas para serem ditas, eu tenho certeza. E todas essas coisas começam com você, . Não acha que já é hora de falarmos da sua ex-namorada defunta? Pois pelo visto alguém resolveu trazer os mortos a vida.
prendeu a respiração.
- Eu não matei Selena, Caroline, se é isso que você quer saber.
- Detalhes, por favor. – Caroline estava decidida a descobrir quem era o idiota por trás das brincadeiras sem graça.
- Eu não lembro de muita coisa, para não falar de quase nada. Tínhamos ficado um pouco bêbados e estávamos indo para uma festa. Eu deixei Selena sozinha no carro para comprar comida em um fast food e quando voltei... Não consigo lembrar, só lembro de acordar na clareira e o carro ter desaparecido.
- A policia não acredita nessa versão da história. – disse Victoria soturnamente – E também não é fácil acreditar quando você atira o carro em um córrego.
- Eu não atirei o carro no córrego, eu nem sei o quê aconteceu com o carro. – gritou – Eu amava Selena, mas não iria para a cadeia por um crime que não cometi.
- Muito inteligente – disse Caroline sarcasticamente.
e Alex apenas acompanhavam a conversa, embora, por diversas vezes, tenha sentido a vontade de intervir nas palavras rudes de Caroline, mas aí ela se lembrava que não era ela quem tinha o nome de escrito no ombro.
- Eu estava bêbado, perturbado e não sou nenhum especialista em se livrar de cadáveres. Eu nem lembro o que aconteceu naquela noite! Você não imagina o quão doloroso tudo isso foi para mim.
- Ele tem razão, várias pessoas tomam atitudes estúpidas quando estão sob pressão. Você disse que muitas coisas aconteceram, Caroline. – disse Victoria, revertendo o alvo da discussão – Que tipo de coisas?
- Alguém telefonou de um número desconhecido para todos os telefones da minha casa. Coincidência? Acho que não, a pessoa sabia que Caroline tinha chegado.
Fora quem respondera. Sua voz estava calma, mas uma ponta de desespero se formava à medida que as coisas iam se encaixando.
- Alguém fez uma pequena cena sangrenta essa manhã enquanto eu lavava o carro, mas era tinta vermelha. Achei que fosse alguma brincadeira do Dia do Fundador, mas já vi que não. – falou que também decidiu atirar os panos na mesa.
- E vocês dois? – Caroline foi incisiva – Aconteceu alguma coisa com vocês?
Alex respondeu imediatamente que não, mas Victoria pareceu considerar dizer alguma coisa, porém no fim disse que nada havia acontecido.
- Melhor ficarem alertas. – disse Caroline se levantando da mesa – Vocês dois devem ser os próximos se existir uma lógica nessas brincadeiras.
- Alguém teria algum motivo para fazer isso com você, ? – perguntou Victoria.
- Toda Seattle, talvez. Metade daquele lugar queria minha cabeça numa bandeja pelo crime. Selena era muito conhecida e poucas pessoas não gostavam dela.
Caroline saiu da cozinha e caminhou até a sala de estar, mas parou no meio do caminho ao notar um fato curioso. A porta da sala estava aberta.
- , você lembra de ter deixado a porta aberta?
- Não, assim que Victoria e Alex chegaram, eu fechei a porta.
- Acho que não fechou. – disse Caroline saindo da casa. – Foi ótimo ter almoçado com vocês, embora eu ache que vocês ainda têm muitas coisas para dizerem.
Alex, Victoria, e ficaram parados na sala de estar. Caroline tinha razão algumas coisas ainda não tinham sido ditas. Ainda existiam muitos segredos entre os cinco garotos e alguém estava se aproveitando destes segredos. Infelizmente, a situação teria que se agravar para que eles se tornassem espertos o suficiente para saberem com quê estavam lidando. O ser humano não se deixa desesperar verdadeiramente até que haja um motivo real para se desesperar.

***

- Você vai para a festa do Dia do Fundador, não vai?
Perguntou Victoria para Alex na manhã seguinte enquanto estavam sentados no refeitório na hora do intervalo.
- Ainda não sei.
- Alex, você precisa ir! Todos nós precisamos... Vai ser a melhor festa que já tivemos por aqui.
Caroline, e se juntaram aos outros dois na mesa.
- Nem pense em recusar o convite. – disse Caroline – Além de a festa ser boa, acho que será um bom momento para descobrirmos quem está brincando com a gente.
- Bem pensado. Seja quem for que está por trás disso tudo, vai estar lá e nós estaremos prontos. – disse examinando as possibilidades com alguns pensamentos mirabolantes.
Alguns garotos próximos à mesa na qual eles estavam sentados não paravam de olhar para Caroline e dar risadinhas estúpidas.
- Algum problema? – perguntou Caroline que, propositalmente, usou um tom de voz mais alto que o normal.
- Se você tiver algum problema, posso ser a solução. – respondeu o garoto mais forte. Aparentemente, todos eles faziam parte do time de futebol americano da escola.
- Se você fosse à solução – respondeu Caroline – eu preferiria ser problemática.
- E você prefere o assassino incompetente para solucionar seus problemas? Irônico isso. – quem respondera fora outro dos garotos daquela mesa.
Caroline estava pesando no que responder, mas o garoto fora mais rápido.
- Todo mundo da escola já sabe que você riscou o nome do cara aí – e fez um gesto com a cabeça que indicava – no seu ombro.
Alex pulou da mesa na direção do garoto, mas Victoria e Caroline puxaram-no pela camisa.
- Mais uma palavra e você não vai jogar futebol americano nunca mais.
Os garotos da outra mesa começaram a rir. Alex tentou avançar mais uma vez, mas desta vez o puxou para longe da mesa.
- Vamos, não temos que ouvir o que esses idiotas falam.
arrastou Alex para fora do refeitório e foi seguido pelas meninas. Caroline bufou de ódio quando chegaram à porta do salão.
- Eu não acredito que o “seja lá quem for” fez isso.
- Devíamos contar ao diretor. – sugeriu Victoria.
- Claro, Vic! Aí ele aproveita para chamar minha mãe e dizer que ganhei uma cicatriz no ombro, mas não sei como, pois estava drogada demais para distinguir qualquer coisa que estivesse acontecendo comigo.
O celular de Caroline vibrou e ela ficou ainda mais irritada quando terminou de ler o que estava escrito.
- Vejam isso! – disse a garota.
Na tela do celular havia um SMS escrito: “Vejo vocês na festa! (:”
- Essa festa, pelo visto, vai ser muito interessante.
caminhou em direção a saída do corredor e logo foi seguida pelos outros. Precisavam derrotar o inimigo de uma vez só, afinal, essa era uma das táticas de guerra mais velhas da humanidade.

Capítulo 07 - Party masks and a red bloody dress

Dois Dias Antes

Um galho quebrou o silêncio que a floresta emanava sobre o lugar. O homem que estava sentado na mesa rapidamente se virou em direção a fonte do barulho. Não havia nada lá, mas havia centenas de pessoas andando por aquele lugar. Engenheiros, decoradores, cozinheiros, pessoas trabalhando nas vendas e nos hotéis. Tudo isso para a comemoração do dia do fundador que só ocorreria dois dias depois. Suspirou cansado, estava trabalhando pelo terceiro dia seguido e não fazia ideia de como as pessoas conseguiam deixar tudo pronto tão rápido. É claro que não tinham começado a trabalhar na semana passada, pelo contrário, trabalhavam nisso há quase dois meses e o número de profissionais que por ali passavam era tão grande que ele sempre confundia a Célia do refeitório com a Maria da limpeza... Ou era o inverso?
Outro barulho no meio da floresta que rodeava o lugar, mas o homem mal teve tempo para se virar para conferir o que era, pois seu chefe estava caminhando em sua direção.
- Você resolveu o problema com o encanamento da pousada? – perguntou o homem que aparentava ter mais de quarenta anos.
- Sim, só que aconteceu um pequeno problema. – não houve reação do chefe, por mais que isso fosse esperado – A chave mestre dos chalés desapareceu enquanto os encanadores resolviam o problema.
O mais velho pareceu um pouco indignado, mas assim que o primeiro choque passou, voltou a falar.
- Você...
- Sim, senhor. – interrompeu – Já fiz uma cópia da chave, perdoe o descuido.
- Menos mal. Volte ao trabalho, rapaz. Se continuar sentado nessa mesa, eu mesmo me encarregarei de demitir você.
O funcionário se levantou com um salto e foi se juntar aos outros. Não muito longe dá li, há apenas poucos quilômetros, alguém caminhava felizmente pela floresta carregando a chave mestre perdida. Não era bem uma chave, era um cartão que permitia o acesso a qualquer área da Vila dos Fundadores. Essa pessoa tinha certeza de que o feriado seria muito divertido.

Atualmente

Alex deu a volta na mesa que se estendia por todo o salão principal. Ele usava um terno muito antigo e requintado, daqueles que príncipes devem ter usados gerações atrás para irem a festas mais comuns, afinal, roupas da realeza seriam muito mais extravagantes e ele detestava extravagância. Alex podia detestar extravagância, mas nem todas as pessoas que estavam por ali concordavam com ele. Uma mulher tinha passado ao seu lado com uma peruca branca de pelo menos meio metro de altura. Vestidos floridos, vestidos gigantescos e com caudas que vinham meio quarteirão atrás da pessoa que o usava. O contador na parte mais alta do salão dizia que esperavam pelo menos 9.000 pessoas para os dois dias de evento. Redmont era uma cidade tão antiga que surgiu durante a Era do Bronze e, logicamente, por esse e outras centenas de motivos recebia visitantes de todas as partes do planeta, mas a taxa de visitantes nunca era tão alta quanto durante a festa de fundação.
A Vila dos Fundadores – que na verdade era apenas uma réplica da Vila Original – era praticamente um parque temático com centenas de coisas para fazer e tinha direito até a um mini shopping que se localizava no coração do lugar. Era um monumento colossal cortando a floresta.
- Achei que não fosse achar você no meio de tantas pessoas.
Alex virou-se rapidamente e se deparou com Victoria. Ela usava um vestido renascentista com diversas camadas que tinham tons rosa que variavam com a luminosidade, apenas uma ilusão de ótica, mas tudo era muito lindo.
- Você está maravilhosa!
Ele se aproximou e puxou Victoria em direção ao seu peito deixando um pequeno beijo sobre seus lábios. A garota sorriu e a cena ficou ainda mais ilustre quando centenas de fogos de artifícios violeta foram lançados ao céu.
- Você viu e ? – perguntou a garota ruiva.
- Disseram que iam procurar bons lugares para se divertir. Um eufemismo, para mim.
Victoria sorriu.
- Será que é tão difícil manter sua mente isenta de qualquer perversão?
- Que foi? – perguntou Alex inocentemente.
As pessoas continuavam passando perto dos dois, eles se viraram para encarar a multidão quando viram e descendo a escadaria de mármore que dava entrada para o salão.
- Vocês precisavam ver a réplica do castelo de Vicent que eles fizeram, ficou perfeita. - disse se aproximando. Ele usava uma roupa muito parecia com a de Alex, embora possuísse tons mais azulados que acentuavam o brilho dos seus olhos.
se posicionou ao lado de seu namorado, ela usava um vestido camponês vitoriano o que, nem longe, significa simplicidade. Tinha uma cor bege e se ajustava perfeitamente aos contornos do corpo da garota, mas não apertava demais e deslizava levemente quando ela caminhava, no topo de sua cabeça, usava um diadema prata com pedras brancas.
- tem razão – incentivou – é realmente esplêndido.
- Então, iremos todos lá assim que acharmos Caroline. – disse Alex sorrindo.
- Caroline disse que não deveríamos esperar por ela. – notificou e fez um sinal de aspas para a frase que se seguiu – Pois seu vestido era tão maravilhoso que levaria um tempo para que os mortais se adaptassem a imagem.
Todos riram. Essa era uma típica frase “carolinesca”. De qualquer forma, decidiram esperar Caroline e se digiram para o outro lado do parque, onde tinham músicas mais contemporâneas e menos pessoas mais velhas – e menor regulamento também. Alex e foram à frente, mas puxou Victoria para que elas pudessem conversar um pouco enquanto caminhavam.
- Estou me sentindo com uma daquelas marcas de tiro ao alvo nas costas. – disse a amiga.
- Nem me fale. Para mim, a qualquer momento alguém vai sair do meio da multidão com uma espada na mão e irá nos atacar.
Nesse momento, um rapaz passou com uma espada dourada nas mãos, o que fez as duas garotas, instintivamente, darem dois passos para trás.
- Tudo bem. – disse se recompondo – Nem há um motivo real para termos medo. Foram só algumas mensagens e o pior que essa pessoa pode fazer é...
- Eis a questão – disse Victoria passando a mão pelos cabelos – não sabemos o que é o pior que essa pessoa pode fazer, mas, por hora, vamos apenas aproveitar a festa. Afinal, como você disse, não temos certeza de nada.
Victoria pegou seu celular e pareceu checar as horas por um instante, então, sorriu e puxou pelo braço para que elas andassem mais rápido.

21h47min, Caroline

Caroline tirou o vestido preto decotado de dentro da pequena mala que trouxera para o chalé sete. Seu plano era parecer um espírito agourento terrivelmente sexy naquela noite. O mito dos espíritos agourentos não tinha se popularizado durante a Idade Média? Sim, ela estava convicta que seria a fantasma mais bonito da noite.
Caminhou até o banheiro do chalé, despiu-se completamente começou a tomar uma longa ducha com água quente. Extremamente sorridente, Caroline se secou e saiu do banheiro pronta para se vestir.
Infelizmente, alguém tinha outros planos para sua festa. Ao entrar novamente no quarto, verificou um embrulho desconhecido em cima da cama. Passou os olhos pelo recinto e notou que o embrulho não era a única coisa anormal ali, seu vestido também sumira. Correu só de toalha até a porta do chalé e alguns garotos que passavam começaram a assoviar para a garota que com um gesto obsceno trancou a porta e, furiosamente, tirou a tampa da caixa que estava em cima de sua cama. Um bilhete estava em cima do que quer que estava embrulhado pelo papel seda e dizia “Não esqueça que espíritos agourentos também usavam branco. Você ficará muito linda neste também.”.
Dentro da caixa, um longo vestido exatamente igual ao vestido preto estava guardado cuidadosamente. Os vestidos só se diferenciavam em uma coisa: a cor. Enquanto o vestido original que Caroline designara para aquela noite era preto como a noite, o vestido que aparecera em sua cama era branco como a neve. Ela deu uma risadinha afetada e, sabendo que não teria mais o que usar, vestiu a roupa que havia sido deixada para ela. Afinal, branco realçava a cor de seus cabelos e de seus olhos. Além disso, nada melhor que passar a sensação de que tudo está saindo como o previsto para o inimigo para, só então, atacar.

22h:02 min

- Espera aí, seu vestido era preto! – disse que largara na pista de dança enquanto se aproximava de Caroline.
Os acordes de Under Cover of Darkness ainda ecoavam pela sala e centenas de pessoas continuavam dançando.
- Jogaram alvejante nele. – brincou Caroline.
não sorriu. Contrariada, Caroline contou tudo que acontecera a e assim que terminara, se aproximou com três copos de um drink púrpuro.
- Aceitam? – disse ele estendendo os copos para as garotas.
pegou o copo, mas Caroline acenou com a mão dispensando a bebida.
- Não, acho que já bebi coisas demais para uma vida só.
Caroline passou os olhos pelo salão, onde milhares de pessoas rodopiavam. Sentiu-se solitária e, com um aviso curto, disse a que iria dar uma volta. Decidiu que o melhor a fazer era procurar um dos barzinhos agradáveis que estavam na região, não precisou andar muito. Logo estava de frente para um pub relativamente aconchegante com karaokê. Ela reconhecia o lugar perfeitamente, fora ali que há dois anos ela e tinham feito sua primeira “apresentação musical” para o público. Riu ao se lembrar da situação.
A música que embalava o clima soturno do bar era Starring Role. Grande coincidência, pensou Caroline, a letra falava muito de sua personalidade. Pediu algumas coisas para comer e sentou-se a mesa mais próxima do canto esquerdo do local.
- It almost feels like a joke to play it out the part when you’re not the starring role in someone else's heart. – cantarolava tão concentradamente que nem percebeu quando um estranho puxou uma cadeira da mesa e sentou-se ao seu lado.
- Essa música agrava o sentimento de solidão, não é mesmo?
Caroline se virou e encarou o rapaz que havia sentado ao seu lado. Já tinha visto ele, possivelmente pelos corredores da escola. Trajava roupas de esgrima com uma camisa em gola V que mostrava um pouco de seu peito escondido por baixo da camisa. Era bonito, possuía cabelos negros e olhos verdes que inspiravam uma sensação de confiança que não deveria ser passada tão firmemente para ninguém.
- Ah, eu tenho boas lembranças daqui, apesar de tudo. – replicou para o garoto.
- Quem não tem? – perguntou ele insistindo em manter uma conversa sadia com a garota. Após um período curto de silêncio, prosseguiu – Sou Arthur e você?
- Caroline.
Caroline cumprimentou o garoto e o toque da mão dele na dela fez seu corpo inteiro estremecer.
- Eu costumava me recusar a vir esses eventos. Quero dizer, quando sua família os produz...
Caroline serviu-se do chá gelado que o garçom acabara de colocar em cima da mesa. Comeu alguns biscoitos e adicionou:
- Você é Arthur Rivers, não é?
- Não diga isso alto o suficiente ou começarão a pedir que eu diga ao meu pai que querem um aumento de salário.
Caroline sorriu e Arthur também. Ele tinha uma réplica de uma espada pendurada a sua cintura, mas parecia tão real que quando o garoto deixou-a sobre a mesa pode até sentir a lâmina vibrando ao entrar em contato com a madeira.
- Você mora em Redmont, Caroline?
- Sim. – respondeu Caroline passando os olhos da espada para o garoto – Não que eu goste tanto assim de lá, mas moro.
- Engraçado, não me lembro de ter visto você em qualquer lugar da cidade.
- Você não deve sair muito. Quero dizer, você deve estar se preparando para cuidar de todos os negócios da família e tudo mais.
Arthur assentiu tristemente, mas logo voltou a sorrir. Caroline perdeu a hora de quanto tempo mais eles levaram conversando sobre coisas bobas. Gostos musicais, sonhos, mas Caroline mais ouvia coisas de Arthur do que falava de si mesma. Ele era um rapaz interessante e a conversa dos dois só foi interrompida quando o celular de Caroline vibrou sobre a mesa. Uma nova mensagem era o aviso que exibia a tela do aparelho. Arthur olhou para Caroline com curiosidade, mas ela não tirava os olhos do celular que apoiava na palma de sua mão. Caroline levantou-se da mesa bem no momento em que os fogos de artifício foram soltos e tentou se despedir de Arthur brevemente, mas o barulho a impediu. Ela saiu correndo de dentro do lugar, Arthur tentou segui-la, mas com tantas pessoas caminhando na ruela ele acabou perdendo a garota. Não sabia seu sobrenome. Caroline havia sumido e talvez para sempre.
Há alguns metros daquele lugar, Caroline olhava para a tela do celular. “Vocês deveriam me caçar, mas sou eu quem está caçando vocês. Quanto mais gente envolvida melhor, que tal correr para avisar os outros, Caroline?”. Precisava achar e , mas onde eles dois estariam? Quando passou pela praça do centro da vila, Caroline nem percebeu que o relógio marcava quase 23h00min.

e , 22h: 27 min.

fechou a porta atrás de . O chalé que Victoria havia alugado para eles dois era aconchegante e ele e sua namorada estavam cansados de andar. encarou a janela de vidro que ficava na parede próxima a porta. Lá fora, as pessoas se divertiam e bebiam tanto que nem seriam capazes de se lembrar o que estiveram fazendo ali, apesar de toda essa energia de festa, não podia ignorar o nó que vinha se formando no seu estômago a noite inteira. Ela sentiu se aproximar e passar a mão ao redor de seu corpo. Ele beijou seu pescoço suavemente e foi fazendo movimentos circulares pela região, se virou e beijou avidamente os lábios do garoto.
- Talvez devêssemos procurar os outros.
Disse , mas à medida que beijava ela achava essa ideia cada vez mais boba. Eles dois se afastaram da janela e caminharam em direção a cama, mas quando empurrou sobre ela, a garota parou e estremeceu quando viu por apenas um segundo um vulto parado encarando a janela. Sentindo o estremecimento de , perguntou:
- Tudo bem, ?
- Eu só achei que tinha visto alguém na janela. – falou sorrindo nervosamente.
caminhou até a janela, olhou para os lados e fechou a cortina. Voltou para a cama e continuou a beijar . Intimamente, a garota sabia exatamente aonde tudo aquilo ia terminar, mas não se sentia em condições de ter qualquer tipo de relação com . Não agora, pelo menos. Entretanto, ela parecia tão concentrado em fazê-la feliz que ela não podia dizer não para o garoto. Ele estava tão lindo naquela roupa e ela sabia que se fosse esperar por chance melhor que aquela, eles provavelmente levariam um tempo até encontrá-la. Ela passou as mãos pelos cabelos do garoto que respondeu ardentemente ao toque apertando o corpo de contra o seu. Com um reflexo rápido, arrancou a primeira camisa de e começou a desabotoar calmamente os botões da segunda. Ele sorria para ela e ela retribuiu com uma piscadela galanteadora. Quando terminou de abrir a camisa do garoto, pode ver o corpo de que também era um dos muitos atrativos que o garoto tinha para oferecer. Ela admirou o peitoral digno de estátuas gregas que tinha, também reparou que ele tinha algumas pintinhas pelo local assim como possuía várias no pescoço. puxou para perto dele e continuou a beija-lá, suas mãos delicadamente caíram sobre os laços que estavam embaralhados no vestido de . Um a um, ele começou a soltá-los com um pouco de dificuldade, mas no fim acabou conseguindo. O vestido de soltou-se, mas ficou preso na sua cintura. Ela enrubesceu por se sentir tão exposta.
- Você é mais linda do que eu imaginava.
beijava carinhosamente. Ele agarrou pelas pernas e sentou-a no balcão da mini-cozinha que o chalé tinha. As mãos dos dois explorando o corpo um do outro, a língua em uma dança frenética que fazia querer se afogar na infinidade azul que eram os olhos de . A estática percorria os corpos dos dois e a qualquer instante, eles sabiam que o ato se tornaria ainda mais particular. A qualquer momento...
A campainha do chalé soou fazendo os dois voltarem para a realidade.
- Ignore. – resmungou que não planejava soltar .
- !
Imediatamente reconheceu a voz de Caroline. se separou da garota que correu para o banheiro para se arrumar. colocou uma camisa, mas não se deu o trabalho de fecha-lá. Correu até a porta e abriu-a. Caroline encarou o garoto por um segundo, como se estivesse procurando alguma coisa que deixou passar batida.
- Oi, Caroline. – disse que estava lutando para esconder alguma coisa entre as pernas.
- Onde está ? – perguntou já adentrando o chalé.
- Ela está...
- Bem aqui. – disse aparecendo no único aposento que o Chalé tinha e implorando com os olhos para que Caroline poupasse perguntas, pois ela tinha acabado de bater os olhos sobre a cama desarrumada.
- Vocês não fizeram nada de mais, fizeram?
- Não. – responderam e em uníssono.
Caroline encarou os dois e soltou um profundo suspiro. Com um movimento simples e rápido, tirou o celular de algum lugar de dentro da bolsa que carregava e passou para os dois. Eles encararam o aparelho por um tempo, foi a primeira a se manifestar:
- O que você acha que significa?
- Significa que devemos encontrar Alex e Victoria. – concluiu .
- Tirou as palavras da minha boca.
Disse Caroline que já se adiantava para sair do chalé, os garotos vinham logo atrás. Ao saírem, surpreenderam-se, pois uma ventania assolava o lugar fazendo folhas e tudo que fosse mais leve voar para todos os lados. Muitas pessoas já se dirigiam para o hotel ou para os seus chalés. Estava ficando frio, talvez houvesse neve, mas essa ventania só podia significar que uma tempestade se aproximava. Antes mesmo dos garotos alcançarem a parte da vila que estava mais animada, as primeiras gotas de chuva já caiam do céu.

Alex, 23h:00min

Alex pediu mais uma bebida para o garçom. Victoria tinha saído há mais de 10 minutos e ainda não tinha retornado. Ele até teria ligado para ela se seu celular não tivesse ficado dentro da bolsa dela.
Encarou o céu que tinha nuvens escuras se aproximando e se perguntou onde estariam os outros amigos. Em outras partes da festa, respondeu para si mesmo. Sua atenção foi distraída por uma garota que sentou do seu lado e pediu um Cosmopolitan para o garçom. O drink combinava com seu vestido. Assim que o garçom deixou o copo na frente da garota, ela tomou tudo em poucos goles e pediu outro.
- Calma aí, moça. Assim você vai acabar fazendo algo que não quer.
A garota esquadrinhou Alex com o olhar e por um momento, ele achou que ela fosse ser agressiva, mas sua voz saiu sedutora e calma quando ela falou.
- Se essa coisa for com você – apoiou sua mão próxima à virilha de Alex – eu adoraria.
- Desculpe. – ele tirou a mão da garota de sua perna – Eu tenho namorada.
Ela sorriu tristemente e pediu desculpas. Alex continuou analisando a garota, ela não fazia o tipo que estava bancando e não precisou esperar muito para que ela começasse a falar.
- Eu não devia ter feito isso, me desculpe. É que eu só estava tentando me divertir, nem sei se ainda lembro como se faz isso.
Alex sorriu.
- Você parece muito “empenhada” em se divertir. – e com uma pausa, continuou – Sou Alex Summers e você?
- Mary Valley. – disse a garota sorrindo.
- Então, Mary, o que faz você procurar diversão a todo custo?
A garota tomou o primeiro gole de seu terceiro cosmopolitan quando continuou a falar.
- Minha família. Estamos passando por uma série de problemas e eles insistem para que eu aproveite esse final de semana, sabe? Eu adoraria, mas é difícil encontrar alguém que realmente me interesse.
- Entendo perfeitamente... Mas se você sabia que não se divertiria aqui, por que veio?
- Eu tinha esperanças de estar errada. De que alguém estaria aqui e me ajudaria a lidar com meus problemas, não que câncer tenha cura, mas...
- Você tem câncer? – perguntou Alex um pouco assustado.
- Não, minha mãe tem.
Até a música fez silêncio por um tempo depois da afirmação de Mary. Os dois se calaram e observaram a multidão fantasiada enlouquecer ao som de algum hit de verão.
- Eu sinto muito. – disse Alex tentando parecer o mais sincero possível.
Mary não voltou a falar e sabendo que permaneceria calada se ele não insistisse da conversa, Alex continuou:
- Bem, você está aqui para se divertir, certo? Então vem...
Alex começou a puxar Mary para a pista de dança, mas a garota se recusava e ele teve que carrega-lá até lá.
- Uma dança não vai matar ninguém!
- Tudo bem, Alex Summers. Eu aceito dançar com você.
Eles dois caminharam para a pista e começaram a rodopiar e fazer movimentos sincronizados. Mary era uma boa dançarina, Alex nem tanto. Os dois estavam tão distraídos que nem perceberam quando o fraco chuvisco que caia engrossou e fez com que todos saíssem correndo para a área coberta do salão.
- Melhor irmos, Mary.
Mary concordou, mas parou ao perceber que alguém encarava os dois no meio da chuva.
Victoria não sorriu ao se aproximar, a chuva havia destruído o penteado que ela estava usando e seu vestido estava sujo de terra. Ao longe, mais três vultos eram vistos se aproximando.
- Vic, onde você esteve? – perguntou Alex correndo em direção a namorada.
Victoria não respondeu. Ela apenas continuou parada como uma estátua no meio da chuva.

Todos, 23h:42min

Caroline, e tinham acabado de alcançar Victoria e Alex quando Victoria começou a falar.
- Vocês falaram com alguém mais durante essa noite?
- Com centenas de pessoas. – disse – Com o barman, alguns amigos e com gente que eu nem lembro mais o nome. Por quê?
Victoria continuou calada, em seguida meteu a mão na bolsa e puxou um papel que apesar de molhado, ainda era legível: Todos os envolvimentos terminam a meia noite.
Automaticamente, todos olharam para o relógio que dizia que faltavam pouco menos de 15 minutos para a meia noite.
- Ai meu Deus! Vocês não estavam levando o desconhecido um pouco á serio de mais? Quero dizer, ele não pode fazer nada!
Ninguém teve tempo de responder, pois Alex parecia ter sido acometido por uma revelação divina. Ele saiu correndo em direção ao meio da floresta.
- Alex! – gritou Victoria.
Ele não se virou. A chuva embaçava a vista dos garotos e as trovoadas faziam barulhos tão altos que praticamente faziam o chão tremer.
- Temos que ir atrás dele. – disse .
- Mesmo? Por quê? – perguntou Caroline com desdém.
saiu correndo atrás de Alex, logo foi seguida por e Victoria e para não ficar sozinha, Caroline também os seguiu.
Quando adentraram os vários túneis que separavam as próximas galerias, Victoria parou de correr. Tinha alguma coisa estranha com as pichações do lugar. “É melhor correr, é melhor correr mais rápido do que minhas balas”. “Melhor sair do caminho da minha arma”. “Ele veio por você”.
- ! – gritou Victoria no meio da multidão.
virou-se e voltou para falar com a amiga ruiva.
- O que aconteceu Victoria?
e Caroline também tinham voltado, mas ambos tinham expressões impacientes por causa de Alex. Victoria não respondeu a perguntar de imediato, parecia estar procurando as palavras certas quando disse:
- Veja as pichações na parede.
Todos olharam, mas ninguém pareceu entender, mas então também percebeu.
- Está falando da música?
Todos pararam para ouvir o que a melodia repetia e ela dizia exatamente os dizeres que estavam pichados.
- Talvez devêssemos olhar. – disse Victoria nervosamente.
- Não. – disse Caroline – Vamos nos dividir. Eu e vamos atrás de Alex e você e vão até a estação ver quem está tocando as faixas, pois eu não ouço o DJ falar há muito tempo.

, Alex e Caroline, 23h:57min

Com um breve aceno de cabeça, todos se separaram e continuaram correndo pelo túnel que agora, por causa da chuva, tinha se tornado uma pequena boate. Elas não faziam ideia de para onde Alex tinha ido, mas o túnel só levava até a escadaria que descia para o meio da floresta. Ao chegarem à ponta da escada, viram Alex parado encarando a escuridão que era o caminho que seguia pelo meio da floresta. A chuva ainda não tinha parado e um relâmpago ou outro acabam iluminando sobriamente o ambiente.
- ALEX. – gritou quando o viu.
Ele se virou para encarar a garota. Tinha uma expressão estranha no rosto, como se tivesse descoberto uma nova doença gravíssima que afetaria a humanidade.
- Alex – perguntou Caroline alcançando os dois – O que aconteceu?
- Alguém foi levado para lá. – respondeu friamente o garoto.
Havia marcas que indicavam que alguém tinha sido arrastado pela terra, mas já estavam desaparecendo, pois as árvores já não eram capazes de segurar a enorme quantidade de água que descia dos céus.
- Você acha que devemos...
não precisou terminar a pergunta, o garoto já descia correndo os escorregadios degraus que levavam até a clareira no meio da floresta. Sem escolha, as garotas o seguiram. O barulho da chuva era tão forte que eles nem conseguiam ouvir o que diziam um ao outro. A cada passou que dava, a dor no estomago de se intensificava e ela tinha cada vez mais a sensação de que em breve saberia por que estava com tanto medo. Os degraus pareciam infinitos e o som dos saltos de Caroline era o único barulho familiar que se ouvia naquela mata sem fim. Eles olhavam para os lados, com medo de quem alguém estivesse espreitando. Depois de um tempo que pareceu uma infinidade, eles chegaram ao local e para a surpresa de todos, não estavam sozinhos.
pensou em gritar, em sair correndo e até mesmo em ligar para a policia, mas todos esses pensamentos foram embora tão rápido quanto vieram. A pessoa continuava parada no meio da floresta, será que ainda não tinha percebido a chegado dos intrusos?
- Ei, você! – gritou Alex que tinha agarrado um galho e apontava ameaçadoramente para a pessoa no meio da floresta – Vire-se. Mostre seu rosto.
choramingava num cantinho, mas era impossível ouvi-la, a tempestade estava cada vez mais forte.
- Tem algo errado. – disse Caroline.
Alex encarou a garota por um segundo e voltou a olhar para a pessoa no meio da clareira.
- Duas pessoas deviam estar aqui – ela já começava a caminhar em direção ao que quer que estivesse lá – e nós só temos uma.
- CAROLINE NÃO FAÇA ISSO. – gritou o mais alto que pode.
Mas ela já tinha feito, Caroline puxou o ombro da pessoa que estava parada e no instante seguinte ela caiu no chão como uma marionete que tem as cordas cortadas, mais rápido ainda foi o que aconteceu depois. Algo se soltou em uma árvore próxima e rolou por cima de um galho se virando bem em cima de Caroline. Com um grito ela tentou desviar, mas no escuro era difícil fazer qualquer movimento certo. Ela sentiu um liquido viscoso escorrer pela sua pele e só quando um raio iluminou o lugar foi que ela pode ver que um balde havia sido derrubado em cima dela. Estava encharcada de sangue, tinha sangue no seu cabelo e até seu vestido antes branco, agora estava vermelho vivo.
Alex correu até Caroline, ignorando o corpo sem cabeça que jazia caído no chão.
- Ai meu Deus, Caroline...
Ela correu para longe do amigo e começou a vomitar no meio de algumas árvores. caminhava ao redor do cadáver que jazia na terra, então ela reparou no objeto laminado que jazia próximo ao corpo: uma faca. Ela pegou-a e se arrependeu de ter feito isso imediatamente, agora suas impressões digitais estavam presas no objeto.
- Merda, quem é essa? – gritou Caroline furiosa do outro lado da clareira.
- É Mary Valley. – disse Alex reconhecendo o rosto com a expressão de pânico da recém-conhecida. Ela com toda certeza não tinha tido uma morte feliz.
- E porque diabos ela está morta? POR QUE DIABOS TÊM SANGUE DELA EM CIMA DE MIM?
Caroline estava furiosa, mas não podia esconder as lágrimas que escorriam pelo seu rosto.
- Eu disse, quanto mais envolvimento melhor.
- O quê? – perguntou Alex que não entendera o que dissera.
- Havia um bilhete nas mãos delas e é isso que está escrito nele. Droga, o que vamos fazer?
Caroline levantou-se do lugar e pegou a balde que ainda tinha um pouco de sangue dentro.
- Não é óbvio? – perguntou com a raiva explícita na sua voz – Temos que sair daqui.
- Não, precisamos entregar o corpo para a polícia. - disse Alex tentando não olhar para a cabeçado cadáver que estava no chão.
- Fale por você que não está sujo de sangue! E existem digitais de na faca que possivelmente foi usada para matar ela. Precisamos sair daqui!
Alex não reconhecia nenhuma das pessoas que estavam naquele lugar. Caroline apenas desejava sair dali o mais rápido possível e se encolhia no primeiro cantinho que achava e começava a chorar. Sentiu algo vibrar dentro de sua calça e percebeu que seu celular tinha acabado de receber uma nova mensagem e ele já até sabia de quem era. "Decida-se ou as pessoas vão se decidir por você", era só isso que dizia, mas o número que tinha enviado a mensagem não era desconhecido. Ele pensou em retornar a ligação e tentar descobrir quem estava fazendo aquela brincadeira idiota com eles, mas antes mesmo de cogitar essa opção, ouviu vozes que vinham de não muito longe.
- NÓS SABEMOS QUE VOCÊ ESTÁ AÍ. NÃO SE MOVA OU ATIRAMOS.
Policiais. Caroline agiu mais rápido que todos os outros, ela pegou os fios que tinham sido usados para amarrar Mary e jogou a faca dentro da balde.
- O que você está fazendo? – falou Alex alarmado – Nós temos que ficar e explicar tudo para eles.
- E eles acreditariam, com toda certeza. – disse Caroline irônica – Você sabe o número de pessoas inocentes que vão para a cadeia anualmente apenas por serem as únicas suspeitas do crime? Prova disso é . Só que ele escapou por pouco. Acha que vamos ter a mesma sorte?
Caroline apontou para as evidências e elas, com toda certeza, seriam conclusivas contra eles caso houvesse uma acusação. Com todas essas provas, não haveria defesa forte o suficiente para isso.
- Eu concordo com Caroline. – disse .
As luzes vinham se aproximando rapidamente. Com um suspiro pesaroso, os três correram o mais silenciosamente possível para dentro da floresta. Iriam para algum lugar, não havia provas contra eles. Não tinha imagens, não existia algo que os ligasse diretamente a Mary Valley e quem era essa garota mesmo? Ninguém sabia. No meio de milhares de pessoas, eles eram apenas mais alguns. Com toda certeza já havia passado da meia noite e meia quando eles pararam para se livrar de algumas coisas no meio da sombria floresta. Esconderam a faca sob o tronco de uma arvore, jogaram os fios no rio e Caroline decidiu que o balde deveria ser queimado assim como seu vestido. Podiam estar agindo de forma incorreta, mas o medo sempre anula o pouco de racionalidade que resta em cada um de nós.

Victoria e , 00h:00min

puxou a maçaneta da porta que dava até a cabine do DJ, mas ela não abriu. Pensou em arrombar a porta quando ouviu a voz de Victoria atrás dele:
- Aqui. – disse ela tirando um cartão de dentro de sua bolsa – Tente isso.
Ele passou o cartão pelo painel eletrônico e a porta imediatamente se abriu. O aposento era a prova de som e tudo se encontrava no seu devido lugar, se alguém estava ali, obviamente já tinha saído. encarou o homem que estava deitado de uma forma estranha em cima do aparelho de som. O líquido vermelho escorria pela sua garganta. Droga, pensou. Teria se desesperado profundamente se não tivesse percebido outra coisa estranha com o homem, ele ainda estava respirando. Era apenas tinta vermelha que estava espalhada pelo seu pescoço.
- Que tipo de idiota faria isso?
Victoria pareceu assustada ao ouvir falar, olhou para a tela do celular e respondeu rapidamente:
- Não sei.
encarou-a com curiosidade e depois de ter feito mais uma vistoria no lugar, concluiu:
- Não tem nada aqui.
Victoria acenou friamente com a cabeça, como alguém que não está muito interessado na conversa. se sentiu levemente irritado com a atitude da garota. Alguém estava brincando com a sanidade de todos eles e ela simplesmente acenava?
- Melhor voltarmos para o chalé e esperarmos os outros.
- Não é melhor procuramos eles na clareira?
- Se você quiser ir, podemos tentar, mas acho que eles não estarão mais lá.
O DJ começou a se mexer lentamente perto deles. Seja o que quer que tenham dado para ele, estava perdendo o efeito.
- Tem razão, vamos até o chalé esperar por eles.
saiu e logo foi seguido por Victoria. Antes mesmo de terem descido as escadas que levavam de volta ao salão o celular de Victoria vibrou pela milionésima vez naquela noite. Ela olhou para a tela friamente.
“Você merece um Oscar, Vic! Sua atuação foi muito convincente, espero que estejam indo para o Chalé, pois já avisei para a polícia sobre meu presentinho. Acho que por hoje nossa conversa acabou. Aproveite o que resta da festa.”

Capítulo 08 - Blackmail, Pictures & Rivers

Victoria bateu a porta do chalé silenciosamente. Ela e estavam ensopados, a chuva imperava tempestuosamente lá fora. Nervosamente, caminhou até a mesa e sentou-se na cadeira tamborilando os dedos sobre a superfície de madeira. Victoria foi até a cama e apoiou-se calmamente no criado mudo. A lareira crepitava tentando espalhar o calor pelo quarto, mas não conseguia.
- Eles já deveriam ter ligado. – disse começando a caminhar de um lado para o outro no aposento.
- Não tem sinal no celular.
Victoria olhou pela janela procurando pelos outros, mas não era capaz de ver a um palmo de distância além de onde a luz da janela chegava. A chuva estava acabando com qualquer possibilidade de salvação, ou talvez tivesse ajudado eles a se salvarem. Ela sabia que apesar de não ser capaz de ver, alguém observava-os calmamente por entre a densa floresta.
Com um estrondo, a porta do chalé se abriu e os três outros amigos entraram apressadamente pelo chalé.
Caroline tinha no semblante uma expressão de fúria, mas seu corpo registrava todo o terror da situação na qual se encontravam. Alex dava suporte para que conseguisse caminhar, pois a garota não tinha deixado de chorar em nenhum momento no caminho da clareira até a casa.
- FECHEM AS PORTAS. – gritou Caroline do meio do quarto.
Ela começou a procurar alguma coisa pelo aposento, então, adentrou o banheiro rapidamente.
- , o que aconteceu? – correu em direção a garota que não conseguia parar de chorar em cima da cama.
Alex apoiou-se na mesa da cozinha e ficou encarando as pessoas dentro do aposento e com um gesto repreendeu Victoria, que tentou se aproximar.
- Então – disse – alguém vai me dizer o que aconteceu?
- Espere um pouco, Caroline vai explicar tudo. – disse Alex tentando suprimir o terror da voz e soando extremamente arrogante, mesmo que por acidente.
- Esperar Caroline? Você é um idiota que saí correndo pro meio da floresta enquanto algum maníaco está atrás de nós e minha namorada volta chorando, você quer que eu espere?
avançou sobre Alex e várias coisas voaram de cima da mesa. Ele arremessou Alex contra a parede, o que fez despencar vários quadros. Alex se defendia dos golpes dados por , mas não poderia se colocar na mesma posição por muito tempo. Victoria tentou se colocar entre os dois garotos, mas foi empurrada para longe e bateu com a cabeça em algum objeto pontiagudo do lugar, o que fez sua cabeça começar a sangrar. Os dois rolaram sobre o chão e então achou uma falha na defesa do outro garoto, acertando um soco muito bem dirigido no nariz dele. acompanhou tudo de forma desesperada, sem aguentar mais ver tamanha idiotice, gritou:
- PAREM! VOCÊS NÃO VEEM QUE É ISSO QUE ELE QUER?
Então, Victoria conseguiu arrastar Alex para longe de e este nem fez mais questão de se aproximar.
ainda continuava em pé no meio do lugar, estática, seu vestido cheio de folhas e seu rosto sujo de terra. Ela pareceu calma por um instante, mas então olhou para o balde que jazia caído próximo a porta e continuou a chorar.
Caroline saiu do banheiro com a mesma expressão que havia chegado no chalé, agora, usava um blusão preto com uma bermuda qualquer de . Estava completamente ensopada, mas ainda se sentia tão suja como jamais se sentira na sua vida. Carregando delicadamente o vestido ensanguentando em uma mão, pegou a tesoura e rasgou o tecido, atirando pequenos pedaços na fogueira que queimavam e desapareciam, mas a dor continuava ali.
- Se você soubesse o que aconteceu, . – disse Caroline – Não estaria tão nervosinho...

Devia ser duas e meia da madrugada quando Victoria abriu os olhos no meio da escuridão que só era quebrada pela luz da lua que entrava pela janela e por um pequeno abajur próximo a cama onde e dormiam. Tinha sido uma conversa difícil. A princípio não conseguia aceitar a ideia de que fosse melhor deixar em segredo, mas com os argumentos de Caroline sobre o número enorme de pessoas que estavam ali e que eles não tinham sido vistos, ele teve que concordar que era melhor não falar nada para ninguém. Era melhor assim, pensou Victoria, era isso que ele queria. Ela sabia que isso prejudicaria todos eles, mas não havia nada que ela pudesse fazer. Depois eles pensaram em ir embora cedo pela manhã, mas decidiram que não queriam abrir nenhuma suspeita em cima deles, então só iriam depois do almoço. Eles sabiam, também, que o Dia do Fundador era um evento importante demais para ser cancelado pela morte da garota – alguns anos atrás, um garoto havia morrido de overdose e sua morte só foi divulgada dois dias depois do fim do evento.
Ela se levantou e caminhou até a porta da frente. O celular na mão e a esperança de que tudo terminaria sem que ninguém soubesse, como dito na mensagem que ela tinha recebido, havia uma caixa próxima a um vaso que estava no pequeno pátio na frente do chalé. Ela pegou a caixa, mas sabia que não ia ser tão fácil, um pequeno bilhete caiu e ela fez força para ler naquela baixa luminosidade: “Uma última coisa, Vic. Ponha o bilhete que está dentro da caixa em cima da mesa e não deixe que ninguém te veja”. Com um suspiro, Victoria entrou no chalé, guardou a caixa dentro da sua mala e trancou-a com um cadeado. Quando passou pela mesa, largou o bilhete inocentemente lá. Antes de fechar os olhos, deu uma última espiada em Alex que respirava tranquilamente, sem saber de como as coisas iriam ficar piores.

Caroline tinha saído correndo do chalé, pois o clima estava horrível lá dentro. Ela sabia que feito o que eles tinham feito, deveria estar emotiva e até amedrontada, mas as únicas palavras que vinham na sua cabeça eram “temos que nos vingar”. Então, para tentar achar uma saída para toda a problemática que se estendia sobre o grupo, voltou ao mesmo bar que tinha ido noite passado e ele já estava movimentado para aquela hora da manhã. O policiamento tinha aumentado consideravelmente e Caroline sabia muito bem o motivo, isso a fez sentir-se suja novamente.
Algumas pessoas transitavam pelo lugar acenando amigavelmente umas para as outras, a garota pediu um café com creme e sentou-se no balcão.
- Eu também vou querer um café com creme.
A voz era familiar e ela levou um susto ao perceber que era Arthur Rivers quem estava parado ali do seu lado. O garoto sorriu genuinamente e esperou que ela retribuísse, algo que não aconteceu.
- O que você está fazendo aqui? – atirou Caroline contra o garoto.
- Bem, eu costumo frequentar esse bar sempre, mas você foi o motivo que me fez voltar, sabe? Você nem deu tempo para perder o sapato de cristal ontem à noite, sabia?
Mesmo sem querer, Caroline sorriu.
- Bem, eu não costumo ser tão mal-educada, me desculpe.
- Não? – Arthur sorriu com certo ar despreocupado – Sabe, ontem, antes de você sair, eu estava pensando em chamar você para dançar e se você quiser se desculpar, bem...
- Ah, sim. Entendo, você quer que eu dance com você?
Arthur encarou a xícara de café que o garçom acabara de colocar em cima do balcão e lamentou-se pelo convite.
- É. – respondeu – Eu queria que você dançasse, só tem um problema: eu não sei dançar.
- Para sua sorte – disse Caroline se levantado – esse bar toca, durante a manhã, músicas lentas, então, vamos...
Ela puxou Arthur da cadeira e os dois começaram a dar dois passos para um lado e dois para o outro. Arthur não dançava tão mal, Caroline começou a pensar que era um exagero do garoto, mas no instante seguinte, ele pisou no seu pé.
- Desculpe. – disse ele rapidamente.
- Eu ia comentar que você não dançava tão mal, mas deixa pra lá.
Arthur sorriu. Alguma coisa no sorriso de Arthur agradava Caroline, algo era genuíno no meio daquela bagunça que sua vida estava se tornando, mas o pior de tudo era que aquela situação não deveria estar acontecendo. Ela sabia muito bem o que tinha acontecido com a garota que Alex tentou ajudar e Caroline tinha certeza que ela não estava nenhum pouco feliz agora. Tentou manter-se firme, mas, aparentemente, devia ter deixado passar alguma coisa, pois Arthur começara a se desculpar:
- Eu não devia ter submetido você a isso, me desculpe.
Ele tentou se afastar de Caroline, mas ela o puxou pela gola da camisa. Ela sabia o que vinha depois, só não queria que tivesse que acontecer daquela forma.

apoiou a mão sobre a mesa e pensou que fosse vomitar. Queria ser capaz de dizer que sonhou tudo que havia acontecido na noite passada, mas era doentio demais para qualquer pessoa sonhar. encarou o bilhete, claro, frio e tão sujo em cima da mesa. “Sem novos envolvimentos, ouviram?”.
- Eu não consigo acreditar que essa pessoa esteve aqui. – disse Alex que estava sentado com olheiras gigantescas no rosto. Não tinha dormido a noite inteira.
- É obvio que o bilhete não foi trazido por ele para cá, alguém deixou ele aqui. – concluiu que achava muito mais difícil aceitar hipótese que ele mesmo propusera.
- E quem vocês acham que foram? Caroline? Victoria? Eu? – disse nervosa – Esse cara só esta tentando desestabilizar a gente!
- Bem, se ele está tentando, está conseguindo! Eu nem consigo dormir a noite sem imaginar vocês fugindo dos policiais. – Victoria que estava parada no canta da sala resolveu se manifestar.
A lareira crepitou levemente, tentando manter-se viva com o fogo que restava da noite passada.
- Eu ainda sou contra não contarmos o que aconteceu para a polícia. Tudo isso pode ser usado contra nós! – disse refletindo sobre as decisões da noite passada.
- , eu sei que você não quer mais problemas para sua vida. – finalmente estava adotando uma postura mais resistente para a situação – E se você pensar por esse lado, não estava lá quando a garota morreu. Nenhum de nós estava, apenas achamos o corpo da garota, então, não existem provas conclusivas. Apesar da ideia de Caroline ser coisa de criminosa, algo me diz que ou jogamos o jogo dessa pessoa, ou as coisas podem piorar.
- Piorar? – disse Alex – Piorar como? Nós podemos ser presos ou passar o resto da nossa adolescência num reformatório. O quê pode ser pior?
- Muita coisa.
Todos olharam para Victoria que estava quieta no seu canto do chalé, ela parecia reflexiva e prestes a fazer algum tipo de revelação.
- Você tem alguma coisa a dizer, Victoria?
Antes que a pergunta de fosse respondida, Caroline entrou no chalé.
- Eu sei que vocês devem ter tido uma manhã maravilhosa procurando soluções para um problema sem solução, mas alguém precisa pensar como um adulto aqui.
- Um adulto? – encarou Caroline com ironia. Era impressão dele ou ela estava mais sorridente? – Encare isso aqui, Carol.
Caroline pegou o bilhete da mão de e engoliu em seco, mas logo prosseguiu:
- Mais um motivo para começarmos a nos livrar de tudo que pode nos ligar a ontem a noite.
Todos assentiram, tinham um futuro pela frente e não poderiam construí-lo com uma morte num histórico escolar.
- Eu e Alex iremos nos livrar desse balde. e andem por aí e banquem o casal apaixonado, pois precisamos que as pessoas não desconfiem de nós. Victoria deve ter sangue no banheiro e seria muito legal você se livrar de qualquer vestígio dele.
De todos, Caroline era a mais bem preparada para lidar com aquela situação. Ela tinha muito a perder, mas sabia que o próximo movimento podia ser a cartada final para essa situação e não planejava perder para um desconhecido. Se ela fosse um personagem de filme, com toda certeza seria aquela que sempre tem uma saída para tudo.

sentou-se na mesa ao lado de . As pessoas passavam e encaravam o casal mais perfeito de toda a Festa do Fundador. Todo garoto queria estar com , toda garota queria estar com e por onde eles passavam eram encarados com inveja e admiração. Se ao menos todos eles soubessem que a beleza dos dois era apenas uma fachada para esconder tudo àquilo que apodrecia em suas cabeças.
A garota cortou mais um pedaço de carne com molho apimentado na boca, apensas continuava bebendo refrigerante.
- Você acha que vai dar certo? – disse .
- O quê?
- Tudo isso... Você acha que vamos escapar?
- Eu escapei. – sorriu – Por que você não escaparia?
- Tem razão, a justiça pode demorar a vir, mas uma hora ela chegará.
Os dois voltaram a se interessar pelos seus pratos, mas algo distraiu mutuamente a atenção dos dois.
- Vocês têm certeza que não conhecem nenhuma Caroline Evans?
Um rapaz de olhos verdes perguntava para o casal na mesa ao lado que acabava de responder não para a pergunta.
- Ah, obrigado mesmo assim. – disse o rapaz, então, ele se aproximou da mesa de e – Olá, vocês conhecem alguma Caroline Evans?
- Depende de quem é você.
O garoto encarou firmemente.
- Eu sou Arthur Rivers. Eu encontrei com ela algumas vezes e queria muito saber onde posso encontra-lá de novo.
- Eu sei quem você é. – disse – Seu pai é o dono da Rivers Corporation, não é?
- Sim, sou eu. Mas será que vocês podem se focar em Caroline?
pensou um tempo no que dizer, então pegou um lenço e deu para Arthur.
- Anote seu número aqui e eu darei para ela, ela retornará assim que possível.
Arthur refletiu por um segundo e resolveu perguntar:
- Você tem certeza de que estamos falando da mesma Caroline Evans?
- Claro. – disse sorrindo – Se não estivéssemos, você não estaria pedindo o número dela para mim.
O garoto sorriu e escreveu seu número no papel.

Victoria saiu ensopada do banheiro, ela deveria estar chateada com a situação, mas não estava, pois precisava de um tempo sozinha. Calmamente, ela olhou pelas janelas do chalé e se certificou de que não havia nenhuma outra pessoa se aproximando, então, foi até a mala, destrancou-a e tirou de dentro a caixa que tinha guardado na noite passada. Pensou em deixa-lá no mesmo lugar, mas isso não era seguro, já que alguém poderia achar, ou mesmo, pedir que ela abrisse a mala, sendo assim, ela resolveu colocar a caixana sua mochila e leva-lá para seu chalé. Com o segredo pulsando nas costas, o caminho foi psicologicamente longo e ao chegar lá, encontrou o lugar vazio.
Victoria suspirou aliviada. Ela colocou a caixa preta em cima da mesa e reparou na figura de palhaço que havia sido colada na tampa, ela puxou a tampa e no instante seguinte, levou um susto que não era justificado pelo que havia dentro da caixa.
- Vic, o que você está fazendo?
Ela reconheceu a voz. Óbvio que Victoria era capaz de reconhecer a voz de Alex em qualquer lugar, num gesto rápido, ela tentou colocar a caixa dentro da mochila que estava jogada na cadeira, porém a caixa rodopiou no ar e caiu no chão. Espalhando todo o conteúdo no assoalho de madeira.
Somente agora Victoria teve tempo para reparar em Alex, ele estava apenas de toalha. Devia ter acabado de sair do banheiro, os olhos cansados e os músculos ainda tencionados pelo que quer que ele tenha ido fazer com Caroline. Os cabelos molhados transformariam ele num perfeito mocinho problemático de qualquer peça de teatro como West Side Story, mas a única problemática ali era ela.
Alex se curvou para apanhar uma das folhas que Victoria havia deixado cair, ela estava sem reação, como sempre ficava quando estava nervosa demais para descobrir o que fazer.
- O que significa isso? – Alex encarou friamente a garota ruiva.
- Não é isso...
O bilhete na mão de Alex explicava por si só o problema, eram poucas palavras, mas eram claras o suficiente: Agradeço a ajuda, Vic!
Victoria suspirou, não tinha mais saída. Tinha que explicar.
- Alex – ela estava se segurando para não chorar – você pode ouvir o que eu tenho a dizer ou pode tirar as conclusões e ir embora.
Alex limpou um pouco da água que escorria do rosto e fez um aceno para que ela continuasse.
- Meu pai, uma vez, desviou uns arquivos da Interpol para ajudar uma vizinha nossa com um problema.
- Interpol?
- Sim. Lembra da vez que eu dei os documentos sobre o caso de Selena Birdy para ? Eu peguei do computador do meu pai. Ele nem trabalhava na área de campo, mas sim no armazenamento de dados e agora ele está com problemas...
Alex apertou a mão contra a cintura e continuou encarando Victoria. Era fácil acreditar no que ela dizia, mas ainda mais fácil era discordar do que ela falava.
- Havia uma vizinha nossa – Victoria continuou – e ela estava com grandes problemas. Meu pai acabou dando alguns dados privados para ela e fez ela prometer que não contaria a ninguém. Aparentemente, ela contou e eu comecei a receber mensagens que pediam para eu fazer certas coisas.
Victoria apoiou-se em algo imaginário. Estava prestes a chorar, tinha sido obrigada a fazer coisas das quais não se arrependia, mas não tinha orgulho de ter feito.
- Alex, por favor... Você precisa entender... Eu estava salvando minha família
- Eu entendo, Vic.
Foram essas as palavras mais aconchegantes que Victoria Piltsbury ouviu. Ela tentou se controlar, porém, com um súbito impulso emocional, se atirou contra Alex.
A garota pressionou seu rosto no peitoral ainda molhado de Alex e chorou com ele dizendo palavras para acalmá-la. Ela tinha sucumbido ao desespero, mas agora sabia que as coisas ficariam bem. Podia sentir o calor da pele de Alex e ouvir o coração do garoto batendo através da pele branca cheia de pontinhos. Ela olhou para cima, ele não sorria, mas também não a condenava.
- Desde quando você está fazendo coisas para esse alguém? – disse ele com sua voz aveludada.
- Desde aquele dia na escola no qual as fotos apareceram no mural. Eu tinha sido avisada de que algo aconteceria, só não acredite que fosse verdade.
Alex sentou na cama e Victoria sentou-se em seu colo. Se os dois encararam a perversão daquela cena, ambos preferiram ignorar. O silêncio rugiu e coragem foi seu formando dentro do corpo da garota ruiva, com um suspiro, ela virou-se para Alex e disse:
- Eu sabia que alguém morreria ontem.
Alex ficou em silêncio, logo em seguida, levantou-se e foi até a janela. Não havia ninguém lá fora.
- Você sabia que algo aconteceria, mas não saberia com quem. Não vai acontecer de novo, para ser mais claro: nunca aconteceu.
Ele aproximou-se de sua namorada, ela passou as mãos pela parte baixa das costas do garoto e ele beijou-a encantadoramente. As línguas em uma dança sincronizada, os corpos trocando calor e as gotas de água iam dando espaço as de suor no corpo de Alex.
- Nada disso – disse o garoto caminhando até o banheiro – aconteceu. Nada com você ou com a outra garota.
Ela se sentia culpada, mas não podia negar que mesmo cansado, somente de toalha, com grande parte do corpo a mostra, sendo malvado e ao mesmo tempo superprotetor, Alex estava incontrolavelmente sexy.

jogou o último par de sapatos dentro da mala. Todos planejavam pegar o ônibus de depois do horário do almoço e, como sempre, ela era a última a estar arrumada. Olhou para o vestido que tinha usado na noite passada. Era lindo, mas trazia lembranças que ela não queria, mesmo assim, colocou a peça dentro da mala.
- !
- Estou indo, Caroline!
Ela pegou mais algumas das coisas que estavam espalhadas no quarto e colocou dentro da pequena mala que tinha trazido. Todos já estavam esperando e quando ela saiu fizeram piada sobre o atraso. Eles começaram a caminhar em direção ao local de onde o ônibus sairia, enquanto andavam, não conseguiram deixar de notar que muitos policiais estavam em lugares estratégicos observando a multidão constantemente passar, todos estavam se comunicando através de rádios.
- Prontos para o retorno à civilização? – disse Caroline debochadamente.
- Que a realidade seja melhor que a fantasia. – disse .
- Esqueceremos tudo que aconteceu aqui e isso nunca mais nos atormentará. – disse .
Caroline se virou e bateu em alguém. Ela ia revidar, mas quando percebeu quem era, resolveu não fazer isso.
- Bem, vocês só vão voltar para casa de ônibus se quiserem.
Arthur Rivers, pela quadragésima vez tinha tido a sorte de encontrar Caroline aleatoriamente em algum lugar. A garota ficou sem reação por alguns segundo, mas logo disse:
- Ah... Gente, esse é Arthur Rivers. Conheci-o na noite passada.
Alex e Victoria acenaram para Arthur e disseram seus nomes para ele, enquanto e acabaram por intervir na conversa:
- Na verdade, Caroline, nós já o conhecemos.
Arthur encarou o casal por algum tempo, depois de pouco tempo, percebeu:
- Ah, já sei. Do restaurante? Desculpem, eu estava desesperado para encontrar ela.
Caroline encarou Arthur, de longe ele era o cara que mais tinha feito coisas românticas para ela e isso incomodava a garota. Era como se não fosse boa o suficiente para ele.
- Vamos lá! – disse Arthur – Vocês não podem recusar a carona.
Todos se olharam nervosamente, mas assentiram silenciosamente que era melhor ir. Arthur mostrou o caminho para seu carro, que estava estacionado numa colina. Assim que Arthur começou a interagir com os garotos, puxou Caroline de perto do garoto:
- Você não pode fazer isso, Carol.
- Isso o quê?
- Se envolver. – fora Victoria quem completara – Você sabe quais são as consequências.
- Consequências? – Caroline já estava ficando irritada – Vocês duas tem alguém de quem realmente gostam e eu? Eu não tenho ninguém.
À medida que subiam à colina o vento ia ficando mais forte. Os cabelos castanhos de Caroline se debatiam desesperadamente.
- Além do mais – continuou Caroline – o quê mais esse alguém pode fazer? Já não foi o suficiente.
estava prestes a responder, mas algo tinha batido no seu pé. Ela encarou o pedaço de papel que estava preso seu tênis, ao mesmo tempo em que ela observava que havia algo no papel, Caroline prendia um grito dentro da garganta.
O carro de Arthur estava coberto de fotos e várias delas estavam espalhadas pelo chão. Tinha acontecido de novo, novas fotos. Só que dessa vez as imagens mostravam , Alex e Caroline a beira de uma clareira com o corpo de uma garota morta. Então, Caroline olhou para o vidro do carro e leu algo que estava escrito lá: Eu disse sem mais NENHUM envolvimento.
Arthur encarou o grupo de amigos. Seus instintos diziam uma coisa, mas seu lado racional tinha dito outra. Se bem que não interessava mais o que os instintos diziam, ele já tinha feito sua decisão.

Capítulo 09 - The Pretty Lie, The Ugly Truth

Setenta e duas horas era o tempo exato que havia passado entre as fotos no carro e o atual momento. empurrou com os dedos o copo de alumínio gelado para o centro da mesa. Focou-se na história que tinham combinado, tinham ficado na cabana e foram para a festa no túnel quando a chuva ficou mais forte. Era metade da verdade e contar a metade da verdade é muito mais fácil do que mentir. Apesar de saber de cor o que dizer, estava tremendo por dentro. não estaria ali para salva-lá e nem para acalmá-la. Várias pessoas tinham visto o garoto próximo à cabine do DJ na hora em que o crime aconteceu, ele tinha sido descartado e ela ainda era uma opção plausível como qualquer outro.
A porta de metal se abriu e uma policial entrou por ela. Por um instante, ela pensou que a oficial fosse obriga-la a confessar, mas ela sorriu.
- Olá senhorita – a mulher que não aparentava ter mais de trinta e cinco anos de idade observou a ficha de , quero que a senhorita tenha a noção que não está sendo acusada de nada, estamos apenas atrás de qualquer coisa que possa parecer suspeita.
ajeitou a postura, reparou rapidamente no distintivo da mulher que estava em cima mesa e leu o sobrenome Firefighter em letras douradas.
- Pronta para começar?
A garota assentiu com a cabeça, respirou fundo e ouviu a primeira pergunta:
- O que fez você ir a Festa do Fundador?
- Eu sempre fui todo o ano, eu ia com a minha família e esse ano não seria diferente.
- Na verdade, esse ano foi diferente. Segundo o que me consta, seus pais ficaram em casa e você foi com Victoria Piltsbury.
- Sim. – passou os olhos pelo lugar – Victoria me convidou com mais alguns amigos para ficarmos nos chalés que ela tinha conseguido. Todo adolescente quer virar a noite na Vila do Fundador.
- Como você conheceu Victoria Piltsbury?
- Escola. Nada interessante.
não deixava as perguntas passarem. Ela sabia o que responder e como responder, Victoria havia preparado ela, Alex e Caroline para responderem as perguntas sem se enrolar e deixar algum fio solto. Victoria havia sido criada por alguém que trabalhava com interrogatórios o tempo inteiro, ela sabia como ensinar alguém a mentir.
- O que você e seus amigos estavam fazendo por volta da meia noite?
- Estávamos no Túnel de Luz C. Sabe? Aquele que tem as pinturas e grafites trocados todo ano.
- Vocês só ficaram ali?
- Sim.
A agente Firefighter se remexeu na cadeira. , por meio segundo tendeu a quase se desesperar, mas lembrou que Victoria disse que o interrogador possivelmente tentaria afetar o senso de culpa do interrogado. Ela agiu o mais naturalmente possível quando perguntou:
- Algum problema, agente?
- Não, nenhum. Mas seus amigos não disseram que vocês ficaram apenas no túnel.
- É, eles devem estar com uma memória horrível. – A garota sorriu, ela não se desestabilizaria por qualquer coisa – Ou muito “confusos” para lembrar.
- Uma última pergunta: O que levou você e seus amigos a voltarem mais cedo para casa?
- No início, Victoria estava se sentindo doente e quis voltar para casa, mas ela melhorou e mantemos a ideia por causa do novo namorado de Caroline.
- Quem é o novo namorado de Caroline?
- Ela deve ter respondido isso no interrogatório dela e não vejo necessidade de repetir algo que já foi dito e, para ser sincera, já nem lembro o nome dele.
A policial fez mais algumas anotações e encerrou o interrogatório. e seus amigos, obviamente, não faziam parte da possível lista de assassinos dela.

desceu as escadas da Estação Policial sentindo o vento chacoalhar o vestido florido que trajava. O sol brilhava forte (naquele nível que Redmont permitia, é claro) e várias pessoas compravam os jornais mais atuais que contavam o caso de Mary Valley na primeira página. Pega de surpresa, se assustou quando percebeu que Alex estava ao seu lado.
- Como você foi?
- Bem, eu acho.
Ela continuou a descer os degraus restantes. Sentia-se mais confiante, mais poderosa, talvez tivesse sido contagiada pelo espírito vingativo/defensivo de Caroline. Não havia muito para se preocupar, mais havia uma coisa que ainda atormentava a cabeça dos garotos. Quando Caroline chegou, o que não demorou muito já que ela apenas tinha ido comprar um café expresso, eles entraram no carro e voltaram a discutir o assunto que interessava.
- Vocês acham que fomos bem o suficiente? – indagou com ingenuidade.
- Claro que sim. Victoria praticamente nos disse como não sermos presos, não há um furo.
- Na verdade, existe um. – Alex disse sem tirar os olhos da rua – E esse furo tem nome e sobrenome.
Caroline encarou a janela do carro e sentiu o estomago embrulhar, ela não podia deixar de admitir que era uma possibilidade, mesmo que remota, que Arthur Rivers contasse a policia o que sabia.
- Arthur não fará nada para nos prejudicar. Ele disse que não acreditava nas fotos, apenas achava que estávamos no lugar errado e na hora errada.
- Não foi bem essa cara que ele fez quando viu as fotos.
- Por um lado – sentiu o celular vibrar dentro do bolso – eu tenho que concordar com Caroline, afinal, ele não nos levaria até em casa e depois sairia dizendo que somos assassinos, mas temos que pensar em todas as possibilidades.
A garota puxou o aparelho de dentro do bolso. Era um e-mail e tinha um arquivo em anexo, ela clicou em baixar e esperou. O carro parou ao sinal vermelho, Alex encarou pelo retrovisor do motorista e esperou alguma reação dela. Por fim, quando o arquivo estava completamente baixado, ela abriu-o. Era uma foto com centenas de imagens de Alex, Caroline e ela em todos os ângulos possíveis e na legenda, o aviso: Só acaba quando eu disser que acabou. mostrou a imagem aos amigos e todos permaneceram em silêncio, depois de um curto período, Caroline manifestou-se:
- Devíamos rastrear o e-mail.
- Muito antigo, não tem como saber quem é o dono. – disse Alex com raiva translúcida na voz.
- Então, devíamos levar para a polícia...
- Acabaríamos presos. Com toda certeza, deve ter muito mais sujeira de onde veio isso.
- Sabem do que eu tenho medo? – os outros dois olharam para – Que isso seja apenas o começo.
Alex avançou cautelosamente pela rua em que estavam, mas parou o carro quando viu Arthur Rivers sair de um automóvel prata e entrar na delegacia. Alex fez um gesto com a cabeça indicando Arthur e as meninas olharam bem a tempo de verem o garoto entrar na Estação Policial.
- Viram? – disse Alex ainda pesando nas coisas ruins que poderiam acontecer caso algumas pessoas soubessem da existência da foto.
- Ele não faria isso... – sussurrou Caroline duvidando do que tinha dito.
saiu do carro em um pulo, os dois amigos olharam sobressaltados enquanto a garota corria de volta até a delegacia. Por leitura labial, eles puderam perceber quando ela disse “Alguém tem que fazer alguma coisa”.
Ela correu até Arthur, mas não chegou a tempo de pega-lo fora da delegacia. Pensou duas vezes antes de entrar, mas o impulso de saber o que o garoto tinha a dizer foi maior e então acabou entrando. Quando entrou, todos os oficiais começaram a encarar . Sempre era assim, ela era a primeira a chamar a atenção.
- Posso ajudar, senhorita?
Um dos policiais estava sorrindo e exibindo sua arcada dentária amarelada mais do que era necessário para . Curiosamente, nunca tivera fetiches por oficiais – isso incluía médico e bombeiro. Ela retribuiu o sorriso e pensou rapidamente em alguma coisa para responder.
- Minha bolsa... Acho que esqueci minha bolsa.
O homem fez cara de entendimento e arrastou-a pelo corredor, no caminho, ela procurou vislumbrar Arthur de todas as formas possíveis, mas aparentemente ele já tinha começado a dar seu depoimento e já havia várias outras pessoas na fila para depor sobre a morte de Mary Valley. Por fim, o oficial disse que ela não poderia entrar na sala de depoimentos, pois os depoimentos já tinham começado. disse que passaria mais tarde e teve quase certeza de ter visto Arthur através de uma fresta na persiana.
caminhou para fora da delegacia e no instante em que passou pela porta de vidro, soube que estava de volta a realidade. Vários carros passavam pelas ruas, o vento frio varria as ruas e a neve já se precipitava sobre algumas casas.
- ?
A garota olhou para o pé da escada e viu Alex e Caroline encarando-a com uma expressão curiosa no rosto, forçou um sorriso:
- Não foi nada. Só estava pesando no tempo.

***

A lâmina voou de encontro ao alvo no meio da cozinha. puxou a próxima, mas antes que pudesse arremessa-lá, sua mãe segurou sua mão e colocou a faca de volta na mesa.
- Existem dardos para isso, sabia?
- Tanto faz. – disse o garoto tamborilando os dedos sobre a superfície de madeira.
Ella deu alguns passos pela cozinha, apesar de já morarem há algum tempo em Redmont, ela não conseguia se adaptar a rotina de uma cidade que nevava um dia sim e no outro também. Seattle estava mais para chuvas do que para tempestade de gelo.
- Então – disse Ella puxando qualquer coisa pré-preparada da geladeira – como foi a festa?
- Normal, mas diferente de qualquer coisa que eu tenha visto.
- Contraditório. – ela e sorriram – Soube da garota que morreu?
- Não tinha como não saber, foi perceptível o aumento do policiamento e muitas pessoas começaram a se perguntar por quê.
levantou-se e deu a volta na mesa, passou os olhos pelas janelas de vidro e verificou o movimento do lado de fora da casa, aparentemente, tudo muito parado.
- E por falar em policiamento – Ella pegou a faca que planejava jogar no alvo e apontou para o filho – eu vou começar a policiar suas notas, viu?
- Nossa, mãe. Policiamento é tão antiquado.
- Ah, é? É o policiamento ou isso. – com um gesto rápido, Ella arremessou a faca contra o alvo acertando exatamente o ponto do meio.
- É. – sorriu – Vou ficar com o policiamento.
- Foi o que eu pensei.

***

Apesar de tudo que havia acontecido nos últimos dias, os garotos haviam combinado de ficarem o mais próximo possível, afinal, comportamento estranho poderia levantar suspeitas. A ideia de que havia alguém muito interessado em destruir a vida de todos eles ainda era algo que os assombrava, mas toda vez que eles tentavam um contra-ataque, a situação sempre se tornava ainda mais grave. Seja por medo, por racionalidade ou ainda por instinto básico todos resolveram ficar na defensiva, se é que existe uma quando se esta numa situação como essa.
As 19h:00min, Caroline estava na varanda de sua casa com todos os outros envolvidos na situação que não deveria ser mais mencionada, dentro de casa, sua mãe e seu pai assistiam calmamente televisão sem fazer ideia daquilo que se escondia por trás da beleza de sua filha e de seus amigos.
- , você tem certeza que não tem ideia de quem está fazendo isso?
olhou para o algo e então sacudiu seu cabelo levemente. Já tinha passado algumas noites em claro pensado em quem poderia ser o X do problema, mas não chegara à conclusão alguma.
- Como eu disse, Caroline, eu não sei quem poderia ter feito isso. O motivo é muito claro, a pessoa queria me afetar e não mediu esforços em colocar vocês no meio dessa situação. É quase como se ele soubesse como tudo ia acontecer.
Victoria encolheu-se contra a pilastra de madeira e Alex sorriu reconfortantemente para ela.
- Eu não entendo. – começou a olhar para a rua como se esperasse o surgimento de um vulto inesperado – Selena foi morta de uma forma muito cruel, mas não existem vestígios que levem ao assassino da garota. Tudo parece meticulosamente encenado para se ligar a você.
- Deve ter sido. Muita gente não apoiava meu “relacionamento” com ela.
- Você já pensou que pode ter sido uma coisa vinda da própria família dela? – Alex cogitou a ideia, afinal, o mundo não era mais um dos lugares mais amigáveis para se viver.
- No início eu confesso que achei que você algo dos Birdy, mas logo me pareceu tão absurdo. Richard, o irmão mais velho de Selena amava a garota mais que tudo no mundo, o pai de Selena só teria a perder matando a própria filha e ele não tinha motivo nenhum para fazer isso.
- E mãe de Selena?
- Selena nunca soube quem era a mãe dela, apenas de nome, é claro. A mulher apareceu algumas vezes quando ela era muito pequena e, aparentemente, não queria se relacionar com a filha.
Caroline soltou um suspiro de frustração. Não estava mais nevando em Redmond, mas todos estavam preparados para a tempestade que provavelmente aconteceria depois do meio da noite.
- Vocês querem saber? – Caroline resmungou – Eu vou pegar alguma coisa quente lá dentro, pois essa situação está mais fria, perdoem a piada, do que o corpo da tal Selena Birdy.
A garota saiu da varanda e adentrou sua casa. Seus pais continuavam assistindo televisão calmamente, Caroline rapidamente caminhou para a cozinha e começou a preparar da bebida, ela ficou tentada a colocar um pouco de vodka (afinal o que ela queria era esquentar) na bebida, mas lembrou-se da última vez que havia misturado coisas e das consequências daquilo que ainda cicatrizavam no seu ombro. Caroline começara a caminhar de volta para a varanda quando teve a certeza de ter visto alguém na janela na cozinha. Ela virou-se rapidamente e encarou o recinto que jazia calmo e sem movimentação, abriu a janela e observou a escuridão encara-lá de volta do fundo de seu quintal, a brisa gelada passou as mãos pelo seu rosto e com um arrepio súbito ela fechou a janela e voltou em disparada para a varanda. Caroline estava para abrir a porta, quando alguém abriu-a primeiro. A princípio ela pensou que fosse algum de seus amigos, mas pelo porte não poderia ser. O homem trajava roupas típicas de oficiais de polícia e encarou a garota curiosamente quando disse:
- Residência dos Evans?
- S-sim – Caroline ainda estava se recuperando do susto quando respondeu.
- Tenho uma intimação para Caroline Evans.
Caroline estava prestes a responder, quando sua mãe apareceu por de trás da garota e tomou as rédeas da situação.
- Algum problema? – a voz da Senhora Evans era tão calma quanto se pode imaginar.
- Boa Noite. Trouxe uma intimação para Caroline Evans. Creio que seja sua filha.
- Sim, ela é minha filha. – a mãe de Caroline arrancou o papel da mão do oficial – Quais são os motivos para que ela compareça a delegacia?
- O papel explicará tudo, mas adianto logo que é alguma coisa com o depoimento que ela deu.
A mãe de Caroline e o policial continuaram conversando, mas a garota já não ouvia. Será que tinham descoberto a existência das fotos? Será que Arthur havia dito algo sobre o incidente no carro? Isso não deveria acontecer, não podia acontecer e ela nem podia imaginar o quão ruim seria se estivesse acontecendo.
A porta fechou e a mãe de Caroline ia começar a falar, mas a garota disse que apenas queria ir para seu quarto. Caroline subiu as escadas derrotada, ela podia ouvir seja lá quem quer que estivesse no quintal gargalhando na escuridão, ela podia ouvir os sussurros debochando dela. Meio minuto depois de Caroline se jogar na cama de seu quarto, a porta abriu e e Victoria entraram.
- Desculpe, Caroline, mas foi impossível não ouvir sobre o que era.
Num acesso de raiva, Caroline arremessou o despertador contra o armário.
- Eu não acredito que isso está acontecendo.
- Mantenha-se calma, Caroline. – disse – Você não faz ideia do que está acontecendo.
- Não faço? Eu posso ser presa! Eu tenho uma vida pela frente, . E meu pai não é um juiz respeitadíssimo que pode dar jeito nos meus problemas com a lei!
Caroline arremessou o travesseiro da cama e em seguida vários outros objetos.
- É TUDO CULPA MINHA.
Como se a cena toda se dissolvesse em água, e Caroline encararam Victoria que já estava com os olhos marejados de lágrimas.
- Eu fui egoísta, mas entendam que eu fui obrigada. Isso podia machucar minha família, prender meu pai e ele é a única coisa que restou da minha família.
- Victoria, é bom você ter uma boa explicação para o que está tentando dizer.
Caroline encarou a garota com todo o ódio que sentia sobre ela retornado, sem escolhas, Victoria contou tudo que havia feito exatamente da mesma forma que tinha contado para Alex. Em alguns momentos, as garotas duvidam da verdade, mas quando ouvia a explicação sabiam que Victoria não seria capaz de fazer nada daquilo que estava sendo cobrado dela sem um bom motivo. Ao término da discussão, as duas garotas não estavam zangadas com a ruiva, estavam perplexas com o quê havia sido feito para prejudicá-los. analisou a situação, mas resolveu não contar as garotas seus temores e, por fim, disse:
- O que está feito, está feito e eu entendo seus motivos, provavelmente, até teria feito a mesma coisa. Agora, resta a Caroline passar por tudo isso.
Caroline levantou e encarou a janela. Seus olhar intensificado pela fúria que sentia, não importava o quão boa fosse a armadilha que ela tinha caído, ela era uma gata e sairia dela com a destreza de uma.

Quando Caroline se sentou na cadeira para depor na delegacia no dia seguinte, ela não se sentia tão confiante quanto na noite passada. É claro que ela ainda sentia as boas energias vindas de e Victoria na noite passada, mas isso não era o suficiente para deixar-lhe segura. Seu pai e sua mãe estavam conversando com o delegado e já planejavam contratar um advogado para ela, embora o mesmo afirmasse que não seria necessário, precisavam apenas que Caroline repetisse o que tinha dito, pois havia uma incompatibilidade em seu depoimento.
- Senhorita Evans, você poderia repetir o que fez na manhã de domingo?
Caroline notara que era a mesma mulher que havia feito às perguntas da vez passada e até se sentiu mais calma por isso.
- Eu já disse. Fui tomar café da manhã em uma das barracas da Vila.
- Não, a senhorita está entendendo a pergunta errado, eu quero saber o que você fez depois disso?
Depois disso? Caroline sabia o que tinha feito depois disso, mas não podia dizer. Era um beco sem saída, alguém tinha armado para ela ser obrigada a contar a verdade, agora entendia. Caroline respirou fundo, porém antes que abrisse a boca, alguém se manifestou atrás dela.
- Ela estava comigo.
A agente Firefigter encarou o garoto que havia entrado na sala de depoimentos. Era óbvio que ela conhecia ele, todo mundo conhecia o rostinho de modelo e o par de roupas de marca que estava naquela sala.
- Senhor Rivers? Você tem certeza do que está dizendo?
- Sim, eu tenho.
Caroline virou-se e encarou Arthur que não olhava para ela. Ele estava lindo como sempre, um tipo de beleza que não se encontra em comercia de loções pós-barba e nem em esculturas de Michelangelo.
- Tudo bem. Me diga onde o senhor e a senhorita Evans estavam para que eu possa checar.
- Estávamos ocupados, se é que a oficial me entende.
Caroline sorriu com a saída. Era completamente absurda, mas era perfeita.
- Eu entendi o que você acabou de me dizer, mas vocês estavam ocupados onde?
- No chalé do meu pai e se a oficial não se lembra, não existem câmeras lá, mas posso providenciar um depoimento de cada funcionário que me viu com Caroline lá.
- E por que – agora Firefighter parecia muito mais séria – você não contou isso antes?
- Para preservar a segurança de Caroline, afinal, muita gente tenta atingir minha família de várias formas.
Houve um minuto de silêncio e oficial fez a sua última pergunta:
- Caroline Evans, você confirma a versão proposta por Arthur Rivers?
Caroline sorriu, apoiou-se na mesa e encarou a agente Firefighter nos olhos:
- Claro que confirmo.
- Então os dois estão liberados.
Os dois garotos saíram da sala, assinaram alguns documentos e se dirigiram a saída da delegacia. Os pais de Caroline tiveram que ficar um pouco mais na delegacia e ela acabou indo embora antes deles. Assim que estavam um pouco afastados do local Caroline perguntou:
- Que motivos levaram você a fazer isso? Você sabia que isso pode sujar o nome da sua família?
- Não interessa, Caroline. – Arthur colocou as mãos nos bolsos e encarou a garota – Além do mais, eles não vão ousar confrontar meu pai. O poder tem suas maldições, mas também trás seus privilégios.
O rosto de Arthur reluzia na luz azulada que circulava pela manhã. A respiração do garoto era lenta e parecia colocar Caroline em chamas.
- Além do mais – ele continuou a falar aproximando-se – eu acho que não quero que alguma coisa ruim aconteça com você. Eles estavam tão preocupados em jogar a culpa pela morte da garota em alguém, que cercariam como lobos a primeira vítima.
- Arthur, eu não sei como agradecer...
- Nem precisa...
Depois de ter dito isso, Arthur aproximou-se com toda a vontade possível. Beijou Caroline de uma forma sufocante, a garota foi jogada contra a parede e passou as mãos ao redor do garoto. O peso do corpo de Arthur sobre Caroline, as mãos de Caroline envolvendo os cabelos de Arthur e a língua do garoto em perfeita sincronia com a língua dela. Nada disso equivalia ao tratado de “sem envolvimentos” que eles tinham que seguir, mas naquele momento, nenhum dos dois se importava.

Capítulo 10 (Parte 1) - New In Town

Duas semanas de paz era praticamente um pedaço do paraíso para quem viveu no inferno por algumas horas. Nos últimos dias, nenhuma manifestação vinda de um estranho havia se aproximado do grupo de amigos mais popular de toda Redmont. Na chuva ou no sol, de dia ou de noite, foi impossível não se surpreender com a cara dos estudantes mais desatentos do Hivler quando , , Victoria, Alex, Caroline e Arthur se sentaram na mesa do centro do refeitório no meio do intervalo de quarta-feira.
- Às vezes eu acho que eles vão tirar um pedaço de mim. – disse Arthur percebendo que quanto mais pessoas entravam no refeitório, mais gente encarava a mesa na qual ele estava sentado.
- Relaxa. – disse Caroline olhando para a multidão – Se alguém for devorar alguém, esse alguém vou ser eu quem vai devorar.
As pessoas continuavam transitando ao redor da mesa principal como se fosse o sol. Se ao menos elas soubessem o que se escondia por trás de tanto brilho... Era óbvio que Arthur tinha mil perguntas para fazer, mas Caroline já havia dito que deviam manter tudo em absoluto sigilo. Uma ponta solta numa mentira (ou numa meia verdade) poderia ser o fim de tudo.
- Então – disse colocando mais creme em algum doce altamente açucarado que comia – como você se sente na nova escola, Arthur?
O garoto encarou o lugar e o palco que estava sendo montado no meio do intervalo antes de responder:
- Sinceramente? Eu nunca me senti tão aceito e ao mesmo tempo tão excluído.
- Bem vindo ao clube. – disseram Alex e juntos enquanto caíam na risada.
- Garotos, – disse Victoria soando tão inocente como sempre – um pouco de segredo não faz mal para ninguém e, além do mais, Arthur já resolveu nossos “problemas”.
- Eu já disse para vocês não falarem disso! – Caroline empurrou nervosamente o copo na sua frente para o meio da mesa.
- Tarzan and Jane were swingin' on a vine (Candyman, candyman).
Três garotas do primeiro ano, provavelmente, começaram a fazer suas apresentações musicais possivelmente decorrentes de alguma apresentação para Artes ou outra coisa.
- Sippin' from a bottle of vodka double wine. Sweet. Sugar. Candyman. – as garotas continuaram a cantar com pausas alternadas para controlar a respiração.
- Eu amo essa música! – disse Caroline entrando no ritmo de Ensino Médio feliz que caminhava no ar – Ah, vamos lá! Sorriam!
forçou um sorriso e os outros apenas assistiam as três garotas fazerem uma coreografia sincronizada e muito sensual para a idade delas.
- Vem cá – disse Arthur reentrando no circulo de conversas – vocês sempre tem um musical no intervalo?
- Qual é! – disse Victoria – Toda escola tem um número musical aleatório e sem razão aparente.
Todos riram, exceto . Ela não parecia muito bem. Ela se levantou e caminhou vagamente pelo corredor dando a justificativa de que precisava resolver alguns trabalhos escolares. Ao longe, ela ainda podia ouvir as três garotas cantando. Sabe quando você sente que algo ruim esta prestes a acontecer? Era isso.

Durante a aula de Física, Caroline, Alex, Arthur e conversaram sobre coisas aleatórios e o professor, que pouco se importava com os alunos, não os impediu de manter o assunto.
- Arthur, a escola é tão boa quanto parece? – disse Caroline olhando para a janela.
- Como eu disse, ainda estou me acostumando com os olhares de “Não acredito que esse cara está estudando aqui”, fora isso tudo vai muito bem.
- É, você deve gostar mesmo de Caroline para se mudar para a escola dela. – Alex tinha passado a aula inteira rabiscando no caderno e só agora se integrava realmente dos assuntos.
- Se para você está difícil Arthur, imagine para mim que passou as últimas semanas se controlando para não revidar os xingamentos de assassino que ouviu pelo corredor.
- Ainda – Caroline não tirou os olhos da janela – perturbam você pela morte da passarinha?
- Você não faz ideia do quanto.
- Deve ter sido muito difícil para você perder Selena, quero dizer, pelo que me dizem você não se lembra direito.
- Você fala “direito” para não dizer que não me lembro de nada?
- Tudo bem, . – disse Caroline – Eu ainda tenho cicatrizes com isso.
- E eu memórias. – disse Arthur.
- Vocês não acham estranho nós estarmos tão soltos? Quero dizer, ele já não deveria ter feito alguma coisa, não que eu esteja pedindo, mas...
- Eu entendi, Caroline. – disse olhando para a porta.
- Talvez seja a calmaria antes da tempestade. – disse Alex fechando o caderno.
- Vamos rezar para que seja o inverso. – disse .

saiu da sala de Francês, pois estava com muita dor de estômago. Era quase como se pressentisse alguma coisa ruim se aproximando. Ao passar pelo corredor no caminho da diretoria, ela não pode deixar de notar as finas gotas de chuva que caíam na janela do corredor. Ela parou por meio momento e encarou o ambiente, então ia voltar a andar quando tropeçou e quase caiu, porém, ela percebeu que havia “tropeçado” em alguém. Ela se recompôs e sorriu para o garoto (ou homem? Ele não aparentava ter mais de 23 anos).
- Cuidado, moça. – disse ele. – Você pode se machucar.
Ele era alto, tinha os cabelos curtos e olhos azuis diamante. De longe, era um cara muito bonito e o que mais incomodou foi que ela conhecia essa beleza de algum lugar.
- Tudo bem. – disse ela – Serei mais cuidadosa da próxima vez que for tombar com alguém no corredor.
- Que eu tenha a sorte de ser esse alguém de novo.
sorriu simpaticamente e saiu, no fim, era tudo apenas impressão sua. Depois de explicar os motivos, assinar alguns documentos e ter que entregar um comunicado para seus pais dizendo que ela havia saído mais cedo, decidiu ir caminhando até sua casa. tinha dito que ia sair com os outros para comer no Sticks – ela bem que queria, mas não se sentia bem com isso. deu dois passos e soube imediatamente o que estava incomodando sua mente, precisava dar meia volta.

No Sticks, , Caroline, Alex e Victoria mostravam a Arthur que morar em uma cidade pequena tem suas vantagens, como, por exemplo, o espírito de coletividade que unia as pessoas.
- Então, eu virei para a garota e disse: Como você consegue dizer que não gosta de The Vampire Diaries? Claro que todo mundo gosta.
Victoria e Alex riram das piadas e histórias excessivas de Caroline.
- Carol, – disse Arthur com toda a delicadeza na voz – eu não gosto de The Vampire Diaries.
- Como assim não? Então eu estou com o cara errado.
Todos riram, exceto , ele nem se quer tinha tocado na sua comida. Victoria colocou a mão em cima da de e sorriu amigavelmente, em retribuição ele sorriu e, por fim, disse:
- Só estou preocupado com , ela não parecia muito bem.
- Ah, bobagem! – Caroline e jogou mais calda de chocolate no sorvete que devorava – Ela só deve estar querendo terminar de ler aquelas porcarias velhas que ela tem na estante.
Podia até ser isso, mas não sentia que era. não tinha uma personalidade contrastante, é claro que alguma coisa estava errada, mas seria rude deixar Arthur sozinho na sua primeira visita amigável a Redmont, já que o garoto não ficava na cidade há muito tempo. Ele refletiu brevemente sobre isso, lá fora chovia e fazia sol ao mesmo tempo. Ele não gostou disso, mau presságio.
-... E então, qual sua opinião, ?
virou-se rapidamente para a mesa e pediu desculpas por estar tão distraído com a conversa. Caroline disse que não interessava mais a opinião deles, veriam o filme sem o consentimento do garoto e, mais uma vez, todos riram.
olhou pela janela e viu alguém que ele conhecia muito bem passar correndo em direção a porta que, no instante seguinte, se abriu e mostrou uma suada e ao mesmo tempo molhada da fina chuva que caía lá fora. A garota estava vermelha e ofegante quando se junto à mesa. Todos olharam assustados para a garota.
- – disse se juntando a ela – o que aconteceu?
Ela tentou falar, mas estava ofegante demais. Victoria ofereceu um copo com água à amiga que tomou em poucos goles.
- Desembucha garota! – disse Caroline – Você está me deixando nervosa.
- Eu sei – ela começou a falar – que vai parecer loucura, mas eu sei o que estava me incomodando...
- Se você sabe, diga logo, ! – Alex também estava preocupado com a garota.
- Hoje pela manhã, eu tombei com um cara no corredor e vocês não vão acreditar quem ele era!
esperou uma resposta ou mesmo uma suposição, mas tudo que teve de volta foi o silêncio e vários faces de curiosidade e nervosismo.
- Ele era...
- Richard Birdy. – uma voz do fim da sala surgiu do nada.
Todos se viraram, mas foi a reação de que assombrou a todos. Ele tremeu quando viu o garoto, era nesse ponto que roia todas as suas unhas. Richard estava ali e com certeza não trazia boas notícias.
O garoto, que finalmente conseguira fazer a associação através de uma das fotos do álbum de no qual ele aparecia com Selena e Richard na mesma imagem, começou a caminhar na direção do grupo:
- Pois é. Foi uma surpresa encontrar você aqui. – disse ele apontando para – Mas eu não imaginaria que você era a namorada de . De qualquer forma, eu tenho assuntos para resolver e esclarecerei todos eles. Por bem ou por mal.
Os garotos se encararam. Se a morte tinha um anjo de aviso, esse anjo era Richard Birdy. Só restava encarar as consequências.

Capítulo 10 (Parte 2) - New In Town

Richard sentou-se desenvoltamente onde o grupo de amigos estava sentado. Ele era um perfeito Narciso e extremamente mais bonito que qualquer outro cara no Sticks – isso incluía e Alex. Tinha os cabelos louros desarrumados, usava uma camisa larga como se, propositalmente, ele soubesse que todos se perguntariam o que se escondia por baixo da camisa. Tinha intensos olhos azuis, físico de quem passou grande parte da vida praticando algum esporte, mas nunca foi fanático por academia e, diferentemente de , ele sabia que era bonito e sabia melhor ainda como se aproveitar.
A garçonete dirigiu-se a mesa imediatamente após o rapaz se sentar, ele fez seu pedido e ninguém falou nada. Não queriam falar e não havia o quê falar.
- Antes que você se assuste, . – disse ele dando um longo gole no drink esverdeado que estava no seu copo – Eu apenas vim saber se você lembrou de alguma coisa daquela noite.
ficou calado. Não sabia como encarar Richard, há muito tempo atrás eles tinham sido quase irmãos, mas desde a morte de Selena eles não se falavam direito. Para ser mais específico, a última vez que tinham se falado foi no julgamento da morte da garota, na qual Richard preferiu não se manifestar. Olhar para aquele cara na sua frente, era como ver o passado dar meia volta e virar futuro.
- Não, Richard. Eu não lembrei de nada.
Richard encarou as pessoas da mesa e examinou-as com seus olhos diamante. manteve o rosto firme e não deixou de encarar o estranho nos olhos.
- Curioso. – disse ele cruzando as pernas no maior estilo masculino – Algo me disse que você teria algo para me dizer.
- Algo? – disse juntando as partes do quebra-cabeça para que ele fizesse sentido.
- É, algo. É frustrante saber que você não lembra de nada do dia em que minha irmã morreu.
O garoto levantou-se e caminhou em direção a mesa de sinuca que havia sido colocada próximo ao toca discos. Todas as garotas o observaram fazer movimentos graciosos com o taco na mão.
- E onde foi que Ella escondeu você, não é? Até achei que não fosse conseguir te achar.
levantou-se, Richard apenas passava o taco de uma mão para a outra. Não parecia se importar verdadeiramente com a situação que ali ocorria.
- Richard, escute. – estava sussurrando enquanto falava – Eu sei que você quer respostas e darei aquelas que eu puder, mas não faça isso na frente da cidade inteira...
- Eu entendo, amigo. – ele passou os olhos pelo lugar – Não vou dedurar você na frente da cidade inteira.
Com essa frase, Richard caminhou em direção ao bar para pedir outro drink. Assim que o rapaz saiu, Alex perguntou:
- Caramba, o que esse cara está fazendo aqui?
- Uma vez. – disse encarando o vazio – Ele me disse que viria atrás de respostas e parece que ele realmente veio.
- Tirando esse ar macabro de irmão vingador e de ogro devorador de pessoas, ele até que é bonitinho.
Caroline repreendeu Arthur antes que ele pudesse questionar a afirmação. estava ausente na conversa e mesmo tão distraída, pediu licença e foi pedir uma bebida. Claro que o intuito não era o drink.
- Richard?
Disse ela se aproximando do rapaz que devia estar em uma conversa muito importante com a atendente, pois ela pareceu extremamente decepcionada quando o chamou.
- Com medo de ser morta, linda? Garanto que não vai haver uma segunda.
deu um sorriso amarelo. Não era de agora, mas ela estava com a súbita impressão de que Richard estava interessado demais nela.
- Então você não acredita que tenha matado Selena?
O garoto deu de ombros:
- Acreditar... Não acreditar... Ela já morreu, nada vai mudar isso.
- Eu... Sinto muito pela sua perda.
Richard, novamente, foi indiferente. Encarou o restaurante e viu que de onde estavam, a mesa de não podia ser vista e os amigos da garota, logicamente, não poderiam vê-la.
- É, deve sentir, apesar de ser seu namorado quem deveria sentir.
- Acredite-me, ele sente. – disse sorrindo – Só queria quê...
Richard juntou seu corpo contra o de , a respiração quente do garoto sobre ela e seu hálito cheirava a álcool e limão.
- Quando eu te vi na escola, sabe? – ele ajeitou uma mecha do cabelo de – Eu quis te beijar imediatamente, mas não podia.
- Richard, eu sugiro que você...
- O quê foi, ? – ele sorriu marotamente para ela – Vai dizer que você também não se sentiu atraída por mim?
A garota sacudiu a cabeça.
- Não, eu não estou atraída por você.
Richard soltou e deixou-a de lado. Então, olhou-a fixamente e desejou que ela pudesse estar um pouco mais indecisa com as palavras que disse, embora estivesse completamente segura.
- Escuta, . – ele fez um gesto com a mão como se estivesse espantando um mosquito – Eu sei que você, provavelmente, deve gostar do perigo. Todas as garotas gostam, mas se eu fosse você, não cairia nessa! Pense no que aconteceu com Selena...
- Você me disse que não acreditava que tivesse matado sua irmã!
- Eu não disse isso.
Richard colocou seu rosto contra o de e ela sentiu a barba mal-feita roçar contra suas bochechas. não trairia , mas não podia deixar de negar que Richard era um excelente conquistador. Então, ele subitamente se afastou e voltou a beber seu drink.
- Eu não entendo. – disse a garota – Por que você faz isso?
- Isso o quê?
Depois de um longo suspiro a garota começou a falar.
- Não entendo você. É tão amargo e frustrado ao mesmo tempo.... Tão...Tão...
- , por favor! – Richard começou a gargalhar – Não venha com esse papo de ler meus sentimentos e a minha mente. Você não é uma vampira e eu não sou uma "mocinha medieval em perigo".
não sorriu com a piada, pelo contrário. A garota passou os olhos pelo lugar, não havia ninguém olhado. Alguma coisa nela a fazia detestar Richard, ele, com quase toda a certeza do planeta, era uma das pessoas mais desprezíveis que ela tinha conhecido.
- Escuta aqui...
- Não, escuta aqui você. – Richard puxou pelo pulso fazendo a garota sentir a força que aquele homem possuía – Você se acha a garota mais feliz do planeta por estar com um cara bonitinho e inteligente, e sabe de uma coisa? Eu também achava isso de antes de ele foder minha irmã e jogar o corpo dela dentro de um lago, mas é óbvio que vocês, garotinhas inocentes e mimadas, não se importam com isso.
Richard fez uma leve pausa, mas não afrouxou o punho ao redor da mão de e depois, continuou:
- Sabe de uma coisa? Eu até comeria você, se você não fosse tão desprezível. Afinal, você tem cara de quem precisa ser bem fodida, algo que eu tenho quase certeza que o psicopata ignorante ainda não fez. Então, antes de apontar o dedo para mim de novo, olhe bem para sua cara.
ficou parada, sem reação e em um impulso furioso, cuspiu contra o rosto do rapaz. Richard largou-a como quem larga um leproso, ele passou a manga da camisa pelo rosto e encarou a garotinha assustada na sua frente.
- Se você quiser mais provas, procure Erica Durblein em Brighton. Aqui. – ele escreveu um endereço num guardanapo de papel com uma caneta que havia puxado do bolso – Pegue um trem e vá trás da verdade, afinal, nem é tão longe daqui.
caminhou de volta para a mesa segurando as lágrimas e com o endereço na mão. Brighton ficava a quanto tempo de Redmont? Pouco tempo. Quando voltou para a mesa, não estava mais com fome, não estava mais com raiva, estava determinada a por um ponto na história, mas para isso, precisaria de ajuda.

***

corria pelas ruas de Redmont com o cabelo preso em rabo de cavalo. Ela acelerou o passo e ignorou os estranhos que passavam pela rua, cumprimentou os que ela conhecia e desejou chegar o mais rápido possível ao centro da cidade. Não demorou muito para ela encontrar duas pessoas muito conhecidas sentadas no banco mais próximo do chafariz no meio do parque. A conversa com o garoto Birdy na noite passada tinha a feito tomar uma decisão, mas para isso precisaria de suas duas melhores amigas.
Caroline levantou do banco e acenou quando viu , assim que a garota se aproximou, Caroline resmungou:
- Vai demorar? Eu marquei para fazer minhas unhas hoje.
suspirou, sorriu e replicou:
- Se eu fosse você, cancelaria a manicure.
Victoria, que estava calada no seu canto, resolveu se manifestar.
- Por que eu acho que a conversa com o cara do comercial de loção pós-barba vai fazer a gente ter certo trabalho?
- Você me viu conversando com Richard?
- Eu, Victoria e metade da Inglaterra vimos. – Caroline ajeitou uma mecha de cabelo rebelde que insistia em se sobressair – Só não os meninos, eles estavam entretidos demais conversando sobre a chegada dos Birdy.
- Graças a deus que seu plural foi irregular, Caroline.
As três garotas riram. sabia que podia confiar nas duas amigas, havia uma divergência muito grande nos ideais de cada uma, mas juntas poderia até ganhar uma guerra. Numa síntese rápida, contou a conversa que tivera com Richard na noite passada, depois do choque inicial e dos comentários de Caroline sobre "como Richard usaria essa brutalidade na cama", Victoria comentou:
- Então, segundo seu plano. Nós vamos até Brighton para descobrir o que a tal Erica Durblein pode nos contar?
acenou com a cabeça. Não era o melhor plano do planeta, mas definitivamente era um plano.
- Tudo bem, . Nós vamos amanhã...
- Na verdade – puxou de dentro do bolso três folhas de papel – Eu peguei as passagens para hoje depois do meio-dia.
- Meio-dia? – Caroline bufou – Eu ainda não vou ter feito as minhas unhas.
- Por Deus, Caroline. Será que você poderia manter o foco pelo menos uma vez na vida?
- Ahhh, nem vem, Victoria! Se eu vou pressionar uma garota a revelar os segredos da família Birdy (ou pelo menos da filha deles), é óbvio que eu preciso estar com as unhas feitas.
sorriu e puxou as duas amigas:
- Vem Caroline! No caminho de casa você faz suas unhas.

***

Richard passou seus lábios por dentro da boca da garota sentindo o gosto do batom dela. Ela gemeu levemente e ele pressionou o corpo frágil da loira contra a porta do motel, o impacto fez a garota fazer cara feia e derrubou algumas coisas da prateleira próxima a porta.
- Nossa... – a garota puxou fôlego para falar – Você é sempre tão impulsivo?
Richard carregou a garota, ela passou as pernas ao redor do garoto e ele apalpou impulsivamente os seios dela por cima da blusa.
- Mais do que você pensa.
Ela gemeu e mordeu os lábios para não deixar transparecer todo o prazer que percorria seu corpo. Richard colocou-a gentilmente no chão, ela sorriu, mas também era capaz de tomar controle da situação. Ela empurrou Richard contra a cama fazendo um baque, ele sorriu safado e ela tirou a blusa com uma só manga que cobria seu corpo.
- Oopss. – disse a loura quando a roupa preta caiu no chão.
Então, ela se arremessou em cima do cara mais bonito que tinha visto nos últimos meses. As mãos de Richard eram hábeis e apalpavam seu corpo em pontos que a faziam delirar de prazer, com um movimento rápido, o garoto ficou em cima dela e ela, com um movimento mais rápido ainda, desabotoou a camisa dele deixando seu peitoral de jogador de lacrosse a mostra.
No instante seguinte, a camisa foi atirada para o ar. Ela apalpava os músculos do tórax do garoto com firmeza, gentilmente ela deslizou suas mãos por cima do jeans do garoto e brincou com o cinto de sua calça, enquanto isso, Richard se afogava nos seios dela e com a boca, soltava a presilha do sutiã. Quando os seios da garota ficaram a mostra, ele passou os lábios pela região depositando mordidinhas e beijos. A loura puxou os cabelos dele fazendo com que sua cabeça tombasse para trás, era impossível não perceber a ereção no seu jeans que precisava ser libertada e isso só a fazia sentir mais prazer.
Richard se afastou para longe dos seios da garota e baixou seus olhos para o que estava no meio das pernas dela. Ela sorriu e ele apenas colocou sua mão dentro do jeans dela, no instante seguinte a loura soltava gemidos e tentava se controlar para não ceder aos toques daquele homem que seria capaz de levar qualquer mulher ao orgasmo. Os movimentos se intensificaram e ela sentou-se rapidamente de frente para o garoto. Suas mãos deslizaram pelo abdômen dele e chegaram a sua masculinidade, ela fez movimento leves e Richard pareceu apenas assistir cruelmente o esforço da garota. Ela abaixou as calças dele e jogou o cinto para um canto do quarto de motel, a boxer branca ficou a mostra e ela quase teve um orgasmo quando Richard passou suas mãos ao redor de seu corpo e o pressionou contra o dele. Ela pode sentir o volume de Richard tocar sua pele, ela queria o garoto mais do que queria respirar. Rapidamente ele a atirou contra cama, baixou seu shorts e colocou seu membro para a fora. A princípio, ele passou o órgão somente na entrada da garota, mas quando ela sussurrou "Não me tortura" de uma forma suplicante, ele não pode mais aguentar. O movimento de vai e vem pareceu durar uma eternidade, a garota estava se sentindo completa e satisfeita. Richard apenas observava a expressão no rosto da garota e depois de um bom tempo, os dois chegaram ao ápice do prazer juntos.
A garota loura permaneceu deitada na cama, mas Richard não planejava ficar por ali. Depois de tomar um banho rápido, começou a se arrumar:
- Nossa, tão rápido? – ela disse surpresa de ver que ele já estava se arrumando.
- Oh, sim eu estou atrasado.
A garota deu um beijo no rosto do garoto e sussurou em seu ouvido:
- Quando nos veremos de novo, Matt?
Richard sorriu, claro que não iria dar seu nome verdadeiro para qualquer uma que conhecesse na rua.
- Ah, não sei. Talvez na mesma festa em que nos encontramos?
- Pode ser.
Richard caminhou em direção a porta e disse rapidamente:
- Adeus, .
A porta fechou com um baque, a garota tentou faze-lo ouvir, mas ele já não estava ao alcance de sua voz.
- É Meredith. Meu nome é Meredith.

***

A estação de trem de Redmont não era muito utilizada para viagens longas, mas quando se falava em visitar lugares próximos, era perfeita. Caroline adentrou uma das cabines no vagão de metal e esperou que as outras duas se acomodassem. A viagem seria um pouco cansativa, mas a determinação de por respostas movia as outras duas.
- E como você planeja abordar a garota? – perguntou Victoria que observava a estação ser deixada para trás aos poucos enquanto o trem ganhava velocidade.
- Eu não tenho um plano – disse – mas isso não significa que eu não possa fazer um.
Caroline encarou as duas por um instante e puxou um frasco de dentro da bolsa. Deu um gole rápido, fez cara feia e depois fez cara de desentendida quando as outras olharam de cara feia para ela.
- É só para aliviar!
O trem sacudiu um pouco e as três permaneceram em silêncio. Como Erica Durblein reagiria quando ela soubesse que o assunto que queriam falar com ela era relacionado à Selena Birdy? Nem morta Selena dava sossego.
pressionou o rosto contra o vidro e observou o sol brilhar calmamente no horizonte. Por que o sol sempre parecia estar no horizonte? Aos poucos, os olhos da garota foram se fechando e por fim, ela adormeceu.

Algumas horas depois, as três amigas corriam contra o tempo para chegarem a loja que Erica trabalhava antes do termino do período. Por uma série de desvios no caminho, elas se atrasaram muito e o sol já estava quase se pondo enquanto elas corriam por uma das ruas mais movimentadas de Brighton. Só de pensar que estava tão próxima de Londres, pensava em largar todos os seus planos e ir atrás de uma nova vida.
- Esperem... – ofegou Caroline – Eu não aguento mais correr.
- Achei que você fosse boa no atletismo, Carol.
- Victoria, Caroline só é boa em correr em liquidações.
As amigas prosseguiram andando o mais rápido que podiam, tinha certeza que aquela era a rua que a loja ficava, mas quanto ao número não estava tão certa. Os casacos estavam se tornando mais grossos nas ruas à medida que a noite se aproximava e elas deveriam pegar o trem das 18h30min. Elas já estavam quase desistindo, quando Victoria avistou o letreiro dourado que dizia Mary’s Room.
- Achamos. – disse Caroline que ofegava pela milésima vez naquele dia.
- Agora só resta irmos procurar por Erica. – disse Victoria tomando nota das horas.
correu em direção a porta e quando passou por ela um sino soou.
O lugar era um bazar cheio de coisas velhas, livros empoeirados e roupas que ninguém mais queria usar nesse século e nem no passado. Vários ursos de pelúcia encaravam de uma prateleira protegida por um vidro. Caroline enfiou as mãos no bolso do casaco e fez um sinal silencioso falando do frio do local.
Por um momento, pensou em chamar a atenção dos donos da loja, mas, como se pudesse atravessar parede, uma garota de olhos verdes gateados e cabelos negros que se arrumavam em cachos naturais apareceu próxima a uma pilha de livros.
- Posso ajudar? – disse ela com sua voz de “Vocês estão me fazendo exceder o expediente”.
- Err...
não soube o que responder. Seria aquela garota Erica Durblein?
- Eu gostaria de falar com Erica Durblein, ela trabalha aqui?
- Sim. – disse a garota que depois de uma pausa, continuou – Eu sou Erica Durblein. Por quê vocês querem falar comigo?
virou-se para trás em busca de ajuda, mas Caroline e Victoria pareciam estranhamente interessadas nos livros que estavam espalhados por todo lugar.
suspirou, que amigas! Deixaram a parte delicada inteiramente com ela.
- Erica, eu sou . – ela suspirou novamente – O assunto que eu quero falar com você é um tanto... delicado...
Erica pareceu duvidar do quê a garota falava, mas fez sinal para que ela prosseguisse.
- É sobre uma grande amiga sua, pelo menos eu acho que seja. É sobre Selena Birdy.
Se perguntassem a qualquer uma das garotas qual era a expressão facial que Erica exibia, elas não saberiam dizer. A princípio acharam quem fosse raiva, e depois tristeza para só então chegar ao tédio que assombrava naturalmente a face de Erica, mas quando ela falou, sua voz saiu incrivelmente calma:
- Escutem aqui, se vocês são algumas retardadas que ouviram falar da recompensa por qualquer pista que levem ao assassino de Selena, saibam que eu não vou me envolver nisso e...
- Não é sobre como Selena morreu. – interrompeu – É sobre quem a polícia acha que a matou.
Erica ficou vermelho fulminante e depois de um longo suspiro para manter a calma, prosseguiu:
- Você é da polícia? Não, não é? Então pare de procurar por essas coisas. Afinal, o quê você tem haver com um crime que aconteceu há tanto tempo? Não quero falar sobre , acho que já incomodaram demais a alma de Selena.
caminhou para mais perto da garota.
- Você não entende.., Richard me disse que pode ter alguma relação com o crime e eu sou namorada dele.
- Espere. – Erica observou minuciosamente – Você disse que Richard está aqui?
afirmou com a cabeça. Erica fez cara de desgosto e caminhou rapidamente em direção ao balcão para pegar algo na sua bolsa, olhou alguma coisa lá dentro e voltou-se para :
- Quer saber? Eu não tenho mais nada com a família Birdy. Não devo justificativas a você ou a ninguém. E se você veio aqui para saber da relação de com Selena, saiba que eles eram amigos e apenas isso. Não acredito que ele faria nada para machuca-lá, mas a minha opinião não contou nada no tribunal.
encarou os olhos verdes de Erica. Eram ferozes e certos do que diziam. Não teve muito tempo para refletir sobre a conversa com a garota, com um gesto nada delicado, Erica indicou a saída para as três amigas. A noite já caia em Brighton deixando o céu com aquela textura esfumaçada que faz qualquer mistério parecer indecifrável até para Sherlock Holmes.
- E então – disse Victoria enquanto procuravam um táxi para a estação – Você acreditou no que ela disse?
- Porque se você não acreditou, não vai haver uma segunda vez. Ela foi muito grosseira. – Caroline ajeitou o salto que tanto a incomodava.
- É exatamente isso.
Um carro parou na rua ao sinal de Victoria, as amigas entraram no carro e ficaram em silêncio. Ainda havia tempo para chegar até a estação, não havia mais motivo para pressa. A conversa com Erica havia sido muito mais curta do que se planejara, no meio do silêncio, adicionou:
- Foi exatamente a grosseria dela que me incomodou. Era quase como se quisesse esconder alguma coisa.
E o táxi prosseguiu seu caminho pelas ruas frias da cidade.

Capítulo 11 - Crashing

- Então, onde vocês estiveram ontem a tarde toda?
Disse Alex atirando um livro em cima da mesa da biblioteca. Caroline, e Victoria se entreolharam e decidiram ignorar a pergunta.
- Ah, tudo bem. – disse Alex abrindo um exemplar de História Clássica Mundial enquanto puxava uma caneta de dentro de sua bolsa – Segredos de garotas.
- Não é segredo, Alex. – disse Victoria – É só algo que é melhor manter sigilo.
- E isso não é um segredo? – replicou o garoto.
As meninas riram e a bibliotecária fez sinal para que o grupo ficasse calado. Muita coisa estava acontecendo durante um curto período de tempo, e para variar, eles não tiveram notícia alguma do perseguidor.v Não que eles sentissem falta disso, é claro.
Alguns minutos depois outra pessoa se sentou à mesa.
- E aí? – disse passando as mãos pelos cabelos suados.
- Você estava onde? – perguntou Caroline – Devia ir tomar um banho.
- Eu estava jogando futebol americano, Caroline. E seu namorado também.
Arthur sentou-se na mesa reclamando de dores em todas as partes do corpo.
- E, aparentemente – disse com um sorriso sarcástico – ele não aguenta um empurrão.
Arthur ia responder, mas a bibliotecária pediu novamente que o grupo fizesse silêncio. continuou batendo a caneta involuntariamente contra a folha de papel. Havia muito mais que um simples trabalho de História Clássica para ser feito.
- , você nem escreveu direito sobre o Egito ainda! – disse Victoria levantando o papel que a amiga estava escrevendo.
- Eu só ando um pouco distraída.
- Isso é sobre, Richard? – disse terminando de escrever o último tópico de seu trabalho que já estava quase pronto há mais de uma semana – Vamos lá, ele não pode fazer nada de ruim.
afagou os cabelos de que sorriu em retribuição.
- A não ser que “a coisa” conte para ele sobre a Festa da Fundação...
Caroline tinha mencionado uma possibilidade aterrorizante. Victoria se encolheu contra a mesa e Alex deixou cair com um estrondo um dos livros no chão. Todos ficaram tensos.
- Não, isso não pode ser uma possibilidade – disse se levantando da mesa e devolvendo seu livro a estante – Aliás, é melhor nem pensar nisso.
A garota saiu caminhando para longe da mesa.
- Acho que ela tem razão. – disse Victoria se levantado também.
Então, todos os outros começaram a se levantar e colocar seus livros nas estantes. Parecia que, repentinamente, o ambiente estava completamente infectado.

No lado de fora da biblioteca, seguia o caminho que levava até a saída pelos fundos da escola. Vários alunos caminhavam pelo corredor e diversas turmas já tinham sido dispensadas. Ela encarou os rostos inocentes que passeavam por ali. Com quase toda certeza, nenhum deles tinha matado alguém, nenhum deles era perseguido por um sociopata que apenas queria destruir a vida de cada um, nenhum deles se apaixonara pelo mocinho e, provavelmente, nenhum deles amava tanto o mocinho ao ponto de querer provar para todo mundo que ele realmente era o mocinho.
ficou parada no portão, onde vários alunos passavam e encaravam-na com sorrisos de “nossa, como eu queria estar perto dessa garota”. Ela não retribuiu nenhum, não precisava de mais ninguém metido em problema.
Foi então que ela viu. Parado perto do muro como uma linda estatua de jardim e com aquele sorriso de modelo da Calvin Klein, Richard pressionava uma garota – do segundo ano, talvez? – contra o muro.
- Doentio. – disse Victoria chegando ao lado de . – Ele não veio aqui para investigar a morte da irmã?
- Ele sempre foi assim – disse se juntando a conversa – Desde antes de Selena morrer, ele não leva nada a sério. É um conquistador barato.
Então, como se soubesse que estavam falando dele. Richard virou-se em direção ao trio, acenou com as mãos e deu um sorriso comprometedor. acenou sem graça, mas as garotas mantiveram-se na linha dura.
- É um idiota. – disse .
- Isso não é pedofilia? – resmungou Victoria.
- Não se a garota gostar, eu acho. – Caroline também havia chegado ao local onde os garotos estavam.
passou andando o mais rápido que podia perto do garoto seguida de perto por . No caminho de casa, os dois não falaram muita coisa, mas de uma coisa eles estavam certos: a presença de Richard era um incomodo maior até, talvez, que a morte de Mary Valley.

Naquele dia de tarde, terminou seu trabalho de História Clássica e ficou jogando vídeo-game com Tyler. Fazia um tempo que não gastava algumas horas com o irmão e sentia falta disso.
- Vamos, ! Mais uma! – disse Tyler quando ela se levantou para subir para o quarto – Eu até deixo você ganhar!
- Ah, nem pensar. Prefiro passar o resto da tarde solitária do que sofrer com sua piedade. – disse a garota fazendo um gesto exageradamente dramático.
Os dois riram. A única relação saudável que tinha na sua família era com Tyler. Quando a garota chegou aos pés da escada, ouviu Miranda chamando-a.
- Sim, Miranda?
- , você tem uma visita.
A garota caminhou intrigada até a porta da frente e quando a abriu, preferiu que não o tivesse feito. Richard estava parado na sua frente, parecia cansado e sem aquele sorriso simpático daquele dia de manhã.
- ? – ele disse com sua voz terrivelmente educada.
- Sim?
- Você poderia me ajudar? – disse ele apontando para o seu braço.
não tinha notado, mas o braço do rapaz tinha um corte muito feito. Uma parte de sua camiseta branca estava manchada de sangue e seu jeans também.
- Deus, Richard. – disse a garota – Onde você conseguiu isso?
abriu a porta para que ele entrasse e pediu que Miranda mandasse Tyler pro seu quarto. A garota pegou uma caixinha com algumas coisas para fazer limpeza no corte e rezou para que não fosse profundo, se não teria que mandá-lo para o hospital.
- Uma barra de ferro. Estava dentro do meu carro, não sei como foi parar lá. Ah! – gemeu ele quando ela começou a limpar o corte com álcool.
- Por favor, olha seu tamanho, Richard! Não se comporte como uma criança!
encarou o corte novamente e foi atacada pelo pensamento terrível de que esse fosse apenas um aviso do psicopata para o grupo.
- Você disse que a barra estava dentro do carro?
- Sim. Eu acho... Quero dizer, não lembro muito bem do que fiz nas últimas horas.
A garota suspirou:
- Entendo... E como você achou minha casa?
- Eu ia para casa de , porque Ella é médica e não gosto de hospitais, mas o carro dela não está na garagem e lembrei que tinha mencionado que você morava no lado da casa dele e, de qualquer forma, eu nem sabia o caminho para o hospital. Aí pensei em passar aqui.
- Entendo. – observou o braço de Richard por um instante – Você vai ter que tirar a camisa. Ela é branca e está ficando toda suja.
Richard sorriu.
- Parabéns, . Você é a primeira pessoa depois da minha mãe que tira minha camisa e não quer que eu tire mais nada.
Ela bateu com os dedos em cima do corte o que fez o garoto gemer. Richard tirou a camisa e ela limpou o sangue que escorria pelo seu tórax e pelas costas dele. Depois de aplicar uma serie de curativos no lugar, comentou:
- Pronto. Fiz o melhor que pude, mas sugiro que você vá ao hospital só para prevenir qualquer tipo de infecção e para sua sorte, o corte não foi tão profundo.
Richard levantou-se, colocou a camisa branca suja de sangue no ombro e caminhou até a porta. abriu a porta rapidamente para que o garoto saísse, mas antes que ele descesse o último degrau da escada que dava para o jardim, ele parou e se virou em direção a ela:
- E eu preciso admitir que não vou encontrar a solução da morte de Selena aqui. – disse ele.
fechou a porta e se aproximou mais do garoto. Não queria que ele falasse alto, não queria que ninguém ouvisse a conversa.
- Bom saber que você percebeu isso. – disse ela.
- Na verdade, eu vou embora hoje de noite. – e depois de um tempo, adicionou – Vou sentir falta de você.
encarou o garoto que se aproximou um pouquinho mais de seu corpo, ela até pode sentir o cheiro dos remédios que havia usado para limpar seu braço.
- Richard, eu prefiro que você não tenha esse tipo de contato comigo.
- Por quê? – disse sorrindo – Por que você não quer ou porque você tem medo?
Ele se aproximou mais um pouco, no instante seguinte, um jato de água atingiu o rosto do garoto e molhou o cabelo de . A garota se virou em direção a fonte do jato e viu apenas com uma bermuda jeans apontando uma mangueira na cara do garoto louro.
- Talvez porque ela já tem alguém, Richard. – disse parando de espirrar a água.
Richard sorriu.
- Ah, . Nem tinha visto você aí.
- – disse um pouco nervosa – Não foi nada disso...
- Não precisa – respondeu o namorado – eu vi tudo que aconteceu.
Richard encarou a situação por alguns instantes e depois caminhou lentamente em direção ao carro. Antes de sair da frente da casa de , ele disse:
- Tudo bem. Você pode ficar com o troféu pelo menos uma vez na sua vida.
E assim ele foi embora. encarou com indignação o carro dobrar a esquina e correu para perto de .
- Cuidado, . Richard não é confiável.
- Não temos mais que nos preocupar com ele. Ele vai embora hoje.
arqueou as sobrancelhas e encarou a garota.
- É verdade. – disse ela – Ele falou para mim.
- E por que ele foi a sua casa, afinal?
- Essa é parte estranha. – replicou – Ele tinha um corte no braço, pensei que pudesse ser coisa... Bem, você sabe de quem.
- Espero que não seja.
deu um beijo rápido nos lábios de e depois de um abraço apertado, voltou para casa. Antes que passasse pela cozinha, ouviu uma voz dizer:
- Quem diria. A garota que não socializava agora está sendo disputada por dois caras lindos e fortes. Queria que eles tivessem brigado.
ficou rubra.
- Cala a boca, Miranda!
A empregada começou a rir. subiu as escadas correndo para seu quarto. Não sentia nada por Richard, sabia disso. Ele só era terrivelmente convincente, ela não seria mais uma das garotas que ele convenceu com seu rosto de comercial de loção de barbear.
Ela tirou a camiseta que estava usando e trocou por outra que não estivesse suja do sangue da família Birdy. Olhou pela janela de seu quarto, estava debruçado na varanda lendo tranquilamente na cadeira de balanço. Ela sorriu, era ele quem ela amava e nada e nem ninguém poderia mudar isso. Tentou ler um desses romances modernos que todo mundo lê, mas, como sempre, ficou entediada e jogou o livro para baixo da cama. Foi para o computador, abriu a caixa de e-mail e viu que tinha uma nova mensagem:

Olá ,
Preciso falar com vocêo mais rápido possível. Encontre-me na rodovia 4 – próximo a aquele bar para os que saem da cidade – às 20h30min de hoje. Voltarei para os Estados Unidos amanhã.
- Erica D

O que Erica Durblein queria falar com ? Ela mal podia esperar para saber, pensou em ligar para Victoria e Caroline, mas isso poderia atrapalhar a conversa das duas, então, decidiu ir sozinha. Arrumou-se e esperou ansiosa para saber o que Erica tanto queria falar com ela.
Às 20h22min, estava estacionado seu carro próximo ao bar que Erica mencionara. Ela ouviu seu celular tocar, mas o que quer que fosse podia esperar. Ficou encarando a noite fria que circulava aquela rodovia e percebeu que o encontro próximo ao bar era perfeito: era seguro o suficiente e discreto o suficiente também. Alguns minutos se passaram e nada de Erica aparecer.
A noite começou a esfriar e uma névoa gélida se formou na estrada. entrou no carro novamente, pois estava chamando muita atenção sozinha na estrada. Virou-se para trás e viu faróis se aproximando da estrada. Tinha que ser Erica. Com toda certeza era Erica Durblein. saiu novamente do carro e esperou que ele encostasse, mas para sua surpresa, isso não aconteceu. A garota fez sinal com as mãos para que ele parasse, mas o carro continuou acelerando cada vez mais e quando percebeu o que ele iria fazer, saiu correndo em direção a encosta da estrada. O carro avançou e em um movimento rápido, se atirou no chão. Ela olhou rapidamente para quem estava dirigindo o veículo e se assustou quando percebeu que Erica parecia ter perdido o controle do carro. O automóvel continuou avançando em direção ao final da rua e no fim dela, se encontrava aqueles típicos abismos de lugares que fazem encosta com o mar. saiu correndo em direção ao carro, o vento frio cortando seu rosto, sua pulseira arranhando sua pele e tropeçando nos próprios pés. O carro fez uma curva brusca, mas não desacelerou e continuou avançando, só que no sentido oposto. correu para longe do caminho do veículo e por pouco não foi atropelada. O carro desviara de uma das encostas, mas já estava caindo em outra e numa velocidade muito maior do que a quê a que se dirigia para a primeira.
A garota pode ouvir o grito de Erica dentro do carro e quando achou que a garota não saberia o que fazer, a porta do carro se abriu e Erica saltou do carro, porém ela já estava perto demais do precipício. No instante seguinte, o veículo avançou no ar e o corpo de Erica foi projetado para longe da encosta do abismo.
- Erica! – gritou ao tomar noção do que estava acontecendo.
correu, tropeçou em galho, levantou-se o mais rápido que pode e continuou correndo. Perguntou-se por que as pessoas no bar não estavam ouvindo toda aquela confusão, talvez fosse o barulho da música. Ela continuou avançando até o local do acidente o mais rápido que podia, seus joelhos estavam machucados e seu rosto com alguns cortes leves.
Quando finalmente chegou a encosta, viu Erica pendurada em algumas rochas na encosta e se sentiu aliviada.
- Erica!
A garota estava gemendo enquanto tentava não cair.
- Calma – disse se abaixando para puxar a garota – eu vou pegar você.
No mesmo instante, houve uma explosão do carro que havia caído fazendo com que Erica quase caísse, mas a garota de cabelos encaracolados continuou se segurando o mais forte que podia.
- ... – sussurrou fracamente a garota.
- Não fale nada – replicou – só pega a minha mão.
- Não. – Erica começou a chorar – Não. Não. , atrás de você.
A garota virou-se e se deparou com uma sombra negra posicionada exatamente atrás dela. tentou gritar, mas a pessoa fora mais rápida puxando-a pelos cabelos e tampando sua boca com a mão. A pessoa usava uma roupa completamente preta e era impossível reconhecer qualquer feição do seu corpo naquela fraca luz. A garota se debateu violentamente, a pessoa apertou seus punhos e a conteve do jeito que pode, mas por sorte ou por descuido de quem estava segurando a garota, conseguiu se soltar e correr.
Uma vez ela tinha lido que não se deve olhar para atrás enquanto se foge em situações de desespero, já que sempre quem está sendo perseguido vai ver o perseguidor andando e se sentirá muito lento. Um truque cerebral causado pelo medo. continuou correndo e, contrariando o que sabia, virou-se. No instante seguinte começou a chorar, as pedras em formas de cascalho que passavam por baixo de seus pés não facilitavam a fuga.
- Socorro. – começou a gritar, mas só agora ela percebera o quão longe estava do bar.
continuou correndo, controlando-se para não deixar suas pernas fraquejarem, porém o perseguidor sabia muito bem como cercar uma presa.
- Socorro! – gritou novamente garota – Soc...
E então aconteceu o que ela mais tinha medo: ela tropeçou. Tentou se levantar, mas já era tarde, sentiu os punhos de aço puxando suas pernas. Ela gritou, esperneou, debateu-se do jeito que podia. Ela sentia o sangue escorrendo pelas suas costas.
- Por favor – ela implorou com as últimas forças que tinham sobrado.
Então ela sentiu as mãos apertando a sua garganta, sentiu o ar faltar e tentou empurrar a pessoa para longe com seus punhos. A pulseira que estava em seu braço arrebentou e várias das peças pularam entre as pedras.
Então, ao longe pode ouvir outra explosão. Ela temeu por Erica, sabia que aquele era o fim da garota. O aperto foi ficando mais forte e o último pensamento que a garota teve foi de quê tinha fugido para o lugar errado, com seu corpo na floresta, era muito mais fácil se livrar de qualquer evidência. Era o fim.

Sirenes. Ela ouviu o barulho de sirenes ao longe. Involuntariamente, a garota sorriu. Então sentiu coisas pontiagudas arranhando seu rosto e abriu os olhos. A principio pensou que estava cega, mas então percebeu que a luminosidade estava muito fraca. Todos os músculos do seu corpo doíam. O que tinha acontecido? tentou se lembrar, mas não conseguia. Lembrou de uma explosão, do vento frio no rosto e do sangue escorrendo pelo seu corpo. Ficou de pé após alguns esforços e viu muitas luzes adiante. Saiu caminhando lentamente por entre as arvores, viu os pedaços de sua pulseira caídos pela terra e tentou lembrar como havia partido o objeto.
Quando saiu do meio das arvores, várias pessoas apontaram para ela e caminharam em sua direção.
- Afastem-se dela! Deixem-na respirar, vamos leva-lá para o bar até que a ambulância chegue!
Um homem de meia idade agarrou e conduziu a garota que quase estava caindo no chão. passou as mãos pelo pescoço e sentiu que tinha que lembrar alguma coisa relacionada a ele. Quando entrou no bar, o homem que a carregava sentou-a em um dos bancos próximo ao balcão e a encarou por alguns segundos.
- Querida, você lembra seu nome?
- . – respondeu tentando falar o menos possível.
- Para quem nós temos que ligar? Quero dizer, quem nós devemos avisar sobre o acidente?
- Meu celular – balbuciou a garota – ficou no carro.
- Tudo bem. Vou buscá-lo para você, John vai ficar cuidando de você enquanto a ambulância não chega.
O homem apontou para o jovem barman que estava atrás do balcão, garota sorriu agradecida e o homem saiu pela porta. passou os olhos pelo bar e percebeu que todas as pessoas que deviam estar ali dentro, encontravam-se lá fora.
- Beba isso – disse o barman dando uma xícara para ela – vai fazer você se sentir melhor.
A garota percebeu que a bebida dentro do copo era apenas chocolate quente e, por incrível que pareça, ainda não tinha percebido que estava com muito frio – o quê era completamente justificável, já que ela esteve jogada na terra úmida por mais tempo do que podia lembrar, embora tivesse quase certeza que não ficara desacordada por mais de alguns minutos.
- Você estava com a garota que caiu? Erica? – perguntou o barman.
Erica? Que Erica?
Então, repentinamente, como num tiro, todas as ligações foram feitas na sua mente. Erica, a morte de Selena, o carro fora de controle, o quase atropelamento, o acidente, Erica caindo do abismo, a explosão e o mais aterrorizante de tudo: o estranho ser que havia perseguido .
Seria tudo isso verdade? Então ela lembrou-se dos pedaços de sua pulseira e soube que estava certa.
- Ah... Eu vinha falar com ela, não sei o que aconteceu. – respondeu ainda assustada com as conclusões que tinha tirado.
- Como é mesmo seu nome? – perguntou o garoto
- . .
O rapaz ficou encarando a garota por alguns segundos. se levantou e encarou seu reflexo no espelho do armário de bebidas. Estava horrível, possuía sangue em grande parte do seu rosto, tinha um corte na testa e seu cabelo estava sujo de terra.
- Eu tenho uma coisa para você. – disse o barman se certificando de que não havia mais ninguém observando a conversa dos dois.
Ele puxou um pequeno objeto do bolso de sua calça que logo identificou como um pen-drive.
- Erica passou aqui durante a manhã e disse que caso não conseguisse entregar isso pessoalmente para você, eu deveria fazer.
encarou fascinada aquele pequeno objeto na palma das mãos do barman. O quê estaria guardado ali?
- Ela disse que tinha um grande valor pessoal para você, acho que era isso que ela queria entregar para você antes que o acidente acontecesse. Sinto muito.
- Ah, obrigada. Fotos antigas, eu realmente precisava delas de volta. - mentiu a garota.
Ela colocou o objeto carinhosamente no seu bolso. Olhou para as portas do bar por onde médicos e policiais entravam. O homem que havia ido pegar seu celular apareceu com o aparelho nas mãos e ela fez duas chamadas: a primeira para acabar com todas aquelas perguntas que seriam feitas sobre o porquê de ela estar na floresta e não na estrada e também sobre qual era o assunto que tinha para tratar com Erica Durblein; e a segunda foi para garantir que descobriria o mais rápido possível o conteúdo daquele objeto no seu bolso.

Capítulo 12 - The Night of the Murder! (Shattered Memories)

O barulho da campainha foi audível naquele requintado salão com luzes douradas. olhou para a porta de cedro com detalhes coloniais que conhecia tão bem, alguns instantes depois a campainha tocou novamente. O mordomo passou pela frente do garoto e abriu-a com alguns dólares na mão.
- Era apenas a pizza, senhor . – comunicou o mordomo que trajava um fino terno feito especialmente para aqueles que exerciam tão profissão.
acenou em entendimento com a cabeça. Passou novamente os olhos pelo salão, as pinturas que os Birdy colocavam nas paredes sempre lhe deram arrepios. A morte, anjos com roupas negras, alusões ao inferno e ao paraíso. Ele desviou os olhos e caminhou até o sofá, mas antes que chegasse ao móvel ouviu uma delicada voz vinda do alto da escada:
- Não acredito que você vai virar de costas para a dama que passou a noite se arrumando.
deu meia-volta e encarou Selena no alto da escada. Deslumbrante como sempre, pensou o garoto encarando cada detalhe do vestido perolado que pendia delicadamente sobre seu corpo. A garota sorriu contentemente e com um movimento rápido se atirou nos braços do garoto.
- Wow. – disse ela apalpando os bíceps do garoto – Acho que passar um tempo praticando escalada com Richard está fazendo efeito.
- Menos Selena, bem menos...
- Eu sempre soube que vocês terminariam juntos.
e Selena encararam ao mesmo tempo o Sr. Birdy descer a escada com a mesma classe e elegância da filha. Ele tinha os mesmos cabelos louros da família, o mesmo olho azul diamante e era ainda mais pálido que os filhos. se perguntou se a Sra. Birdy seria um pouco mais escura que o marido, ele não tivera uma oportunidade de vê-la que não fosse através de fotos.
- Pai, você devia parar de empurrar para mim, sabia?
- Porque eu deveria, Selena? – disse o pai dela apertando os ombros do garoto – Filho de médica e o pai dele têm projetos geniais.
- Obrigado, senhor. – disse ficando um pouco vermelho. Ele sempre ficava assim na presença de Robert Birdy.
Selena encarou o relógio com detalhes feitos de ouro que estava em cima da lareira. Era pouco mais de 20h:30min quando ela decidiu que era hora de partir, para que não chegassem atrasados a festa. O garoto e a garota começaram a se despedir do homem louro, porém antes de passarem pelas portas, a voz de Robert soou atrás dos dois:
- Eu queria ver um beijo de vocês, sabiam?
Selena pareceu envergonhada e sorriu amarelamente. Então, Selena fechou os olhos e deixou que fizesse o trabalho de elaborar o beijo mais romântico e excitante que uma garota como ela poderia ter. E ela tinha que admitir que ele era bom nisso. Em seguida, os dois passaram pelas portas e caminharam pelo requintado jardim cheio de arbustos e chafarizes da Mansão dos Birdy.
Seattle havia colaborado naquela noite. Havia muitas estrelas no céu, poucas nuvens e a lua parecia uma gigantesca bola de cristal pairando em cima do planeta inteiro. apressou o passo em direção ao carro que estava estacionado próximo ao maior chafariz.
- Ah, Richard. – disse Selena encarando o garoto que se aproximava com um pedaço da calça rasgada e com o que restava da camisa nos ombros.
Richard acenou quando viu a irmã e . riu da situação, não era a primeira vez que via o irmão de Selena chegar de uma forma inusitada. Ele se aproximou dos dois e encarou Selena com uma cara estranha, mas a garota pareceu ignorar qualquer mensagem que louro estivesse tentando passar para ela.
- Mulheres... – disse ele mostrando a camisa cheia de marcas de batom e buracos – ou você toma cuidado com elas ou elas devoram você.
Selena riu e levou à mão a boca para segurar a risada.
- E eu não estou falando metaforicamente! – e depois de uma pausa para rir, prosseguiu – E vocês vão para onde?
- Sair um pouco. – disse Selena – Acho que já é hora de socializar.
- Já passou da hora, Selena. – disse .
- É, já estava passando da hora. – Richard continuou a caminhar em direção a mansão – De qualquer forma, boa festa, bom sexo ou seja lá o que vocês forem fazer.
- Vindo de você vale muito! – disse Selena gritando para que o irmão ouvisse.
Ela entrou no carro e sentou-se no banco ao lado do motorista, tomou seu lugar e alguns segundos depois estavam passando pelo bosque da propriedade que pertencia a sua família.
- Sabe ainda é muito estranho beijar você, sabia?
- Nem me fale. – disse a loura empurrando os cabelos para trás – É muito estranho.
Selena encarou o guarda que abriu o portão para eles passarem e de um simpático aceno. Aos poucos a mansão foi ficando para trás e mais carros apareciam na rua. Seattle era uma excelente cidade para se viver se você tinha dinheiro e isso Selena tinha de sobra.
- Você viu aquele CD que eu deixei aqui ontem? – disse a garota varrendo o carro com os olhos – Ah, achei.
A garota olhou pela janela procurando por sinais de chuva e como não havia, abriu a parte retrátil do telhado. O vendo adentrou o veículo fazendo os cabelos dela e de chicotarem o ar.
- Onde você quer ir? – perguntou enquanto Selena apertava alguns botões no stereo do carro.
- Não sei, apenas dirija.
Depois de apertar mais alguns botões, batidas fortes e o barulho de um teclado simpático se fizeram ouvir pelos altos falantes do carro. - You’re no good for me, hey hey. You’re no good for me, hey hey hey. You’re no good for me, but baby I want you I want you. – dizia a letra da música.
- Eu amo essa música – disse Selena puxando de algum lugar uma garrafa de vodka.
- Sabe – disse sem tirar os olhos da estrada – às vezes eu te acho genial, mas a maior parte do tempo penso que você é uma louca.
- E a genialidade e a loucura não andam sempre juntas? – replicou a garota tomando mais um gole da garrafa.
“Baby put on heart shaped sunglasses' cause we gonna take a ride. I'm not gonna listen to what the past says I've been waiting up all night. Take another drag turn me to ashes. Ready for another lie? Says he's gonna teach me just what fast is, say it's gonna be all right” dizia a cantora da música que ecoava pelo carro.
- Essa coisa toda de me obrigar a ser seu namorado para não ter que ficar com nenhum cara...Isso é doentio, Selena.
- É quase incestuoso, eu sei. – disse a loura observando seu cabelo voar com o vento que vinha da janela aberta no telhado do carro – Mas era você ou meu irmão. E com Richard seria incesto de verdade.
- Por um lado eu entendo seu ponto de vista – tentou falar mais alto que a música – mas não podemos fazer isso para sempre.
- Eu sei , mas por hora é a melhor solução que tenho.
se calou com o comentário da garota e então, ela ficou de pé em cima do banco e passou metade do corpo pela janela no telhado do carro. Numa cena tipicamente nova-iorquina Selene cantarolava o restante da letra da música:
- Diet Mountain Dew, baby, NY city. Never was there ever a girl so pretty. Do you think we’ll be in love forever? Do you think we’ll be in love?
soltou um sorriso cansado enquanto Selena cantava loucamente. Ele encarou as pernas de Selena e lembro-se que, apesar de uma grande amiga, Selena ainda era uma das garotas mais atraentes que ele tinha conhecido. O carro passou por uma quadra onde vários garotos (que provavelmente estavam usando drogas) encararam a curiosa figura maravilhosamente loura cantarolar audivelmente.
- Oi rapazes. – disse Selena dando uma piscada e jogando a garrafa da sua mão – Oops, deixei cair.
- Opa! – gritaram os rapazes que mais tarde viriam lembrar da garota e descobrir que ela era Selena Birdy, filha de um dos homens mais influentes de toda a Seattle.
- Selena – disse puxando o vestido da garota que teve que segura-lo para não deixar que seus seios escapassem da roupa – você devia se comportar um pouco.
- Hmmm. – a garota fez voz de bebê irritante – está com ciúme de Selena só porque eles fingem que estão namorando... Lá lá lá.
- Não... Eu não... – puxou Selena pelo braço e fez esforço para não se distrair com a rua – Quer parar com isso?
Selena se soltou e encostou-se contra o banco. Ela passou a mão pelos cabelos e deu uma gargalhada sem motivos, em seguida, apoiou-se novamente contra o corpo de , colocando uma de suas mãos na região interna da coxa dele e sussurrou no seu ouvido:
- E se nós levássemos essa coisa de namorados mais a sério?
sentiu o cheiro do álcool no hálito de Selena e freou o carro rapidamente. Selena perdeu o equilíbrio e bateu sem querer contra o painel de som fazendo com quê o aparelho avançasse para a próxima música que tinha uma melodia mais sóbria e calma que a primeira. O garoto encarou Selena nos olhos, aparentava estar furioso.
- Selena, você não acha que já bebeu um pouco de mais, não?
- O quê? Foi só metade de uma garrafa de Vodka!
- Você tem certeza disso?
A garota sorriu um pouco e agiu como uma criança mimada quando disse:
- Ok. Talvez um pouco mais...
- Você estava bebendo antes de eu chegar? Não estava...
- Ah, nossa você tem razão, . – disse Selena parecendo recobrar a consciência – Eu devo ter bebido um pouquinho demais e estou agindo de forma... BASIC INSTINCT!
Selena gritou as duas outras palavras o quê fez a frase ficar completamente sem coerência.
- O que tem Basic Instinct? – resmungou o garoto.
- Tem uma cena muito parecida com a que acabamos de fazer, sabe? Minha mão na sua perna e toda a tensão... Exceto que é a mulher quem está dirigindo e nosso carro não caiu em um lago e eu vi você morrer...
não pode deixar de rir e Selena riu também.
- Se serve de informação, é Basic Instincit 2 que tem essa cena.
- O dois? – disse a garota se ajeitando no carro enquanto começava a dirigir novamente. – Não é o primeiro?
- É a primeira cena do segundo filme, Selena.
A melodia calma que tocava deu lugar a uma mais sensual e cheia de respirações ofegantes e Selena repetia casualmente a letra.
“I drive fast, wind in hair I push you to the limits ‘cause I just don’t care”
- Quer parar para comer alguma coisa e não cometer mais nenhuma loucura? – perguntou .
- Se eu estava tentando agarrar você, eu já devo estar muito bêbada. Parece uma boa ideia.
fez uma curva e procurou por um fast-food pelas ruas, depois de algum tempo, encontrou um na saída de um beco. Parou o carro e olhou para Selena que parecia olhava através da janela do carro o céu estrelado de Seattle.
- Você vai descer? – perguntou o garoto com receio na voz.
- Para quê? – respondeu a loura com um toque de leve arrogância na voz – Para que eles digam que amam quando me reconhecerem das páginas sociais das revistas?
A verdade é que Selena não era uma garota arrogante, apenas detestava o jeito com o qual as pessoas fingiam gostar dela só para se aproximar da alguém da família Birdy. Richard era o oposto, ele se aproximava de todos usando o sobrenome e depois chutava todo mundo dizendo que tinha feito aquilo apenas para vingar o que tinha sido feito a sua família há anos. Era por isso que Selena e eram grandes amigos, quando o garoto a conhecera, ele não sabia quem Selena era e nem quem eram os Birdy. Era uma amizade de infância e, por sinal, uma das poucas que ela era capaz de confiar. Depois de uma pequena pausa, Selena reatou o discurso:
- Traga café, como sempre. – ela sorriu para quando ele fez cara de que café não era uma novidade – Café cura ressaca, dizem. E algo com muito chocolate, acho que ninguém vai notar se eu engordar algumas gramas.
- Eles só vão perceber se você começar a usar números maiores de roupas... Peraí, qual o tamanho do seu vestido?
Selena fez um gesto obsceno com os dedos para enquanto o garoto saía do beco e caminhava em direção ao fast-food, ela assistiu ele caminhar graciosamente e dobrar a esquina. A garota também pode perceber a câmera de vigilância ligada ao poste que estava de frente para o veículo há alguns metros de distância e por um segundo, se perguntou se o objeto filmava com precisão o que ocorria no escuro daquele beco.

abriu a porta da lanchonete e encarou o local movimentado por várias pessoas. Então, caminhou até o balcão e fez seu pedido. A garçonete atendeu-lhe com muito carinho e logo ele soube que ela queria o que a maioria das garotas queria com ele: sexo. Podia parecer arrogante, mas quase todas as garotas queriam apenas isso com ele. Depois de alguns minutos, caminhou até a porta da lanchonete onde podia ver quer Selena ainda estava dentro do carro ouvindo mais alguma de suas músicas estranhas.
O garoto virou-se para o ambiente e viu quando o número do seu pedido apareceu no aparelho em cima do balcão, caminhou até lá, pegou seu pedido e deu um último sorriso para a garçonete que forçava extrema simpatia. Então, saiu a rua e percebeu que ela estava um pouquinho mais fria do que quando saíram da mansão dos Birdy. Deu alguns passos lentos até o carro e abriu a porta.
- Selena? – perguntou percebendo que a garota não estava no carro.
Podia ser mais uma das brincadeiras estúpidas da garota, então, ele se preveniu e observou o banco de trás do carro.
- Ei, isso não tem graça, Selena. Pode aparecer.
Nenhuma respostas. apoiou o corpo contra o carro e não encontrou a garota. Deixou o pedido no banco dos passageiros e observou mais uma vez o ambiente, não havia uma alma viva para contar história. Decidiu ir até o fast-food para saber se alguém tinha visto algo, mas parou antes mesmo de dar o primeiro passo. Havia uma mancha vermelha no banco de passageiros. até pensou em fazer um movimento, mas já era tarde. Algo havia acertado com toda força sua nunca, sua cabeça bateu com toda a força contra o carro. Sua visão se embaçou, ele sentiu o calor do sangue escorrendo pelo seu rosto e se perguntou o que aconteceria depois.

Algumas horas mais tarde, abriu lentamente os olhos. As gotas de água estavam quase o afogando quando ele percebeu que era apenas uma chuva muito forte que assolava Seattle. Tinha tido um pesadelo horrível, mas assim que se deparou claramente com a realidade percebeu que não era um pesadelo. Era a verdade. Estava na beira de um lago no meio do nado, completamente sujo de lama e com uma lâmina caída em algum lugar próximo ao lago. Caminhou confuso até lá e viu uma coisa que não poderia estar acontecendo. O carro que tinha usado para sair com Selena jogado dentro o lago a pior parte? Tinha alguém lá dentro. Afogada. Morta como um anjo vestido para morrer de vestido branco. O corpo de Selena Birdy jazia dentro do carro e pela primeira vez, não era uma visão bonita ver Selena.

Continua...

 

Comentários da autora

Hey, voltei. Espero que vocês estejam gostando de 2013, pois para mim está uma maravilha. É, eu sei, demorei para postar e espero que vocês não tenham esquecido dessa história toda que criei. Claro que se você chegou até aqui já deve ter percebido que esse capítulo não se passa na ordem cronológica da história (por isso o subtítulo Shattered Memories), na verdade eu escrevi algumas coisas sobre os personagens que aconteceram antes da trama de Vertigo começar. Ou seja, antes do principal conhecer você. Então, se vocês quiserem eu posso postar de vez em quando, ou pode ser só essa, vocês escolhem. O próximo capítulo vai dar continuidade ao que aconteceu com a história do pen-drive e tudo mais... E quase esqueço de dizer, não vou mais precisar dar um hiatus em Vertigo, então a história vai seguir normalmente. Pois bem, esse capítulo teve um monte de brincadeirinhas com músicas e até filmes, enfim, espero que vocês tenham gostado.
Bjs suas lindas!!!!
PS - Não esqueça de dizer se querem que eu poste ou não as outras memórias. Não me deixem no vácuo, ando muito emotiva :(




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