Zayn’s pov:
–– Por favor, Z! Por favor, por favor, por favor... –– minha irmãzinha não calava a boca.
–– Não, Safaa. Tá tarde e eu tô ocupado.
–– Você quebrou o meu espelho na mudança, você me deve essa.
–– Isso foi há um ano! Agora fica quieta e me deixa terminar de ver o...
Minha outra irmã, Doniya, começou a rir.
–– O que custa vir aqui com a gente, Z? Já tá na hora de passar mais tempo com a família, não acha?
Revirei os olhos.
–– Não, obrigado.
–– A Doniya tem razão. –– mamãe também apareceu na porta do meu quarto. Quando foi que eu convidei elas pra entrarem aqui? –– Só queremos sua opinião. Por favor, querido, por favor.
–– Tá, tá bom, eu vou. Olha só o que vocês fizeram, eu não vi como acabou! Ugh.
–– É sempre a mesma coisa. –– Waliyha deu de ombros. Repito: Quando foi que eu as convidei?! –– Um helicóptero deve ter explodido e o mocinho matou uns sete caras usando só uma faquinha.
–– Isso é Dragon Ball, Waliyha. Não tem faquinhas nem helicópteros.
Bufei e me levantei. Fui para o quarto da Safaa e me senti num clube de mulheres ou algo do tipo. Minha mãe, Safaa, Doniya e Waliyha estavam provando fantasias e fazendo um pequeno “desfile” umas pras outras. Wtf?
–– Vem, senta aqui, Zayn. –– minha mãe me puxou pelo braço.
–– Onde está o pai, hein?
–– Na garagem... –– eu comecei a me levantar. –– Não, Malik! Você vai ficar aqui e passar um tempo com a sua família.
–– Mas o papai é da família...
–– Zayn Javaad Mali...
–– Ok, ok, já entendi. –– bufei mais uma vez e voltei a me sentar na cama da Safaa. –– Pra que tanta fantasia? Vocês vão pular carnaval?
–– É pra festa, Z –– Safaa disse saltitando pelo quarto numa roupa de bailarina.
–– Festa? Que festa?
Waliyha reapareceu ajeitando a alça de uma fantasia de assistente de mágico.
–– Você não tem vida social, não?
–– Isso é de comer? –– debochei.
–– Vai ter uma mega festa aqui na cidade, quase todo mundo vai.
–– Mas você não vai com essa fantasia –– eu falei. –– É curta demais.
Minha mãe ficou incrédula:
–– Deixa de ser careta, Zayn.
–– Ué, vocês não pediram minha opinião? Então. Se você sair de casa assim, Waliyha, vão te perguntar quanto é por hora.
Ela saiu bufando e batendo o pé. Eu comecei a rir.
–– Como assim quanto é por hora? –– perguntou a pequena Safaa ainda rodando.
–– Nada não...
–– Para de rodar, Saf...
Tarde demais, ela caiu feito um saco de merda.
’s pov:
Acordei com a porcaria da luz do sol no meu rosto. Abri os olhos lentamente enquanto o som irritante de The Ballad Of Mona Lisa ecoava no meu cérebro. Olha, eu gosto de Panic! At The Disco, mas te desafio a continuar gostando de uma música a partir do momento que ela é o toque do seu despertador.
Por um breve segundo quase me virei para o outro lado e voltei a dormir, mas eu não seria tão louca ao ponto de me atrasar para a prova de biologia. Ugh. E se eu tentasse voltar a dormir, terminaria tendo meu colchão revirado pela meiga da minha mãe. Super fofa, né?
Bati no despertador com força, e embora cada parte do meu corpo protestasse, levantei-me e fui até o banheiro para lavar o meu rosto amassado.
Peguei meu celular e chequei se tinha mensagens:
Acho que encontrei uma loja boa logo ao lado do Frenchgate Centre
- Lauren xx
A porra da outra mensagem era da operadora. Isso me frustra, cara.
Pelo menos o dia começou bem, eu não tinha encontrado lugar nenhum até agora e já estava quase desistindo de ir àquela bendita festa. Se a Lauren não tivesse arranjado um lugar para alugar nossa fantasia, não duvido nada que eu acabaria jogando um lençol sobre a minha cabeça e indo de fantasma mesmo.
Troquei-me com todo aquele ânimo que alguém se troca quando tem prova de biologia (lê-se: ânimo nenhum) e desci as escadas. Passei rapidamente pela cozinha mandando beijinhos e gritando despedidas para os meus pais. Ouvi as respostas abafadas deles e fui caminhando em direção ao fim da rua.
A questão é que meus pais trabalham em um lado da cidade e meu colégio fica no outro. Quando meu pai recebeu a proposta de emprego lá na puta que pariu, que fica próximo ao prédio onde minha mãe trabalha, quase tive que me mudar de colégio. Mas eu chorei, implorei e, por fim, a mãe da (aquela vaca que eu amo) se ofereceu para me dar uma carona. Sou eternamente grata a ela.
Primeiro porque não me imagino estudando em um lugar que não seja a Hayfield School, e segundo porque seria apenas questão de tempo para os meus pais inventarem de nos mudarmos também. E eu simplesmente amo Doncaster. Se meus pais realmente tentassem sair daqui, acredite, uma Terceira Guerra Mundial estaria prestes a começar.
Tá, eu estou exagerando... Talvez uma greve de fome ou uma greve de silêncio. Não, meus pais adorariam uma greve de silêncio... Então eu teria que fazer uma anti greve de silêncio. Isso!
Ok, desculpe o mau humor e todos os palavrões, mas eu já fui dormir na noite anterior sabendo que ia me dar mal na prova. Até agora eu não tinha descoberto o que seria mais irritante: O sermão dos meus pais, o sermão da minha professora ou a nota em si.
Liam’s pov:
–– Anda, , nós vamos nos atrasar... –– falei na porta do quarto da minha irmã.
é poucos anos mais nova que eu, sendo assim a caçula da família. Ruth e Nicola, nossas irmãs mais velhas, se mudaram para Bentley há alguns anos atrás e eu meio que me tornei o responsável por .
Nossos pais são bastante ocupados, então, quando eu não estou nas aulas de boxe, tomo conta dela.
–– Hm –– ela murmurou sonolenta.
–– Posso entrar?
–– Nah.
–– Por favorzinho, vai. Não podemos nos atrasar de novo, .
–– Hm.
Entrar sem permissão no quarto dos outros não é o tipo de coisa que eu goste de fazer, mas já estávamos atrasados.
Abri a porta e encontrei jogada na cama ainda de pijamas. Bom, ela estava pedindo por isso. 1, 2, 3...
–– SAI DE CIMA DE MIM, SEU OGRO! EU TÔ MORRENDO AQUI EMBAIXO, SABIA? EU...
–– Machucou? Você tá bem? Desc...
–– Tô, tô bem, Liam. Agora sai de cima!
–– Desculpa. –– depositei um beijo na testa dela. –– Bom dia.
–– É, é, bom dia. Que seja. Podia arranjar um jeitinho mais delicado de acordar os outros, né?
–– Você tem é sorte por eu não ter jogado água em você. Anda, temos cinco minutos.
–– Nós dois sabemos que você não teria coragem de jogar água em mim. Ia ficar todo preocupado e de mimimi perguntando se eu não estou me sentindo gripada. –– ela rolou os olhos.
Tá, eu não posso negar. Ela estava certa. Baguncei seus cabelos e saí de cima dela.
–– Desculpa por ter entrado sem permissão, .
–– Chega de desculpas, menino!
Peguei a almofada e joguei na cara dela. não ficou com a expressão muito amigável depois disso... Saí correndo do quarto antes que uma guerra de travesseiros começasse.
–– Desculpa! –– gritei da cozinha.
Peguei um saquinho de papel e coloquei o lanche dela lá dentro. Nada de manteiga de amendoim, nada de geleia, nada de salame. Exatamente do jeito que ela gosta.
–– Estou pronta. –– ela apareceu na porta ainda com sono. –– Da próxima que vez que você disser “desculpa” eu juro que quebro o seu braço.
Fomos para o meu carro e seguimos quietos para o Hall Cross School.
–– Então –– quebrei o silêncio. –– E a vida amorosa...?
–– Uma merda. Nenhum pedido, nenhum pretendente.
Não consegui segurar a risada.
’s pov:
O bobão começou a rir. Eu mereço isso? Tá, meu irmão é fofo e protetor. Mas não deixa de ser um eterno bobão.
De certa forma era verdade. Quer dizer, eu não estava gostando pra valer de ninguém e ninguém de mim. Não que eu saiba.
Mas tinha o Sebastian, o meu amigo desde a segunda série. Um cara pálido de cabelos negros e olhos castanhos, realmente maravilhosos. Nunca fomos nada mais do que simplesmente amigos, mas ele anda me tratando diferente nos últimos dias, e isso está me confundindo um pouco. E eu também tinha uma certa queda secreta por um garoto do teatro da . Eu e Liam recebemos convites de vez em quando para assistir às peças dela. Foi há dois meses, assistindo a uma dessas apresentações, que o conheci. Mas ele nem devia lembrar que existo, então deixa pra lá.
–– E você? –– perguntei e Liam parou de rir imediatamente.
–– Eu o quê?
–– Duuuuuh... Eu o quê? –– fiz uma imitação besta da voz dele. –– A , garoto, a .
–– Deve estar bem, sei lá... Ela fez uma apresentação no domingo, sabia? Aquela peça lá, aquela que eu ajudei ela a decorar o roteiro e...
Soltei uma risada anasalada. Era engraçado ver ele sem graça, falando rápido demais, se enrolando nas palavras e coçando a nuca.
–– Deixar de ser lerdo por um segundinho é tão difícil assim, Liam? Pelo menos não sou eu que tenho pretendentes e fico parado.
–– Qual é o seu problema em entender que somos amigos?
Ele estava corado e segurando o volante com mais força. É, claro, só amigos.
Vou explicar: é minha, hã... Colega? Tipo isso.
Ela é um pouquinho mais velha que eu e estuda no Hall Cross também. O legal é que a nossa vizinha é a avó dela, então a passa quase todos os fins de semana lá. Isso também é um pouco suspeito, mas não sei se ela tem alguma queda pelo meu irmão ou não.
Liam é tão bobo que, acredite se quiser, é o único que ainda não percebeu que obviamente G-O-S-T-A dela. Até a avó da garota já percebeu. Caramba, como alguém pode ser tão lerdo?
Quando não está estudando ou se preparando para uma peça, ela e Liam costumam fazer competições de videogame. A sempre ganha, não sei se é porque ela é boa mesmo ou Liam deixa ela ganhar. Típico dele.
é completamente diferente das vadias que dão em cima do meu irmão. É, eu sou ciumenta, e daí? Uma garota bonita, simples, engraçada e inteligente. O problema é fazê-lo aceitar seus próprios sentimentos por ela.
’s pov:
Prova de biologia. Que cacete.
Tentei terminar de decorar as ligações entre as organelas e as fases das divisões celulares, mas o sono falou mais alto e agora eu estou um tanto desesperada (tipo muito).
Pelo menos tenho alguns nerds ao meu lado na hora da prova, isso é bom.
passou pela porta com um sorriso enorme no rosto.
–– Bom dia, Xana! –– ela sentou em cima de uma caixa de madeira. Meu pai a encarou um pouco assustado. –– Bom dia, Sr. .
É, esse é o apelido constrangedor pelo qual minhas amigas adoram me chamar. Longa história...
Estávamos na cozinha da padaria do meu pai. Sempre tomamos o café ali porque durante a manhã a padaria é terrivelmente movimentada. Minha mãe nos leva para o colégio todos os dias.
Meu pai lhe deu bom dia e se retirou com uma cesta de pães lá pra frente da padaria.
–– E esse sorriso aí? Esqueceu que hoje tem prova, é? –– perguntei.
–– Não, eu não esqueci, ok? Só estou animada, hoje eu e a Lauren vamos alugar nossas fantasias. Falando nisso... Bem que você podia vir com a gente, né?
–– Então você vai na festa –– conclui. –– Não tenho certeza se vou...
–– Se eu vou na festa? Credo, , parece até que não me conhece. Já pensei em váááárias opções de fantasia. E aí, vai ou não vai? A loja fica perto do Frenchgate.
Parei por um segundo pra pensar. Teria uma grande festa à fantasia na nossa cidade, Doncaster, no sábado (dali três dias).
–– Precisa ir com um par? –– perguntei.
–– Nop.
–– Hm... Tá, podemos escolher nossas fantasias hoje. –– eu me rendi.
–– YES! Você não vai se arrepender, !
–– Espero que não. –– eu ri do entusiasmo dela. –– Vai querer o quê, bobona? –– perguntei terminando de fazer o meu suco.
–– Seu primo é opção? –– ela começou a rir escandalosamente.
Eu a fuzilei com o olhar.
–– Para, , sua besta.
Harry é um pouco mais velho que nós, e não é exatamente meu primo. Sabe aquele parente que você não faz ideia de como chamar, então você chama de primo? Pois é.
Tecnicamente Harry nem é meu parente. Robin, o primo da minha mãe, casou com uma mulher chamada Anne, eu acho, e ela já tinha um filho de outro casamento. Então Robin é padrasto de Harry.
Eu e Harry crescemos juntos, ele é quase como o irmão mais velho que nunca tive. Aquele irmão mais velho chato, superprotetor, festeiro e que adora te envergonhar nos eventos em família. , como a bela safada que é, sempre joga indiretas. Mas Harry não é o tipo dela, ela não quer nada de verdade com ele. Por isso nada rolou entre os dois até agora. Na verdade todas as “indiretas” é só a natureza da falando mais alto. Fazer o que, né.
–– Vou querer de maracujá –– ela disse finalmente parando de rir. –– Não é o Harry, mas também é bom.<
–– ! –– dei um tapa leve no ombro dela.
Harry’s pov:
–– Desde quando você gosta de festas à fantasia? –– Louis piscou, incrédulo. –– Você nunca foi a uma.
–– Desde que... Desde que percebi qual o tipo de garotas que vou encontrar lá.
Louis riu.
–– Como assim? Que tipo? –– ele voltou os olhos para o celular que ele mexia.
Estávamos no corredor da nossa escola, Hayfield, indo para a nossa classe. Ouvi , uma amiga louca da minha prima, comentar sobre uma festa a fantasia que teria aqui em Doncaster. Primeiro eu achei besteira, porque não daria pra me divertir dignamente, se é que me entende. Não dá pra beber e paquerar à vontade com metade dos adultos de Donny lá. Mas, depois de pensar melhor, seria uma festa tão grande que, talvez, garotas das cidades vizinhas viriam e eu não podia perder essa.
–– Enfermeiras... Policiais... Diabinhas... –– falei lentamente.
Louis riu de novo, ainda mais intesamente. Eu costumo estar trabalhando na padaria do Sr. nos fins de semana, que é praticamente um tio pra mim. Também apareço por lá durante a semana, à tarde, se eu não estiver muito ocupado. É bom ter uns trocados para poder levar garotas em encontros ou arranjar equipamentos melhores para a banda que tenho com alguns amigos meus, a White Eskimo.
–– Ai, ai... Me dê um único bom motivo pra te ajudar com essa fantasia. Meu tempo é precioso.
–– Você ama os meus cachos. –– dei de ombros e sentei-me na carteira.
–– E daí?
–– E daí que vou alisá-los se não me ajudar.
–– NÃO SE ATREVA, HAROLDO! –– Louis berrou e todos na sala nos encararam.
–– Mais baixo, Louis. Mais baixo. –– eu ri acaraciando o meu ouvido.
–– Ok, o Louis aqui te ajuda com a sua fantasia. –– ele jogou o celular dele no meu colo. –– Mas eu não vou nessa festa.
–– Por que não? Ei, pera... Esse celular é meu! –– apalpei os bolsos da calça para ter certeza.
–– Eu sei que é. –– ele deu de ombros e colocou os pés na minha mesa.
–– Como você pegou o m...?
–– Truque do Tomlinson! –– Louis jogou a franja grande e lisa para o lado.
Por que caralhos Louis não podia ser uma pessoa normal? Tudo bem, aliás... Essa loucura toda é que faz do Louis... o Louis.
–– Vou alugar alguma fantasia simples na sexta e você vem comigo. Vou pedir uma folga na padaria. Não pode mesmo ir à festa, Loueh?
–– Não, não, não e não... Na verdade, pera...
–– Tem como? –– perguntei esperançoso.
–– Não –– ele respondeu e ficou me encarando sério por uns quinze segundos.
–– Louis, eu estou ficando sem graça...
––...
–– Louis!
––...
O professor de geografia entrou pela porta e jogou as coisas na mesa.
–– HAZZA! –– Louis gritou.
Eu levei o maior susto.
–– AI CARAI, QUE FOI?!
–– Fala um bom motivo pra eu ir nessa festa. Um motivo que não envolva cachos, isso é golpe baixo.
–– Que parte de festa você não entende?
Niall’s pov:
Eu estava correndo pelas ruas vazias de Mullingar procurando por comida. Eu estava quase mijando nas minhas calças de tanto medo. Tudo estava deserto, não tinha nenhuma pessoa nas ruas, e pior: Nada comestível. Senti dois cutucões no meu braço direito e saltei, com medo que fosse um zumbi ou algo do tipo.
–– CADÊ A COMIDA?!
–– Ei, ei! Calma! –– falou uma garota com um sotaque engraçado.
Então ela era a garota das fotos. Um pouco diferente pessoalmente, mas tinha muitas coisas que eram inconfundíveis: O cabelo repicado, a franja grande, os olhos brilhantes.
Olhei em volta, tinha pelo menos meia dúzia de pessoas me encarando e segurando o riso. Eu estava no meio de Robin Hood, o aeroporto internacional de Doncaster, e tinha adormecido nas cadeiras para a espera de embarque. Senti minhas bochechas corarem, eu estava apenas sonhando.
começou a rir.
–– Desculpa por ter te acordado...
–– Não, tá... Tá tudo bem. –– estiquei a mão. –– Sou o irmão do Greg.
Meus pais tinham acabado de ser divorciar. Eu, meu irmão Greg e nosso pai Bobby nos mudamos para Doncaster (uma cidade de um condado de Yorkshire) para fugir da crise economica na Irlanda.
Greg arranjou uma namorada no Brazil e inventou uma desculpa para ir pra lá: Intercâmbio. Então meu pai e eu receberíamos a irmã mais nova da peguete do Greg... A . ficaria na nossa casa por alguns meses e estudaria no mesmo colégio que eu. Já que tínhamos acabado de nos mudar, eu não fazia ideia de onde eu estudaria. Ou seja, onde nós estudaríamos.
–– Niall, certo? –– ela ignorou a minha mão estendida e meu deu um beijo em cada bochecha. Coisa do Brazil, acho, sei lá. –– Como você está?
–– Com sono –– respondi. Meu estômago roncou. –– E com muita fome também.
riu e acaraciou a própria barriga.
–– Qual é o melhor lugar para comer por aqui?
–– Conhece o Nando’s?
–– O o quê?
–– VOCÊ NÃO CONHECE O NANDO’S? Desculpa mas você não é uma pessoa feliz se ainda não comeu no Nando’s. –– peguei as malas dela e a guiei para fora do aeroporto.
–– Minha irmã falou bastante de vocês –– disse enquanto entrávamos no táxi.
–– Vish, espero que ela tenha mentido bastante. –– riu. –– Rua Duke St., por favor.
’s pov:
Seis horas da manhã e eu tinha que ir pra porcaria da escola. Aff, que merda. Vesti o mesmo moletom de sempre, uma calça jeans, coloquei os fones e comecei a escutar I Must Be Dreaming, da The Maine. Fui caminhando para o Hyde Park.
Eu estava ansiosa para a próxima peça em que eu atuaria: Alice no País das Maravilhas. Não era complicado (aliás, quem não conhece a história da Alice?), mas não deixava de ser uma peça comprida e cheia de falas para decorar.
Sim, eu atuaria como Alice. Não sei por que minha professora de teatro decidiu me escolher para o papel, eu não me considero nem um pouco parecida com a Alice.
Cheguei no ponto do ônibus escolar e encontrei Zayn dormindo encostado na parede. Reprimi um sorriso, ele estava com a boca aberta e roncando baixo.
–– Zayn?
Ele acordou assustado.
–– V-Vas happenin?!
–– Bom dia –– respondi rindo. –– Ah, e tem... Tem um pouquinho de baba aí ó.
Ele limpou o canto da boca e ajeitou a jaqueta azul dos Yankees.
–– Não consegui dormir direito –– ele falou bufando. –– Passei a noite inteira enfiado numa “reunião familiar”. Eu ainda vou acabar matando as minhas irmãs, .
–– Ah, para. Elas são legais. –– sentei-me num banco ao lado dele.
–– São legais quando não me obrigam a ser o Crítico de Fantasia delas. E minha mãe achando tudo uma gracinha.
–– Crítico Malik, isso soa bem.
Ele soltou aquela risada de criança que ele tem, lenta e fofa.
–– Não tão bem quanto DJ Malik.
A expressão de Zayn mudou completamente, seus olhos castanhos se fixaram em algum ponto no final da rua e seu rosto se enrijeceu. Segui o seu olhar e minha expressão deve ter ficado bem parecida com a dele: Eram Josh Devine e Sandy Beales caminhando na nossa direção. Sabe aquele tipo de pessoa preconceituosa mesquinha que chega a causar até nojo? Exatamente.
Zayn se levantou num salto e fechou os punhos. Puta merda, esse tipo de coisa tinha que acontecer logo de manhã, é?
Zayn’s pov:
Aff, sério? Josh e Sandy eram as últimas pessoas que eu gostaria de ver agora. Na verdade eu não gostaria de encontrá-los em ocasião nenhuma, mas vamos ignorar isso...
Os dois se aproximaram com sorrisos débeis estampados nos rostos. O olho direito de Sandy ainda estava roxo... Um presentinho meu.
–– Fala, terrorista! –– Sandy me deu um tapa na cabeça.
Quais eram as minhas chances? Eu sei, nenhuma. Eles eram dois e eu estava sozinho com . E se eu revidasse ainda a colocaria em risco.
–– Vaza daqui –– falei quase num rosnado, tentando me manter calmo.
–– Ei, ei, ei... Pra que tanta arrogância, não é, Sandy? –– Josh disse irônico. Eu estava louco pra acabar com aqueles dois. –– Nós nem mesmo começamos.
Cada um deles me ergueu por um braço e fui arrastado para dentro do Hyde Park. Eu me debatia e tentava me soltar, mas eles eram mais fortes que eu... Além de serem dois.
suplicava para que eles me soltassem e até tentou segurá-los duas ou três vezes, mas eles a empurraram.
–– Não encostem nela, filhos da puta, ou eu... –– eu grunhi enquanto ainda me debatia.
Josh me impediu de continuar a fala ao me dar um chute na lateral do meu tronco.
–– DEIXEM ELE EM PAZ!
–– Vai sobrar pra você também se não calar a boca, vadia –– Sandy disse e a empurrou mais uma vez. Eu não sabia se isso era possível, mas a minha vontade de esfregar a cara dele na calçada aumentou.
caiu na grama com um grito fino. CARALHO, CHEGA, EU NÃO IA DEIXAR ELES TRATAREM GAROTA NENHUMA DAQUELE JEITO.
Foi aí que eu dei uma de cachorro e mordi a mão de Josh o mais forte que eu pude. Ele deixou um grito de raiva escapar e tirou as mãos de mim, automaticamente empurrei Sandy com o ombro usando o impulso do meu corpo todo. Nós dois rolamos na grama, mas Josh nos alcançou e me tirou de cima dele.
–– O lago –– Josh disse raivoso e ofegante.
–– Quê? –– Sandy respondeu.
–– A porra do lago, Sandy. O árabezinho aqui não sabe nadar.
Meu corpo se enrijeceu e meu cérebro até mesmo esqueceu-se de protestar contra os puxões deles por um segundo. Eu não sabia o que era mais assustador: O fato de eles saberem que não sei nadar ou que eu seria, obviamente, arremessado no lago do parque.
E foi isso mesmo o que aconteceu. Os dois me puxaram até a água estar na altura do quadril deles. Eu já estava fora de mim, sendo puxado no meio do lago, quase submerso naquela água congelante e com dificuldade pra respirar.
E foi de um segundo pro outro que senti mãos empurrando minha cabeça para baixo e soltando os meus braços. Meu corpo pesou e senti a água gelada entrando nos meus pulmões. Eu tentava me debater ou... Ou sei lá... TENTAVA NADAR, PORRA.
Já quase se afogou alguma vez? É terrível. Ficar submerso sem saber pra onde seguir. Bom, pelo menos quando se sabe nadar você pode tentar seguir pra algum lugar.
Algo me puxou pela gola da minha jaqueta e pude finalmente respirar. Mas eu não sabia se devia ou não comemorar, podia ser Josh e Sandy apenas se preparando para me afundar de novo e de novo...
Por sorte eu estava tão desesperado que errei o soco e não acertei .
’s pov:
O irmão do Greg era engraçado e eu não saberia dizer se eles têm algo em comum... Não cheguei nem ao menos a conhecer o namorado da .
Eu não sabia se me sentia extremamente feliz e afobada por estar finalmente na INGLATERRA (ai carai, alguém me belisca!), assustada por nem ao menos saber um inglês digno (mas dava pra se virar, pelo menos), ou incrédula porque minha irmã conseguiu o milagre de convencer nossa mãe sobre o intercâmbio.
Quando começou a me contar tudo sobre esse cara, o Greg, eu achava que seria coisa passageira, mas o negócio ficou sério e alguns meses depois o assunto Intercâmbio virou polêmica lá em casa. Era só disso que se falava dia e noite porque não parava de encher o nosso saco.
Até então o assunto não tinha nada a ver comigo então eu ignorava lindamente tudo relacionado a isso, mas a minha irmã teve a ideia “brilhante” de convencer nossos pais a abrigar Greg e me mandarem pra cá.
Não tô reclamando, ok? É A INGLATERRA! Mas ainda assim estou meio abobada com tudo que rolou.
O loirinho de olhos perfeitos chamou um táxi e quis me levar para o Nando’s. Eu não sabia bem o que era esse lugar, mas sei que tem a ver com comida.
Fiquei deslumbrada prestando atenção em cada pequeno detalhe das ruas, da forma dos ingleses de se vestirem, esse tipo de coisa. Eu estava finalmente alimentando a minha vontade de conhecer gente nova, respirar novos ares. Passar a vida inteira no mesmo lugar não parece algo muito conveniente quando se tem um mundo todo aí fora.
Niall parecia uma criancinha animada com formigas na bunda. Tudo que eu respondia sobre o Brasil o fazia sorrir e seus olhos brilhavam. O tempo todo ele ria e prestava bastante atenção em cada palavra que eu dizia. Ou meu inglês tava uma merda ou o meu sotaque é um dos mais carregados possíveis.
Talvez tenha sido eu que não ouvi filmes e vídeos de qualidade, mas o sotaque de Niall era um pouco diferente do que o dos ingleses. Talvez fosse um sotaque local ou algo do tipo, sei lá.
Descemos no Nando’s, um lugar confortável com um enorme letreiro vermelho. Niall pediu tanta coisa que eu fiquei até confusa ouvindo-o falar todos aqueles nomes para o garçom, sem sequer olhar o cardápio.
–– E você, o que vai querer? –– o garçom olhou para mim com o caderninho de notas em mãos.
–– Eu... Er... O mesmo que ele.
Niall perguntou mais um pouco sobre o Brasil (tenho que admitir que algumas coisas nem eu mesma soube responder). Ele perguntou das praias, do futebol, do clima, do samba, dos animais, se nós tínhamos outros tipos de música... Cara, eu precisava mesmo mudar essa visão que todos têm sobre o Brasil. Não é só carnaval e praia não, carai.
O garçom chegou com os pedidos e a mesa ficou tão cheia que daria pra umas cinco pessoas se juntarem a nós. Tinha frango, macarrão, purê, batatas fritas, sanduíches... Bom, deu pra entender né?
Comi até sentir meu estômago se dilatando de tão cheio e senti aquela vontade de morrer bem ali.
–– ?
–– Oi?
–– Não vai comer isso aí?
Eu ri, como cabia tanta coisa naquele menino?
–– Não, pode pegar.
O fato é que o loiro engraçado comeu tudo o que ele pediu e ainda metade do que eu pedi. Repartimos a conta e então fomos para a casa do Niall.
Sr. Bobby, o pai de Greg e Niall, estava nos degrais da porta nos esperando com um grande sorriso no rosto.
–– Seja bem vinda, ! –– é, acho que tá confirmado, o sotaque inglês é completamente diferente do que eu pensava. –– Como foi o voô?
Sr. Bobby me deu um aperto de mão e pegou a minha segunda mala. A primeira estava com Niall.
–– Foi muito bom, devo dizer. –– eu sorri. –– Obrigada.
–– Nosso sotaque está muito carregado? Dá pra entender? Podemos tentar falar com menos sotaque, se preferir.
–– Com sotaque americano? –– do que que aquele homem estava falando?
Niall colocou a língua pra fora, meio como se fosse uma careta do tipo “eca, sotaque americano”.
–– Não, inglês –– disse Niall. –– Sabe, somos da Irlanda e o sotaque por lá é um pouco carregado...
–– Aaaaah, sim... Seria ótimo um pouco menos de sotaque, obrigada.
–– Vem, vou te mostrar o seu quarto. –– Sr. Bobby abriu passagem para que eu entrasse.
–– Advertência –– disse o diretor da escola. Eu, Sandy e Josh estávamos sentados ouvindo o sermão dele que durou uns oitenta minutos. Sobre o que estávamos fazendo como seres humanos, do nosso papel na sociedade, o que seria do nosso futuro e blá-blá-blá.
Eu ouvia tudo em silêncio perdido nos meus próprios pensamentos e respondia às suas perguntas com toda a sinceridade possível. “Você os socou, Payne?” É, soquei. “Não se responde violência com violência, garotos”.
Ah, dane-se.
–– É a terceira advertência que vocês recebem pelo mesmo motivo –– disse o diretor. –– Isso significa que estão suspensos.
Sandy e Josh começaram a protestar, eles estavam morrendo de medo. É macho pra fazer a merda, mas não pra assumir né? Cadê o frutinha agora, cadê?
Então tava decidido: Estávamos suspensos por três dias. O diretor se estressou com os protestos e ainda sobrou pra mim. Então ficaríamos três dias em casa, e quando voltássemos deveríamos entregar todas as lições ou trabalhos cobrados. Então passaríamos duas semanas prestando serviços pra escola. Segundo ele, tudo isso serviria para “dissipar a violência pela raiz e nos melhorar como cidadões”.
Saímos da sala em silêncio e o clima era nada menos que muito pesado.
–– Cadê o Zayn? –– perguntei.
–– Não é da sua conta, Payne –– Sandy rosnou. –– Cale a boca ou te batemos aqui mesmo.
–– Então vem –– falei. –– Uma briga aqui e agora vai render no mínimo uma expulsão. Eu não me importo. Com minhas notas altas entro numa outra escola facilmente. Mas e vocês, hein? –– os dois se entreolharam, meio que concordando mentalmente que virariam vagabundos sem escola. PONTO PRO PAYNE! –– Vou perguntar uma última vez: Cadê. O. Zayn?
–– No lago –– Josh disse. –– Hyde Park.
Só lembro de ter corrido o mais rápido que pude.
’s pov:
Vai, , não tá tão difícil assim... Você consegue, é só lembrar aquela fase da divisão... Anda, lembra, lembra, lembra... Ah, que caralho de cérebro.
Fiz um risco enorme na bosta da questão e entreguei a prova. Melhor deixar a questão em branco do que aparecer num site de pérolas ou sei lá. Faltava pouco pra prova acabar mesmo.
A maldita da professora não me deixou ouvir música, então comecei a decorar o discurso que eu teria que fazer pros meus pais sobre minha nota. Olhei através da porta, e lá estavam eles: Meninos do terceiro ano. Huhuhu, bom lugar que tu escolheu, hein, .
–– Você está bem, ? –– a professora perguntou.
Me toquei que eu estava com metade da bunda pra fora da carteira e quase caindo com o corpo inclinado. Mas é que eu conhecia aqueles cachos na outra sala, tava só tentando ter certeza se era quem eu pensava que era...
–– Er, eu... Apontador –– falei. Peguei o meu apontador e nenhum dos meus lápis estava sem ponta. Ah, cara, fala sério. Vocês sempre estão sem ponta. Qual o problema de vocês? –– Empresta um lápis aí, . Não, esse não caramba. Um sem ponta. –– ela me olhou confusa, mas encontrou um lápis desapontado.
Fui até o lixo que, diga-se de passagem, tinha uma vista ótima.
Então o dono dos cachos era ele mesmo: O primo da . Como um garoto consegue ser tão gato, hein? Fala sério. Ele estava rindo de algo que o amigo dele disse. Cara, esqueci o nome do amigo dele. Lucas? Luis? Vish. Ah, você não precisa saber o nome do infeliz. É só saber que ele também é gatinho e tem uma bunda que MEU DEUS.
O Luis (acho que é esse o nome da criatura) começou a se abanar ou sei lá. Eu hein, que menino mais esquisito. Ah, não, pera. Aquilo não era um abano, era aceno exagerado. AI, CARAMBA, ELES TÃO OLHANDO PRA CÁ E O LUIS TA ACENANDO PRA MIM.
Eu sinceramente pensei em me tacar pro lado, correr ou pular dentro do lixo. Mas seria mico demais, né? Tá, eu ja devia estar pagando um mico dos grandes. Deixa quieto.
Acenei de volta e Harry começou a gargalhar das brincadeirinhas do Luis. Dava pra ouvir os gritos dele dali da minha sala:
–– ELA ACENOU PRA MIM, HAROLDO. ELA ACENOU. AI QUE EMOÇÃO, TÔ APAIXONADO, HAROLDO! –– comecei a rir também. Ele era engraçado demais.
Harry entrou na brincadeira e fingiu estar nervoso com ele, brincou dizendo algo sobre o Luis ter dono. Não sei, eu estava longe deles pra ouvir.
Luis ficou sério e ficou o encarando por um longo tempo. Aí, do nada, ele gritou tão alto que até deu um pulinho na própria carteira:
–– Para de ser bobo, Haroldo... SHE’S MINE!!!
Cara, até eu quase faleci de susto. Tropecei nos meus próprios pés e tentei me segurar no lixo, mas nós dois fomos pro chão. Er, pera, por que a minha sala toda tá me olhando?
tava quase morrendo de tanto rir lá no fundo da sala.
–– ?! –– professora não sabia se falava irritada ou preocupada.
–– Tô legal, tô legal. DÁ PRA ALGUÉM ME AJUDAR AQUI? Ah, bom, obrigada. É que, sabe né, o chão tava meio triste. Aí eu fui abraçar ele.
Se teve algo que aprendi hoje (mas que não tem nada a ver com biologia) é que a véia não tem senso de humor, não.
Louis’ pov:
Pensei seriamente em ir naquela festa à fantasia. Eu ADOOORO festas à fantasias. E ovelhas.
Além do mais, a festa seria no parque de diversões e, cara, duas coisas marvilhosas ao mesmo tempo? Uou.
Mas eu tinha que estar com energia para o dia seguinte. Eu tinha um casamento durante a manhã e a apresentação do teatro à noite. Eu estaria esgotado e Jay, minha mãe, nunca deixaria que eu faltasse ao casamento da cunhada dela. Eu nem sei o nome da mulher, aposto que ela também não sabe o meu, que falta eu vou fazer lá?
Bufei enquanto pensava nos argumentos pra convencer a minha mãe, mas ao mesmo tempo já sabia que nenhum funcionaria. Então pensei em fugir de casa à noite pra ir à tal festa, no dia seguinte fingir que estou com virose e dizer que não poderia ir à cerimônia. Ui, gostei dessa ideia.
Nada daria errado, eu acho. Eu atuo, né? Fingir uma doença não seria complicado. E eu já estou mais que acostumado a fugir de casa à noite. Não é à toa que repeti o terceiro ano por causa das festas.
Dormiria durante a manhã e estaria novinho em folha pra ir pro teatro.
Eu estava lá, absorto nas possibilidades, quando vi uma pessoinha conhecida na classe à frente da nossa. Ela estava “apontando” o seu lápis. Na verdade só tava com o lápis na mão, o apontador na outra, plantada na frente do lixo e nos encarando. Isso me fez rir.
Acenei, gritei, brinquei com ela e por fim ela (a , uma colega minha e do Harry) acabou caindo no meio da classe.
–– Você vai lá em casa hoje? –– Harry perguntou.
–– Sei não, tenho que ver com a mamãe. Te ligo quando eu souber.
Harry riu, ele achava engraçado o fato de eu chamar Jay de mamãe.
–– E essa aí? –– perguntei um pouco tímido.
–– Nova demais, você sabe.
–– SEJA BEM-VINDO A MAIS UM CAPÍTULO DE HAROLDO E SUAS COROAS –– gritei com voz de locutor.
–– Louis, pode não falar esse tipo de coisa em voz alta?! –– Ele tacou o estojo em mim. –– E isso não é verdade...
–– A próxima aula é do quê?
–– Hã?
–– A PRÓXIMA AULA É DO QUÊ?!
Harry colocou as mãos no ouvidos de novo.
–– É, pera... Espanhol. Caramba, é a Srta. Flack. –– Harry começou a bagunçar os cabelos. Não é bem bagunçar, porque é assim que ele arruma o cabelo. Eu gargalhei.
–– Pelancas são tão gostosas assim, é?
–– Louis!
–– Harry!
––...?
–– Anda, é sua vez, fala aí.
Harry revirou os olhos e bateu a mão na própria testa.
A Sra. Flack entrou pela porta e Harry já abriu aquele sorriso enorme flertador de covinhas. Típico.
–– Buenas tarde, clase –– disse a Sra. Flack.
–– Hã, professora? –– Harry a chamou. Ela o ignorou com um sorriso cheio de significado. –– Ah, ok. Profesora?
Sim, tínhamos que falar em espanhol com ela. Ao menos que fosse uma pergunta sobre espanhol, aí, obviamente, você pode falar em inglês. Mas eu não sei nem as dúvidas que eu tenho, isso complica um pouquinho. Por isso Flack é a única professora da qual eu não converso, e nem tenho vontade também. Fora isso eu tô sempre lá na sala dos professores tomando um cházinho. Eles levam isso em conta na hora da nota, sabia?
–– Dime, Styles.
Santa mãe de Deus, que caralhos é dime?
–– Como se diz “te amo” em espanhol? –– ele perguntou com aquele sorriso enorme e safado estampado no rosto. Ah, fala sério, Harry.
–– Te quiero –– ela respondeu na maior inocência.
–– También te quiero –– Harry piscou.
AI MEU DEUS. HARRY, ESSA FOI PÉSSIMA. AMIGO, SE TACA.
Nem preciso dizer que quase pari um tijolo de tanto rir né? Eu e toda a sala.
–– SEJA BEM-VINDO AO CAPÍTULO DUPLO DE HAROLD...
–– Não se atreva, Louis.
––... E SUAS CORO...
–– CALA A BOCA, SEU PUTO.
–– Chicos, basta!
Filha, fala minha língua, não sei do que você tá falando.
–– FAAAAAAAALA, CURLY BOY! –– gritei na frente da porta.
–– Então sua mãe deixou você vir, né? –– Harry abriu para que eu entrasse.
–– Deixou. Como estão os cachinhos?
–– Bem, obrigado. E sua bunda anormal?
–– Esbanjando felicidade. E teus quatro mamilos?
–– E seu... Hum... Ok, você ganhou.
–– Eu sempre ganho, Haroldo.
Harry revirou os olhos e fechou a porta. Nós dois iríamos terminar um trabalho de filosofia e eu dormiria na casa dele essa noite. Senti um beliscão nas nádegas e Harry começou a rir.
–– Haroldo, pare. Ao contrário de você, eu tenho dignidade –– falei prestes a dar um tapa na cara dele.
–– Olha, um Kevin.
–– ONDE?!
Harry saiu correndo.
’s pov:
Desci do carro e fui para a sala de literatura. Abri o meu caderno de desenhos e comecei a rabiscar algumas ideias. Eu até tentei prestar atenção na aula, mas não consegui me manter concentrada por muito tempo.
O Sr. Higgins disse uma coisa sobre uma coisa, e daí outra coisa sobre outra coisa, e acho até que ele continuou falando de alguma coisa por um tempo, terminando com uma coisa sobre uma coisa.
Até gostei dos resultados que obtive naquela aula. Minha mãe é fotógrafa e sempre gostei do assunto. Costumo acompanhar ela em algumas exposições, mas não dou uma de fotógrafa nem faço cursos. Apenas leio algumas coisas sobre o assunto (e minha mãe me conta curiosidades), tenho até mesmo meus ídolos nesse ramo. Acho que todo esse envolvimento com fotografia me fez amar tanto os desenhos que, na maioria das vezes, estão nas mesmas exposições.
No meu curso de desenhos o professor nos propôs alguns desafios, um deles é produzir um curta animado. E foi esse o que escolhi. Já tive várias ideias, mas sempre acabo abandonando a última. A mais recente envolve um personagem bem parecido com o bundão do Liam, e outro personagem que me lembrava do garoto do teatro da . No curta, os dois serão super-heróis, mas super-heróis um tanto diferentes... Espero que isso dê certo.
Tinha terminado os rascunhos para a aparência dos dois personagens iniciais quando a porta da sala se abriu e um Liam ofegante apareceu, obviamente preocupado.
–– Preciso... Falar... Com... A... .
O Sr. Higgins assentiu e eu fui até a porta.
–– Que que te deu, criatura?
Liam começou a falar rápido, daquele jeito típico dele. Se tivesse um sonzinho no fundo, eu podia jurar que estava num clipe de rap.
–– Preciso ir até o Hyde Park agora mesmo, não sei que horas eu volto. Não sei o que vou encontrar lá, então me espere aqui se eu me atrasar, ok? Você entendeu?
Eu assenti.
–– Sim, mas... E a sua bo...?
–– Nada de “mas”, não tenho tempo. Tchau, , te amo!
Liam saiu correndo feito uma gazela pelos corredores. Que porcaria tinha acabado de acontecer?! Ele estava com o lábio cortado e sangrando um pouco.
Liam iria... Matar aula no parque? HÁ, não mesmo HAHAHAHAHA. Liam não mataria aula nem que o pagassem pra isso.
Uma vez, eu e Liam estávamos no Mc Donalds e ele pagou por dez nuggets. Quando abriu a caixinha, encontrou onze. Adivinhem o que ele fez? Sim, ele devolveu um nugget. De duas uma: Ou o Liam tem merda na cabeça, ou ele é o deus da fofura suprema. Seja lá o que ele ia fazer no Hyde Park àquela hora, devia ser muito importante.
Voltei para o meu lugar e para os meus rabiscos. Se era tão urgente a ponto de fazer Liam faltar às aulas, provavelmente fará ele se atrasar e terei que voltar andando para casa. Argh.
Hesitei ao olhar para a minha mochila. Eu pareceria uma boba ali no meio da sala, encarando um ingresso. Ah, dane-se. Ninguém aqui paga minhas contas, ou paga? Runf.
Abri o bolso lateral e sorri instantaneamente ao olhar para aquele garoto de olhos azuis por debaixo de uma cartola grande e roxa. Ao lado dele estava , ela estava maravilhosa naquele vestido azul.
–– Alice no País das Maravilhas? O que é isso?
–– Fica na sua aí, xexelento. Se vai mesmo cuidar da minha vida, eu exijo, no mínimo, que arrume a minha cama e dobre minhas roupas.
O bobão fez uma careta e se virou pra frente.
19hrs, Alice no País das Maravilhas.
Teatro Estadual de Doncaster. Louis Tomlinson, Andrade e Edward Christopher.
Ok, que merda estava acontecendo comigo?
’s pov:
A já não é lá muito normal, acho que toda a pressão daquela prova fez ela pirar de vez. Ela deu uma de louca logo depois que terminou a prova, foi lá pra frente e ficou meia hora parada, até se assustar com algo e cair. A nossa professora (que é um tanto bipolar e temperamental) gritou com ela por alguns minutos antes de mandar ela para a diretoria.
Quando a falou sobre ir ao Frenchgate Centre (um shopping bastante conhecido aqui em Doncaster) para alugar as nossas fantasias, senti algo muito esquisito no estômago e parecia que meu coração estava tentando fazer polichinelos.
Flashback on:
Chequei a lista mais uma vez só para ter certeza. Estava procurando por igredientes para uma receita de Cannoli no supermercado do Frenchgate. Meu pai e eu sempre passamos um tempo juntos na cozinha. Certa vez, papai fez um curso de gastronomia, mas não chegou a finalizar o curso por causa da gravidez da minha mãe. Então, quando nasci, papai construiu a padaria e tudo o que vende lá é o que ele mesmo cozinha. Quando estamos juntos, ele me ensina várias receitas diferentes, acho que foi por isso que acabei amando cozinhar quase tanto gosto de escrever. São os raros momentos que passo com ele, tive que aprender a gostar de cada segundo.
Ouvi uma risada alta e contagiante vindo logo à frente. Meus olhos procuraram pelo dono dela, um garoto loiro que batia palmas enquanto ria desesperadamente e se apoiava no balcão de um açougue. Era uma risada simplesmente... Argh! Não dá pra explicar. Meio rouca e pausada, uma fofura.
Um homem saiu de dentro do açougue, sorrindo simpaticamente para o loiro e um cara alto e moreno ao lado dele.
–– Ou vocês me ajudam ou dão o fora daqui –– ele brincou.
O moreno e alto disse:
–– Não é culpa minha se Niall está roubando todo o queijo, pai, e tendo um ataque de risos toda vez que ouve a palavra “bacon”.
Foi aí que o loiro, Niall, pareceu que ia morrer de vez. Niall ficou sem ar de tanto rir e sua risada fofa. Ele ria tanto que a risada ficou sem som, mas logo em seguida ele soltou uma gargalhada bem potente.
–– Deixa... Deixa de ser cuzão, Greg! –– Niall deu um tapa em Greg.
Caramba, aquela risada... Não sei como ele conseguia aquilo, mas parecia que a risada de Niall obrigava todos em volta a rirem junto. Bem, eu comecei a rir. Greg e Niall me encararam, simpáticos, e senti minhas bochechas corarem. Puta merda, e agora?!
–– Ei! –– Greg disse, sorrindo. –– Vai querer algo?
Greg se apressou para ir ao outro lado do balcão, mas Niall o segurou pela manga.
–– Deixa que eu cuido disso –– ele disse. –– Vaza daqui, anda.
–– Hmmmmmmmmmmmmmm. Interessante, Sr. Horan, muito interessante.
–– Cala a boca e vaza daqui! –– Niall ainda ria.
Aproximei-me do balcão e sorri simpática. Ok, carne ou até mesmo queijo não estavam mesmo nos meus planos para o Cannoli, mas eu não podia simplesmente dar meia volta e sair andando.
–– Um pouco de, hã... –– Podia ser sacanagem, mas eu queria muito ouvir aquela coisa linda outra vez. –– Bacon, por favor.
Niall voltou a rir, mostrando os dentes tortinhos que o deixavam ainda mais fofo. PARA DE FLERTAR NA PORRA DO AÇOUGUE, .
–– Quan... Quan... Ai carai, quanto?
Bufei.
–– Ok, sinceridade: Nem sei se um Cannoli fica bom com bacon. –– Ele mordeu os lábios e segurou o riso. –– Deve ficar péssimo. Só tô aqui porque não queria simplesmente dar a volta e sair andando.
Ele abriu um sorriso meio travesso. Ah, ótimo, agora ele acha/sabe que você tá flertando. Não queria dar a volta e sair andando? PORRA, !
–– Sabe mesmo fazer Cannolis? É uma das minhas comidas favoritas! –– Ele se sentou num banquinho. –– Ok, na verdade eu amo qualquer coisa que seja comestível... –– Eu ri da empolgação dele ao falar de comida, os olhinhos azuis brilhando. –– Quem sabe um dia eu não possa provar um dos seus Cannolis, hein?
É, nós estávamos flertando num açougue. Não acredito que a gente conseguia ficar naquela naturalidade com pedaços de bicho morto pendurados logo atrás dele.
–– Eu, er... Quem sabe um dia. –– Senti minhas bochechas queimarem. –– Eu vou... Vou continuar, você sabe... Comprar.
Niall riu mais uma vez (AI MEU DEUS), e assentiu.
–– Até mais, vê se guarda um para mim, hein?
Flashback off.
E é POR ISSO que a ideia de voltar ao Frenchgate me causava um pequeno nervosismo.
’s pov:
Subimos as escadas e Niall e Bobby me explicaram cada detalhe do dia-a-dia deles. Tudo ainda estava uma bagunça e, assim como eu, eles também estavam tentando se adaptar à cidade, mas já estavam aqui há um tempinho.
Bobby ia trabalhar bem cedo, todos os dias, em um açougue num shopping que esqueci o nome, voltando pelo fim da tarde. Niall ficava em casa, tentando não acabar com toda a comida da dispensa, mantendo as coisas em ordem, tocando violão e coisas do tipo.
Os dois me mostraram o meu quarto (o quarto de hóspedes) e me deixaram a sós para poder desfazer minhas malas. Bobby foi para o açougue e Niall foi para o quarto dele. Assim que terminei, liguei meu notebook para checar novidades do Barcelona FC, da Copa e o meu Facebook.
Eu amo futebol e tudo relacionado a ele, ainda mais quando o assunto é o Barcelona e, principalmente, o meu rei Lionel Messi. Na verdade, preciso admitir que tenho um tipo de atração por qualquer esporte. Seja pra assistir ou jogar, tanto faz.
Eu podia ouvir o som do violão de Niall sendo dedilhado no quarto ao lado, mas nenhum som era cantado. A foto do Tonto apareceu na tela e eu sorri, sentindo uma vontade enorme de pegar o primeiro voô de volta para o Brasil.
Tonto é o meu cachorro. Poxa, já tô com uma puta saudade daquele lindo, que ficava andando de um lado pro outro da casa, fazendo barulhos estranhos e dormindo comigo.
Niall abriu um pouco a porta.
–– Posso entrar? –– Ele ainda tocava Need You Now no violão.
–– Claro.
–– Já tem algum lugar em mente pra visitar?
–– Ainda não... Tenho que ser sincera e dizer que conheço nada daqui. Ei, olha! A Irlanda acabou de ganhar um jogo!
–– Sério?! HÁ, ESSE É O PODER DOS DUENDES!
Eu ri.
Niall ficou um pouco sério e colocou o violão encostado na parede, sentando-se na cama.
–– Então... Nós vamos viver juntos por alguns meses... –– ele disse. Assenti. –– Que tal nos conhecermos melhor? Você sabe, pra não ficar... Chato.
Acho que passamos horas apenas conversando. Contei pra ele do Tonto, da , dos meus pais, do meu amor por futebol e o Barcelona, como eu amo cavalgar, minha vida no Brasil, meus amigos, minhas primas, até mesmo contei algumas piadas internas minhas e dos meus amigos. Niall também falou da Irlanda, disse que sempre amou futebol e torcia pro Derby, que estava ralando na escola porque quer entrar pra faculdade de engenharia de som, contou da separação dos pais (Maura e Bobby), do Greg, dos amigos e como ele sempre ficava ansioso para o show de Natal que tinha lá na cidade dele todos os anos.
Depois usamos o Google pra escolher e pesquisar os lugares que iríamos visitar. Dois turistas se guiando, que ótimo.
–– Sabe tocar alguma do Maroon 5? –– perguntei.
–– Só sei She Will Be Loved, mas posso pegar a cifra de outras. Por quê? –– ele perguntou confuso, mas já estava pegando o violão.
Niall era lindo e fofo, mas era simplesmente bizarro pensar que o irmão mais velho dele devia estar lá no Brasil com a fazendo sei lá o quê, e nem quero saber. me zombou por muito tempo, dizendo que eu ficaria na casa de um gatinho e blá-blá-blá. Mas ele era meu cunhado. Meu cunhado muito gato, eu admito, mas meu cunhado. Então... Bom, sem chances.
–– É que dá pra ouvir daqui o que você toca no seu quarto. Gosto de dormir ouvindo essa música.
–– Eu até tocaria, mas meu quarto fica nos fundos do jardim, a garagem. –– Ele riu. –– Pra não incomodar os vizinhos com o barulho da guitarra.
Antes mesmo que eu respondesse, a campainha tocou. Niall achou estranho, então deduzi que ele ainda não conhecia ninguém daqui.
Nós dois descemos as escadas, Niall abriu a porta e tinha alguma coisa pequena pegando fogo. Niall ficou pisando em cima da coisa, pra tentar apagar o fogo. E quando conseguiu, suas meias estavam cheias de...
–– UM SACO COM COCÔ! –– gritou, nervoso. Segurei o riso. –– QUEM FOI O FILHO DA PUTA QUE FEZ ISSO?
Do outro lado da rua tinha dois adolescentes abraçados e rindo. Uma garota e um menino de cabelos bagunçados, eles murmuravam algo como “vamos fazer esses dois voltarem para o lugar de onde vieram.”
Segurei o braço do Niall antes que ele arranjasse encrenca.
–– Deixa eles pra lá.
–– Minha meia tá cheia de merda, bando de viado! –– ele gritou e entrou de novo na casa. –– Preciso de um banho.
’s pov:
Josh e Sandy jogaram Zayn no lago e saíram correndo. Não pensei duas vezes antes de pular atrás dele, eu sabia que ele não podia nadar. O puxei pela gola, Zayn respirou fundo, ofegou, tossiu. O puxei para a beira do lago, eu estava tremendo de frio, senti-me congelada. Argh, bosta de lago.
Tirei o meu moletom encharcado, torci meu cabelo e o prendi num rabo de cavalo alto. Zayn também tirou a sua jaqueta dos Yankees, retirou um pequeno espelho de um dos bolsos e começou a ajeitar o topete. Eu ri daquela cena idiota, o menino quase se afoga e a preocupação dele é arrumar o cabelo.
–– Valeu, –– ele disse, afinal. –– Se não fosse por você, eu estaria no fundo do rio. Acho melhor a gente voltar pra casa. Perdemos a porcaria do ônibus e estamos ensopados.
–– Não fiz mais que minha obrigação como amiga, Crítico Malik. E se formos andando, dá tempo de entrar na segunda aula e de nossas roupas secarem.
Zayn assentiu e nós nos levantamos. Percorrermos o caminho andando e Zayn soltava alguns palavrões contra Josh e Sandy. De repente, avistei algo no horizonte e meu coração falhou uma batida. Liam Payne corria na nossa direção, fiquei um pouco sem jeito. Ai, caramba, por quê?! Liam é um amigo meu, um garoto fofo, cavalheiro e inocente. Sabe aquelas meninas que dizem “homem é tudo igual, blá-blá-blá”? Então, elas ainda não conheceram o Liam.
Liam estava com a expressão arrasada, além de cansada. Ele se jogou em cima de Zayn e o abraçou forte, sua voz soou fraca e embargada:
–– Eu pensei que ia te perder, cara. –– Os dois sorriram. –– Você está bem? Vocês dois estão bem?
Liam e Zayn eram amigos há um pouco mais de um ano, melhores amigos. Liam soltou Zayn dando dois tapinhas no ombro dele e veio até mim para um abraço rápido e constrangedor.
–– Todos bem –– respondi.
–– Eu ainda não acredito que aqueles babacas te jogaram na porcaria do lago.
Esses eram um dos xingamentos mais baixos que você ouviria Liam dizer. Babaca, porcaria, idiota. Nós três continuamos andando.
–– Eles sabem que não sei nadar –– Zayn disse com medo na voz, Liam ficou ainda mais nervoso. Claro, jogar uma pessoa por causa do frio é uma coisa. Mas jogá-lo justamente porque não sabe nadar? Isso é doentio. –– Eu não sei como descobriram.
–– Não vão fazer mais nada com você –– Liam disse com muita certeza. Vish, que que tinha acontecido? Ele olhou para mim novamente e sorriu de lado, tirou a blusa de frio e me entregou. –– Eles não encostaram em você, encostaram, ?
–– Nã...
–– Empurraram e chamaram de vadia –– Zayn disparou.
–– ELES O QUÊ?! –– O rosto de Liam ficou quase demoníaco. Ai, caralho...
–– Não foi nada, Liam, não foi nada... Pare de arranjar encrenca com eles, vocês dois. Não olhem pra eles pelo resto da semana, os evitem em qualquer lugar e...
–– Sem problemas, mamãe. –– Zayn bufou. –– Eu hein, perto de vocês dois eu me sinto como uma criancinha.
–– Você é uma criacinha, Zayn –– Liam brincou, nós rimos. –– Tá, que seja, ignorá-los não vai ser problema pra mim... Estou suspenso pelo resto da semana mesmo.
–– O QUÊ? –– Eu e Zayn protestamos em coro.
–– Isso mesmo, suspenso.
–– Esse corte na sua boca, né? Foram eles? –– Zayn falou nervoso, quase rosnando. SE ACALMEM, CARAMBA. SE ACALMEM.
–– Foram.
Bufei, quase desistindo de separar os babuínos. Quase.
–– Se você quiser, eu posso ficar o resto da semana na casa da minha avó. Assim eu te passo as matérias que você perder –– eu disse de imediato.
Zayn fez uma cara estranha e engaçada como se tivesse chupado limão:
–– Hm, danados... –– ele murmurou. Eu o cutuquei nas costelas. Não tinha nada a ver, caceta. Eu REALMENTE só disse aquilo para passar a matéria pro Liam, ok? Ok.
–– Além do mais –– emendei ––, o teatro fica mais perto da casa dela e preciso participar dos ensaios finais. Vocês vão, certo?
Os dois assentiram.
–– Não perderíamos sua peça por nada, . –– Liam colocou o braço por trás do meu pescoço e me abraçou de lado. Meu coração palpitou.
Chegamos atrasados no colégio e entramos apenas na segunda aula. Quer dizer, eu e Zayn entramos e Liam voltou para a casa dele.
O cenário todo estava rodando logo atrás de mim e eu, atrás de uma das cortinas, deveria falar ao microfone enquanto um som de assovio tocava, como algo caindo. Eu gritei, horrorizada, entrando no papel como se estivesse realmente caindo. Os carinhas do som (desculpa se não sei o nome deles) colocaram o som de um guarda-chuva se abrindo para simular a barra do vestido da Alice.
–– Bem, depois de uma queda dessas, eu não vou achar nada se rolar pela escada... Poxa, essa queda não acaba mais! Devo estar chegando em algum lugar do centro da Terra.
As cortinas se abriram. Eu estava deitada no chão, então me sentei e olhei em volta. O cenário era uma sala cheia de portas, e bem atrás de uma mesa de vidro tinha uma pequena porta montada na direção em que Christopher sairia de cena. Chris, o Coelho, passou na minha frente, apressado:
–– Oh, pelas minhas orelhas! Como está ficando tarde!
O Coelho saiu e eu me levantei. Fui até aquela mesa e peguei uma pequena chave dourada.
–– Deve ser de algumas dessas portas, mas qual? Se ao menos eu tivesse prestado atenção por qual delas o coelho entrou...
–– Bom trabalho, Alice! –– Louis gritou no final. –– Isso aqui vai estar lotado! Mas... Eu ainda acho que devia ter chá de verdade nas xícaras, e não água. –– Ele fez um biquinho. –– Non mi gustá água.
Eu sorri.
–– É no me gusta, Chapeleiro. E obrigada, mal posso esperar pela apresentação também.
–– Puft, aquele cara dos cachinhos precisa mesmo me ensinar espanhol. Quem você convidou pra vir no domingo, hein?
–– Só alguns amigos, fora a família. –– Eu esperava por Liam, Zayn e pela irmãzinha do Liam também, a . Além de mais alguns colegas da escola. –– E você?
–– Digo o mesmo. Bom... Vou lá com o cara do espanhol! Trabalho de filosofia, argh... Té mais, Alice!
Niall’s pov:
De novo aquele desgraçado me sacaneou, agora foi aquela porcaria de saco com cocô pegando fogo. Dan e (um idiota e a namoradinha dele) já estavam me tirando do sério. disse pra eu não dar a mínima e me convenceu a não sair atrás deles ao dizer que ia preparar um almoço brazileiro. Meu estômago está ansioso por isso.
Enquanto ela preparava algo que parecia simplesmente maravilhoso (acho que eu poderia viver daquele cheiro pra sempre) eu listava os lugares que poderíamos visitar mais tarde. Tinha o estádio Keepmoat, o parque e museu Cusworth Hall, o Doncaster Dome (um espaço com mais de cinquenta atrações de esportes, lazer e entretenimento) e uma catedral enorme chamada St. George. E, claro, alguns restaurantes... Só alguns...
Zest Bar & Grill, Woods Tea Room, The Four Seasons, Home Bargains, Torr’s English Deli, Opera, The Cake Box, The Farm Shop, China Palace, Minerva Cafe Restaur...
–– TUDO PRONTO, NIALL!
Do que que eu tava falando mesmo? Corri para a cozinha.
–– Huuuum o que é isso?
–– Feijoada –– ela disse, sorrindo. –– Um tipo de feijão com carne de porco. Aqui tem arroz, e ali mortadela. Acho que as outras misturas você conhece, então não preciso dizer, certo? Ah! Adivinha o que tem pra sobremesa...
–– BRIGADEIRO!
–– Isso mesmo. E leite condensado com morangos –– riu, acho que do meu sotaque.
–– A feixoada parece boa.
–– A o quê?! –– teve um ataque de riso. Desculpa se não consigo falar aquela coisa estranha... “eijo” dafuq? –– Tá. Vem cá, prova.
Está oficialmente decidido: Quero ir pro Brazil viver à base de feixoada.
Aquele feijão escuro era divino, como pude viver todo esse tempo sem aquilo?! Quando achei que finalmente estava cheio e no paraíso, lembrei que ainda tínhamos o brigadeiro e quase pulei da cadeira. tirou da geladeira um prato com algo que parecia chocolate... Mas um chocolate diferente. Sei lá. Ela me entregou uma colher e experimentei.
Corrigindo: Quero ir pro Brazil viver à base de feixoada e brigadeiro.
–– Está melhor?
–– Muito melhor. Tá, não muito... –– Fui sincero. –– Não me leve a mal, isso aqui é divino. Mas tô meio bolado e não é por causa dos idiotas na rua. Ben e Jerry morreram.
deixou a colher cair.
–– Ai meu Deus, Niall, eu sinto muito. Eles... Eles...
–– Meus peixes. –– Eu ri.
–– Ah, peixes. Pensei que... Deixa pra lá. O que aconteceu com eles?
–– Muita comida, eu acho. –– Ela começou a gargalhar. –– Pena que não viveram tempo o suficiente pra provar a feixoada.
não sabia se ria ou tentava falar.
–– Você dava comida pra eles?! Qual o seu problema?!
–– Aquela comida de peixe é horrível, coitados. Já provou aquilo?!
–– Não, e espero que você também não tenha provado, seu maluco... Aonde vamos hoje?
Entreguei a lista pra ela.
–– Esses vinte grifados...?
–– Comida.
Liam’s pov:
Tédio define.
Voltei para a casa, agora sabendo que aqueles doentes jogaram Zayn mesmo sabendo que ele não podia nadar, e que trataram uma dama daquele jeito grosseiro e rude. Como eles podem ser tão baixos? Meus punhos ainda formigavam, querendo socá-los mais algumas vezes.
Não tinha absolutamente nada pra fazer. Arrumei a casa, fiquei assistindo TV e comendo porcaria. Chaaaaato. PERA. Tô esquecendo alguma coisa... A comida das tartarugas? Não, não é isso. Hm...
AI MEU DEUS, !
Tá, calma, ela não vai te matar, Liam. Que horas são? Duas e meia. Tá, ela vai sim te matar.
A porta se abriu e estava com a expressão mais assustadora de todas.
–– Quero explicações –– ela disse atirando a mochila no sofá.
–– Eu... Eu... Eu esqueci, , descul...
–– Não é isso, Liam. Por que saiu do colégio daquele jeito, o que aconteceu?
–– Zayn precisava de ajud...
A campainha tocou. se adiantou e abriu a porta, estava lá com alguns livros nos braços.
–– Hey, .
olhou para mim, e depois para , e pra mim de novo.
–– Eu vou... Vou... Vou lá pra cima. Fiquem à vontade pra... Sei lá, fazer o que quiserem fazer... Vocês sabem. –– Ela correu.
e eu rimos.
–– Salvo pelo gongo. Aquela baixinha ia me matar.
–– Uau, que novidade a querendo te matar... Trouxe a matéria que você perdeu, não foi muita coisa.
–– Obrigado. Mesmo.
–– Qualquer coisa, uma dúvida ou sei lá... Você sabe, tô na casa do lado. E Liam... Eu falei sério hoje de manhã sobre você e o Zayn precisarem ignorar Josh, Sandy e compania.
Eu não ia ouvir besteira e ficar calado, não mesmo. Mas eu não estava afim de descutir com por isso.
–– Sem problemas, pode deixar. –– Peguei os livros. –– Se eu precisar, eu grito.
–– E eu venho correndo. –– Ela sorriu. Mas não sorriu só com os lábios, sorriu com os olhos também. Não sei como ela conseguia fazer aquilo, mas os olhos dela sempre brilhavam quando ela sorria. Lindo.
rolou as escadas.
–– Ai, essa droga maldita de degrau... Eu, hã, continuem. Continuem, eu tô... Tchau. –– Ela voltou pra cima. Ou para o esconderijo dela pra continuar ouvindo nossa conversa, eu não sei.
–– Tchau, . –– Depositei um beijo na testa dela. –– Se cuida.
Terminei a lição ouvindo a chata da falando sobre eu e .
–– TÔ FALANDO SÉRIO. ACORDA, MENINO! PORQ...
–– Espera, você tem um binóculo?
–– Hã?
–– Um binóculo, sabe? Lentes que aumentam o alcance da visã...
–– Eu sei o que é um binóculo, Liam. E eu tenho um em algum lugar do meu quart...
–– Vai lá e pega pra mim, por favor.
–– Pra quê?
–– Só pega que depois eu explico! –– Cinco minutos depois voltou com o instrumento em mãos e nós fomos para o meu quarto. –– Dá pra ver a daqui –– eu disse olhando pelo binóculo. –– Vaza, .
–– Ei! Seu pervertido infeliz, me devolve isso aqui!
–– Parece até que não conhece o seu irmão. –– Eu levantei o binóculo no alto pra que a baixinha não alcançasse. –– Eu não vou infringir a privacidade da , . Agora vaza do meu quarto, por favor.
–– Promete que vai pensar nos seus sentimentos por ela?
–– Já disse que não tem nada pra pensar.
–– Promete?
–– Tá, tá, prometo de dedo mindinho e tudo o mais. Agora é hora de você sair do meu quarto.
saiu do meu quarto saltitando e sorridente.
Então meus dias afastados da escola não vão ser tão tediosos assim, afinal.
Quinta-feira. Mais um dia com nada pra fazer exceto levar e buscar no Hall Cross. Já era tarde e eu estava observando pela janela, comendo um pacote de doritos.
Tinha como aquela garota ser mais fofa, Deus? Na maior parte do tempo ensaiava suas falas para a peça de frente para o espelho ou dormia. Era engraçado vê-la dando uma de DJ abaixando e aumentando o volume do rádio enquanto pulava desenbestada, ou tentando equilibrar o interruptor de luz no meio e coisas do tipo. E era muito bom vê-la sendo ela mesma, sem se preocupar com as roupas que estava usando ou como o cabelo dela parecia.
Ela era... Uma boa amiga, uma ótima amiga. Parei um segundo pra pensar na possibilidade de levar aquela promessa com a sério. Mas não tinha o que pensar sobre meus sentimentos pela ... Ou tinha, Liam?
’s pov:
Now, I see you’ve been hanging out with that other girl in town, looking like a pair of clowns clowns clowns.
Tô achando que essa música vai ficar uma merda, sério mesmo.
Eu costumo compor algumas músicas e fazer uns covers com meu violão, só por diversão, mas a ideia de fazer fama algum dia seguindo esse rumo me intriga.
Eu, a e a Lauren fomos alugar nossas fantasias ontem no Frenchgate e o resultado é que vou de cigana. Eu gamei naquela fantasia, e preciso admitir que fiquei dando uma de Shakira pela casa. [n/a: tentei desenhar as fantasias das meninas, porém... Bom, algumas ficaram uma merda. No decorrer da história haverá mais links, xx]
Guardei todos os rascunhos de músicas que fiz essa noite, o violão e peguei a carteira na mesa de cabeceira.
–– Mãe! Já tô indo! –– gritei na porta de casa.
Plena quinta-feira e vou num pub pra um aniversário. Era de uma menina da minha turma de redação, não vai muito com a cara dela então deu uma desculpa esfarrapada pra não ir. Eu não tenho nada contra a garota e não tô afim de ficar mofando em casa, então... Por que não?
Peguei o carro da minha irmã emprestado, ela era de boa quando o assunto era o carro dela, acho que é porque é meio velhinho e capenga. Então ela acha que, se eu usar, vou ferrar ele de vez e ela vai ganhar um novo. Minha irmã e suas conspirações, vai entender.
O pub fica bem perto de casa, liguei o rádio e fiquei ouvindo Fall do Justin. Cara, como eu amava aquele retardado. Fiquei cantando sozinha e empolgada com a música no volume máximo, recebi alguns olhares tortos de outros motoristas até finalmente chegar.
Entrei no lugar pouco iluminado e avistei o grupinho de adolescentes bêbados reunidos.
–– Heeeey! Parabéns, amor!
–– Awn, obrigada por vir, . Gente, essa aqui é a . Acho que você conhece todo mundo, né? Ah, e aquele ali é o meu namorado...
–– Olly –– murmurei. –– É, eu conheço ele. Dá uma licencinha pra mim, eu preciso ir ao banheiro.
–– Você tá bem, ?
–– Tô, mas que droga. Só quero mijar. Sai da minha frente, demônio.
Me tranquei no banheiro. POR QUE CARALHOS AQUELE MENINO TINHA QUE REAPERECER NA MINHA VIDA, HEIN, ME DIZ? Ah, deixa, você não deve saber de nada também.
Ok, deve ter um jeito de fugir daqui. Talvez se eu disser que minha avó acaba de morrer e eu tenho que consolar a minha mãe... Não, dramático demais.
DROGA DE JANELINHA PEQUENA. Por que as janelas de lugares públicos são tão pequenas, hein? Chega, . Não tem jeito... Acabou... Boa sorte. Eu sou forte e poderosa, eu vou me levantar e enfrentar o cachorro do meu ex cara a cara. Sem drama. Com dignidade.
Acho que não tem muita dignidade sobrando depois de ter ficado dez minutos entalada na janelinha do banheiro, mas ninguém precisa saber disso, certo?
Abri a porta e vi Olly conversando e rindo como se não fosse um putinho desgraçado e a vida fosse linda. Argh.
E então os olhos dele encontraram os meus. Três meses atrás, eu teria borboletas flutuando pelo meu estômago. Agora, as borboletas estão se metralhando aqui dentro.
Mudei de direção no mesmo instante e parei no balcão, respirando fundo.
–– Você tá bem? –– Um garoto bonitinho me perguntou, mas eu não saberia descrever ele com clareza porque a luz daquele lugar é uma bosta.
Eu sabia que era loucura, mas o garoto parecia ser gatinho e era uma saída bem inteligente.
–– Bem, um pouco... Pera, cê tem namorada?
O menino riu.
–– Eu não tenho, mas...
–– Shiu. Me faz um favor, finge que é meu namorado. Só por essa noite, por favor. Eu preciso muito disso, é caso de vida ou morte.
–– Aposto que ninguém vai morrer de verdade –– ele brincou. Tinha um sotaque forte.
–– O meu orgulho vai, e talvez a minha avó também.
–– Ah, então... Uma noite, certo? Acho que s...
Coloquei as mãos na nuca dele e o puxei para perto, selando nossos lábios. Pude perceber como o tadinho do menino estava rígido e surpreso, mas ele se rendeu e me puxou pela cintura. Meu Deus, que garoto mais... AAAH! Que beijo era aquele? Ele usava pouco a língua, dava leves mordidas em meus lábios e suas mãos firmes alternavam entre afagar e apertar minha cintura. Senti um gostinho de álcool também, mas quem liga né?
Me afastei para recuperar o fôlego.
–– Desculpa por isso –– eu disse. –– Mas se é pra entrar no personagem, vamos logo com isso.
–– Ok, nós... Eu... O que preciso fazer exatamente? –– Ele ainda estava um pouco perplexo, awn, parecia um coelhinho. Wtf, ?
–– Vamos pra aquela mesa, ok? –– Apontei.
–– Ei, espera, precisamos pelo menos conhecer um ao outro antes, né. Precisamos convencer todo mundo. –– Percebi o contorno do sorriso dele, um sorriso torto de criança.
–– . 16 anos. Aquário. –– Olhei pra trás e percebi Olly nos obserando. Há, surpreendi você né, putinho? –– A gente não tem tempo pra isso, vem.
Ele se levantou do banco do balcão e me guiou para a mesa segurando firme na minha mão. Assim que fomos nos aproximando, pude sentir os olhares em nós e perceber que eu seria bombardeada de perguntas.
–– Ei, menino do balcão –– sussurrei no ouvido dele, os pelos da nuca dele se eriçaram. –– Qual é o seu nome mesmo?
–– Zayn Malik. 17 anos. Capricórnio. –– Ele imitou meu tom de voz.
–– Ótimo. O resto a gente inventa, Malik.
Estou começando a achar que Olly ter aparecido por aqui hoje foi a melhor coisa que podia ter me acontecido.
Harry's pov:
Pessoas normais vão para a cama e dormem. Louis não. Ele dança em cima da cama, canta, me morde, pula, dá risada, e então ele dorme.
Terminamos o trabalho de Maquiavel (devo dizer que ficou uma bela porcaria), fizemos algumas twitcans passando trotes e fomos dormir.
Acordei num salto, com o coração a mil e Louis gritando:
–– GENTE ENTROU UM KEVIN AQUI, AI QUE EMOÇÃOOOO!
–– Porra, Louis!
–– Bom dia, cachinhos. –– ele atravessou pela porta saltitando.
Foi assim minha manhã de quinta. À tarde fui para a padaria, dar uma mãozinha e ganhar uns trocados, então recebi um convite da mãe da para o aniversário do tio . Seria uma festinha surpresa amanhã (sexta). Anne, Robin e Gemma iriam (minha mãe, meu padastro e minha irmã).
O que me preocupa é que amanhã eu também teria que alugar a minha fantasia para sábado, só não sei como eu vou arranjar tempo pra tudo isso.
Peguei meu celular e disquei o número do Louis.
–– Lembra que íamos alugar nossas fantasias amanhã? –– comecei. –– Então, temos uma festinha pra ir primeiro.
–– Oi pra você também, criatura. Que festa?
–– Aqui na padaria, o pai da , é o aniversário dele. A gente fica uns 15min só pra marcar presença e vamos pra loja.
–– FESTA NA PADARIA YAAAAAAAAAAAAA... –– ele gritou e eu afastei o celular do meu ouvido até que o “yay” dele terminasse. –– Por mim, tudo ok. Que horas passo aí?
–– Vai 4hrs direto pra padaria, beleza?
–– Certo, Haroldo. Tchau tchau, te amo.
–– Te amo, Loueh. –– desliguei.
Geralmente, se não falo “te amo” no fim da ligação, Louis fica ressentido e nervoso. Simplesmente não tente entender o Louis, ok?
Recebi uma mensagem logo em seguida e minhas pernas falharam um pouco.
Tantos bons momentos... Sinto sua falta xx Flack.
Hora da confissão: Catei a professora de espanhol.
NÃO me julgue, tá? Eu gosto mesmo de mulheres mais experientes e maduras, decididas e sem aquele blá-blá-blá todo de “você não me dá atenção”. Se bem que é muito interessante mostrar às mais novas as coisas boas da vida... Tá, eu sou o tipo de garoto que não tem um tipo específico de garota.
Já fazia tempo que fiquei com a Sra. Flack. Tá, acho que depois de tudo, eu não precisava de toda essa formalidade de “Sra”. Enfim...
Foi o maior pesadelo. Quer dizer... Foram bons tempos, eu realmente gostei dela. Na verdade era uma relação mais física do que emocional... Mas minha família toda estava caindo em cima de mim, e meus amigos também. E toda aquela pressão de não deixar o povo da escola descobrir e Flack deixar tudo isso nos meus ombros. Cansou, e muito.
Então tudo acabou e, desculpe, professora, mas eu já estou em outras. Pronto pra cair na farra e curtir. Depois de todo aquele pesadelo de responsabilidades, quero me desligar um pouquinho.
Peguei a carteira pra encontrar com os meus primos da White Eskimo e gravar algo novo.
Pra ser sincero, cansei um pouco da farra... Mentira, quem eu tô tentando enganar? Mas eu não quero mais essas garotas que me querem por uma noite e no dia seguinte estão fazendo o mesmo com outro. Ok, eu sou assim. Eu faço isso com elas também. Mas estou disposto a mudar. Vai dar merda, eu sei, sempre dá, é de mim que estamos falando aqui. Mas eu também tenho sentimentos, tá? Também quero ser mimado e me sentir o único no mundo pra uma garota. Hm... Isso soou bem gay, acho que tô passando tempo demais com o Louis. Quero um relacionamento mais sério agora, mas não tãããão sério. Cara, desiste, não dá pra me entender.
’s pov:
Terminei de me arrumar pra festinha surpresa, fechei o livro que estava escrevendo e desliguei o computador.
Até onde eu sabia, mamãe tinha pedido para o pai ir comprar uma coisa inútil do outro lado de Donny, mesmo sabendo que a loja estaria fechada (trollagem básica). Então, quando ele voltasse, todos já estariam aqui e seria toda aquela coisa de filmes de pular do escuro e gritar e etc.
Ajudei mamãe a atender os últimos clientes e “fechar” a padaria. Aos poucos, nossos parentes e amigos próximos foram aparecendo e não demorou para o lugar estava lotado de tios sem graça alguma (pavê ou pacumê heheheheheheheh não, não teve graça, cala a boca), tias praticando bullying (“e os namoradinhos?” e a bunda caída, tia?), e pirralhos correndo e gritando. Típica reunião em família, nossa como eu amo todos eles... Uau. Agora só falta o Harry gravando tudo isso e aprontando pra eu cair na frente da câmera. Da última vez, Harry pegou meu celular e ameaçou ler todas as minhas mensagens. Não tinha nada de muito comprometedor, mas eram as minhas mensagens, poxa. Então saí correndo atrás dele, e já estava tudo planejado: O corredor estava molhado e levei o maior tombo de todos os tempos.
–– Hey, ! –– virei-me rápido.
–– Louis?
–– Eu mesmo. Pode chamar de “vossa alteza” também, não ligo. Haroldo me disse pra vir. Aliás... –– ele abriu os braços: –– PARABÉNS PRO SR. PÃO!
–– Ele não tá aqui ainda, Louis...
–– Ah... Então deixa quieto, gente. Um não-parabéns pro Sr. Pão...
Bati a mão na testa e ri.
Quando levantei o rosto, avistei Anne, Robin e Gemma se aproximando com Harry logo ao lado.
–– CURLS! –– gritou Louis.
–– Fala, Boo Bear.
–– Só mamãe Jay pode me chamar desse jeito, menino atrevido.
Nós rimos. Harry jogou o capuz da minha blusa de frio sobre a minha cabeça.
–– Começou, é? –– eu o arrumei. –– Não cansa de encher o saco, não?
–– Não. –– ele repetiu o ato. Viu? Esse é o meu primo irritante.
–– GENTE! –– mamãe saiu de dentro da cozinha com o telefone na mão. –– ELE TÁ VINDO, SE ESCONDAM.
Nós três fomos para trás do balcão e a maioria das luzes foram apagadas. A única coisa que dava pra ouvir era alguns cochichos das crianças e as respirações de todos.
–– Louis tá com vontadinha de fazer xixi –– Louis falou de repente. Harry o cutucou.
–– Amor? –– meu pai entrou. –– ?
Bom, o resto você sabe né? Todo mundo gritando, desejando parabéns, meu pai quase infartando e coisas do tipo.
Louis e Harry começaram a se despedir de todos.
–– Não vão ficar pro bolo? –– perguntei, confusa. Louis adorava bolo.
–– Vamos alugar fantasias –– Harry explicou. –– Tchau, . Tchau, tio . Parabéns.
Eu já tinha alugado minha fantasia na quarta com a e não estava nem um pouco empolgada pra ir nessa festa. E não, não encontrei o loirinho fofo no açougue.
–– Quer ir com a gente? –– Louis perguntou.
Dei de ombros.
–– Ok, vamos lá.
Louis é maior de idade e já tem carteira de motorista. Na verdade, Harry também, mas ainda não tem carro, ao contrário de Louis.
Ele nos levou a uma loja de fantasias perto do colégio. Entramos e me larguei em um pufe, esperando eles escolherem algo pra vestir. Eu gravava tudo disfarçadamente com a câmera do Harry (ele não teve tempo de gravar nada da festinha, yes!). Harry entrava e saía do provador milhares de vezes, uma fantasia mais ridícula que a outra. Eu não conseguia parar de rir. Louis não provou nenhuma fantasia, acho que ele já tinha uma.
Finalmente Harry saiu com algo decente, uma fantasia de marinheiro.
Louis o olhou de cima a baixo, observando cada detalhe.
–– Eu gostei –– falei.
–– Mas Harry não pode usar isso –– Louis disse. –– Tem listras.
Harry fez uma careta:
–– E daí?
–– Só eu estou autorizado a usar listras.
–– Que seja, deve ter outra coisa por aí. –– Harry voltou para o provador.
Tava difícil encontrar algo que prestasse. As opções não eram lá muito boas e Louis era extremamente ciumento com roupas.
Harry saiu com uma roupa estranha de mímico.
–– Nada de suspensórios ou serei obrigado a bater em você –– Louis o lembrou.
Os dois se conheciam há tanto tempo que pareciam irmãos. Sempre que Harry cozinhava algo, guardava um pouco num pote pra levar pro Louis no dia seguinte, e eles vivem no telefone checando o que o outro está fazendo.
Então Harry saiu do provador com uma fantasia simplesmente perfeita. Ficou muito boa nele, tinha que ser aquela. Harry pagou e saímos da loja, o alarme começou a apitar e Louis não parava de rir. Nos entreolhamos, wtf?
Um segurança forte apareceu e pigarreou:
–– Desculpe por ter que fazer isso, senhores, mas parece que algo que não foi pago está sendo levado para fora da loja. –– Ele tinha os olhos na sacola de Harry.
Harry fuzilou Louis com o olhar.
–– O que foi que você fez, Louis?
–– Não tenho nada a declarar, tô de boa aqui. –– ele se abanou.
–– Louis.
–– Tá, tá... Fui eu que coloquei a coisa na sacola dele. Só uma pegadinha, você sabe.
O segurança ficou meio que em dúvida, mas assentiu e voltou pra loja com o produto. Voltamos para o carro e ouvi uma longa discussão dos dois sobre qual sabor de sorvete era melhor. Louis defendia que Dime Bar era incomparável, mas Harry dizia que Honeycomb era incrível e o seu preferido. Depois que os dois se zangaram (sim, eles discutiram por causa de um sorvete), Louis começou a perguntar da minha vida. Ele era bem legal, e devo dizer que bem mais presente que Harry.
Apesar da minha infância toda com o Harry, Louis gostava de sentar pra conversar comigo de vez em quando. Ele me dava conselhos e contava histórias, era bem engraçado. Louis me deixou em casa primeiro, subi as escadas e fui pro meu quarto. Me taquei na cama e suspirei. Festa.
Eu não estava com bons pressentimentos.
Zayn’s pov:
–– O que aquele verme estava fazendo sob o nosso teto? –– rosnei.
–– Para! Não fala assim dele –– Waliyha protestou. –– Ele tem nome e a partir de hoje é da família você querendo ou não.
–– Pode ser da família que quiser, mas não da nossa.
–– Zayn, chega, ok? Estou namorando o Josh e nada que você faça ou diga vai mudar isso. Fim.
–– Ele te pediu em namoro? –– testei.
–– Não, ma...
–– Foi o que pensei. Ele tá te usando, Waliyha. Você vai terminar com ele, entendeu?
–– Desde quando você manda em mim?! Você não é o mais velho dessa casa, ok? Se alguém vai tentar impedir meu... Relacionamento, não é você.
–– VOCÊ NÃO VAI MAIS SAIR COM ELE! –– perdi o controle e a segurei pelo braço. Eu não acreditava que aquele imundo filho da puta estava jogando com a minha própria irmã.
–– EI, O QUE TÁ ACONTECENDO AÍ EMBAIXO?! –– Doniya gritou lá de cima.
Olhei nos fundos dos olhos da Waliyha, a tensão era mais que óbvia.
–– Não... Vai... –– repeti devagar e baixo.
–– Você não manda em mim. –– Ela se soltou bruscamente e subiu as escadas, Doniya desceu ao mesmo tempo, esbarrando nela.
–– O que foi agora? –– ela me perguntou.
–– Nada –– respondi seco.
Então foi assim que Josh descobriu que eu não podia nadar. O que mais ele poderia saber sobre mim? Meu medo do escuro?
–– Zayn. –– Doniya suspirou. –– eu só quero ajudar.
–– Ajude colocando alguma coisa útil naquela cabeça oca da Waliyha –– falei alto e próximo ao pé da escada pra que ela ouvisse.
–– CALA A BOCA, ZAYN! –– Waliyha bateu a porta.
Doniya colocou a mão no meu ombro:
–– Ela também é minha irmã mais nova, lembra? Eu também me preocupo, também quero proteger ela. Mas Josh é um cara legal, Z, então pare.
–– Ótimo. –– bufei. –– Se algo acontecer a ela, não diga que eu não avisei.
Procurei pela minha carteira e minha jaqueta.
–– Aonde você vai?
–– Respirar, pensar. Por quê?
–– A gente precisa conversar, você não pode ir saindo desse jeito. PARA de ser criança e...
Criança? Eu? Devine, o mesmo monstro que me jogou no lago, que juntou os amigos pra virem atrás de mim e Liam, que xingou e destratou a , estava de rolo com a minha irmã mais nova e o errado sou EU por querer dar um fim nisso?
–– Vão pro inferno vocês duas. –– atravessei a sala e abri a porta, mas parei ao sentir dois puxões na minha jaqueta.
Olhei para baixo, era Safaa.
–– Z? –– ela perguntou. Eu me agachei já me sentindo mais calmo.
–– Ei, Safaa. –– dei um petelequinho no nariz dela.
–– Você vai sair?
–– Vou, mas volto logo, tá? Toma conta do barco por enquanto, marinheira. –– baguncei o cabelo dela.
–– Tá bom, capitão Z.
O pub não estava muito movimentado, o que era bom. Pedi mais uma dose para o barman.
O que mais me preocupava era o que Josh seria capaz de fazer com Waliyha, se ele a trataria bem. Mas... Bom, é o Devine. Ele não a trataria bem. Se aquele idiota encostar um único dedo na minha irmã, eu juro q...
Uma garota apareceu ofegante e se apoiando no balcão, dizendo algo sobre namoro por uma noite. Acho até mesmo que a beijei... Eu não sei. Àquela altura eu já estava bem alterado.
Só lembro de ter uma noite legal com ela... Qual era o nome dela mesmo? Andressa? Sei lá. Não conseguia me lembrar muito dela, só alguns flashes. Mas a característica mais marcante, a que tinha se fixado no meu cérebro, eram os olhos dela. Grandes e amendoados, hipnotizantes e misteriosos. Um pouco assustadores também, mas lindos.
Cheguei em casa bem tonto depois de algumas horas e me coloquei debaixo do chuveiro. Recebi um olhar torto do meu pai, mas ele sabe que eu não sou de beber à toa, e ele não é de fazer muitas perguntas.
Entrei no quarto da Safaa para “espantar os monstros” de lá. Ela não conseguia dormir até que eu fizesse isso.
Dali eu podia ouvir a voz abafada de Waliyha no telefone.
–– Então você vai passar aqui? –– ela perguntou. –– Umhum, tá. Não, ele não vai na festa. Porque não, oras, ele não tem vida social. Além do mais, é bem melhor assim né? –– ela soltou algumas risadas baixas. O que aquele filho da puta tava falando pra ela? –– Também te amo, até amanhã.
Então ela ia na festa de sábado com o Devine, né? Interessante.
–– Z? O que você tá fazendo?
–– Eu só... Checando se nenhum monstro fugiu pra parede, Safaa. –– desencostei meu ouvido da parede. –– Boa noite, pequena.
Revirei meu quarto e o dos meus pais também (sorte a minha que eles estavam assistindo TV na sala) em busca de uma fantasia. Eu iria vestido de qualquer coisa, mas eu tinha que ir nessa festa de qualquer maneira.
’s pov:
Como previ, ontem Liam me esqueceu no colégio. Eu estava disposta a discutir isso quando apareceu... Deixar os pombinhos voarem faz bem, né?
Eles ficaram naquele nhé-nhé-nhé e se foi. Liam subiu para o quarto dele com o MEU binóculo e começou a dar uma de stalker pervertido. Desde então ele está plantado no quarto dele, de frente pra janela e com o binóculo em mãos.
–– TÔ FAZENDO CHÁ, VAI QUERER? –– gritei ao pé da escada.
–– Quero, . Obrigado.
Subi com as xícaras e um saco de biscoitinhos amanteigados.
–– E aí? –– sentei-me num banco ao lado dele. –– O que descobriu, detetive Payne?
Liam riu e pegou um biscoitinho sem tirar os olhos da janela.
–– Ela só tá estudando. –– ele se virou um pouco e focou em algo na porta da casa da . –– Pera, quem é aquele?
–– Ciúminho, é? Me dá isso aqui. –– peguei o binóculo e deixei o pacote de biscoitos cair. –– LOUIS!
Corri para o quintal e o avistei na porta da , fingi que ia pegar uma correspondência.
–– Trouxe sua fantasia –– Louis disse quando abriu a porta. –– Amanhã não tem ensaio, a professora mandou avisar. Rolaram uns imprevistos... Te vejo no domingo, né?
–– Claro. –– pegou o pacote. –– Obrigada, Lou.
A abertura da caixa do correio se fechou sozinha fazendo um barulho desgraçado. Os dois me encararam. Imaginei como Liam estaria reagindo ao ver tudo isso lá de cima. Confuso? Com ciúmes da ? É.
–– Oi –– falei com muito esforço.
–– Hey! –– sorriu. –– O Liam tá bem?
–– Ah, ele... Tomando banho, não sei. –– Quê?! , PARE COM ISSO E RETOME SUA CONSCIÊCIA AGORA MESMO. Você não tá falando coisa com coisa, gata.
Louis sorriu pra mim. Pronto, fodeu a porra toda. Minhas pernas tremeram.
–– Vocês vão à festa à fantasia?
Eu e nos entreolhamos.
–– Que festa? –– perguntamos em unissosso.
–– Sábado. 7hrs. Parque de diversões.
–– Hm, eu... Acho... Acho que não tenho como ir, tenho coisas pra fazer. –– mentira, não tinha nadinha.
concordou.
–– Isso é uma pena. Bom, tenho que ir, ladies –– ele disse dando um abraço rápido na .
Louis veio até mim e parou na minha frente, me encarando com aqueles olhos azuis. Vish, será que eu fiz algo de errado e não sei?
–– Você é a , certo? –– ele sorriu com a cabeça um pouco tombada pro lado. Ele não só sabia que eu existia como também lembrava o meu nome, há! Assenti com a cabeça, muda e perplexa. –– Te vejo no domingo, então. –– ele me deu um beijo um pouco demorado na bochecha e foi pro carro dele. Aqueles lábios quentes tavam mesmo ali no meu rosto, cara?
ÇHFIOAJDKLAUWBDLUIGABDAKUDB CADÊ MINHAS PERNAS? NÃO TÔ SENTINDO NÃO. Se recomponha, mulher.
Acenei pra um pouco desajeitada e voltei pra casa.
–– Quem era ele? –– perguntou Liam aparecendo do nada.
–– Francamente, Liam. –– revirei os olhos. –– Nunca viu ele na peça da , não?
–– Não. –– Eele deu de ombros. –– Eles... Namorando?
Eu ri.
–– Por quê? Te incomoda isso? –– brinquei. Tudo bem que se o caso fosse esse eu também me incomodaria, e muito, mas o Liam não precisa saber disso.
–– Não, oras... Eu só... Bom pra ela. Bem legal.
O Liam é tão besta, né?
Fiquei feliz e sorridente pelo restante da tarde de quinta, e na sexta tentei convencer meus pais a me deixarem ir à tal festa à fantasia.
Eu estava de frente para o espelho, checando como o vestido ficou em mim. Era uma fantasia reserva do figurino da peça, a anja da arranjou isso pra mim de última hora.
Toc, toc.
–– Posso?
–– Entra.
Liam abriu a porta e exibiu um sorriso enorme de orelha à orelha:
–– Como você cresceu.
–– AH NÃO, NEM VEM. Não começa.
Ele se sentou na minha cama:
–– Aquele menino lá... Você gosta dele?
Engasguei e tossi. Por que Liam tocou naquele assunto?
–– Digamos que não tenho motivos pra odiar, ué.
–– Sentimentos, . Tô falando dos seus sentimentos por ele. O que seu coraçãozinho diz, hein?
Bufei.
–– O que “meu coraçãozinho diz”? Nossa, Liam, credo. Tá, acho que gosto.
Liam se levantou de imediato:
–– Preciso de um chapéu.
–– Hã?
Liam começou novamente a falar rápido e enrolado:
–– Não vou te deixar ir sozinha numa festa enorme com o menino maior de idade que você gosta. Dã.
Bosta.
Louis’ pov:
Tirei os sapatos e me joguei no sofá. Sábado à noite e eu ainda não fazia ideia se iria ou não fugir de casa. Charlotte, Felicity, Phoebe e Daisy estavam assistindo um filme, mas mamãe Jay apareceu e mandou todas subirem pra dormir porque a “nossa” manhã seria corrida no dia seguinte.
Permaneci deitado, pensando um pouco na vida.
–– Tente não ir dormir muito tarde, Boo Bear –– mamãe disse com um sorriso travesso no rosto. Que que essa mulher tá aprontando?
–– Eu já vou subir.
–– Quando subir, passe no meu quarto pra dar boa noite. –– ela fez menção de subir as escadas, mas continuei a conversa. Aquele tom de voz, aquela cobrança... Algo estava errado.
–– O que foi, hein? –– Sorri.
–– Nada, só quero saber que horas vai pra cama.
–– Tá achando que vou perder a hora pro casamento, é? Você não confia em mim? –– perguntei com a maior cara de um cachorro pidão. Eu sei, eu sei... Sou um gênio.
–– Essa cara não vai funcionar comigo, Boo Bear. –– mamãe riu. –– Boa noite.
Assim que ela subiu as escadas eu corri em disparada para o meu quarto e revirei minhas coisas. Pra que que eu tenho tanto treco inútil guardado, hein? Em baixo de uma barraca, estava o que eu procurava. Falando nisso, já faz um bom tempo que eu não acampo. Preciso disso de novo.
Coloquei minha fantasia de cientista louco, baguncei um pouco o cabelo e desci para a sala tentando fazer menos barulho possível. Ok, agora onde coloquei as chaves do carro? Droga. Fui para a cozinha, tateando cegamente todos os móveis porque as luzes já estavam apagadas.
Há! Achei. Pera, que papelzinho é esse aqui? Desbloqueei o celular para conseguir ler com a luz e era só uma tira de papel com um recadinho:
Tem dinheiro na mesinha de centro da sala. Se beber demais, chame um táxi. Boa festa, Boo Bear - Jay
Bom, essa é minha mãe.
Não dá pra mentir pra ela porque, com certeza, ela vai descobrir mais cedo ou mais tarde (isso se ela já não souber, como aconteceu agora). Basicamente é assim sempre.
Saí de casa sem me preocupar em fazer ou não barulho e dirigi para o parque de diversões. EU ADORO PARQUE DE DIVERSÕES, AAAH.
Mandei uma mensagem pro Harry avisando que eu estava a caminho e outra pra mamãe dizendo boa noite e, claro, agradecendo. Quando desci do carro, Harry já me esperava no estacionamento do parque com e ao lado dele. Harry com a fantasia de pirata, de cigana e de policial. Uau, que quarteto mais estranho e bonitinho.
–– Olá, garotas! –– cumprimentei cada uma. Harry arqueou as sobrancelhas. –– O quê? Não vai me dizer que é um menino, ou vai?
–– Seu viado –– Harry exclamou e sorriu. –– Vamos logo, vi umas pessoas... Hm, interessantes por aqui.
–– Seu putinho –– respondi.
O parque estava todo decorado com fitas douradas, tocava Dynamite do Taio Cruz nos alto-falantes, tinha pessoas fantasiadas de qualquer coisa que você possa imaginar. Acho que a cidade toda estava lá... Com exceção dos convidados pro casamento da tia Nina, claro (é, eu procurei o nome da infeliz).
Olhei pra todos os lados, encantado, já escolhendo um lugar pra ir.
–– Gente, olha aquilo, Casa do Terror! AAAI EU ADORO CASA DO TERROR. Woooow, isso é o que eu acho que é?
–– Nada de montanhas russas, Lou –– Harry disse.
–– Harry vai dar piti se entrarmos em uma –– emendou.
–– Ei, também não é assim né. –– ele a fuzilou com o olhar. Nós quatro nos entreolhamos.
–– Vai ou não encarar a montanha russa? –– perguntou.
–– TEM QUE SER MUITO MACHO PRA ENCARAR, SABE –– falei alto quando um grupo de garotas passava bem do nosso lado. –– MAS ACHO QUE O HAROLDO NÃO VAI. VAMOS , .
Harry arregalou os olhos, estava perplexo. Ponto pro Tomlinson! Ele com certeza ia querer bancar o corajoso e desmentir o que eu disse:
–– Tá, vamos.
As filas pra entrar nos brinquedos estavam muito vazias, a maioria das pessoas ali iam para a balada que estava tendo no outro lado do parque. Obviamente Harry “precisava”, segundo ele, ir lá em algum ponto da festa. Então vou curtir os brinquedos antes que a putaria comece.
Fiz questão de sentar nos primeiros assentos do primeiro carrinho e arrastar Harry comigo.
Três garotos e duas meninas esperavam pra entrar no carrinho e riam. Um deles, o Zorro, com uma garota morena abraçada no tronco dele (vestida de odalisca), disse:
–– Ei, Sandy. Soube que tem uma brazileira aqui, Jon já está louquinho. –– todos eles riram.
A outra garota, vestida de sininho, e o cara loiro marinheiro que ela abraçava fizeram uma careta.
–– É. Eu e a ficamos sabendo. Intercâmbio –– o marinheiro disse.
–– Umhum, nós até deixamos um presentinho pra ela e o amigo dela –– a sininho adicionou.
Uma brazileira, é? Os mecanismos de segurança se abaixaram e olhei em volta, e no carrinho de trás riam despreocupadas, olhei para o fantasma pálido bem ao meu lado.
–– Você ouviu aquil...? Haroldo? Você tá quase transparente, cara.
–– Esse negócio vai cair... Ele vai cair... Os trilhos... Ai, meu Deus, por que eu entrei aqui? Eu vou morrer. LOUIS, EU VOU MORRER, ME TIREM DAQUI AGORA. EU QUERO SAIR!
Ele se debatia no assento e gritava para os funcionários. Eu queria MUITO simplesmente rir da situação ou ficar provocando ele. “Nossa, ouvi dizer que essa belezinha treme no ponto mais alto e perde o freio até o final do percurso”. Ia ser engraçado, mas Harry tava quase se cagando ali.
–– Ei –– chamei o funcionário que tava bem do meu lado segurando a risada. –– Abre aqui, senão ele vai ter um ataque de pânico, por favor.
–– Abre aqui também. –– ouvi a dizer.
Poxa, eu vou ficar sem montanha russa, é isso mesmo?
Os mecanismos se abriram e Harry se tacou na plataforma, tremendo. Eu saí do carrinho também.
, e eu agachamos ao lado dele. tentava não rir:
–– Ei, cagão, tá melhor?
–– Nunca mais me façam entrar em uma montanha russa, ouviram?
–– Não prometo nada –– respondi.
e riram.
–– Vai se sentir melhor se formos pra balada? –– esticou a mão para levantá-lo. A cor até voltou pro rosto do Harry.
–– Só se for agora.
’s pov:
–– Vaaaamos, Niall! A festa até já começou! –– gritei na porta do quarto dele. No portão da garagem, sei lá, tanto faz.
Niall abriu a porta com as bochechas coradas.
–– Me sinto ridículo nisso aqui. –– ele abriu os braços e olhou para si mesmo.
Eu ri.
–– Você tá uma graça, para de besteira. Vem. –– o puxei pelo braço e entramos no carro do Bobby, que ia nos deixar lá no parque.
–– Tentem não chegar muito tarde, vocês dois –– ele advertiu olhando pelo espelho retrovisor. –– E se divirtam.
Descemos no estacionamento lotado. Passamos nossa quinta e nossa sexta-feira visitando os lugares da lista que Niall fez. Quando fomos ao Doncaster Dome nos enturmamos com um grupo de jovens que estavam lá e eles nos contaram da festa que teria aqui no parque. Eu e Niall ficamos em dúvida, não conhecíamos ninguém até então. Mas o Bobby disse que, exatamente por aquele motivo, devíamos ir, nos divertir e conhecer pessoas novas antes que nossas aulas começassem (se bem que as férias não estavam muito longe de começar. Poderíamos emendar, né? Não seria tão mal assim...).
Liguei pra casa todas as noites, contando o que eu tinha feito e aprendido durante o dia. Conversei com todo mundo em particular, até mesmo com o Tonto! Na verdade eu só falava e ele fazia barulhos estranhos do outro lado... Mas sempre foi assim mesmo, então não me surpreendo mais.
Ao mesmo tempo que eu sinto saudades de casa, estou me acostumando com Doncaster e me sentindo um pouquiiiinhoooo mais familiarizada. Vai demorar pra eu me sentir 100% bem aqui, mas tempo é o que não falta.
–– Tem o meu número? –– Niall perguntou.
–– Tenho, por quê?
–– Sou claustrofóbico, não pensei que isso aqui estaria tão cheio. E se as coisas ficarem... Hm, assustadoras, eu vou correr dali.
–– Vai dar tudo certo, se acontecer alguma coisa eu te compro um algodão-doce.
Entramos no parque e eu fiquei deslumbrada. Quando disseram que seria uma festa grande, não estavam brincando. Música alta, muita gente bêbada se agarrando, brinquedos funcionando. Como era de se esperar, Niall simplesmente sumiu logo em seguida e me mandou uma mensagem avisando que foi respirar um pouco. Por sorte, eu encontrei Jon Shone numa fantasia de médico. Jon, bem mais alto que eu, entrelaçou nossos braços e sorriu para mim. Ele é um dos caras que eu e Niall conhecemos no Doncaster Dome.
–– Afinal vocês vieram –– ele disse me guiando pra sei lá onde. –– Mas cadê o irlandês?
–– Niall. O nome dele é Niall. –– eu ri. –– Escondido no banheiro, eu acho. Ele tem medo de lugares lotados, precisou sair e tomar um ar.
–– Melhor pra nós, hein? –– pera, Jon estava flertando comigo?
Apenas sorri e soltei uma risada baixa.
Jon começou a falar entusiasmado sobre as músicas que tinham escolhido para tocar na balada, qual delas ele sabia tocar no teclado e etc etc etc. Jon amava teclado, mas apenas tocava como um passatempo (pelo menos foi isso o que ele me contou).
No meio do parque de diversões tinha uma rua bem comprida, com um palco logo no fim e um amontoado de gente dançando e cantando. Foi aí que me toquei que era a tal balada... A rua do parque estava coberta com tendas improvisadas e bem coloridas. Um manolinho ruivo e bonitinho estava no palco fazendo covers e todos cantavam junto, acho até que conhecia ele de algum lugar... Não tenho certeza.
Meu celular vibrou novamente, era Niall perguntando onde eu estava. Assim que respondi, ele me disse que viria ao meu encontro... Aquele lugar estava lotado, não conseguia imaginar Niall ali no meio. Não sem um ataque cardíaco.
O cara em cima do palco terminou o cover que estava fazendo e começou a interagir com o público.
–– Animados?! –– gritou com a voz grossa, um pouco afobado. Todos responderam. –– A festa está só começando, pessoal!
–– Aquele ali em cima é o Ed Sheeran. Não é muito famoso ainda, mas aposto que um dia vai ser.
Club Can’t Handle Me começou a tocar. Jon fez um passo que parecia uma galinha possuída, sei lá, pegou um copo de bebida e me puxou para o meio de todos. Até cheguei a pensar que tinha segundas intenções ali, mas Jon era meu “colega”, certo? Colegas dançam juntos.
You know I know how
To make em stop and stare as I zone out
The club can’t even handle me right now
Watchin you I’m watchin you we go all out
Todos dançavam animadamente, exceto eu. Dificilmente você me encontraria parada enquanto está tocando uma música que eu gosto (ainda mais em uma balada), mas não era muito confortável ter os olhos de Jon pousados em mim o tempo todo. Eu dançava, sim, mas um pouco dura.
Jon se soltava cada vez mais e deixava o clima do ambiente tomar conta dele. Todos pulando, rindo, cantando bem alto junto com o Ed e dançando sem vergonha nenhuma. Isso até mesmo fez com que eu me sentisse bem pra dançar à vontade.
Jon ainda dava alguns goles na bebida dele, mas um loirinho que eu conhecia apareceu de repente e esbarrou nele, derramando toda a bebida na roupa do Jon.
–– Ai, droga... Desculpa, cara...
Jon o empurrou e Niall caiu de bunda no chão.
–– Vê por onde anda, irlandês de merda!
–– EI! Calmem aí! –– eu me coloquei no meio e estendi a mão para o Niall. Que bicho tinha mordido o Jon?! –– Qual é o seu problema?!
Jon bufou, jogou o copo no chão e saiu andando.
–– E aí, tudo bem? –– perguntei. Niall estava meio confuso ainda, ou com medo. Não sei. –– Niall...?
–– Tinha bastante gente lá fora. E palhaços. –– ele falava enrolado. Pera, Niall tá meio bêbado? –– Preciso vomitar.
Ele saiu correndo. Caramba, vocês vão mesmo me deixar aqui sozinha, é? Bandiviado. Percebi um cara vestido de pirata estático me encarando com o olhar malicioso. Os cabelos enrolados como ondas estavam meio presos em uma bandana, ele usava um chapéu e uma camiseta bem larga e branca com uma jaqueta de couro marrom por cima. Assim que ele percebeu que eu o olhava também, ele abriu um sorriso torto. Não era um olhar como o de Jon, que provavelmente tinha imaginado o meu corpo e sabe-se lá mais o que... O olhar daquele garoto me fez pensar se ele podia ler a minha mente ou algo do tipo.
Até fiz aqueles testes idiotas, sabe? Pensar Eu sei que você pode me escutar, agora para de me olhar assim! pra ver se tinha alguma reação dele. BESTA, eu sei. Mas estamos falando de mim, afinal.
Rude Boy da rainha Rihanna começou a tocar, mas Ed Sheeran já tinha saído do palco e era a versão original que tocava. Quer saber? Foda-se aquele garoto me examinando de cima a baixo.
Come here, rude boy, boy
Can you get it up?
Come here, rude boy, boy
Is you big enough?
Take it, take it, baby, baby
Take it, take it, love me, love me
Ao contrário do que sua mente perversa e suja está pensando, eu não estava simplesmente sacudindo a bunda, ok? Eu estava dançando pra me divertir e não pra seduzir aquele garoto.
Falando nisso, o sorriso dele ficou ainda maior e ele começou a se aproximar. Oh, shit. Ele estava bem perto agora, balançando o corpo um pouco. Ah, os olhos deles eram verdes. Beeem verdes... Carai, foco.
Tonight Imma let you be the captain
Tonight Imma let you do your thing, yeah
Tonight Imma let you be a rider
Giddy up, giddy up, giddy up, babe
’s pov:
–– PARA DE ME APRESSAR, CRIATURA!
–– Estamos atrasadas em trinta minutos. Tic, tac, tic, tac... –– começou a me cutucar.
–– Olha aqui, eu vou fazer você engolir essa fantasia, tá me ouvindo?
Senti como se cobras se arrastassem por debaixo da minha blusa e comecei a gritar.
–– CÓCEGAS NÃO, MALDITA! EU... EU... –– poft, eu caí com tudo no chão. –– Ok, ok, vou parar de enrolar. MAS PARA COM ISSO!
não conseguia parar de rir do meu tombo, eu desisti e me apressei.
–– Então, o que achou?
–– Muito gata, agora para de enrolar e vamos logo.
–– Pensei que nunca fossem descer. –– Harry bufou e o taxista riu. Ele devia estar amando a minha demora.
–– Diga isso para a Srta. Lerda –– disparou e me deu um tapa leve na cabeça. –– Ela precisou de um tombo pra finalmente se apressar.
Harry riu:
–– Isso é sério?
–– Não, o chão tava triste de novo, então eu fui abraçar ele.
Nós três entramos no carro e fomos para o parque de diversões. Nada de interessante aconteceu depois de quinta. Quer dizer, Olly parecia ter levado um soco no estômago. Isso foi divertido.
Descemos no estacionamento do parque e esperamos pelo amigo estranho do Harry que gosta de gritar e acenar para os outros, que chegou numa fantasia engraçada de cientista louco. Conseguimos arrastar o Harry para uma montanha russa, mas foi coisa passageira porque o menino teve um treco.
Todo aquele ar de festa estava me fazendo bem, eu queria encontrar mais algumas amigas ali, mas eu não acho que daria certo. Não naquele amontoado de gente. Compramos refrigerantes (água pro Harry) e fomos para a pista de dança com o garoto já totalmente curado e elétrico. Por quê? Bem, prepare o seu emocional, talvez você nunca encontre palavras tão profundas como essas:
“Preciso checar essa brazileira, e provar também” –– Harry Edward Styles
Eu adoraria saber o que se passa na cabeça desse garoto. Não, espera... Pensando bem... Não, eu não gostaria. Tenho medo do que eu possa encontrar.
Harry foi por um lado, Louis disse que ia encontrar três amigos na entrada e já voltava. Então éramos só eu e fofocando num banquinho. É, a maior festa bem ali na nossa frente e as duas patas sentadas tomando refrigerante. O que aconteceu comigo, meu Deus?
Contei toda a história de quinta-feira pra ela. Como esperado, ela xingou o Olly de coisas que eu nem saiba que existiam e riu demais na parte do Malik, dizendo que eu deveria parar de procurar clientes em pubs e ir direto para a esquina. Uau, amor é o que não falta aqui.
–– Pelo menos voc...
...
–– Pelo menos eu...? –– será que tem alguém fantasiado de Medusa ali no meio? A virou pedra aqui, cara. –– Menina, Terra pra Marte, responda.
Ela olhava pra um garoto loiro que tropeçava e corria com a mão na boca.
–– Ih, ó lá, aquele bebeu demais já. Aposto q...
–– Eu conheço ele. –– a ex estátua se levantou. –– Se importa se eu for atrás dele, ?
–– Não não, pode ir. Me deixa aqui sozinha no banco mesmo, eu não me import... Ô caramba, volta aqui, eu tava sendo irônica.
Tarde demais.
Ok, eu não preciso desses bobões. Mandei uma sms pro Louis (e não Luiz, é, lembrei o nome do coitado) avisando que eu tentaria arranjar algo pra beber. Levantei-me do banco e segui para um dos restaurantezinhos dali. Um cara bem jovem estava do outro lado balcão... Acho que daria certo... Talvez se eu...
–– Uma Nevada, por favor. –– eu me sentei no balcão de pernas cruzadas, deixando-as à mostra.
–– Você não é meio nova pra beber?
Ajeitei o decote.
–– Nah, que nova o quê. Que horas você sai, hein? –– perguntei enrolando meu cabelo. Isso sempre funciona.
O mocinho riu olhando para o chão. HÁ, ficou sem graça e vermelhinho. Tô quase lá... Só falt...
–– Eu sou gay.
Hashtag Tapa na Cara da .
–– ? –– eu me virei.
Louis estava com três pessoas ao lado dele, eu não conhecia nenhuma delas. Uma garota que aparentava ter a minha idade, vestida de Rainha de Copas; um garoto mais velho vestido de Woody (é, do Toy Story); e uma garota também mais velha numa fantasia de Alice.
–– Esses são Liam, e . –– Louis apontou para cada um em sequência. –– Gente, essa é a .
Eu sorri um pouco sem graça.
–– Oi –– sussurrei. Pode não parecer, mas eu sou um pouco tímida, ok?
–– Gente, gente, olha pra mim aqui, ó. –– Louis sacudiu os braços, parecia que ia levantar voo ou sei lá. –– Eu ainda não fui em nenhum brinquedo, eu quero MUITO ir em algum brinquedo.
A garota vestida de Rainha de Copas, a , abriu um grande sorriso. Awn, como era fofo o jeito que ela olhava pra ele.
–– Carrinho de bate-bate? –– sugeriu a , a que estava vestida de Alice.
Louis cerrou os olhos:
–– Talvez mais tarde, eu estava pensando mesmo é no Castelo do Terror. MU-A-HAHAHAHAHA... –– ele se engasgou e começou a tossir. Nós rimos.
–– Castelo do Terror, então. –– eu me levantei do banquinho do balcão.
Acho que todas as crianças (lê-se: adolescentes problemáticos como nós) tiveram a mesma ideia que o Louis, a fila do Castelo do Terror era bem maior do que as dos outros brinquedos.
Sabe quando você olha pra algum ponto fixo e quando você se dá conta que você existe, já se passaram uns quinze minutos? Então, eu fiquei nessa brisa por um bom tempo, pensando em... Ok, não me mate... Olly. Três meses é tempo suficiente para eliminar qualquer sentimento por uma pessoa, mas confesso que me incomodou o fato de ele estar tão bem, quase como se a única ferrada na história tivesse sido eu... Talvez tenha sido, realmente. Sei lá.
Quando voltei da minha brisa, percebi que e Liam conversavam encostados na barra de ferro da fila, mas Liam tinha os olhos em e Louis. Vish, será que o Liam gosta dela? E ela ali toda derretida no Louis? Para de se meter na vida alheia, . Eu, hein.
–– Cheguei, pessoal! –– fodeu.
Fodeu fodeu fodeu fodeu fodeu fodeu.
Aquele sotaque atravessou toda a minha espinha e me fez saltar, mas não devia ser ele... Não tinha como ser ele. Ao menos que eu tenha nascido com a bunda virada pra lua e ninguém me contou, não é possível...
–– Hey, Zayn! –– Liam e ele fizeram um high five. Zayn.
Cadê o buraco mais próximo pra eu enfiar minha cabeça?
–– Z, esses aqui são Louis e ... –– ia nos apresentar quando senti um beijo estalado na minha bochecha. Só assim pra me fazer olhar nos olhos dele.
–– Vocês se conhecem? –– arqueou as sobrancelhas, confusa.
Eu realmente nasci com a bunda virada pra lua, só ainda não sei se foi pro meu azar ou pra minha sorte. Mesmo com a luz de bosta daquele pub eu escolhi O – DEUS – GREGO pra passar a noite comigo. Hm, isso não soou muito bem. Mas você entendeu.
Pele morena e um sorriso de criança, pra me infartar de vez ele usava um terno por causa da fantasia de mágico. Uma cartola escura e uma varinha no bolso do paletó.
–– Yep –– ele respondeu rindo, provavelmente da minha cara de idiota. –– , 16 anos, aquário. Estou certo?
Eu assenti, minhas pernas bambeavam.
Alguém. Me. Acuda.
–– A GENTE VAI ENTRAR, AAAAAAAAAAAH A FILA TÁ ANDANDO!
–– Louis, se acalma, garoto –– o advertiu descontraída e rindo.
O nosso grupo entrou no castelo escuro. Eu, Zayn e um pirralhinho éramos os últimos da fila, a porta se fechou com força atrás de nós. Ficamos todos quietos esperando algo acontecer, quase não dava pra ver lá dentro.
Um bicho do capeta apareceu andando devagar, todo vestido de branco, tinha até a cara pintada, e começou a dizer com a voz rouca:
–– Algum de vocês conseguirão sair do castelo... Já outros... –– ele sorriu ao olhar na minha direção. A criancinha bufou, como se aquilo fosse a coisa mais tediosa de todos os tempos. –– Os últimos nunca saem. Tentem a sorte.
Outra porta se abriu, e de lá vinha gritos. Eu sabia que era tudo maquiagem e efeitos sonoros, mas aquilo estava começando a me assustar de verdade. Um a um, todos passaram pela porta. Eu estava prestes a atravessá-la, quando meu coração falhou uma batida.
–– Zayn? –– chamei. Ninguém respondeu. Olhei para trás e só tinha o pirralho entediado.
Onde aquele deus grego tinha se metido? Será que deu uma de mágico e sumiu de verdade ou sei lá? Nossa, . Suas hipóteses hoje estão, olha, uma merda.
–– AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!
Olhei pra frente e o mesmo mágico antes sorrindo todo confiante lá na fila estava correndo, gritando feito menininha e empurrando todo mundo na frente dele. Cara, fala sério.
No fim do percurso pelo castelo, encontrei Liam bravo tentando ser acalmado por , Zayn emburrado sentado no chão e Louis e rindo da cara dele. Dei um tchauzinho pro Jason (é, eu fiz amizade com os montros. Era só comentar do garoto afeminado que passou na frente de todo mundo e eles começavam a rir). Monstros sabem manter um assunto bom, sabia?
–– O que foi que eu perdi?
abraçou o Zayn de lado:
–– O bad boy aqui quase se mijou.
Eu não consegui segurar o riso, gargalhei bem alto. Louis também, e emendou:
–– O ET na gaiola fez a se assustar e cair, então Liam parou a fila toda e começou um sermão.
riu do Liam e acrescentou:
–– É, ele começou a dizer que ela podia ter quebrado uma perna, batido a cabeça, tido um ataque cardíaco e que é feio assustar as garotas. –– Liam mostrou a língua pra ela.
Lembrei da fila parando e eu batendo um papo maneiro com a enfermeira ensanguentada, então era isso. Sentei-me ao lado do Zayn e da .
–– O Jason disse que às vezes visita os últimos da fila durante a noite.
Zayn me fuzilou com o olhar.
–– Ha-ha-ha. Muito engraçado, nossa, nem consigo respirar de tanto rir.
–– Mas ele só visita os não “bad boys” –– fiz aspas com os dedos. e eu rimos. –– Você não precisa se preocupar.
Permanecemos sentados nos fundos do Castelo do Terror. Toda vez que a última porta se abria e um monte de gente passava por nós correndo, Zayn se encolhia porque o Jason entrava no nosso campo de visão.
Liam pediu desculpas pra , dizendo que constrangê-la não era o que ele pretendia. ficou bem confusa com isso, ela não tinha achado aquilo constrangedor, mas ela o subornou por um cachorro-quente e eles foram comprar.
Eu pensei que seria um daqueles momentos tensos quando as pessoas ficam sem assunto e encarando o chão, mas o assunto até que fluiu bem.
–– Aquela sua amiga do pub me encontrou na internet. –– ele comentou rindo, lembrando daquela noite.
–– Caramba, ela te caçou, foi? Que... Piranha –– exclamei tirando os sapatos. Eles estavam matando os meus pés.
Ele riu, uma risada doce e lenta de bebê.
–– Acho que sim. Ah, falando nisso, tem a nossa foto na página dela do Facebook. –– ele me assustou ao puxar os meus pés para o colo dele. –– E se perguntarem alguma coisa? Eu respondo que ainda estamos juntos?
Eu fiquei sem pensar, sem respirar e sem entender nada por alguns segundos. Zayn estava massageando os meus pés com aquelas mãos grandes e fortes ( , pare de ter pensamentos maldosos) e ele olhava concentrado para o trabalho que estava fazendo.
Retomei a conciência balançando a cabeça. E se ele disser que não e Olly ficar sabendo?
–– Sim, juntos, no auge do nosso relacionamento.
–– Relacionamento de quanto tempo mesmo? –– ele coçou a nuca. –– Esqueci.
–– Dois meses, Malik. Ei, o que é isso? –– perguntei quando ele tirou a mão da nuca e voltou a me massagear. –– Uma tatuagem?
Ele sorriu.
–– Sim, um fantail. É... Hm, a pena de um pássaro da Nova Zelândia.
–– Algum significado?
–– Renovação. –– a voz dele soara diferente, não me senti no direito de perguntar o motivo.
Louis apareceu na nossa frente:
–– Vamos passar o resto da festa nessa moleza, é isso mesmo? –– ele colocou as mãos na cintura e bateu o pé. –– Anda, levanta, vamos arranjar o que fazer, seus bobinhos.
Fiz uma careta, meus pés não estavam afim de deixar todo aquele mimo de lado.
Zayn tirou seus sapatos, suas meias e me entregou.
–– Andar de salto deve ser o inferno –– ele disse despreocupado e estendendo o braço para ajudar a me levantar. É, ele disse e fez isso despreocupado, como se cada palavra e gesto dele não fossem um tiro que me deixasse sem reação. Como eu ODEIO não estar no controle, argh!
Eu me levantei e calcei os sapatos. Apesar de ter me deixado bobona e com cara de pata, eu estava grata por dizer adeus aos saltos por enquanto.
Falando nos diabinhos pontudos, Zayn se agachou para pegá-los e caminhamos atrás de e Louis, que conversavam animados sobre em qual brinquedo ir primeiro. Eu com os sapatos dele e ele descalço segurando os meus. Era estranho e fofo ao mesmo tempo.
’s pov:
Harry e eu fomos juntos até a casa da , buscar a Sra. Enrolação. Logo depois encontramos o Louis e entramos todos juntos na festa. A me contou do encontro indesejado com o ex dela, aquele viadinho do Olly, e acabava de contar do jeito esquisito como ela contornou a situação quando vi um garoto pálido e loiro aos tropeções, segurando a boca.
Pedi licença pra e fui atrás dele. Podia ser uma pessoa muito parecida, e do jeito como eu tenho sorte provavelmente não passava disso. O suposto Niall entrou no banheiro masculino e a porta bateu com força atrás dele, hesitei olhando para os lados.
Respirei fundo, tomando coragem, ao mesmo tempo que eu girava a maçaneta. Me arrependi logo em seguida por ter respirado fundo, aquele lugar era nojento e o fedor me deixou um pouco tonta.
–– Niall? –– chamei, e ouvi o som de vômito como resposta. Entrei de vez no banheiro, as paredes eram gosmentas, os espelhos embaçados, as pias lascadas e o chão imundo. Isso sem falar do cheiro, puta que pariu.
Molhei a palma da minha mão na pia e me agachei de joelhos ao lado dele, debruçado sobre a privada. Um capacete com dois chifrinhos estava no chão, Niall vestia uma calça peluda, uma camiseta branca e um colete de couro sem mangas. Um viking, que bonitinho.
–– Eu não devia ter bebido. –– ele fez uma careta engraçada. Eu ri baixinho.
–– A festa mal começou e você já tá bêbado. Isso é um recorde, sabia? –– Niall sorriu de lado, mas se contorceu pra vomitar mais um pouco e eu evitei aquela cena nojenta. Já bastava o cheiro e o som, blaaargh.
Coloquei meus dedos molhados na nuca dele, eu não sei o que estava fazendo, eu não ficava bêbada com frequência, no máximo um pouco eufórica e alterada.
–– Sou fraco com bebidas. –– Niall foi até a pia, lavou o rosto e enxaguou a boca algumas vezes. Depois voltou para a porta da cabine e se sentou ao meu lado. Ele não estava totalmente bem para voltar pra festa, continuava um pouco pálido e tonto, agora com o rosto pingando. –– Ei, eu te conheço de algum lugar.
–– Do Frenchgate. –– eu me levantei rápido, pegando um pouco de papel.
Quando me virei para encará-lo, ele olhava para todos os cantos, tinha a expressão assustada e confusa. Quando seus olhos azuis me encontraram, Niall ficou um pouquinho mais calmo.
–– Ah, você ainda tá aqui. Mas... Você não acabou de ser raptada? –– ele perguntou meio tonto. –– Caramba, tô confuso.
Eu gargalhei, me agachei de joelhos e sequei o rosto dele, que já ganhava cor novamente. As bochechas ficando coradas aos poucos.
–– Não, eu não fui raptada. E isso aqui é um papel, caso você tenha se esquecido –– debochei, e ele abriu um sorriso enorme. Acho que também já estava recobrando a conciência pra ter achado graça de uma coisa tão boba. –– A gente usa pra escrever, secar as mãos...
–– Limpar o popô...
Eu ri de novo.
–– É, Niall, limpar o popô também.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, Niall me encarava na maior cara de pau, me deixando sem graça. Acho que ele tentava descobrir de onde nos conhecíamos.
–– Meu nome é Niall Horan. –– Ele esticou a mão com um sorriso de criança estampado no rosto.
Peguei sua mão.
–– , e a gente já se conhece.
–– Da onde mesmo?
–– Frenchgate –– eu repeti. –– Açougue, Cannolis, bacon...
–– BACON! HAHAHAHAHAHAH, JÁ REPAROU COMO ESSA PALAVRA É ENGRAÇADA? BA-CON –– Niall ria tanto que eu jurava que ele ia explodir. –– Pera, para tudo! Agora eu tô lembrando... Você é a mina dos Cannolis.
“Mina dos Cannolis”.
–– Eu mesma –– respondi quando consegui parar de rir. Será que ele esqueceu que a gente tá de mãos dadas desde que nos apresentamos ou...?
–– Cara, que legaaal! Qual é a problabli... A plobrabi...
–– Probabilidade...
–– Isso, a priobilidade da gente ter se encontrado aqui? –– realmente, primeiro eu flerto com ele num açougue e agora estamos sentados num banheiro imundo. Ótimos lugares, , ótimos lugares. –– Ah, falando nisso, eu até te agradeceria por ter me ajudado, só que não.
–– Ué, por que não?
–– Você me devia um Cannoli, e agora estamos quites.
–– Hm, justo... Então isso significa que você não quer mais os meus Cannolis, é?
–– Você feriu meus sentimentos. Não, eu não quero mais os seus Cannolis. –– Ele bufou brincando, e depois abriu um sorriso torto: –– Mentira, eu só tô me fazendo de difícil. Se é comestível, eu tô dentro.
–– Comida não se nega, Horan, isso é pecado.
–– O maior dos pecados, . –– Ele riu. –– Ao menos que esteja envenenada, aí até que devemos pensar duas vezes...
–– E se for um estranho quem te oferceu a comida.
–– Mas e se for uma estranha bonitinha?
Eu congelei. Niall corou ao se dar conta do que acabara de falar. Eu queria cavar um buraco ali mesmo, me enfiar nele e nunca mais sair.
–– Você... Hã, você já tá melhor? –– Tentei quebrar aquele clima constrangedor. –– É que eu deixei uma amiga lá fora...
–– Putz... A . –– Ele ficou avoado por um tempo, mas depois fez um biquinho: –– Eu... Eu não quero sair daqui, não agora. O Jon deve estar lá.
–– Er, eu não sei quem é Jon...
–– Nem queira saber. Jon Shone, Dan Richards e , nenhum deles presta. –– Eu conhecia o nome Dan Richards de algum lugar, mas não sabia muito bem de onde. Acho que eu fiz a cara mais confusa de todos os tempos, Niall riu. –– Todos eles me odeiam, e isso é tudo.
–– O que foi que você fez pra eles, hein?
–– Nada. –– Ele estava sério. –– Essa é a pior parte, eles me odeiam e eu não fiz nada.
–– Ninguém odeia alguém sem motivos. –– Pisquei, incrédula. Como alguém podia odiar gratuitamente aquela coisa fofa de olhos azuis, cabelos loiros bagunçados e bochechas rosadas? É como odiar um filhote, simplesmente impossível.
–– Acho que... O fato de eu não ser inglês incomoda eles. Eu vim da Irlanda há pouco tempo e eles usam isso contra mim.
–– Sério, você é irlandês?
–– Não sou um duende e não tenho um pote de ouro, se é isso o que você quer saber –– ele debochou, sorrindo.
–– Eu ia perguntar se você tinha um pote de comida... Mas um de ouro até que dá pro gasto.
–– Um pote de comida –– ele repetiu pra si mesmo. –– Não seria uma má ideia.
–– Você não liga para o que eles dizem, né? É ridículo te odiar por isso.
–– É claro que não, eles não passam de poo poos idiotas.
–– De o quê? –– Eu ri.
–– Poo poos... –– Ele corou. –– São, hã, haters. Um nome diferente pra haters.
–– Isso é coisa de irlandês?
–– Não, horandês. –– Eu ri mais ainda. –– Bom, tirando o fato de que todos que conheci desde que cheguei aqui me odeiam... Com exceção da garota do intercâmbio, acho, mas ela é obrigada a gostar de mim... –– Rimos. –– Nada do que eles dizem me incomoda.
–– Eu gosto de você –– alguém disse ao mesmo tempo em que pensei nisso. Niall abriu um sorriso ainda maior que os anteriores, mostrando os dentinhos tortos. Senti minha mão sendo afagada, isso significava que ele não tinha esquecido que ainda estávamos de mãos dadas, afinal. –– Espera... Eu disse isso em voz alta?
Ele assentiu.
Escondi o rosto nos joelhos. Eu ainda vou acabar me ferrando por falar o que me vem à cabeça sem pensar duas vezes. Primeiro “eu não queria simplesmente dar meia volta” e agora “eu gosto de você”? QUAL É A PORRA DO MEU PROBLEMA?!
Sua voz rouca soou no meu cabelo:
–– Ei, olha pra mim. É bom saber que tem uma pessoa não me odiando por aqui. –– O tom que ele usou para dizer aquilo me fez rir. Levantei o rosto.
–– E eu nem sou obrigada a isso –– Tentei levar aquilo numa boa. É, tentei, mas pra mim não funcionou. Eu ainda queria meter minha cabeça numa privada, puxar a descarga e sumir de tanta vergonha.
A porta do banheiro se abriu com força, quebrando aquela situação um pouco constrangedora. Um pouco?
Dois adolescentes entraram se agarrando, uma garota vestida de sininho e um marinheiro. Ok, esqueça o que eu disse, a coisa toda ainda está bem constrangedora.
Niall coçou a garganta alto o suficiente para que os dois adolescentes percebessem nossa presença ali, eu não entendi o ódio nos olhos dele (olhos lindos, diga-se de passagem). Niall se levantou, respirando fundo e com a expressão dura.
–– Dan e –– ele sussurrou para que somente eu ouvisse. Revirei minha memória e não foi tão difícil assim me lembrar do que Niall dissera há pouco, que Dan Richards e eram alguns dos idiotas que o infernizava. De repente eu sabia de onde conhecia o sobrenome Richards. Se eu estou certa, o mundo é muito pequeno e estou encrencada.
Os dois se afastaram para nos encarar, mas continuaram de mãos dadas. Peguei o capacete de viking do Niall do chão e me levantei.
–– Ora, ora, o meu irlandês favorito –– Dan disse, sorrindo sinicamente. Niall não se atreveu a responder ou reagir de alguma forma. Todo aquele silêncio e aquela tensão que se arrastaram por longos segundos estavam me matando. Dan desviou o olhar dele de Niall e o focou em mim. –– Quem é essa?
–– Não é da sua conta –– eu respondi, surpreendendo todos os três. Eu estava assustada, sim, mas aquilo simplesmente saiu da minha boca. É sério o que eu disse sobre aprender a controlar meus pensamentos.
–– A pergunta não foi para você, cretina –– Dan respondeu no mesmo tom irritado. –– Horan?
Niall não respondeu novamente, embora a palavra cretina tivesse feito seus punhos se fecharem.
–– Aposto que é mais uma gringa nojenta –– debochou, se manifestando pela primeira vez. –– De onde essa veio?
Niall se limitou ao silêncio novamente. Dan me examinou mais uma vez:
–– Caramba, você não se cansa de sujar o meu país, Horan? Está fazendo uma coleção de vadias, é?
Senti a raiva crescer dentro de mim. Dessa vez foi Niall quem surpreendeu a todos ao responder:
–– Se eu tivesse uma coleção de vadias, sua namorada seria a primeira a saber.
–– O QUE FOI QUE VOCÊ DISSE?! –– Dan se exaltou e atravessou o banheiro, preensando Niall contra a parede e segurando na gola de sua camiseta. –– REPETE!
Niall estava apavorado, e não precisava ser muito esperto pra entender que Dan bateria nele ali mesmo em questão de segundos.
–– Sua namorada é uma vadia, Daniel –– eu disse, fazendo a primeira coisa que pensei pra livrar Niall daquela. –– E não ouse encostar um único dedo em nós, tem câmeras aqui no banheiro. Com provas, eu não vou deixar isso passar em branco.
–– Não tenho medo de uma câmera estúpida de segurança –– ele respondeu, ainda segurando Niall pela gola. Por um segundo pensei que minha desculpa não funcionaria, mas Dan hesitou.
–– Devia ter –– Niall se manifestou.
–– Vocês dois não valem tudo isso. –– Dan o soltou e arrastou pelo braço. –– E isso não significa uma trégua, Horan. –– Eles saíram do banheiro.
A respiração de Niall estava irregular.
–– Você tá bem?
Ele assentiu freneticamente:
–– Tem mesmo câmeras aqui?
–– Não, mas funcionou.
Niall sorriu de lado, e então me abraçou. Seu cheiro me deixou tonta:
–– Obrigado. Mesmo –– ele disse contra o meu cabelo, realmente agradecido.
Eu devia estar corada, mas não deixei que ele visse aquilo, apenas enterrei minha cabeça em seu ombro e respirei fundo, sentindo aquele cheiro delicioso que seria capaz de me derreter. Tentei ignorar ao máximo o fato de que Dan era filho de Luke Richards. Nada mais nada menos que o patrão da minha mãe, e se Dan descobrisse isso, arranjaria uma bela forma de me causar problemas.
Harry's pov:
Não acredito que concordei com aquela idiotice de entrar numa maldita montanha russa, sério. Eu sabia que estava sendo corajoso até demais ao sentar no primeiro carrinho, mas não durou muito tempo.
Assim que saímos de lá e eu me acalmei, deixei , e Louis para trás. Não foi difícil encontrar a tal brazileira que os caras na fila comentaram. Eu a imaginei um tanto diferente... Pensei que ela fosse sedutora e louca, mas não era exatamente isso. Certo, com esse “louca”, eu quis dizer que ela toparia de tudo. Tipo, tudo mesmo... Mas ela não era louca nesse sentido, era extrovertida, apenas. Enquanto todos dançavam seduzindo uns aos outros, ela se destacava pulando desajeitada, se divertindo, fazendo passos ridículos de propósito. Aquilo me fez rir.
Safada ou não, ela continuava sendo gostosa. É isso o que importa.
Mantive contato visual, esperando que ela me correspondesse, e não demorou muito pra ela me reparar. Ela ficou um pouco confusa, mas voltou a dançar logo em seguida, e eu me aproximei aos poucos.
Cara, ela tinha mesmo que usar aquela fantasia de gueixa? O cabelo preso num coque alto com pauzinhos, o tecido fino vermelho da fantasia balançando conforme ela se movimentava e deixando suas coxas à mostra. E que coxas.
Assim que ela percebeu que eu estava ao seu lado, e não se mostrou incomodada, puxei os pauzinhos de sua cabeça e seu cabelo macio caiu sobre os ombros. Ajeitei uma mecha atrás de sua orelha. Coloquei uma mão em sua cintura e a apertei, tomando o controle de seus movimentos. Sempre lentamente pra checar até que ponto ela me daria liberdade.
Tonight, Imma let it be fire
Tonight, Imma let you take me higher
Tonight, baby we can get it on, yeah
Ela estava paralisada, meio boba, e eu fiz proveito disso. Cheguei próximo ao seu ouvido, encostando meus lábios em seu lóbulo e sussurrei junto com a música:
We can get it on, yeah
Ela estremeceu, mas colocou a mão por cima da minha e a tirou de sua cintura.
–– Hoje não. –– Ela tentou soar mais alto que a bagunça à nossa volta, mas eu só entendi o que ela disse graças ao movimento de seus lábios.
–– Tem certeza disso? –– perguntei. Ela hesitou, eu tinha certeza que ela se arrependeria. Modéstia à parte, nunca garota alguma me recusou logo após eu sussurrar em seu ouvido. Mas ela assentiu, decidida.
–– Você tá bem?! –– Alguém chegou do nosso lado gritando, tirando a atenção da brazileira de mim.
–– E por que eu não estaria, Niall? Você é quem passou mal aqui. –– Ela estava claramente confusa, percebi que ela o conhecia. Eu ia dar meia volta, mas antes tive que examinar quem era o infeliz que me atrapalhou. Um loir... OPA, OPA, PAROU A PALHAÇADA. MINHA PRIMA TÁ FAZENDO O QUE AQUI COM ELE?
–– Dan –– o loiro respondeu. –– Dan e .
–– Hã?
–– O cara do saco com cocô, poxa.
Mas é o quê? Pelo amor de Deus, alguém me explica o que tá acontecendo aqui.
–– De onde você conhece esse... Esse... Isso? –– eu perguntei próximo à para que somente ela escutasse. Eu não tinha motivos concretos pra odiar o garoto, mas, caramba, uma BRAZILEIRA bem aqui nas minhas mãos e ele me interrompe?!
–– Ele tem nome, Harry.
–– É, eu percebi. Eles são namorados ou algo do tipo? –– Ela se incomodou com a minha pergunta.
–– Não sei.
Olhei para os dois novamente, Niall narrava algo empolgante para a brazileira, que tentava acompanhar toda a história, mas estava um pouco perdida. Era algo a ver com bebidas, banheiro, saco com cocô e, porra, a minha prima. MINHA prima. Filho da puta.
Meu celular vibrou mais uma vez, desde que eu entrara na balada ele não parava de vibrar e apitar. Saquei ele do bolso, vi cinco mensagens do Louis e somente uma de um número que eu não conhecia.
Esperando você na frente do mini estacionamento
Mini estacionamento... Esqueci que você é lerdo. Mas você entendeu né, Haroldo? Quero dizer... Mini estacionamento, mini carrinhos...
Porra, deixa quieto. Só vem logo pros carrinhos de bate-bate. Temos amiguinhos aqui!!!!
Viu? Você perdeu o carrinho de bate-bate! Estamos procurando o barco viking nesse mapa confuso. 20min. Barco viking. ANDA LOGO.
PORRA, HAROLDO! VEM LOGO, SUA LESMA!!! xoxo
Bufei e sorri, eu não estava muito afim de desistir assim tão fácil da brazileira. Cara, nem o nome dela eu sei. Sou um inútil. Abri a sexta mensagem, de um número que eu não conhecia.
Eu sei que você tá catando alguém, mas larga essa e veeem looogoooooo. Ah, sou eu, titio Tomlinson. A bateria do meu celular acabou. Culpa tua, fdp.
–– Que amiguinhos estão nos esperando? –– apareceu do nada, me fazendo saltar.
–– Porra! Vocês querem me matar do coração hoje, é? Eu não sei, acho que são aqueles caras que ele foi buscar no estacionamento. Então, vamos?
–– Não sei. Vamos, Niall?
Desde quando eu a deixei chamar esse garoto pra vir com a gente? Pera, mas se ele vir... A brazileira vem junto.
–– É, Niall. Vamos, cara? –– encorajei.
Ele e a brazileira se entrolharam e assentiram.
O mapa era realmente confuso, procuramos o barco viking e ele tava lá na puta que pariu, só pra atrapalhar mais ainda. Conversei com o Niall no caminho, nada especial, já que eu tentei ser... Hã, sutil. O que eu queria mesmo perguntar era “você tá catando essa brazileira?” e “o que você quer com a minha prima, seu safado desgraçado?”, mas tentei ser um pouco amigável. Descobri que eu não tinha motivos pra odiar ele, realmente.
conversou com a brazileira o caminho todo, e Niall acabou contando de repente (sério, eu não precisei pressioná-lo pra isso) que está aqui por intercâmbio. Sim, , . Gostei desse nome.
–– Há quanto tempo ela tá aqui? –– perguntei como quem não quer nada. Mas eu queria é muita coisa.
–– Desde quarta-feira, a gente tá tentando conhecer bem a cidade enquanto tempos tempo. Nada de escola, muito tempo livre.
–– Vocês podiam vir pra minha escola –– eu disse de imediato. na minha escola, eu teria mais chances desse jeito.
–– Isso! –– pescou a conversa lá do outro lado. –– Vocês dois podiam vir pra Hayfield.
Ei, ei, ei. estaria no colégio, mas Niall também... Ele é um cara legal, mas não é porque meus amigos são cara legais que eu os deixo encostarem nela. Eu sei muito bem o que se passa pela cabeça de um garoto.
–– Hayfield? –– perguntou diretamente pra , sem me olhar. Que sotaque bonitinho.
–– Umhum, se sobornar os professores, você pode escolher as suas turmas –– começou a se empolgar. QUE BOCA MALDITA, STYLES. Eu tinha mesmo que comentar a Hayfield? –– Pelo menos a maioria delas. Harry sempre faz isso pra cair em algumas salas do amigo dele. E lá não temos poo poos, Nialler.
Os dois riram. Calma, eu perdi alguma coisa. Poo poos? Nialler? Desde quando ela tem um apelido pra ele? Bufei, eu ia acabar socando os dois.
–– Se não nos queria na escola era só dizer, estressadinho –– me cutucou nas costelas com o cotovelo. Eu sorri de lado.
–– Não, não é isso... –– Eu fiquei um pouco confuso. Pensei que ela fosse manter distância de mim. Mas tá né, não vou reclamar de barriga cheia. Se ela tá facilitando as coisas... Beleza. –– É outra coisa. Na verdade, seria muito bom ter vocês na Hayfield –– menti. Era muito bom ter a brazileira lá, não o loiro.
–– Vou comentar isso com o pai do Niall, podemos ver se tem vagas pra nós dois e etc. Tô ansiosa pra começar a estudar aqui.
–– Estudo é estudo. Seja aqui, no Brazil, na Índia... É tudo a mesma bosta. –– Ela riu. –– Pensei que estudantes de intercâmbio já tivessem escola selecionada.
–– E têm, mas Doncaster é uma cidade bem pequena se comparada com as típicas de intercâmbio. Eu tive a opção de vir pra cá e escolher na hora, eu prefiro assim. –– Eu sorri, seu sotaque e os delizes no inglês faziam com que tudo o que ela falava soasse extremamente fofo.
–– Ah, isso é seu. –– Ergui os pauzinhos que prendiam o cabelo dela. –– Desculpa pelo incidente mais cedo, japa.
Se eu não consegui de primeira, vou ter que ir um pouquinho mais devagar. Mas eu vou conseguir essa garota.
riu segundos depois, quando entendeu o motivo do “japa”.
–– Não foi nada, Harry.
Eu nem sequer me lembrava de ter lhe contado o meu nome. Contei? Acho que não... Mas se eu não contei, isso significa que contou... E eu era o assunto da conversa delas. Isso pode ser ruim, ou extremamente bom...
–– Capitão Harry –– corrigi.
Ela ficou confusa por um segundo, então reparou na minha fantasia. Acabo de perceber que a é bem lerdinha, awn.
–– Ah, certo... Pirata... Não foi nada, capitão Harry.
–– Olha, vai ter uma peça de um amigo meu amanhã... Visitar teatros faz parte de conhecer a cidade, certo? Então, que tal?
–– Tirando o fato de que não sei qual é a peça, nem onde é o teatro ou que amigo é esse. Resumindo, tirando tudo, porque não sei porcaria nenhuma. –– Nós dois rimos. –– Teatros são sempre bem-vindos.
Saquei o meu celular novamente.
–– Vou te ligar hoje mais tarde pra combinar tudo... Qual é o seu número? –– consultei.
Ao invés de ditar o número dela pra mim, ela pegou o meu celular e me entregou o dela.
–– Anota aí o seu que eu anoto o meu.
–– Foto? –– perguntei depois de anotar o meu número.
–– Ah, não...
–– Por favorzinho. –– Fiz biquinho.
–– Hm... Tá, pode ser. –– Ela passou o braço por trás das minhas costas, depositando sua mão na minha cintura, encostei minha cabeça na dela e coloquei meu braço atrás de seu pescoço, apertando sua bochecha. Tirei duas fotos, uma em cada celular.
–– Ficou horrível! –– ela protestou.
–– Claro que não, japinha. –– Ela tentou pegar o celular de mim, mas eu apertei mais forte a sua bochecha. –– Nah, nada disso, a foto tá ótima e vai pros contatos.
–– AI, doeu! Apaga! –– ela mandou, tentando ficar séria e brava.
–– Não.
–– Apaga, Harry! –– Ela tentava não rir.
–– Me dá um beijo que eu apago.
–– Como é que é? –– ela soltou um barulhinho indignado.
–– Na bochecha, calma.
–– Não vou te dar beijo nenhum. –– Ela ainda tentava não rir. Eu tô confuso, cara, ela me quer ou não?!
–– Então não vou apagar a foto. –– Mostrei a língua.
Chegamos à fila do barco viking, mas não encontrei Louis em lugar nenhum. Depois que o barco parou, ele e mais três pessoas desceram rindo escandalosamente.
–– AH, finalmente Harry Styles decidiu dar-nos a honra de sua presença! –– Louis me fuzilou com o olhar. –– Vocês perderam dois brinquedos. Quem são esses? OI, EU SOU O LOUIS!
Niall e o encararam meio assustados.
–– Er, oi... –– o loiro respondeu, tímido.
–– Esses são Niall e , Lou –– disse, e percebi que ela usava o capacete viking de Niall... Calma, ele tá usando o chapéu de policial dela? Quando foi que eu deixei?
–– Essas meninas lindas aqui são a , a e a baixinha da –– Louis começou a apontar pra cada uma e sorriu para a última delas. –– Esse é o Liam, que fugiu do Toy Story e o Andy tá procurando ele até agora. E esse aqui é o bad boy Zayn que de bad boy tem porcaria nenhuma. Desculpa, cara.
e eram as únicas que eu já conhecia ali. e Liam (eu não fazia ideia de quem era esse cara vestido de Woody) estavam comendo cachorros-quentes. tinha um sorriso enorme no rosto, algo deve ter rolado entre ela e o Louis, vou conferir isso depois. O outro garoto de nome estranho, o bad boy, estava descalço sei lá por quê.
–– Niall, , e Harry. –– Apontei para mim mesmo. –– Qual é o próximo brinquedo, Lou?
–– Bom... Temos a tumba perdida. Eu quero muito, muito, MUITO IR NA TUMBA PERDIDA. Mas acho que o “bad boy” ali não vai aguentar. –– Ele fez aspas com as mãos e riu.
–– Não vou entrar em porcaria de tumba nenhuma, ok? –– Zayn se manifestou e nós rimos dele. –– Prefiro ir na roda gigante e encarar a vista do lago, pode continuar me zuando, mas não entro nessa tumba. Quem tá comigo?
levantou a mão, seguida por Liam e :
–– Chega de emoções por hoje, ou Liam vai desenrolar a múmia e obrigá-la a me pedir desculpas por algo.
–– Eu concord... Ei, eu te protegi! Você vai ver, nunca mais te protejo também.
–– Era brincadeira, Payne!
–– Humpft, acho bom mesmo.
–– Er... Gente? –– Niall chamou. –– E a comida, onde entra?
e abraçaram as próprias barrigas.
–– Vamos pra praça de alimentação? –– perguntou.
–– Vamos –– eu respondi. –– Também tô com fome.
–– Mas... Mas... –– Louis protestou. –– Se o Woody, o bad boy, a e a vão na roda gigante... Você, , Niall e vão pra praça de alimentação... ?
–– Oi? –– ela perguntou, perdida, porque antes brisava olhando pras próprias unhas.
–– Tumba perdida? –– Lou sugeriu a ela.
Seus olhos se iluminaram:
–– Agora.
’s pov:
Eu, Louis, Zayn e saímos do castelo do terror e fomos para o carrinho de bate-bate. e o bobo do Liam foram comprar comida ou algo do gênero, não sei.
A cada segundo que passava eu percebia que Louis não era quem eu pensava. Era umas mil vezes melhor. Mais engraçado, mais atencioso, mais fofo. Meus surtos de ficar paralisada na frente dele diminuíram bastante... Talvez porque eu o sentisse mais próximo de mim agora. PORÉM, eu ainda tinha minhas recaídas. Desculpa, eu não sou de ferro! Experimente ter Louis Tomlinson lhe dando um abraço apertado ou bagunçando o seu cabelo. Não, não experimente, ou eu te mato.
Enfim, Louis brincava comigo na fila pequena do bate-bate e falava umas coisas sem noção, mas muito engraçadas. Entramos no brinquedo e fiquei no mesmo carrinho que o Zayn. Modéstia à parte, nós dois arrasamos com o Lou e a . Na saída, Liam e se juntaram a nós e fomos ao barco viking. Como se já não bastasse a maldita vontade de mijar toda vez que aquela coisa abaixava, tinha Louis do meu lado gritando coisas sem noção, me provocando gargalhadas e falta de ar.
Na saída do brinquedo, encontramos um amigo do Louis (que eu já tinha visto duas ou três vezes no teatro) e conhecemos mais três pessoas, mas cada um decidiu ir para um lado. E, para a minha sorte, o lado que escolhi (na verdade, Louis o escolheu e eu só o segui) era maravilhoso. Tá, era uma tumba. Mas teria o Louis lá, então seria maravilhoso.
O grupo se dividiu em três, o primeiro foi para a roda gigante, o segundo para a praça de alimentação e sobramos eu e Lou.
–– Que tal uma corrida até a tumba? –– Louis me desafiou. –– Quem perder paga um algodão-doce pro vencedor. Ou seja, você me paga um algodão-doce.
Eu o fuzilei com o olhar.
–– Não quero estragar os seus sonhos, mas fique sabendo que vou ganhar.
–– LIAM JÁ TÁ BRIGANDO COM O CARINHA ALI! HAHAHA, OLHA!
Eu me virei e procurei o bobo do Liam, mas não o encontrei em lugar algum. Quando me voltei para Louis, ele já estava correndo para a tumba. FILHO DA PUTA.
Apesar do meu problema com saltos, tentei o alcançar. Cheguei na entrada enorme, com sarcófagos em pé, e Louis me esperava de braços cruzados.
–– Aquilo foi trapaça, Tomlinson. –– Apontei bem no rosto dele, mas Louis tentou morder meu dedo e eu o recolhi.
–– Você me deve um algodão-doce, baixinha. –– Baixinha. Louis pegou essa mania, só porque sou três anos mais nova que ele. Ok, sou mais nova que todos ali, a caçula do grupo, mas não sou exatamente baixinha. Poxa.
–– Baixinha?
–– Prefere “novinha”? Tá bom, então, novinha.
–– Prefiro nenhum! Para! –– Bati de leve em seu ombro.
–– Baixinha, novinha, baixinha, novinha, la la la. –– Eu o fuzilei com o olhar. –– Tô com tédio, o que vamo fazer? AH JÁ SEI. Jogo das cinco verdades, pode ser?
–– Jogo do o quê?
–– Das cinco verdades. Eu falo uma curiosidade sobre mim, e você fala uma sobre você. Até que tenhamos falado cinco verdades cada um.
–– Ok, você começa. –– Sentei-me de pernas de índio no chão da fila, e Louis fez o mesmo.
–– Certo, quando eu era pequeno queria muito fugir para o circo. Eu via todos aqueles espetáculos e queria muito fazer parte daquilo.
–– Realmente, é sempre bom voltar para nossas raízes. Afinal, você é único palhaço que conheço que não tá no circo.
–– E você é a única anã que conheço que não tá por aí fazendo malabarismos. –– Ele riu.
–– Olha o bullying, Tomlinson, olha o bullying –– brinquei. –– Hm... Eu... Amo doces. Tipo, muito. Poderia viver deles pra sempre.
–– Bom, seu tamanho é tipo o de uma formiguinha, então isso não me surpreende.
–– LOUIS! –– Eu não consegui não rir daquilo, mas o estapeei mesmo assim.
Estávamos sentados um de frente para o outro. Louis estava fofo naquela fantasia. O jaleco de cientista louco manchado de fuligem e tinta, os cabelos bagunçados.
–– Ok, parei, juro que parei! Minha vez! Eu tenho medo de pássaros... Eles são tão... Argh! –– Ele sacudiu os braços no ar como se estivesse com nojo. –– Mas eu amo o Kevin.
–– Que cacete é Kevin?
–– É um pombo. Não só um pombo. Na verdade, o espírito do Kevin está no coraçãozinho de todos os pombos.
–– Louis, você é estranho. –– Eu ri. –– Mas eu amo pinguins, então não posso falar muito...
–– Pinguins são legais... E eu sou legal, então eu sou um pinguim.
–– Nah, eu sou um pinguim.
–– Eu falei primeiro, então eu sou um pinguim. Mas sou um pinguim muito bondoso, permito que você seja um pinguim também, tá bom?
Estávamos mesmo falando de pinguins no meio da fila?!
A porta se abriu com um barulho estranho e fumaça saindo de lá de dentro. Nós nos entreolhamos.
–– Depois terminamos o jogo, vamos. –– Eu me levantei.
–– Ainda não esqueci do meu algodão-doce, viu, baixinha? –– Ele riu e saiu correndo na frente.
Não sou do tipo que tem medo de monstros de parques de diversão, sou do tipo que dá medo neles. Mas eu fico com uma expectativa tão enorme, uma aflição de levar sustos, que acabo me assustando mais do que devia.
Então, logo no primeiro corredor, quando aranhas de brinquedo caíram do teto com um barulho horrível, eu saí correndo e gritando, deixando Louis para trás. O ruim é que as coisas ficavam ainda piores. Caminhos falsos que me levavam direto pra múmias, cobras, morcegos e, o pior de tudo, para salas escuras e espelhadas. PORRA, EU TÔ COM MEDO!!!!!
Começou a ficar realmente difícil respirar, meu desespero me sufocava, parecia que as paredes se fechavam à minha volta. Mais um monstro esbarrou em mim, e perdi a cabeça:
–– SAI, CARALHO, ME SOLTA, CHEGA, NÃO QUERO MAIS FICAR AQUI, QUERO SAIR, DESGRAÇADO. –– Eu me debatia e batia naquele monstro sem ter coragem de olhar pra ele.
Senti o monstro me prendendo, mas até que ele era cheirosinho. Ok, que porra é essa?
–– Sou eu, para de me bater, sua anta –– Louis riu e me abraçou mais forte ainda.
–– Eu já sabia que era você, ok? –– retruquei, finalmente conseguindo pensar e respirar direito.
–– Por isso ficou me estapeando e se descabelando? –– Ele tinha um sorriso enorme no rosto por me ver naquela situação.
–– Gosto de estapear.
Ele riu bem alto e quase me esqueci de que estávamos numa tumba do inferno.
–– Vem, vamos sair daqui. Acho que você também merece um algodão-doce por ter sido tão corajosa.
–– Mas eu quase morri aqui de me...
–– Shiu, você vai ganhar um algodão-doce e ponto final. Não abuse da minha boa vontade, ok?
Eu ri.
–– Tá bom então, Tommo. Não vou discutir.
Louis me guiou pelos malditos corredores estreitos para a entrada, me abraçando de lado e avisando aos montros que eu não tava muito bem pra continuar ali, então era pra eles não me encherem o saco. Uma ou outra vez, um idiota nos surpreendia pulando da parede e Louis tinha um ataque de riso dos meus sustos.
–– Quer cor você vai querer, baixinha? –– Louis perguntou, sentando-se no balcão da barraquinha de algodões-doce.
–– Hm... Acho que... –– Eu o examinei. Sentado, sorrindo simpaticamente pra mim com aqueles olhos que quase me fizeram cair dura ali mesmo. –– Azul.
–– Um azul pra moça e um rosa pra mim, senhor! –– Louis pediu, levando a mão à testa como um soldado, recebendo um olhar de desaprovação por estar sentado no balcão.
–– Acho que você não devia estar sentado aí, Sr. Cientista Louco –– eu disse rindo e me aproximando dele.
Louis pegou nas minhas mãos, me puxando ainda mais pra perto:
–– Sou um criminoso –– ele sussurrou no meu ouvido, me fazendo rir. –– E você fica ainda menor aí embaixo, . –– Ele riu da careta que eu fiz.
–– Quando é que você vai entender que tenho o tamanho ideal pra minha idade?! –– Eu ri indignada.
–– Não sabia que você tinha sete anos, ! Por que você não me contou isso antes?!
O moço da barraca nos entregou os algodões-doce e Louis pagou, descendo do balcão.
–– Idiota, eu não tenho sete anos. E eu perdi a corrida, Louis! Eu que pago –– protestei.
–– Nada disso, eu trapaceei, não é justo deixar você pagar. –– Ele mordeu um pedaço do meu algodão-doce.
–– Então na próxima eu que pago, ok? Não gosto que fiquem pagando as coisas pra mim. –– Peguei um pedaço do dele.
–– E aí? O que achou? O rosa é bem melhor, não é?
–– É tudo a mesma coisa, Louis. –– Eu ri.
–– Nada disso, sempre tem uma diferença. –– Ele colocou um braço por trás do meu pescoço, se apoiando em mim. QUANDO É QUE ESSE MENINO VAI PARAR DE SER GOSTOSO? –– Você vai amanhã, né, baixinha? Quero te ver na primeira fileira.
Eu abri um sorriso enorme, e disse como quem não ficou olhando para o convite o tempo todo, todos os dias:
–– Ah, sim, a peça. É claro que eu vou.
–– Eu já sabia, você estaria lá de qualquer forma. Se não fosse, eu te sequestraria.
–– Liam iria atrás de você, isso não daria certo.
–– Uma chata que nem você? Liam me agradeceria, isso sim.
–– Ei! –– Eu me desvencilhei dele. –– Então por que me sequestraria se sou tão chata assim, Tomlinson?
–– Pra fazer um favor ao mundo, é claro. –– Louis riu da minha cara de brava. –– É brincadeira, . –– Ele mordeu minha bochecha.
Niall’s pov:
Não sei por que fui inventar de beber, sei que não presto pra isso, nunca dá certo. Logo nos primeiros goles, senti minha cabeça girar. E ainda inventei de me meter em uma confusão, não me lembro muito bem... Mas assim que me empurraram, senti tudo o que ingeri voltar para a minha garganta.
Numa hora eu estava encarando aquele espelho engraçado que se mexe... Ah tá, pera, aquilo era a água da privada. Nossa, eu tava ruim mesmo, puta merda.
Numa hora eu estava vomitando, e na outra uma policial estava me ajudando. Demorei pra raciocinar que ela não era policial de verdade, e só me dei conta disso porque policiais não entram em banheiros do outro sexo. Policiais não podem quebrar as próprias leis. Hm... Eu não estava no meu melhor estado, ok?
Do nada, a policial sumiu da minha frente e foi pro além. Jurava que ela tinha sido raptada, mas ela só tinha ido buscar um pouco de papel... Sim, ela estava me ajudando pra valer.
Quando comecei a finalmente me recuperar, descobri que já conhecia aquela garota do açougue do meu pai. E a primeira coisa que pensei ao vê-la ali, ajoelhada, me ajudando, foi: Ela é mais fofa que uma joaninha de macacão.
Bêbado, pessoal. Eu estava bêbado, não riam de mim.
Depois de confusões costumeiras com os idiotas do Daniel e da ; Harry (o primo da ), , eu e a fomos pro barco viking. Conhecemos alguns amigos da e do Harry, e até ganhamos um convite não formal pra estudar num lugar chamado Hayfield. Pelo menos eu e a teríamos a , o Harry, o Louis e a lá. Não seria ruim como começar do zero.
Por fim, decidimos ir praça de alimentação. E É AGORA QUE AS COISAS FICAM BOAS, CARA. COMIDA.
Harry e ainda tavam na fila do restaurante de comida italiana, tinha pedido só um pacotinho de batatas fritas e um suco, e eu... Bem, eu tava com as mil coisas de costume.
–– Quer milkshake? –– perguntei.
–– Não posso, tô de dieta. –– fez uma careta depois de pensar muito. QUE CRIME! DIETA? PALAVRA DO CAPETA. NÃO PODE. NÃO DEIXO.
–– Ah, claro. –– Eu ri. –– Poxa, você é a mina dos cannolis. Você deve cozinhar maravilhas... E tá de dieta? Conte-me mais sobre sua mentira.
–– É sério! –– Ela riu. –– Ontem eu comi três bolinhos.
Eu gargalhei:
–– Viu? Não dá pra viver de dieta. Tenho minhas duvidas de que isso foi uma tortura de guerra.
–– Eu tô de dieta, sim! Se eu não estivesse eu teria comido cinco. E eu só comi três, bobão. Não sou que nem você que come essa montanha toda de comida, ok?
–– Uma montanha muito sedutora, vai.
Ela encarou minha comida e virou o rosto, eu ri novamente:
–– Eu sei que seu lado gordinho tá te chamando. Ouça o seu lado gordinho, , ouça.
Ela não aguentou se manter séria e riu:
–– Tá me chamando de gorda, Horan? –– ela disse num tom brincalhão, mas um pouco incomodada. Pensando bem, ela era sim mais fofa que uma joaninha de macacão. Não me pergunte.
–– Até onde eu sei, quem faz dieta é gordo e louco.
–– Além de me chamar de gorda, agora me chama de louca! –– Momento de fofura suprema da bravinha.
–– Calma, eu não quis dizer isso...
–– Seu... Seu... –– Ela começou a ficar ainda mais nervosa por não achar as palavras. –– Seu obeso e feio e idiota e chato! E... E...
–– E..? Anda, fala, pode falar.
ficou parada pensando no que dizer, e bufou:
–– Que raiva. –– cruzou os braços e olhou pro chão. Eu ria.
–– , olha pra mim, vai.
–– Não.
–– Anda logo, olha aqui. Você entendeu errado... Desculpa, tá?
–– Passa esse milkshake pra cá que eu te desculpo. –– Nós dois sorrimos.
–– Mudou de ideia, foi?
–– Comida não se recusa, lembra?
Estendi o milkshake pra ela:
–– Agora me pede desculpas por ter me chamado de obeso.
Ela mostrou a língua e deu um gole no milkshake:
–– Nada disso, foi você quem começou.
–– Ah, é? –– Peguei um tomate e joguei na cara dela. abriu a boca em um “0” de tanta indignação. Eu não conseguia parar de rir.
Acho que você já entendeu que eu não consigo parar de rir, então apenas me imagine rindo o tempo todo. Tá, não faz isso. Seria meio estranho me imaginar rindo enquanto durmo... Ou rindo enquanto faço popô... Deixa quieto.
–– Agora você vai ver, Horan! –– Ela ria também, pegou o pacotinho de batatas dela e jogou todas na minha direção. Fui mais rápido e entrei debaixo da mesa.
–– PORRA, QUE QUE EU TE FIZ? TÁ FODA HOJE, HEIN! –– Ouvi Harry gritar.
–– Desculpa, Harry, desculpa... Não era pra... CARALHO, HARRY!
Eu me levantei um pouquinho pra ver a situação. tinha a fantasia toda suja de macarrão, e Harry ainda tinha batatas no chapéu de pirata.
destampou o milkshake, e a vesga errou o alvo novamente, acertando a cara da em cheio. Um monte de comida começou a voar, ouvi uns pirralhos gritando: GUERRA DE COMIDAAA! Puta que pariu.
Peguei um pedaço de pizza de cima da mesa e voltei pra debaixo dela, vendo algumas almôndegas e uns pedaços de lasanha caindo no chão.
–– Sabe que tudo isso é culpa tua, né, seu obeso? –– reapareceu do meu lado, completamente suja, e eu gargalhei.
–– Na verdade é tudo culpa da tua dieta, eu te disse que não ia prestar. Dietas nunca funcionam, bobinha.
Ela me fuzilou com o olhar e espalhou torta de limão na minha cara:
–– Não pensou que fosse sair ileso, pensou? –– Ela riu maleficamente.
Tirei um macarrão do cabelo dela:
–– Na verdade, pensei. –– Passei o dedo pela minha bochecha e provei à torta. –– Hmmmmmmm tá muito boa. Quer?
pegou um pouco da torta do meu rosto e também comeu:
–– Sim, tá boa mesmo.
–– É gostinho de Niall –– brinquei.
–– Gostoso. –– Ela parou por um segundo com o dedo ainda sujo de torta estendido no ar, pensando no por que de eu estar quase morrendo de tanto rir. corou. –– Merda. Eu não quis dizer isso, e-eu...
–– Eu sei que sou gostoso, não esquenta. –– Eu ri ainda mais alto.
–– Isso não tem graça, besta! –– Ela pegou o pedaço de pizza da minha mão e também esfregou na minha cara. Eu tô amando essa guerra de comida.
Quando as coisas finalmente se acalmaram (o que demorou bastante), eu e saímos de debaixo da mesa, e a praça de alimentação estava um verdadeiro caos. Tudo revirado e sujo. Alguns dos guardas quase nos pararam, eles estavam bem putos, mas pensaram que não tínhamos nada a ver com a bagunça já que estávamos escondidos.
–– Acho que a e o Harry estão levando uma bronca –– eu disse cabisbaixo. –– Não devia ter arremessado aquele tomate em você.
–– Bom saber que você se arrepende de ter jogado um tomate em MIM só por causa da e do HARRY. Bom mesmo. –– debochou, rindo. –– Eu conheço bem o Harry, se eles entraram mesmo numa fria, o que eu duvido muito, ele já deve ter arranjado um jeito de livrar a barra dos dois. Relaxa.
–– Mesmo? –– Eu me senti muito melhor. –– Cara, essa fantasia tá um lixo, precisamos limpar isso aqui.
–– Banheiro de novo? –– Ela apontou para o caminho da balada.
Nós dois nos entreolhamos com uma careta. Sério mesmo? De novo o banheiro? Entrelacei nossos braços (tentando achar conforto pra me meter naquela multidão novamente, devo admitir):
–– O banheiro de novo.
–– AAAH JÁ SEI! –– gritou, DO NADA, dando um pulinho no mesmo lugar.
PUTA QUE PARIU, QUE SUSTO DO INFERNO CREM DEUS PAI MEU CORAÇÃO VAI PARAR.
Não, sério, calma. O irlandês aqui quase morreu de susto. O maior silêncio no caminho pro banheiro e essa louca se esguela aqui do lado. Ai, Deus.
–– PARA DE RIR, NÃO TEM GRAÇA NENHUMA!
–– CLARO QUE TEM! VOCÊ TÁ BEM? –– Ela gargalhava. –– Você tá até mais pálido! Meu Deus, respira fundo.
–– Tá tá, já tô melhor. O que é que você ia dizer?
–– Que eu quero ir naquela cabine de foto ali, vamos? –– Eu via o brilho nos seus olhos.
–– Não sei se você se lembra, mas acabamos de sair de um apocalipse de comida. Olha o nosso estado!
–– Então, as fotos vão ficar ainda melhores! –– Eu a encarei, incrédulo. E ela sorria convencida.
–– Melhores? Eu tô com comida até dentro do ouvido, como isso pode ser melhor, mulher?
–– Fotos espontâneas e engraçadas, ué. –– Ela deu de ombros. –– Vaaaaaaamos, por favorzinho!
Rolei os olhos e bufei:
–– Tá, vamos logo.
Olha, ir à cabine foi uma ótima ideia. Rendeu ótimas risadas. A primeira foto até que foi decente: Os dois sentados lado a lado sorrindo comportados. Então a coisa desandou completamente, inventou de ficar numa posição estranha, mas se desequilibrou e quase caiu. O que resultou numa foto desastrada de seu vulto indo pro chão e eu desesperado tentando segurar ela. Depois dessa foto, claro, veio uma crise de risos. Então tinha mais umas três fotos de nós dois sofrendo de tanto rir (o que conseguiu ser ainda mais engraçado que o quase tombo dela).
Tiramos mais algumas fotos imitando aqueles três macaquinhos, sabe? O surdo, o cego e o mudo. Outras da gente estirando a língua e enchendo as bochechas de ar... Segundo a , aquilo era imitar um peixe. Só se for um baiacu ou sei lá. Mas tá né, imitamos o baiacu.
Fizemos caretas, trocamos os chapéus das fantasias, eu tapei a cara da com a minha mão... Mas acho que foi um pouco, hã, forte demais. Mas foi engraçado, mesmo ela me estapeando (sim, isso também virou uma foto). E lembre-se que estávamos sujos da cabeça aos pés, com as fantasias grudentas.
Descemos da cabine já esperando pelas fotos mais bizarras de todas, e... É, estavam espontâneas e bem engraçadas, exatamente como disse.
Demorou um pouco pra decidirmos quem ficava com quais fotos, então concordamos que era hora de dar um jeito na tragédia que estava nossas fantasias.
–– Caralho, Nialler, fica quieto! Se você não parar, não vai dar pra limpar. –– tentava tirar a mancha da minha calça.
A cena estava, no mínimo, estranha. Parecia que eu e tínhamos pulado no lago, os dois de cabelos encharcados porque praticamente tomamos um banho na pia.
Minha camiseta e o casaco dela estavam pendurados na cabine de um dos banheiros. Eu e ela estávamos sem nossas botas e sem os nossos chapéus. Eu com o peito nú e ela com uma regata.
–– Pronto? –– perguntei, sentindo minha perna dormente.
Ela me encarou do chão:
–– Ainda não, para quieto.
Senti algo estranho na minha barriga, e não era fome (o que me assustou). Quando olhei para sentada de pernas de índio e limpando a barra da minha calça, meu estômago se revirou com uma sensação esquisita, parecia formigar. Seus cabelos molhados, seus olhos grandes, sua pele natural, sua voz.
Era mais do que simplesmente ter uma garota linda ali aos meus pés (literalmente), eu tinha medo que algo acontecesse a ela e eu não pudesse impedir. Eu temia que Dan entrasse por aquela porta de novo e a ferisse de algum modo, dissesse coisas que a atingisse. Eu não sabia se a grosseria dele tinha a afetado... E se tivesse? Seria minha culpa, aliás, sou eu quem ele odeia. estava no lugar errado na hora errada, e eu não queria que isso se repetisse. Talvez... Bem, se Dan não me ver com ela, nada acontecerá...
Mas eu não tenho bola de cristal ou magia leprechaun, nunca vou saber quando ele vai entrar por uma porta e nos encontrar.
–– Você... Você precisa ficar longe de mim –– eu falei um pouco tonto, não queria que aquilo acontecesse.
Ela demorou pra entender minhas palavras, deixando o trabalho de limpar minha calça pela metade porque peguei o papel úmido de suas mãos.
–– Quê? –– perguntou, confusa.
–– Só faz o que eu tô te pedindo, , por favor. –– Peguei a minha camiseta sem me importar que ainda não estivesse seca.
–– Mas... Mas por quê? Me dê um bom motivo pra isso. –– Ela se levantou.
Se eu dissesse a verdade, riria e não levaria aquilo a sério. Mas ela não conhecia Dan e os amigos dele, nem mesmo eu os conhecia direito e já os temia. Eu não sabia até onde eles iriam.
–– Eu só não quero mais te ver –– falei com muito esforço.
–– Por que isso de repente? –– ela perguntou meio... Triste? Caralho, Niall, o que você tá fazendo? –– Ok –– ela suspirou ––, você tem certeza disso?
Murmurei um débil “sim” que pareceu tudo, menos um sim, e a vi pegando as peças de sua fantasia de cima da pia e saindo do banheiro logo em seguida.
Droga, Horan. Minha vontade de atirar no Daniel era ainda maior agora.
Fiz o que pude com a minha roupa, mas continuou uma bosta. Desistindo, coloquei o capacete debaixo do braço e fui procurar o que fazer. Eu já sabia que não encontraria um lugar tranquilo (ou seja, vazio), e eu tinha deixado minha única companhia de lado (a palavra ‘magoada’ também se encaixa perfeitamente). Ou seja, eu me sentia completamente sozinho e sufocado em um lugar lotado. Perfeito, hein?
Liam’s pov:
É, eu briguei mesmo com o ET na gaiola, e daí? podia ter se machucado, e , e . Isso não se faz.
Depois de muito ser zuado, pensei no quanto podia estar brava comigo por ter colocado ela naquela situação e, claro, fui pedir desculpas.
–– Se você pagar um cachorro quente, eu aceito, Payne. –– ela sorriu daquele jeito que eu gosto, com os olhos.
Guiei pelo parque até a praça de alimentação pra comprar o cachorro quente dela. Andávamos como sempre costumamos andar em público, ela atrás de mim com as mãos no meu abdômem, eu segurando seus braços de leve.
–– Eu tava pensando se você podia dormir lá em casa amanhã depois da peça –– eu disse. parou de andar pra pensar, me fazendo parar também. Se fossem outros adolescentes você poderia pensar besteiras. Mas nós crescemos juntos, eu conheço a desde que me entendo por gente. Sua família inteira me conhece e a minha família toda conhece ela. dormir em casa nunca foi problema pra ninguém, e não passava de uma noite comum entre amigos.
–– Tá, pode ser. –– sorriu.
–– Pode ser? Nossa, sua empolgação é tanta, mas tanta, que não faria diferença nem pra uma formiga. –– Fiz careta.
–– Ok, ok. –– Ela riu. –– NOSSA LIAM, PENSEI QUE NUNCA FOSSE ME CONVIDAR, AAAAAAAAAAAAAH! E aí, melhorou?
Antes mesmo que eu pudesse responder, um cara suado esbarrou nela, que tropeçou e caiu em cima de mim. Nós dois fomos pro chão. Suas mãos contra meu peitoral, seu bust... PARE, PAYNE, RESPEITE A , seu rosto a centímetros do meu e seus olhos arregalados. Aquela cena me trouxe uma lembrança realmente antiga à cabeça:
Estávamos na minha casa, assistindo TV.
–– Ei, vem cá, –– eu a chamei subindo as escadas devagar.
–– O que você tá fazendo? –– ela perguntou, confusa.
–– Só vem cá, quero te mostrar uma coisa. –– Peguei na mão dela, nossas mãos piquititinhas de criança.
Eu me agachei de frente para a porta do meu quarto, e fez o mesmo.
–– Shhhh. –– Coloquei o dedo indicador na frente da minha boca e empurrei a porta devagar.
Lembro de como me senti frustrado mais uma vez, era sempre assim. Eu fingia que estava dormindo e abria o olho de repente, mas nada. Eu abria a porta de surpresa... E nada de novo. Coisa de criança, eu sei, mas eu queria muito pegar meus brinquedos no flagra, vê-los se mexendo e etc. Qualquer semelhança com Toy Story é pura coincidência.
Bobo como eu era (sim, era, pode parar de dizer que ainda sou, viu? Pessoa malvada), eu me encolhi no corredor e comecei a chorar.
–– Para, Laim! Para, eu não gosto de te ver assim! –– quando pequena nunca conseguiu pronunciar o meu nome direito.
–– Acho que eles não gostam de mim –– eu disse com a voz chorosa. Cara, eu tava chorando mesmo por causa daquilo. Mas... Bem... Eu chorei assistindo Tarzan e olha que eu já era bem crescidinho. Enfim...
–– É claro que gostam. Não tem como não gostar de você, seu bobo.
–– Mesmo?
–– Umhum. –– Ela secou minhas lágrimas. –– Se você não parar vou te fazer cócegas, Liam.
Dito e feito, eu não consegui parar de soluçar e se jogou em cima de mim fazendo cócegas.
–– PRONTO, , PRONTO! –– Eu tentei falar em meio a falta de ar e as gargalhadas. –– EU JÁ TÔ MELHOR, PARA!
–– Mesmo? –– ela imitou o meu tom de voz.
–– Umhum.
se aproximou e me deu um beijinho. É, um beijinho, um selinho rápido e inocente, mas o suficiente pra me fazer corar. Tanto na época quanto exatamente agora.
–– Acorda, Liam! –– ajeitava a fantasia e eu ainda estava estirado no chão. –– Se perdeu no mundo da lua, foi?
–– É. –– Eu sorri sem graça, um pouco tonto com a lembrança. –– Parece que sim.
–– Quer que eu compre uma bússola? –– Ela esticou a mão pra me ajudar.
–– Lembra quando você me chamava de Laim? –– riu.
–– Claro que lembro –– ela respondeu, vesga, olhando para o laço torto em sua cabeça.
–– Era engraçado. Pelo menos agora você sabe falar direito... É, mais ou menos. –– Ela me deu um tapa leve no ombro e eu ri. –– Desculpa. E qual vai ser a próxima peça da minha atriz favorita, hein? –– perguntei arrumando o laço em sua cabeça.
–– A peça nem aconteceu ainda e você já tá pensando na próxima? É impressão minha ou você adora me dar trabalho? –– Ela riu.
–– O último trabalho que eu quis te dar você não aceitou. –– Mostrei a língua.
–– É claro que não! Eu não quero um cachorro. Eles dão muito trabalho e despesa. Tem que ter muita responsabilidade e eu mal sei tomar conta do meu próprio nariz.
–– Isso já não é novidade, –– zombei, pegando-a pelo braço e continuando nosso caminho para a barraca de cachorro quente. –– Já sei! Vou comprar um cachorro e dar o seu nome pra ele!
–– AH, NOSSA. Quanta consideração, velho. Um cachorro vai ter o meu nome.
Gargalhei. Eu queria comprar um cachorrinho e dividir os dias da semana pra cuidar dele com a , mas ela não queria aceitar de jeito nenhum.
–– Geralmente homem e mulher começam por um cachorro, você sabe. Nosso casamento não vai dar certo desse jeito –– falei. Eu e brincamos que somos casados, porque sempre que nos perguntam se somos um casal (o que acontece com frequência) respondemos que já casamos umas dez vezes.
–– Mas eu não quero um cachorro. Quer dizer que se não existissem esses demônios peludos, não haveriam casamentos?
–– Poxa, . Além dos gritos, das birras, dos xingamentos, você não aceita um filhotinho indefeso? Que falta de coração. –– Esperei pela resposta dela, ou pela risada, mas nada disso aconteceu. Eu examinei seu rosto. –– Que foi?
–– Que foi? Me senti a pior esposa do mundo agora, Liam.
–– Por quê? –– Eu parei de frente pra ela, segurando as laterais do seu rosto.
–– Porque eu grito com você, eu faço birra, eu te xingo. Você acabou de dizer isso.
–– E daí? Mesmo com tudo isso você não deixa de ser uma ótima esposa. A esposa que todo cara já pensou em ter.
–– Idiota. –– Ela sorriu, aliviada. –– Eu não devia te perdoar por ter me assustado desse jeito.
–– Mas vai perdoar, não vai?
–– Não sei... Só se prometer que não vamos ter cachorro nenhum.
–– Primeiro a chantagem com um cachorro quente, e agora uma chantagem com um cachorro de verdade? Qual o seu problema com cachorros, hein?
–– Já aturo você e o Zayn, chega de cachorros na minha vida. –– Ela riu bem alto. –– Vocês dois já me dão muito trabalho, trabalho pra uma vida inteira.
–– Shiu, , você mesma disse que não sabe cuidar do próprio nariz. Shiu.
A vista era mesmo bonita da roda gigante, o vento cortava meu cabelo e as minhas roupas. Mesmo sendo verão, o vento fez eu me sentir como uma pedrinha de gelo. Estávamos mesma cabine que e Zayn, mas os dois estavam sentados na outra extremidade.
Olhei pra , as bochechas coradas por causa do frio e os olhos brilhando com a vista. É, ela é linda. Maravilhosa, na verdade. Mas não posso.
Primeiro que se eu me permitisse gostar dela pra valer, o sentimento poderia não ser recíproco. Pronto, já era. As coisas dariam errado logo no começo.
E segundo que sempre foi desejada pelos garotos... Cara, fala sério, por que ela me escolheria? Por que ela se prenderia a um garoto tão sem graça como eu? Sério, eu não tenho chances. Não vou me dar o luxo de estragar o que temos.
O melhor a fazer é afastar qualquer pensamento disso da minha cabeça, E FAZER A PARAR DE TAGARELAR SOBRE ISSO. Essa pirralha tá me enlouquecendo.
–– Lembra daquela foto no boliche? –– disse de repente, me assustando.
–– Hã?
–– A nossa foto no boliche, Liam, que você apareceu de repente com o celular e eu tentei esconder o rosto. Lembra?
Assenti devagar.
–– Que que tem?
–– É uma boa foto pra ficar no centro da mesa, não acha?
Eu sorri involuntariamente. Lembra que somos “casados”? Então, nós já estamos planejando como será a “nossa casa”. Nosso quarto vai ter uma das paredes azul, uma mesa lotada de retratos nossos (desde aquelas fotos que tirou de mim dormindo até aquelas engraçadas e espontâneas que eu tirei dela sem motivo). Concordamos que aquelas lembrancinhas feias e estranhas que nossas mães nos darão ficariam escondidas atrás da televisão.
Também vai ter o meu videogame, pra continuarmos nossas disputas de fim de semana, e uma prateleira bem alta com os meus jogos. Bom, eu digo que vai ser alta, e diz que tanto faz, já que não quer ter filhos. É, nem filhos nem cachorros. Vê se eu posso com isso!
–– , das duas uma: Ou filhos ou cachorro. Não precisa ser os dois, mas preciso de um deles.
–– A gente não pode adotar a , não? –– ela perguntou chorosa, eu ri.
–– Não, a já conta como meu bichinho de estimação.
–– Ahhh, mas eu não quero! Cachorros e crianças são quase a mesma coisa. Só comem, fazem barulho e cagam. Fim. Se bem que o cachorro vai ser leal, enquanto o bebê vai virar um adolescente revoltado e me xingar pelas costas. Ser um ingrato e...
–– , você fala demais. –– Eu ri e a puxei contra meu peito. Quê? Tá frio, e ela está com esse vestidinho, deve estar congelando.
Zayn e riam de algo no celular dele, uma foto de um pub ou sei lá, não entendi direito.
–– Imagina se tivesse sereianos lá embaixo –– disse com os olhos brilhando. Essa menina adora sonhar, hein?
–– E unicórnios e bruxos –– adicionei já sabendo que ela estava pensando em Harry Potter. É sempre assim: Se tá lendo um livro, a história se estende até o mundo real à nossa volta. Uma boba mesmo.
–– OH GOD! Pensa só que legal! –– Ela dava pulinhos no assento. –– Eu não precisaria ficar me preocupando com as matérias chatas da escola. Quem precisa de física, velho? Se o tijolo tá caindo eu vou sair de perto e não calcular a velocidade dele, puta merda.
Eu ri muito alto, apertando-a ainda mais forte no abraço.
–– Mas...
Ela me cortou:
–– História é outra coisa inútil. Se passou, passou. Segue em frente, caramba, ficar olhando pro passado não faz bem pra ninguém. E inglês, então? Eu já sei ler e escrever, tá de bom tamanh...
–– .
–– Oi?
–– Tenho dó dos nossos filhos. Você vai ser daquelas mães que começam a falar e não param mais, emendam uma bronca na outra e nunca acaba.
–– Que parte de “não vou ter filhos” você não entendeu?
Cometi o erro de olhar no fundo dos olhos dela. Com aquela distância mínima entre nossos rostos aquilo chegava a ser arriscado. Alguém, por favor, me explica como ela consegue exprimir tantos sentimentos e ideias somente com o olhar? Aquilo não era normal. Quer uma dica? Quando você tiver a chance de olhar nos olhos da , não olhe. São cheios de simpatia e blá-blá-blá, mas quando você menos esperar eles vão te conquistar e te viciar neles.
Ah... Eu... Er... Calma, respira fundo, Liam, você tá perdendo sua cabeça. Não satisfeito em cometer o erro de olhar nos olhos dela, eu olhei para os lábios. Aquelas linhas perfeitas que formavam sorrisos perfeitos. E palavrões também, dos feios, mas eu amo isso nela.
–– HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA LIAM OLHA ISSO, CARA. Ah, eu... Desculpa, eu interrompi alguma coisa? Interrompi né? Tá, eu...
–– Zayn, cala a boca –– eu falei rindo, mas na verdade querendo o estrangular. No fundo eu estava grato por ele ter me salvado da besteira que eu estava prestes a fazer. –– O que foi?
Ele me mostrou uma foto no celular dele e eu gargalhei. Zayn estava jogado na rua, sem sapatos, a camiseta semiaberta e sua cara estava tão torta que parecia ter sido vítima de um derrame.
–– Bêbado? –– perguntou gargalhando.
Ele assentiu, e então olhou pra mim, perguntando por olhar o que estava rolando entre eu e a .
Dei de ombros. E eu não estava mentindo, eu realmente não sabia o que estava acontecendo.
’s pov:
Se você me perguntar COMO eu resisti àquele pedaço de mau caminho, eu realmente não vou saber te responder. Eu ainda quero me bater por aquilo, ARGH QUE ÓDIO.
Mesmo que cada célula do meu corpo gritasse por ele, eu tinha prometido a mim mesma que quebraria a imagem errada que todos têm do Brasil e das brasileiras. Eu tenho certa ideia do que me aguarda na escola em que eu entrar, nas piadas que eu vou ouvir e nos milhões de meninos que vão tentar coisas comigo. Não posso começar as coisas com o pé esquerdo, certo? Ainda mais se eu e Niall realmente formos pra escola da e do Harry.
Harry tamborilava os dedos nervosos na mesa de ferro. Aquela sala era pequena, feia e assustadora. Todo aquele clima me lembrava de séries policiais.
A porta se abriu e um segurança enorme e careca passou por ela. Eu jurava que ele ficaria entalado, mas isso não aconteceu.
–– Temos aqui a fita de segurança –– ele disse. –– Estão assistindo neste exato momento. Então, antes de qualquer coisa, confessem tudo o que souberem.
–– Ah, qual é! Nós não matamos ninguém, deixa a gente ir embora logo. –– Harry estava meio puto.
–– Sabe o prejuízo que aquela confusão vai causar? Todo o lucro esperado na praça de alimen...
–– Uma pena, só que nós não temos nada a ver com isso –– Harry falou, decidido. Na verdade nós estávamos bem na raiz da confusão, e se a câmera mostrasse... Bom, fodeu. –– Vocês podiam parar de perder seu tempo enchendo o nosso saco e irem procurar pelas verdadeiras pestes que estragaram nosso jantar e as nossas fantasias.
Harry disse aquilo com tanta certeza que eu quase me esquecera de que éramos “culpados”. Uma rodela de cebola caiu da minha franja e eu tive que me segurar pra não rir, eu costumo rir de tudo e aquele não era um bom momento.
–– Andy? –– Outro segurança apareceu na porta chamando pelo armário à nossa frente. –– Vem aqui um instante.
Ele saiu, fechando a porta atrás de si e nos deixando sozinhos.
–– Se descobrirem...
–– Não vão descobrir, relaxa. –– Harry sorriu e pegou na minha mão por cima da mesa. –– Deixa comigo e eu resolvo tudo, ok?
Sotaque... Britânico... Voz... Rouca... Meeeu cérebro derreteeeendoooooo, socorrroooo.
–– O-ok. –– Foi tudo o que eu consegui dizer. Mas nas minhas condições aquilo era até muito. O chapéu de Harry estava em cima da mesa, junto com a bandana enrolada. Agora dava pra ver seus cachos. Sujos, mas fofos. Harry soltou minhas mãos levemente e se ajeitou na cadeira.
–– Vai ficar quanto tempo aqui, ? –– ele perguntou.
–– Por quê? Já quer que eu vá embora? –– Eu ri. –– Se deu mal, vou ficar por um bom tempo.
Harry abriu um sorriso bobo.
–– Ah, não! Não acredito que vou ter que te aguentar por muito tempo –– brincou.
–– Pensa pelo lado bom, eu estou na casa dos Horan e não na sua.
–– Nem brinca com isso. Magina? Você? Me infernizando o dia inteiro? Eu, hein.
–– Ei, você que chegou em mim, capitão Styles. Quem tem que te aguentar sou eu, eu que estou ferrada nessa história.
Ele levantou as sobrancelhas, me desafiando:
–– Isso quer dizer que vai fugir do nosso encont... Do teatro amanhã?
–– Não, eu não vou fugir. Mas vou fazer o possível pra sentar em algum lugar bem longe de você –– brinquei.
–– Olha, se eu fosse você seria mais gentil comigo. Você não sabe onde é, que peça que é, que horas vai ser. Depende de mim, japa. –– Eu gargalhei e revirei os olhos. –– Falando nisso, que horas eu passo na casa de vocês?
–– Você sabe onde eu tô morando? –– perguntei meio assustada.
–– Claro que não, né, sua lerda. Aliás, fala aí. –– Ele pegou o celular pra anotar.
Agora ele tá se oferecendo pra nos levar até o teatro? Oi? Olha, se foi com segundas itenções, sinto muito, Niall irá com a gente de qualquer forma, ok?
–– Dá aqui que eu anoto pra você. –– Tentei não rir. Ele me examinou por alguns segundos.
–– Não vou te entregar meu celular, você vai apagar a foto. Boa tentativa, boa tentativa.
–– Droga.
Falei o endereço pra ele, combinamos o horário e ele me passou o dele, só por via das dúvidas.
–– Posso te pedir uma coisa? –– ele perguntou com um sorriso travesso e os olhos verdes cheios de significado.
–– Tô com medo, mas pode falar.
–– Quero dançar com você de novo... –– Ele percebeu minha expressão indignada. –– Calma, sem segundas intenções dessa vez!
–– Claro que pode, oras –– eu disse rindo.
Eu não podia dizer um “não”, né? Eu sei que vai dar merda, vai dar muita merda. Se ele vier de novo com toda aquela safadeza pra cima de mim, com aquelas mãos grandes apertando minha cintura... Ô meu Deus. Não vai prestar não. Não vai não.
O segurança, Andy, entrou novamente pela porta, assustando a nós dois.
–– Não temos provas na fita –– ele disse amargurado. Chora, neném. –– Então vocês podem ir.
Sério? Simples assim? Harry se levantou com um sorriso vitorioso no rosto e eu levantei logo em seguida.
–– Um “desculpa pelo incomodo” caíria bem –– desafiou o segurança.
–– Harry, não abusa. Vai andando, vai. –– Eu o empurrei para fora daquela maldita sala.
–– Não acha melhor ligar pra sua prima? Ver se tá tudo bem? –– perguntei olhando o meu reflexo na vitrine da loja de lembrancinhas. Harry parou seu ritual de ajeitar o cabelo pela metade e me encarou, confuso. –– E se ela e Niall estiverem em confusão? Sei lá, nós fomos pegos... Talvez...
–– Ah, isso. –– Harry terminou de arrumar o cabelo. –– Eles estão bem.
–– Como pode ter tanta certeza? –– Eu o encarei. Sua fantasia estava até que bem, uma mancha aqui e ali, mas nenhuma tragédia. A minha não estava assim tão diferente.
–– Se a fita de segurança não nos mostrou, também não mostrou os dois. Eles estavam bem do nosso lado, lembra, sua lerda? –– Harry riu.
–– Nhenhenhe lerda –– resmunguei.
Harry andou até o banco de madeira que tinha ali perto e deu leves tapinhas nele, me chamando. Me sentei ao lado dele.
–– Não vai mandar nem uma mensagem? Umazinha? –– insisti.
Harry rolou os olhos.
–– Vamos reunir todo mundo, então, vai. Tem o número de algum dos caras que a gente conheceu lá no barco?
–– Não, só o do Niall mesmo. E o seu né –– falei sarcástica, lembrando daquela foto ridícula nos contatos.
–– Só tenho esse número estranho que o Louis usou pra me mandar uma sms –– Harry falou enquanto deitava a cabeça nas minhas pernas. Cara, que folgado. Um folgado lindo, mas um folgado.
Todo aquela ideia que eu tinha dos meninos britânicos estava confirmada. Pele pálida, olhos claros, sorriso perfeito e cabelos macios. Aquilo estava sendo uma tortura pra mim.
–– Liga –– encorajei, respirando fundo e fugindo dos meus próprios pensamentos. –– Melhor do que passar o resto da festa só nós dois isolados em um banco.
Harry ergueu as sobrancelhas novamente:
–– Algum problema em passar o resto da festa só comigo, japonesa?
–– Bom... Não... É que... –– , caralho, pare com isso agora mesmo. Respira fundo. 1... 2... 3...
Harry abriu um sorriso enorme. Pronto, já era toda minha sanidade. Merda.
–– Tá se enrolando nas palavras por quê? –– Ele sorria malicioso com aquelas covinhas maravilhosas.
–– Desculpa se eu não falo fluente e me enrolo, Styles. E minha cara fica aqui em cima, não nos meus peitos. –– Eu o empurrei das minhas pernas. ARGH.
Não, ele não se mostrou constrangido nem tirou aquele sorriso estúpido, torto e lindo do rosto.
–– Capitão Styles –– ele corrigiu novamente. PARA, GAROTO, PARA. Não sei o que você tá fazendo pra ser tão... Ugh! Mas pare! Peguei o meu celular, se eu continuasse sozinha ali com o Harry, ou eu acabaria gritando com ele ou acabaríamos nos agarrando em algum canto... Vai ser gostoso assim no inferno. –– Pra quem você tá ligando? –– Harry perguntou curioso. –– Hein? Hein?
–– Shiu, fica quieto. –– eu sorri daquele besta e coloquei minha mão na cara dele, fazendo-o se calar.
–– Ha eo guero abe.
–– Hã?
Ele tirou a minha mão de sua cara e repetiu:
–– Mas eu quero saber, caramba.
–– Pera... Alô?
–– CADÊ A MACONHA? VOLTA PRA CAMA, AMOR. NÃO, NÃO VOCÊ. TÁ, VEM AS DUAS VAI.
–– Harry, cala a boca! –– eu ria. –– É só o Niall, Harry seu idiota.
–– Ah, tá. Desculpa.
–– Onde vocês estão? –– perguntei. –– Como assim não sabe onde ela tá? Quê? Você é idiota, menino? Tá, tá, a gente vai aí. Não, a gente já te encontra. Tchau.
–– Quem ele não sabe onde tá? –– Harry perguntou, agora sério.
–– A sua prima, eles se desentenderam ou sei lá. Liga pro número que você tem aí, vai, antes que aconteça alguma merda.
Harry se levantou impaciente e pegou o celular no bolso de trás da calça:
–– Quem é você? –– Belo jeito de dizer “olá”, hein. Eu comecei a rir e a tensão no rosto dele se desfez, ele começou a sorrir. –– Hã? Zayn? Pera, eu não sei quem é você. Ah, ok. Tá... Tá... Agora eu lembro de você, calma. Reúne todo mundo no... –– Harry desencostou o celular do ouvido. –– Onde o Niall tá?
–– Sorveteria –– respondi.
–– Reúne todo mundo na sorveteria. Não sei que sorveteria, cara. Só reúne todo mundo... Harry, sou o Harry... Isso, o pirata... Ok, tchau. Ah, e não é a sorveteria da praça de alimentação... Tchau.
–– E então? –– perguntei.
–– Um tal de Zayn vai levar todo mundo.
Olha, eu vou acabar atirando em alguém se o Harry não parar. Porque desse jeito não tá dando, sério... N-ã-o d-á.
Estávamos numa boa, indo pra bendita sorveteria, quando OMG do Usher e do will.i.am começou a tocar e um sorriso nada confiável apareceu no rosto do Harry.
Baby let me love you down, there’s so many ways to love ya
Baby I can break you down, there’s so many ways to love ya
–– Não se atreva –– eu disse rindo.
Ya got me like: Oh, my gosh, I’m so in love
I found you finally, it make me want to say
Eu sabia que ele não ia se segurar por muito tempo... Harry começou a cantar baixinho os “oh oh oh oh oh” da música. Pelo menos ele fazia caretas engraçadas, me deixando mais à vontade. Mas esse ar descontraído também não durou... Harry começou a cantar em bom tom, com aquela voz maravilhosa, olhando pra mim e sorrindo travesso:
I fell in love with shawty when I seen her on the dance floor
She was dancing sexy, po-po-popping, dropping, dropping low
Fiquei apenas rindo sem-graça e olhando pro chão. Quer dizer, tentando olhar pro chão, e não pra aqueles olhos verdes:
Never ever has a lady, hit me on the first sight
This was something special, this was just like dynamite
Harry ficou de frente pra mim, andando de costas, e pegou uma das minhas mãos:
Honey got a booty like pow, pow, pow
Honey got some boob… some eyes like wow, oh, wow
Eu gargalhei da mudança na letra. Eyes no lugar de boobies. Harry fez uma careta como se desaprovasse o fato de eu não estar dançando com ele, mas continuou cantando e fazendo idiotices:
Girl you know I’m loving your, loving your style
Ele fez com que eu desse uma voltinha no mesmo lugar:
Check, check, check, chek, che-checking you out like
Oh, she got it all
Pelo menos Harry não estava fazendo aquilo pra me seduzir... Acho. Ele se movimentava e cantava tranquilo, preocupado mais em me fazer rir do que em tornar aquilo um jogo de sedução:
Sexy from her head to toes
And I want it all, and all, and all
Baby let me love you down
Ah, não, de novo não… Droga, tira essas mãos fortes e quentes de mim, Styles!
Zayn’s pov:
Por fim, eu improvisei uma fantasia de mágico. Até que deu certo, mas Waliyha não ficou muito feliz por saber que eu iria à festa com ela. Por isso ela fez questão de se misturar com o filho da puta do Josh na multidão, e perdi os dois de vista numa montanha russa.
Liam tinha dito algo sobre vir também pra ficar de olho na e um carinha metido à besta do teatro da , então me encontrei com eles.
Ok. Quais eram as chances de eu ter reeencontrado ali na fila do Castelo do Terror? Calma, essa não é a parte mais assustadora. A parte mais assustadora é que ela conhecia o Louis. Não me pergunte da onde.
Liam me contou que esse era o metido à besta. Acho que é só o lado superprotetor do Liam aflorando, Louis é um cara legal.
Foi só eu olhar naqueles olhos amendoados e misteriosos da que todas as lembranças do pub, antes confusas, me acertaram em cheio. Eu, puto da vida, bebendo no balcão, esbarro com ela (essa parte continua uma bagunça na minha cabeça). Então ela simplesmente me chama pra ser seu namorado por uma noite e me beija. E que beijo... Ok, foco, Malik. Foi só por uma noite. E foi pra fazer ciúmes no outro cara. E então eu me juntei a outros adolescentes bêbados pra curtir o aniversário de sei lá quem. Uma noite bem normal a minha, hein?
Depois do Castelo do Terror e o meu quase infarte lá dentro, e do barco viking... Eu, , Liam e fomos para a roda gigante (finalmente um brinquedo mais tranquilo).
Coloquei os saltos dela ao meu lado no banco e ela parecia bem confortável com os meus sapatos, apesar do frio que fazia ali em cima. suspirou enquanto olhava pro lago, o braço apoiado na beirada da cabine e sua cabeça deitada sobre ele.
–– Você tá bem? –– perguntei, preocupado.
Ela continuou na mesma posição.
–– Só pensando.
–– Hm... –– esfreguei minhas mãos uma na outra. Por que eu tô tão nervoso com isso?! –– Você gosta mesmo dele?
–– Oi? –– agora ela me olhou.
–– Do Olly, aquele idiota.
Ela me examinou pelo canto do olho, sem sair daquela posição.
–– Por que você tá chamando ele de idiota? Quer dizer, ele é um idiota... Mas vocês mal conversaram nem nada.
–– Porque ele tem namorada e não dá valor pra ela, não percebeu isso na festa não?
Ela deu de ombros e voltou seu olhar pro lago.
–– Um pouco, mas eu já sabia que ele é um idiota. –– ela riu.
Tentei não me meter mais ainda no que não era da minha conta, então me lembrei daquele gosto de menta que eu provei àquela noite e a pergunta saiu quase de imediato:
–– Gosta? –– insisti.
–– Não.
MALIK, PARA! PORRA, EU ME ODEIO. PARA COM ISSO.
–– Então pra que fez ciúmes nele? –– EU DISSE PRA PARAR, ARGHHH.
–– Eu não tava fazendo ciúmes nele, eu não quero ele de volta. –– uou, de volta? Eles já ficaram? Respira fundo. –– Era só questão de orgulho.
Assenti.
–– Então quis mostrar que você tá bem sem ele. Isso significa que você ainda não superou.
Isso, Malik, seu completo idiota. Eu tenho que deixar de ser tão possessivo e ciumento, sério, eu nem conheco ela direito!
–– Superei, sim! Droga.
–– Calma, desculpa, não tá mais aqui quem falou. –– levantei as mãos. Ela sorriu.
–– A gente pode não falar disso? Eu não tô clima. Aliás, eu nunca tô com clima pro assunto Olly.
–– Sem problemas. Quer falar do que, então?
Ela ficou pensativa por um segundo, mas já estava mais calma.
–– Sua tatuagem –– disse animada, agora se movendo e se virando completamente pra mim.
–– Qual delas?
–– Tem mais que uma? –– eu ri e puxei as mangas do paletó.
–– Tem a fantail na nuca que você já viu. Yin Yang bem aqui no pulso, uma carta de baralho na costela, um coração, a frase em...
–– Pera, pera, parou. Tá pensando que você é outdoor, é? –– debochou. –– Coração? Por que um coração?
Dei de ombros:
–– São bonitinhos. –– Ela gargalhou e eu abri um sorriso enorme por ter conseguido distrair a cabeça dela daquele idiota. –– Ah, lembrei! Olha!
Mostrei no meu celular a foto no facebook de todo mundo no pub. foi passando por todas elas, uma mais ridícula que a outra, e nós quase morríamos sem ar de tanto rir.
suja xingando alguém que esbarrou nela com uma jarra cheia de cerveja, eu tonto com a expressão de quem teve a cara esfregada na parede, nós dois tentando se passar por um casal fofinho e não conseguindo segurar o riso, posando e eu fazendo uma careta horrível atrás dela. Encontrei uma realmente engraçada e zuada, e fui mostrar pro Liam. Mas... Hã... Acho que não foi uma boa ideia, afinal... Tipo... QUE CENA ERA AQUELA?!
Liam e abraçadinhos, olhando um nos olhos do outro, há centímetros de se beijar. Mas eu e a droga da minha boca grande interrompemos o momento. Foi sem querer, sério! Mas depois disso Liam não pode mais negar que não tem nada rolando entre os dois. Simplesmente não pode.
–– Até que essa não tá tão ruim assim –– comentou depois de umas trinta fotos.
–– E eu nem tô com cara de bêbado.
Eram todos envolta da mesa do pub fazendo caretas fofas. Eu abraçando de lado e ela fazendo um “V” com os dedos da mão. Realmente, nem pareciam os bêbados ridículos de minutos atrás.
–– Pera... –– atendi o telefone. –– Como assim quem sou eu? Zayn Malik. É, Zayn, caramba. Paletó, cartola, descalço... Sorveteria? Que sorveteria? PERA, QUEM É VOCÊ, MEU DEUS?! Ah, o dos cachos que o Louis ficou apressando? Tá, vou ver o que eu posso fazer... Tchau.
–– Quem era? –– Liam perguntou assustado.
–– Um tal de Harry, amigo do Louis –– respondi e a expressão de se iluminou. Acho que ela conhecia o Harry ainda melhor do que conhecia o Louis. Malik, deixa a menina em paz, seu ciumento do caralho. –– Ele quer que a gente reúna todo mundo numa sorveteria.
Se todo mundo ia se encontrar, não seríamos nós os únicos a continuar na roda gigante, certo? Descemos na volta seguinte, mas a estabanada da tropeçou no degrau e caiu com tudo no chão.
–– Ai ai ai ai ai ai meu tornozelooo merda, merda, merda, merda. –– ela se contorcia e eu me agachei ao lado dela.
–– Calma, não se mexe... NÃO SE MEXE, !
–– Não toca, Malik, não... DROGA, EU DISSE PRA NÃO TOCAR.
–– VOCÊ TÁ ME ASSUSTANDO, PARA DE GRITAR.
–– PARA VOCÊ DE GRITAR, ESSA PORRA TÁ DOENDO.
–– PARA OS DOIS, suas bichas loucas. –– deu um tapa na minha cabeça. Super delicada.
–– Consegue andar? –– Liam perguntou, se agachando ao nosso lado também.
–– Não sei –– ela respondeu, abaixando a meia pra nós vermos o estrago.
–– NOSSA, QUE HORROR! –– eu gritei, exagerando e zuando. Na verdade só tava vermelhinho.
–– O QUÊ? TÁ MUITO FEIO? –– ficou desesperada, entortando a cabeça pra tentar ver. Liam quase morria sem ar de tanto rir do meu lado.
–– Nossa, tá horrível, olha... –– eu fingi que ia tocar, desistindo no meio da caminho. –– Credo. Isso pode ser contagioso até –– debochei.
Ela entendeu o exagero.
–– Desde quando você é médico, seu besta?
–– Dr. House se apresentando, prazer.
tentou se levantar, mas seu tornozelo falhou e ela caiu logo em seguida.
–– Bosta. –– bufou.
–– Deixa que eu te levo, vai. –– passei meus braços por debaixo das pernas dela e das costas e a ergui do chão.
–– Quando é que você vai parar de fazer favores pra mim? –– ela disse irritada. Ué, não entendi... Ela que chega me pedindo pra ser namorado dela por uma noite, eu ajudo ela com os saltos, ajudo ela com o tornozelo torcido e ela ainda reclama?! –– Eu sei me virar, ok?
Ah, certo, complexo de independência. Entendi tudo.
–– Então, tá, desce do meu colo e se vira pra chegar na sorveteria.
Ela fez uma careta.
–– Ok, esse é seu último favor. Último, entendeu?
–– Sim, senhora. –– olhei para Liam e e os dois faziam caretas maliciosas pra mim. Cocei a garganta. –– Então, né, temos que procurar a sorveteria, sabe.
Não fazia taaaanto tempo assim que eu estava em Doncaster, que eu tinha saído de Bradford. Mas eu e Liam caímos na mesma turma de física da Hall Cross e nos aproximamos rápido. Ele me conhecia bem, deve saber como eu estou me sentindo com tudo isso.
Quer dizer, não totalmente porque ele ainda não ficou sabendo do episódio no pub... Assim que ele souber de todo aquele rolo, vai ter certeza que eu estou um tanto... Obcecado. Acho que essa é a palavra certa, sei lá. Mas esse sou eu, caramba, me encanto fácil e a achei muito gost... Atraente. É, atraente e... E engraçada também. Então por que não tentar? Ah, é, porque eu sou um ciúmento possessivo do inferno e vou acabar estragando tudo. Eu fiz um favor pra ela e pronto, acabou. Tenho que colocar isso na minha cabeça.
Encontramos o Harry, a brazileira e o loiro que esqueci o nome conversando logo do lado da sorveteria pequena. Louis e se aproximavam deles também, então acho que já tá todo mundo aqui.
–– E então, pessoal! Como foi a roda gigante? –– Louis perguntou pra nós quatro.
–– A vista é bem bonita, mas eu acabei estourando o meu pé –– disse enquanto eu a sentava na calçada.
–– Ain, que masoquista, eu hein. Agora tô com medo de você –– ele debochou, dando uns dois passos pra longe dela. se aproximou dele e de pra roubar um pouco de algodão doce.
–– Não, não é isso, você não entendeu... –– começou a protestar.
–– Horrível isso, né, Louis –– brinquei também. –– Uma pessoa se machucar desse jeito, você tem que procurar ajuda, , masoquismo não é legal não.
–– Hoje é dia de implicar com a , é isso mesmo? –– ela bufou e cruzou os braços abaixo dos peitos. Não que eu tivesse olhado pra eles, é que... Hã... Deixa pra lá.
, Harry e o loiro se aproximaram de nós.
–– Não tá faltando alguém? –– Liam perguntou de cenho franzido. Todos se entreolharam.
–– Tinha uma menina de policial, não tinha? –– também questionou, diretamente pro Harry.
–– Sim, a . Mas ela... Hã... –– ele encarou o loiro com uma cara de poucos amigos. –– Se perdeu, a gente vai até ela agora. Se não se importarem, claro.
Demos de ombros e seguimos o Harry.
Durante todo o caminho tentei encontrar Waliyha e o “namoradinho” podre dela, mas não os encontrei em lugar algum. Isso já começava a me irritar. Vou ter uma conversa séria com ela e nossa mãe. Não, nossa mãe não. Trisha vai ficar do lado da Waliyha. O jeito é falar com o papai. Aí que fode a coisa toda. YES.
Encontramos um cara alto e corpulento, bem alterado, vestia algo como uma toga e levava um tridente consigo. Acho que ele esperava por nós, porque nos fitava desde que entramos no campo de visão dele.
–– Hey, tio –– Harry cumprimentou o cara.
–– Fala, Sr. Pão! –– Louis fez o mesmo, esticando a mão para um High Five. Hã? –– Cadê a ?
O tal ficou confuso:
–– Pensei que estivesse com vocês, não está?
Nós nos entreolhamos, a garota tinha se perdido completamente? Num parque cheio de mapas? Sério, cara?
–– Nós... Ela deve estar comendo alguma coisa ou em algum brinquedo, a gente vai encontrar –– Harry falou tentando acalmar mais a si mesmo do que ao .
Harry realmente quis sair e procurar por ela. Mas nós o fizemos perceber que naquele parque gigante seria praticamente impossível. Tentamos o telefone dela, mas estava desligado. Louis disse que o melhor a fazer seria esfriar a cabeça, então ele nos guiou pra algum outro brinquedo que não sabíamos qual era.
Louis, Harry e se entreolhavam o tempo todo. Eles ainda estavam um tanto preocupados e desconfiados. O loiro estava um tanto nervoso e elétrico, olhando pra todos os lados com medo. e Liam continuavam naquela amizade colorida do caralho que tá começando a ME deixar confuso, e a brazileira conversava entusiasmada com (acho que as duas tinham acabado de se falar pela primeira vez, já que contavam um pouco do gosto de cada uma). ainda se apoiava no meu ombro, mancando bastante.
Chegamos à entrada do brinquedo que Louis estava procurando. Todos nós o encaramos, sérios:
–– Tá de brincadeira, né? –– falou o que todos nós estávamos pensando.
–– Não, isso vai ajudar a esfriar a cabeça de todos vocês. Harry precisa para de se preocupar e a de se tacar no chão. Vai fazer bem pra todo mundo!
–– Mas nem fila esse brinquedo tem, ninguém quer entrar nele de tão ruim que deve ser. Aliás, NÃO TEM NINGUÉM NESSA PARTE DO PARQUE. –– Harry exclamou, incrédulo.
–– Quer dizer que se aquele bezouro estranho lá é o único que gosta de rolar merda, ele tem que deixar de rolar? Nada disso, defenda seus gostos, homem!
–– Meus Deus, que que você tá dizendo, Louis? –– Agora eu estava incrédulo.
–– Ele tá dizendo que... Somos bezouros que gostam de merda... –– estava pensativa, como se tentasse decifrar um código. Mas, bem... Acho que esse cara fumou uma ou duas ou todas. Entender ele vai ser difícil mesmo.
–– Frangotes, vamos logo, vai. –– Ele começou a empurrar um por um. Quer dizer, menos Niall porque o garoto sumiu.
Sim, nós entramos no brinquedo pra ter um passeio de barco pelo Túnel Feliz dos Anões Dourados. Que – porra – é – essa?
’s pov:
Quando é que minha intuição vai falhar? Ah, é. Nunca.
Me levantei e saí do banheiro imundo, procurando algum lugar vazio pra pensar e respirar. Pessoas felizes me irritam, não tô afim de olhar pras cara de bobo delas. Eu não tinha feito nada de errado. Fui uma pessoa amigável, o ajudei com a bebida, fizemos aquela guerra de comida, nos divertimos na cabine de fotos e tudo o mais. E, pensando nisso... Parecia até mesmo que as fotos que ficaram comigo pesavam mais no bolso da calça.
Eu estava realmente MUITO incomodada por não o entender. PORRA, de um segundo pro outro o cara simplesmente decide que eu tenho que sair da frente dele? Que merda.
Definitivamente seria diferente se Louis, Harry ou me dissessem aquilo. Eu os conheço direito, e há anos. Seria terrível. Mas eu só tinha visto Niall duas vezes em toda a minha vida. Ele não é realmente importante... Mas ainda assim é. Entende? Tá, não.
E não é que eu me abale muito fácil, mas eu sou do tipo de pessoa que se incomoda com certos comentários. Sempre dou importância a coisas pequenas, e a grosseria nas palavras de Niall me atingiu. Eu não conseguia mais parar de pensar qual era o problema comigo. Porque se eu não fiz nada que o irritasse, obviamente o problema era eu.
Não, eu não tava chorando. Emburrada, apenas. Emburrada e puta da vida. Fiquei dando voltas pelo estacionamento, falando comigo mesma e gesticulando. Uma idiota no meio de um estacionamento falando sozinha... Eu não me surpreenderia se uma ambulância do manicômio chegasse daqui a pouco.
–– Hm... Oi. –– aquele sotaque irlandês soou logo atrás de mim. E por incrível que pareça, minha única vontade era de gritar com ele.
–– Pensei que não quisesse mais me ver. –– eu me sentei pesadamente no chão frio, encarando o concreto.
–– Você não entenderia.
–– Então explica –– o desafiei. Acha mesmo que essa desculpa de “você não entenderia” vai colar, Horan? Só pra se safar de explicar o que foi que aconteceu? Não, hoje não. Não comigo.
–– Não... Dá. –– bufou. –– Eu... Posso ficar aqui com você?
–– Não sou dona do lugar e a vida é sua, você faz o que você quiser.
Ele se sentou do meu lado. Merda.
–– Não precisa me tratar desse jeito, .
Oi? Como?
–– Então você pode perder o controle e me mandar pastar enquanto eu tenho que te receber sempre com um sorriso na cara? –– perguntei, incrédula. –– Sério?
–– Já disse que você não entende, droga!
Respirei fundo, tentando manter a calma. Não exploda, , não exploda.
–– Então eu não entendo e você não me explica. Certo. Maravilha. Onde estão os outros?
–– Louis os levou para o túnel dos gnomos, elfos, duendes... Sei lá. Algo do tipo.
–– Então quer dizer que a principal atração não vai estar lá? –– um sorriso surgiu involuntariamente no canto do meu rosto e eu precisei dizer aquilo. Na verdade a minha boca grande que disparou as palavras como sempre.
–– Hã? –– ele juntou as sobrancelhas numa expressão confusa.
–– Túnel dos gnomos, duendes, elfos... Mas nenhum leprechaun.
Ele ficou me examinando por alguns segundos, desconfiado. Calma, criatura, eu não vou te condenar e te botar numa forca... Aliás, eu não tenho nenhuma forca, infelizmente.
Quando Niall finalmente percebeu que eu não estava sendo irônica ou algo assim, começou a rir.
–– Se nós voltarmos vai ter um leprechaun. Um pouco atrasado, mas vai ter. –– ele se levantou e estendeu a mão. Hesitei. Então era isso? De repente, estávamos de boa?
–– Então... Vamos para o túnel... Assim... Perto um do outro? –– perguntei.
Niall deu de ombros. Mas seus olhos estavam um tanto preocupados e nervosos:
–– É, acho que é isso. Se você me desculpar, é claro.
Peguei em sua mão e ele me puxou.
–– Não precisamos disso. Você disse que eu não entenderia... E eu sou mesmo cabeça dura. Só não faça isso de novo. –– Cutuquei o ombro dele como se fosse uma bronca séria, mas mantive meu tom de brincadeira. –– Nunca mais, ouviu?
–– Não farei, . Não farei.
Sim, então era isso mesmo. Eu ainda não o entendia, mas ele estava se esforçando e eu tinha que considerar.
–– Niall, tô com fome. –– abracei a minha barriga.
Estávamos no meio do caminho para encontrar eles. Na verdade, acho que estávamos porque eu não sabia onde ficava o tal túnel, mas presumi que fosse na parte infantil.
Ele se pôs a rir de mim:
–– Diga uma novidade, senhora “estou de regime”.
–– Olha, novidade eu não tenho, mas tenho certeza que sua fome é ainda maior que a minha.
–– É, isso eu não posso negar. E então –– Niall olhou para os lados ––, o que quer pra comer?
–– Sei lá, não sei, qualquer coisa.
–– Como não sabe? A fome é sua, oras.
Revirei os olhos:
–– Por acaso você sabe o que quer?
Niall parou para pensar por um longo tempo, olhando para todas as barracas atentamente.
–– Bom... Tem sorvete. E pipoca. E espetinho. E chocolate. E...
–– VIU! Você também não sabe! –– apontei o dedo no rosto dele.
–– E se comermos algo irlandês, hein? Em minha homenagem.
–– Sua homenagem? Quem você acha que é pra ter homenagem? –– debochei rindo, arrancando gargalhadas dele também. –– Certo. Algo irlandês, mas nada de cervejas porque não tô afim de te ouvir vomitando de novo.
Ele riu mais um pouco:
–– Então teremos algo irlandês para o jantar, já que você fez o favor de destruir a praça de alimentação. –– ele sorriu travesso, tirando dinheiro do bolso. –– Que tal batatas fritas com bastante queijo?
–– Hã? E o que que tem de irlandês nisso?
–– Batatas, batatas, batatas. Batatas hoje, batatas amanhã, batatas pra sempre. Entendeu?
Eu ri:
–– Certo, batatas então.
–– Mas primeiro, você tem que dizer que eu sou irlandês mais legal que você já conheceu.
–– Niall, você é o único irlandês que eu conheço.
–– Então finge que conheceu a Irlanda inteira, e diz que eu sou o mais legal.
–– Minha mãe me ensinou a não mentir, mas o meu jantar depende disso. Então, sim, você é o irlandês mais legal que já conheci.
–– Puft, como se eu já não soubesse disso. Agora licença que o irlandês mais lindo tá passando. –– ele me empurrou de leve e desfilou rebolando até a barraca.
–– O irlandês mais afeminado, você quis dizer. –– eu o alcancei.
–– Não zombe de um leprechaun, , não faça isso.
Niall gastou suas últimas notas em um balde enorme de batatas, que nós dividimos no caminho para o tal túnel. Nos aproximamos do funcionário jovem e cheio de espinhas que estava operando o brinquedo.
–– Sabe quanto tempo vai levar pra eles saírem? –– Niall perguntou enfiando mais um punhado de batatas na boca.
O cara consultou o relógio de pulso:
–– No máximo, cinco minutos –– ele falou bem monótono.
–– Ok, valeu. –– Niall me puxou pela mão (bem engordurada) para nos sentarmos e esperar nossos colegas bobões.
Essa parte do parque estava meio sombria, era a infantil mesmo. Abandonada, na verdade, afastada de toda a festa. A música que chegava aqui era baixa, então o que predominava era o silêncio. O chão estava sujo com embalagens e panfletos, e os brinquedos desligados. Só algumas luzes acesas. Olhei para o chão e fiquei pensativa. Será que eu tinha mesmo feito uma boa escolha ao aceitar vir pra cá com Niall depois de tudo o que ele me disse?
–– Ainda pensando naquilo? –– Niall acenou na frente do meu rosto, chamando minha atenção.
–– Naquilo o quê? –– perguntei ainda desligada do mundo.
–– Na merda que eu fiz. –– assenti. –– Ok, eu te explico. Não vai fazer diferença alguma mesmo.
Meus olhos devem ter se iluminado:
–– Sério? Vai me contar?
–– É... Sabe o Dan? Aquele que entrou no banheiro com a namorada e tudo o mais?
–– Sei. O que que tem ele?
–– Eu não queria... –– Niall gaguejou. Olhou para os restos de batata no fundo do balde, e continuou falando, mas sem me olhar: –– Não queria que ele me visse com você de novo. Se ele visse, faria o mesmo que faz comigo e com a . Não quero que mais alguém se machuque por algo que é minha culpa, sabe?
Eu fiquei em silêncio. Aquilo não fazia muito sentido pra mim. Especialmente pra mim. Ele me olhou, esperando minha resposta.
–– Você é um idiota, Horan. –– foi tudo o que consegui dizer. –– Eu sempre vejo o Dan no trabalho da minha mãe, Nialler. Não faria diferença alguma se afastar de mim. Se tivesse me dito isso antes nada daquilo teria acontecido.
Niall sorriu fraco e concordou com a cabeça.
–– Então você me entende?
–– Entendo, mas aquilo tudo não fez sentido! Podíamos ter poupado todo esse drama, seu besta.
Ele riu sem graça:
–– É, você tem razão. –– eu não sabia se ria daquele motivo idiota ou brigava com ele. –– Nervosa ainda?
–– Não. Não nervosa. Indignada, eu acho. –– cruzei os braços. –– Minha vontade é de arremessar esse pote pra longe.
Ele se agarrou ao pote.
–– Por tudo o que é mais sagrado, não faça isso.
Eu ri mais uma vez.
–– Ok, eu tô bem. Tô bem. Não vou desperdiçar as batatas.
–– Boa garota. –– ele afagou minha cabeça.
Vimos um barquinho de madeira comprido saindo do túnel com oito adolescentes assustados. Mudos, e assustados. Não era bem essa reação que eu esperava de alguém que sai de um túnel de gnomos.
Eles desceram do barquinho um pouco atordoados e lentos, e nos observaram.
–– Tá... Tá tudo bem com vocês? –– perguntei.
–– Corre. –– Louis disse, segurando o riso.
Louis’ pov:
Como deixam crianças entrar ali? Aquele negócio é, no mínimo, bizarro. Claro que eu também tive uma certa participação... Mas foi sem querer, ok?
Depois que eu e fomos para a tumba, comprei pra “corajosa” (que parecia mais um filhote de pinguim medroso) um algodão doce. Então, nos encontramos com os outros depois que o Liam ligou pra , pedindo pra irmos à sorveteria.
Todos procuramos por , e Harry tava com a pior cara de cu que você possa imaginar. Fiquei insistindo pra ele contar, mas nada. Sempre “Depois, Lou, depois eu te explico”.
Decidi dar uma descontraída naquele clima horrível e arrastei todos para a parte infantil do parque. Eu adoro aquele lugar, sempre me traz boas lembranças, já que eu sou o mais velho de todas as minhas irmãs e sempre as acompanhei.
Assim que entramos na fila (vazia) e o funcionário foi arrumar os lugares e preparar o brinquedo, puxei o Harry e a pra um canto.
–– Certo, Haroldo. Vai me contar agora ou agora?
Ele e se entreolharam:
–– Não olha pra mim não, sei tanto quanto você, Louis –– se defendeu.
–– Ok, ok. Sabem o Niall? O que tá recebendo a brazileira e tal? –– nós assentimos. –– SABEM OU NÃO?!
–– SABEMOS, SABEMOS. CARALHO, RELAXA, HOMEM. –– eu dei um tapa na cara dele.
–– Ai. Valeu, tava precisando. Então, ele e a discutiram e agora ela tá sumida. Se acontecer alguma coisa com ela, eu vou esfregar a cara dele no asfalto, Lou, eu tô avisando.
–– Para com isso, Haroldo. Vai ficar tudo bem e você não vai esfregar a cara de ninguém. Cadê a classe, Styles?
começou a rir:
–– O mais barraqueiro de todos pedindo pro Harry manter a classe? Eu tô ouvindo direito? –– ela riu ainda mais intensamente.
–– Bom... –– pensei no que dizer, mas ela estava certa. –– Dependendo da situação eu até ajudo o Haroldo a espancar ele. –– eu e ele fizemos um Figh Five.
–– Ninguém vai bater em ninguém, ok? –– falou brava. –– A deve estar legal, daqui a pouco ela volta.
A porta do brinquedo abriu e nós nos juntamos aos outros. Eram dois botes, quatro lugares em cada um. Pedi baixinho pro Harry ir no mesmo bote que a e o Payne. Assim eu não teria que aguentar o Liam bufando no meu cangote por causa da baixinha.
Sentei com a nos primeiros lugares do primeiro bote, Zayn e bem atrás de nós. , Liam, e Harry no segundo.
–– Ansiosa pra encontrar a sua família, baixinha? –– zombei.
Ela me fuzilou com o olhar:
–– Vou te empurrar desse bote, Louis, tô te avisando.
Olhei pra água que passava embaixo do bote:
–– Isso aqui deve ser tão raso que não passa dos meus joelhos.
riu escandalosamente de algo que o Zayn disse. Nós dois nos viramos e ficamos a encarando até ela corar e Zayn rir dela.
–– Para, gente! –– ela tampou o rosto, sem graça.
O barco começou a se mover e nós a deixamos em paz. Um monte de vozes chatas começaram a cantarolar um LALALALALA irritante e eu, claro, comecei a cantarolar junto e bem alto pra irritar a .
No começo foi bonitinho e tudo o mais, ficar zuando a com os anóes de plástico que acenavam. Mas eu fiz merda. Ferrei o passeio. Fodi o brinquedo.
–– Olha lá! Aquele tá te chamando, ! –– cutuquei ela.
–– É, e aqueles bambis ali no canto também tão te chamando. Disseram que tão com saudades das loucuras à noite.
Eu comecei a rir desesperdamente.
–– Como você é má! –– eu fiz menção de levantar do bote. –– Depois dessa eu prefiro ir com eles a ficar aqui com voc...
Oops.
Assim que me levantei, o barco se desequilibrou e quase virou, batendo na lateral e arrancando parte do piso de grama falsa onde ficavam os anões. Com o solavanco do bote, eu quase voei e fui parar com os bambis mesmo.
–– LOUIS! –– me segurou, impedindo que eu caísse. Ela me segurava forte pela cintura. Sim, ela pegou na minha cintura. Tem algo estranho rolando no meu estômago, pera. Que porra é essa?
Ela conseguiu me sentar, mas o bote já estava desgovernado e começou a trombar no de trás, dando ainda mais solavancos.
soltou um gritinho agudo e todos olharam pra ela, alarmados. Ela e Zayn seguravam as próprias bocas com expressões de dor. HAHAHAHAHAH ELES TROMBARAM HAHAHAHAHAH QUE FOFO. Sou quase um cupido, só que não.
Harry e tentavam se segurar nas laterais do bote. Liam abraçava forte e sussurrava algo em seu ouvido dela como se ela fosse uma criança. Um sentimento de culpa cresceu dentro de mim, eu sabia que ela tinha agonia de lugares fechados. E agora tava tudo desabando porque eu fodi a bagaça toda. Droga, Louis.
Toda a grama sintética começou a ser arrastada, trazendo pra cima da gente um monte de anões estranhos, bambis, cogumelos e cazinhas de doces.
Não sei como você se sentiria, mas EU não gostei nada nada de ter dez anões caindo em cima de mim enquanto cantarolavam a porra do LALALALALA.
Aí eu me toquei da situação ridícula que criei e comecei a RIR. Sim, rir. Por que eu tenho a merda da mania de levar NADA a sério?
Assim que nós descemos no final, arrancando um monte de fios de cima das nossas cabeças e brinquedinhos de isopor e plástico, saímos correndo pra não entrarmos em encrenca.
Todos ficaram em silêncio me encarando quando paramos.
–– O que aconteceu lá dentro? –– Niall disse, assustado.
–– Eu... Hã... Desculpa, gente –– falei, constrangido. –– Não foi minha intenção.
Liam estava vermelho e um tanto demoníaco:
–– SABE O RISCO QUE A GENTE PASSOU LÁ DENTRO?!
–– Calma, cara... Eu nã...
–– CALMA?! –– eu olhei pra quase suplicante, ela tinha os olhos vermelhos e chorosos. Eu só... Eu não sabia que tudo aquilo aconteceria... –– E SE ALGUÉM CAÍSSE DO BOTE? E SE, SEI LÁ, SE A FIAÇÃO NOS ELETRECUTASSE, HEIN? E SE VOCÊ TIVESSE MATADO ALGUÉM?!
–– Liam, relaxa. Olha o vexame, fala mais baixo. –– segurou no braço dele.
Olhei pra todos os outros.
–– Sabem que não fiz isso por querer, não é? Eu não sabia, eu...
–– Nós sabemos, Louis, ninguém podia prever o que ia acontecer –– disse, recebendo um olhar reprovador de Liam. Zayn também se pronunciou:
–– Liam, ele só tava se divertindo. Todos nós estávamos.
Liam assentiu, mas ainda puto:
–– Vamos embora –– falou alto pra e pra , que o encarou:
–– Já? Não, nós não vamos, não –– ela protestou.
–– Vamos sim, chega de aventuras por hoje. precisa descansar que amanhã um grande dia pra ela. Eu sou a carona dela e você vai comigo.
–– Tem certeza disso, cara? Vai embora agora mesmo? –– Zayn estava um pouco aflito, e eu me sentia cada vez pior.
–– Mas... Mas... –– ainda insistia. –– E se o Louis me levar?
PUTA QUE PARIU. Liam quase ficou demoníaco de novo, mas eu interfiri:
–– É melhor você ir, . Já é tarde, seu irmão sabe o que é melhor pra você.
–– Mas, Louis...
–– Shhhh. –– eu dei um beijo na bochecha dela. –– A gente se vê amanhã.
–– Não temos a noite toda, , vamos –– Liam a apressou.
Liam já terminava de se despedir de todos, mas não me disse tchau e saiu arrastando a , que só teve tempo de acenar pra mim de longe.
–– Louis? –– me observava, eu olhava pro chão.
–– Eu não tô muito bem. Desculpa se te machuquei. Eu não te machuquei, machuquei?
–– Poxa, Lou. –– ela me abraçou forte e o sentimento de culpa sumiu de dentro de mim por um instante. –– Claro que não, eu tô inteirinha, olha. E ainda continuo pequena. Certo? –– ela sorria, tentando me animar.
–– Certo, baixinha. –– sorri fraco.
–– Tira tudo isso da cabeça e não dê ouvidos pro que meu irmão diz. Amanhã é seu dia, você tem que estar ótimo. Vai ser o melhor em cima daquele palco, brilhar como niguém.
–– Sou um vagalume, é? –– ela gargalhou, e o som da sua risada fez a culpa quase sumir por completo.
–– Nem sonhe em ser um vagalume, com essa bunda enorme você cegaria até o sol.
–– Droga, eu gosto de vagalumes. Valeu, baixinha, eu tô bem melhor. Dorme bem, ok?
–– Vou pensar num presente bem legal pra te dar amanhã, tá? –– ela se colocou na ponta dos pés e me deu um beijo no rosto. Andando de costas, indo na direção que Liam seguiu, mas continuou falando: –– Sabe aquelas fãs obcecadas que mandam flores pro camarim? Então.
–– Seja um pouco mais discreta, todo mundo já sabe que você é minha fã número um. Ah, , e eu não curto chocolate amargo.
–– Provavelmente eu sou sua única fã. –– ela riu. –– E quem disse que seria chocolate? Puft.
–– Ei! Você não é não, tá? Tem... Tem a minha mãe também.
–– Uuuuui, a mamãe dele é uma fã. –– ela riu pro alto. –– Só não conta pra ela que eu sou a fã mais dedicada, tá?
–– Minha boca é um túmulo.
A parte “boa” é que ninguém tocou no assunto, e ninguém parecia incomodado com o que havia acontecido. Então o único que surtou mesmo foi só o Liam.
Acho que o fato de a , o Zayn e a não o apoiarem contribuiu pro mal humor dele...
Ver a naquele estado, prestes a romper em choro, me acertou em cheio. Eu estava decidido a conversar com ela amanhã no teatro, esclarecer alguns pontos e me certificar de que ela não guardara nenhum rancor.
Voltamos para a área da balada porque à meia-noite teria queima de fogos e faltavam só uns onze minutos pra começar. Harry disse que tinha conseguido lugares ótimos pra todos nós, no camarim dos artistas que se apresentaram. Acho que ele usou identidade falsa ou sei lá. Não seria muito surpeendente porque.... Poxa, é o Harry.
Subimos algumas escadas e um cara ruivo nos esperava logo na porta do camarim:
–– E aí, Potter! –– ele falou para o Harry.
–– Fala, Weasley. –– Haroldo cumprimentou de volta. Curti os apelidos.
Subimos pro camarim. Se eu já achava a balada um caos, agora era quase o fim do mundo lá embaixo.
conversava com Harry, , Niall e Zayn. Já que o Haroldo não tava mais com cara de bunda, acho que ele e o loiro se acertaram ou sei lá. olhava pra baixo, pro formigueiro de gente, através da parede de vidro.
–– E aí, brazileira? –– me coloquei ao lado dela, olhando pra baixo também. –– , certo?
–– Isso. –– ela sorriu, simpática. –– E você é... Louis? O do teatro de amanhã.
–– Exato. –– cruzei os braços sobre meu peitoral. –– E você e o Harry, hã?
–– O que que tem? –– ela tentou não sorrir.
–– Ele já tá aos seus pés?
Ela riu e balançou a cabeça:
–– Mais ou men... Ah, não sei.
E isso significa que ele deu uns pegas nela. Aprenda com o titio Tomlinson: O Haroldo é o Haroldo, ele não precisa muito mais que suas covinhas e seus cachos. E o cara ainda decide nascer com O dom pra paquera. E... Bom, sem querer ser preconceituoso nem nada... Mas ela é brazileira.
PERA, ELA É BRAZILEIRA. MEU TIME NO FIFA, WOOOOOOW, COMO SÓ FUI REPARAR ISSO AGORA?!
–– Você conhece o Ronaldo? O Neymar? –– ela começou a rir bem alto, acho que foi o jeito que eu disse o nome deles. Nomes complicados, porra. –– Rogério Ceni?
–– Eu não moro em um estádio não, Louis.
–– Ah, mas...
–– Então você conhece o McFLY? Robert Pattinson, Adele, Emma Watson...?
–– Tá, tá... Já entendi... Mas... Nenhumzinho?
–– Nadica.
Frustrado nível infinito. Eu adoro futebol, e... Cara, é o Brazil. Talvez o Brazil nem seja mais o melhor país em questão de qualidade no futebol, mas o amor que os brasileiros sentem por esse esporte é tão... AAAAAAAH contagiante.
–– Você gosta de futebol, certo? –– perguntei.
–– Amo. Mas prefiro o futebol europeu e não sei sambar. Nem todo brazileiro é assim.
–– Que... Estranho pensar assim. E você sabe jogar, né?
–– É, dá pra enganar. –– nós rimos.
–– E se a gente macar um dia pra jogar? E fazer um piquenique ou um churrasco, sei lá –– sugeri. –– Cara, vou jogar futebol com uma brazileira!
Meus olhos deviam estar brilhando. É como se fosse um chocólatra que marcasse de comer chocolate com um sueco. Ok, tenho mesmo que rever minhas comparações.
–– Credo, Louis, nem é nada demais. –– ela riu. –– Mas curti a ideia do piquenique.
–– Ei, Harry –– chamei, e todos se viraram. –– Nós vamos sair semana que vem, ok? Todos nós. Ok.
–– E temos opção? –– riu.
–– Não, eu mando.
–– E pra onde? –– Zayn perguntou.
–– Sei lá, alguma praça. Vocês gostam de futebol? –– perguntei quase diretamente pro Zayn e pro Niall, porque já sei que o Harry gosta um pouco.
–– Eu amo. –– os olhos de Niall brilharam.
–– É, eu também curto um pouquinho –– Zayn disse.
–– Amo tudo relacionado ao Brazil, Lou. –– PUFT, HARRY. AGORA ELE FORÇOU A BARRA. Aposto que ele nem sabe soletrar Brazil direito.
–– Sério? –– perguntou com a expressão desafiadora. –– Então, de que músicas você gosta?
–– Eu, hã... A música brazileira... Ah, os jogadores são muito bons.
Eu até tentei, mas não consegui segurar a gargalhada. Porra, Haroldo, sério? Até eu que só jogo videogame conheço algumas. Não sei o nome delas, mas conheço né.
Harry’s pov:
Eu estava conversando com a , o Zayn, o Niall e a . Mas saiba que eu só tava conversando de boa porque o Niall e ela tinham se acertado. Pelo menos foi o que deu a entender. Então, tive a infeliz ideia de tentar impressionar a falando do Brazil. Foi pedir pra me foder.
Sei praticamente nada do lugar e fui falar o que não devia. É, essa eu mereci.
A queima de fogos foi linda, principalmente porque não tinha todo aquele barulho insuportável. Não do camarim.
Ed é amigo da família, sempre pensou em seguir o ramo da música e tinha até mesmo sua pequena base de fãs se estabilizando agora. Eu adorava a ideia de chegar aonde ele chegou e, claro, ir muito além. Espero que as coisas deem certo pra White Eskimo.
Depois dos fogos decidimos voltar pra casa. Claro que passamos por aquela situação constrangedora de nossas mães e pais se encontrando e querendo tirar fotos e tudo o mais. Louis nos deu carona. Digo... Pra mim, pra e .
Nós dois ficamos nos bancos da frente e as duas nos de trás. Estava um silêncio muito constrangedor, mas pelo menos eu mexia no celular pra descontrair. Louis pigarreou:
–– Acho que a dona do pé torcido me deve um “obrigada”.
Nós nos entreolhamos.
–– Por...?
–– Por eu ter te desencalhado hoje, amore.
Parecia que a tinha visto um bicho papão de tão assustada. E, pera, eu não tava muito diferente. LOUIS CATOU A ? QUÊ?
–– Do que você tá falando, Lou? –– nem ela tava sabendo.
–– Seu beijo no túnel. Desastroso, mas ainda assim um beijo. –– ele olhava pra ela pelo retrovisor. Ele tava com aquela expressão arteira e criançona estampada no rosto. –– É que ela e o Zayn acabaram se trombando no meio da confusão. –– ele me explicou.
–– Aaaaah tá. –– começou a rir, aliviada. –– Você anda buscando seus clientes em lugares cada vez mais estranhos, hein, . Não é pra sair da esquina, não.
–– Cê olha aqui, garota –– debochou. –– Foi você que encontrou o loiro em um açougue ou você acha que já esqueci essa história?
Agora foi a vez do Louis e da rirem e ficar séria. E não, eu não sei como eu me sentia diante daquela situação. Ou como eu deveria estar.
–– Somos só amigos, . –– ela corou e olhou pela janela. –– Só nos vimos duas vezes. Então, não. Não tem nada a ver.
–– E daí? Até aí eu também só vi o Zayn duas vezes.
–– Então você admite que ele é teu cliente?! HÁ! –– começou a rir. apenas sorriu constrangida:
–– Vai se foder, Xana.
Eu quase deixei o celular cair. XANA, VEI. XANA. Eu não sabia se ria ou se perguntava pela milésima vez o motivo daquele apelido sem sentido.
–– Harry Styles, você é o cara mais pervertido que conheço na face da Terra e... Ok, na face de Doncaster... E mesmo assim tem um ataque de risos quando ouve “xana”?
–– PARA, LOUIS! –– minha barriga doía, eu batia palmas descontroladamente. –– AI, DROGA. NÃO FALEM MAIS ISSO, POR FAVOR.
ergueu as mãos como estivesse se rendendo:
–– Não tá mais aqui quem falou.
–– E a sua brazileira, Haroldo? –– Louis perguntou.
–– Minha brazileira? Hã? Mas... Mas não aconteceu nada demais. –– dei de ombros, olhando pra ele do tipo “cala a boca, depois eu te explico”. Aliás, garotas ajudam garotas e tínhamos naquele exato momento duas ali, ouvindo a conversa.
Lou me encarou por muito tempo até conseguir perceber o que quis dizer:
–– Ah, certo.
–– Pronto, meninas! Entregues. –– Louis virou o rosto para observá-las nos bancos de trás. –– Quero minha gorjeta.
–– Fica por conta do Harry. –– zombou, abriu a porta e saiu do carro.
–– Ouviu, né, Haroldo? Tá me devendo vinte libras –– Louis debochou.
–– Oi? Uma gorjeta de vinte libras? –– eu ri. –– Fica por conta da . –– ergui as mãos em sinal de rendição como ela tinha feito.
–– Bando de caloteiro dos infernos. OUVIU NÉ ?! –– Louis gritou com a cabeça pra fora do carro, mas mesmo assim me fez pular no assento. Qual o problema desse cara que só grita? –– TÁ ME DEVENDO EM DUAS VEZES AGORA.
Ela colocou a cabeça pra dentro do carro:
–– Fica por conta do Zayn, então. Tchau! –– e saiu correndo.
–– E então, Haroldo... Vai ou não me contar da brazileira?
–– Já te disse, Lou. Não aconteceu. Quer dizer... Eu ainda não desisti dela, mas não consegui nada essa noite.
–– Então vai conseguir amanhã, já que você até a chamou pra ir ao teatro. Ou pensa que não sei disso, putinho? –– ele piscou pra mim.
––... Éééé, bom... Sim, eu chamei. –– hesitei entre apertar o botão “enviar” ou não do celular. Primeiro eu precisava ter certeza de uma coisa: –– Lou, me empresta seu carro amanhã?
–– Como é que é? –– ele perguntou incrédulo. –– Isso é uma piada, certo?
–– Não, é sério. Eu disse pra que buscaria ela em casa. Não posso aparecer lá de ônibus ou táxi, né?
–– E vai dizer o que pra ela? Que o carro é seu?
–– É, ué.
–– Sei não. Já tá me devendo a gorjeta, e agora ficar rodando por aí com o meu carro... Como vou saber que merda vocês vão fazer aqui dentro? Quero banco nenhum sujo, mocinho.
Eu ri, ri e ri mais um pouco:
–– Primeiro... Você acabou de inventar esse negócio de gorjeta. Aquieta o rabo. Segundo... Posso ou não posso, Louis?
–– Vai cuidar bem do meu carro, certo? –– assenti. –– Tá, então pode ser. –– Louis deu de ombros. –– Eu peço pra mamãe Jay me levar amanhã.
–– Valeu, cara.
“Enviar”.
Nos vemos amanhã. Certo, japa? Boa noite x
Deixei Louis na casa dele na noite passada e fiquei com o carro. Depois de passar uma tarde com a minha banda, passei na casa da (que me obrigou a trazê-la) e cá estamos, na calçada da casa dos Horan. Acho que ela só não foi com a pro teatro porque eu passaria aqui na casa do loiro.
–– , espera –– eu disse, fazendo ela se voltar pra mim. –– Eu... Hã...
––... Qual o problema? –– ela ainda tinha a mão na porta do carro, prestes a abri-la, atravessar o gramado e entrar na casa dos Horan.
Eu estava com medo por ela. Pode não aparentar na maioria das vezes, mas se incomoda até demais com a opinião dos outros. Bem, talvez seja de família isso. Semprem me atingem com certos comentários. E o episódio do parque tinha me preocupado.
–– O tio me pediu uma coisa hoje –– menti. –– Não que eu seja a favor disso, mas foi o que ele pediu, então...
–– Desembucha.
–– Ele pediu pra eu ficar de olho em você e nesse loiro. Então... Só não me dê motivos e eu não conto nada pra ele.
Ela arqueou as sobrancelhas:
–– Tá de brincadeira, né? –– riu e abriu a porta do carro: –– É sempre você que apronta, Harry. E meu pai nunca se preocupou com essas coisas.
abriu a porta e saiu saltitando pra entrada da casa dos Horan. Bom saber que meu plano deu em merda nenhuma. Valeu, valeu.
Desliguei o carro e fiz o mesmo caminho que ela, atravessando o gramado e tocando a campainha. Nós dois esperamos que alguém abrisse a porta, mas nada.
–– Toco de novo? –– perguntei. deu de ombros e se balançou nos calcanhares.
A porta abriu:
–– Oi! Desculpa a demora. –– apareceu com o pano em mãos. –– Tivemos um... Pequeno acidente. Entra.
Nós dois a seguimos até a cozinha, ela estava um pouco apressada e afobada. Nem tive espaço pra cumprimentá-la direito.
–– Tá tudo em ordem? –– perguntei preocupado enquanto entrávamos na cozinha.
–– Ah, tá sim, eu só tô um pouco atrasada, nem sei o que vou vestir ainda. –– ela foi até a pia.
–– Não precisa ter pressa, nós estamos bem adiantados até –– assegurei.
A folgada da , que já tinha até sentado no balcão, olhou em volta e se virou pra , que estava de costas pra nós:
–– O Niall vai, né?
–– Sim, vai... Mas digamos que o estômago indestrutível do irlandês teve uma recaída. –– segurou o riso. –– Ele tá no banheiro dos fundos, na... Hã, garagem. Se quiser levar chá pra ele ou algo assim...
–– Onde ficam as coisas? –– saiu de cima do balcão, acho que ela e tinham se conhecido bem no dia anterior. Elas duas estavam na maior naturalidade e já se sentia em casa.
falou pra ela onde estavam as coisas, e foi procurar o Niall. Era a minha deixa, estávamos sozinhos.
–– Lavando louça? –– me aproximei dela.
–– Não, não. –– ela riu baixinho e me examinou com uma expressão arteira: –– Tô fazendo carinho no prato, olha só como ele é bonitinho.
–– Besta! –– eu ri. –– Eu até ia te ajudar, mas agora se vira.
–– Ahhh não! –– ela olhou pra mim por cima do ombro. –– Por favorzinho, vai, preciso me trocar logo. –– fez biquinho.
–– Tá, tá bom, só porque sou um cara muito legal –– falei pegando um dos pratos.
–– Pfft, legal, até parece –– debochou.
–– O quê? Não sou?
–– Não faz pergunta difícil. Fica quietinho e lava isso aí, vai –– debochou de novo e eu a empurrei de leve com o cotovelo. –– Ah, ontem eu e o Niall conversamos com o Bobby sobre estudar na Hayfield.
–– Sério? E o que ele disse?
–– Ele gostou de saber que estamos nos encaixando e “animados pra começar a estudar”. –– fez aspas no ar com os dedos ensaboados e rimos. –– Então nós fizemos algumas pesquisas, entramos em contato, e vamos até lá amanhã conhecer o colégio.
–– Isso é ótimo! –– sorri sinceramente, ter a lá seria bom. Não tô falando isso só porque ela é gostosa e brazileira, ela é legal também. –– E em que série vocês estão?
Ela parou por um instante pra pensar:
–– Niall no terceiro, acho, e eu no segundo.
Dei de ombros:
–– Pelo menos vou te ver nos intervalos, isso já conta. Que horas vocês vão amanhã?
–– À tarde, depois do horário de aula. Mas, sabe, não sei se quero estudar lá –– ela disse num tom brincalhão.
–– E por que não? –– respondi no mesmo tom.
–– Colegios já são um inferno naturalmente. E com você lá, então... Hm, sei não.
–– Ei! –– joguei um pouquinho de água nela.
–– Harry! –– ela protestou de boca aberta. –– Seu... Seu... –– encheu a mão de água e jogou em mim também.
–– Então é guerra, é? –– peguei um copo cheio enquanto se afastava devagar.
–– Não se atrev... HARRY! –– ela olhou pra própria camiseta, segui seus olhos e meu coração bateu mais forte no peito. Bom, eu tinha molhado a e... A camiseta dela era branca.
ficou perplexa. Olhou pra mim, pra camiseta, e pra mim de novo.
–– Desculpa –– eu disse mordendo o lábio inferior.
–– Tá... Tá tudo bem –– ela disse sem jeito e corada, então se virou de costas pra mim. –– Vou trocar de roupa e você me espera aqui embaixo. Entendeu? –– ela me olhou por cima do ombro.
–– Hã? –– eu disse um pouco tonto. Sutiã preto de rendas e curvas brazileiras... Ai, caralho, assim não dá.
–– É pra você ficar aqui em baixo, eu já volto.
–– Ah... Ah, ok. Ok. –– assenti várias vezes.
subiu as escadas correndo e minhas pernas falaram por si, indo para o segundo andar também. Pernas malvadas.
–– Hm... ? –– chamei antes que ela entrasse no que eu pensei ser o quarto dela.
–– HARRY, DROGA! –– ela se abraçou de novo pra tentar esconder a transparência da blusa.
–– Que foi? –– me aproximei, sorrindo torto.
–– Que foi? Caralho, eu disse pra você ficar lá embaixo! –– colocou uma mão na maçaneta, mas segurei seu punho e olhei bem em seus olhos brilhantes.
Ficamos assim por alguns segundos e ela ainda não tinha me socado. O que era bom, eu acho. Com a outra mão, retirei sua franja grande do olho e beijei seu pescoço de leve.
–– Harry, nã... –– ela tentou dizer com dificuldade.
–– Shhh. –– arfei em seu pescoço e senti sua respiração mais pesada. –– Confia em mim? –– olhei novamente em seus olhos.
Segurei as duas mãos da , tirando uma da maçaneta e a outra de cima de seus seios, colocando-as nos meus ombros enquanto preensava-a com meu corpo contra a porta. Ela respirou fundo, com dificuldade, e segurou forte na minha nuca.
–– Sinceramente? Não. –– fechou os olhos. Senti que estava fugindo do contato visual e tentando não se entregar, porque sua expressão era a de quem tenta segurar o fôlego ou algo parecido. Rocei meu nariz no dela, sentindo sua respiração no meu rosto e seu cheiro doce. Cada vez que respirava mais pesadamente ou puxava os cachos da minha nuca, parecia que uma descarga de eletricidade viajava pela minha espinha.
–– E por que não? –– perguntei há centímetros de sua boca.
era linda e estava bem longe de ser fútil. Uma combinação bem rara. Eu estava agindo sem pensar, simplesmente sentia que precisava ter cada centímetro dela exatamente naquele momento.
–– Hey, Harry! –– quê? Hã? –– Ah... Vocês... Certo, desc...
–– Shiu, Niall. Desce, anda, vamos. –– era tentando não rir.
MAS QUE MERDA. Olhei pro fim do corredor e vi os dois descendo as escadas.
–– Foi mal, cara –– Niall disse antes de sumir de vez, com o empurrando.
Puta.
Que.
Pariu.
Esses cinco segundos foi tempo suficiente pra retomar sua conciência. Lá se vai meu trabalho descendo pelo ralo... Quer dizer, dois ralos... Um irlandês e um da minha família. Então me empurrou de leve e entrou no quarto, batendo a porta e me deixando com cara de pato.
Era só o que me faltava agora, ficar brava comigo. Ou talvez ela tenha gostado... Não podemos descartar essa possibilidade. A QUESTÃO É: Ela não me bateu, eu continuo inteiro e vivo. YES!
Cara, eu tenho que ficar com ela. Nem que seja só uma vez. Aquele corpo, aquela pegada... Ok, Harry, se aquieta. Respira fundo.
Fui até a sala, onde os dois estragam prazeres (literalmente) estavam sentados e rindo que nem idiotas.
–– Sou o motivo da piada? –– perguntei, mas não estava bravo. Eles não fizeram por querer, ué. Mas mesmo assim foi O desperdício.
Eles se entreolharam.
–– Na verdade, é –– admitiu.
–– Nós não sabíamos, Harry –– Niall disse com um sorriso travesso no rosto.
–– Sem problemas, nós nem estávamos fazendo nada demais. –– dei de ombros. Niall ia protestar, mas bateu nele e fez um “shh”.
–– Você não vai... Você sabe... –– gaguejou, preocupada. Dafuq? Deu uma olhada rápida em Niall: –– Depois a gente conversa, Harry.
–– Então, vamos? –– apareceu no pé da escada. E UAU. Saia azul, regata preta, sobretudo creme e saltos... Gata.
–– Hã... Claro, todos a bordo! –– abri a porta da casa e esperei os três saírem. por último com as chaves. Antes de passar pela porta, ela parou na minha frente e me encarou, séria:
–– Nunca mais pense em fazer aquilo de novo, Capitão Styles.
Ela tentou não sorrir, mas era muito fácil perceber o vestígio de um sorriso no canto de sua boca. Sorri involuntariamente e assenti. Não pensar em fazer aquilo de novo... AH-TÁ, ATÉ PARECE.
–– E aí, Loueh! –– falei entrando no camarim. –– Tá gato, hein.
Ele usava uma cartola enorme, um laço no pescoço e as roupas do chapeleiro maluco.
–– Passa lá em casa depois. –– ele piscou e nós dois rimos. –– Ah, e obrigado por todos vocês virem, tô um pouco nervoso.
–– Vai dar tudo certo –– o encorajou e Louis sorriu em resposta. Niall e concordaram com a cabeça.
–– Sim, boa sorte. Vai ser ótimo –– emendou.
–– Valeu, brazileira.
–– Ei, o que é isso? Você já tem fãs? –– peguei um pinguim de pelúcia que estava em cima de uma penteadeira. –– Hmmmm, garanhão.
Louis abriu um sorriso enorme e tirou o pinguim das minhas mãos:
–– Sim, e isso aqui foi da minha fã número um. –– colocou de volta na penteadeira. –– Agradeço mesmo por virem, mas agora saiam que o divo aqui precisa do seu ritual de concentração.
–– Depois vai me contar tudo sobre essa fã aí, ouviu? –– falei enquanto ele nos empurrava pra fora do camarim. –– Ah, e boa sorte hoje.
–– Obrigado, Haroldo. Vejo vocês lá. E, ah, aqui os seus ingressos. –– ele tirou dois ingressos do bolso, entregou um pra e outro pro Niall, então fechou a porta.
’s pov:
Louis nos deu carona até a casa da , mas logo em seguida liguei pra minha mãe. Eu precisava dar um jeito nessa droga de tornozelo torcido. Agradeço por Malik ter me ajudado e tudo o mais, mas não quero que ele fique me fazendo favores. Já basta o coitado estar amarrado a mim como “namorado”.
Depois de muita pomada, meu tornozelo voltou ao normal. Vou ser bem sincera contigo: EU ESQUECI A PEÇA.
Estava lá o meu ser dando o ar de sua graça, sentada, tocando violão e compondo, quando recebo uma notificação do facebook no celular. “Você vai hoje, né, vaca?”.
A me ama, licença.
Depois daquele mini ataque cardíaco básico e a correria, cheguei um pouco atrasada na peça. Mas cheguei lá, isso é o que conta.
Coloquei minha cabecinha pra dentro do auditório pra observar o que eu tinha perdido... As cortinas fechadas, todos sentados e esperando pelo começo da peça. Ótimo, não perdi coisa alguma.
Alguém esbarrou em mim de leve.
–– Ah, oi –– ele disse sem graça.
–– E aí, Malik –– beijei sua bochecha.
Pelo jeito ele conseguiu se atrasar ainda mais que eu. Estava todo afobado, olhando para os lados. Afobado e lindo... Camisa branca com um “yes” preto estampado, camiseta xadrez vermelha e aberta por cima, calças jeans rasgadas e sapatos grandes.
–– Você sabe quanto falta pra começar?
Olhei no relógio (o que não fez diferença, mas é o hábito):
–– Nem sei que horas a peça começa –– admiti.
–– Então vem. –– me puxou pela mão. –– Espero que dê tempo ou ela me mata.
–– Onde você tá me levando, menino?! –– entramos em um corredor com pedaços de cenários.
–– Pro camarim da , eu disse que passaria lá pra desejar boa sorte.
–– E e o que eu tenho a ver com isso? –– na real? Eu não me importava de ir com ele, de verdade. Mas eu senti vontade de ouvir que ele queria a minha companhia.
Zayn parou de andar e eu quase trombei nele:
–– Ok. Pode voltar. Mas... Já vou te avisando que isso é o tipo de comportamento que faria um namorado terminar com uma namorada, sabe... –– soltou minha mão e continuou o caminho. Má que merda, hein, .
–– Droga, Malik! Espera! –– ele se virou e cruzou os braços, esperando eu o alcançar. –– Eu quero ir com você.
–– Boa garota. –– afagou minha cabeça, pegou na minha mão de novo e continuou me puxando de leve até o camarim.
–– ? –– Zayn bateu na porta três vezes. –– Ei, ?
–– Se acalma, Malik. Deixa a menina se trocar em paz. –– bati de leve no ombro dele.
Zayn me fuzilou com o olhar e examinou a nossa volta:
–– Merda. Merda, merda, merda... –– colocou a mão na maçaneta do camarim.
–– Que foi? –– olhei em volta também e vi dois caras (que pareciam mais armários) conversando no fundo do corredor.
–– Seguranças –– disse como se fosse algo óbvio.
–– E daí? Não estamos fazendo nada de errado. –– dei de ombros enquanto ele abria a porta. –– Ou estamos...?
–– Nós... Ninguém tem permissão pra vir até aqui exceto os atores. –– olhou novamente pros armários. –– Ok, entra aí.
–– Tá de brincadeira, né? Não vou entrar no camarim da sem permiss...
–– Ou você entra ou eles te expulsam do teatro, meu melzinho –– debochou, me lembrando da dívida linda que tenho com ele.
–– Melzinho –– repeti resmungando. –– Olha aqui, é pra parar com essa chantagem, ouviu?
–– Ouvi. Agora entra. –– me puxou e fechou a porta.
O camarim não era muito grande, e pelos vários espelhos iluminados que tinha ali, deduzi que não era um camarim só pra ela. Devia ser o feminino, sei lá.
Procurei pela ... E a questão é que tinha muita roupa, muita maquiagem, muitas bolsas e até umas comidinhas (o amendoim tava, óh, uma dilicia), mas atriz nenhuma.
Olhei na direção da porta, Zayn estava com a cabeça encostada na porta pra ouvir a conversa dos caras.
–– Malik? –– chamei.
–– Shhh. –– abanou o ar como se estivesse afastando um inseto.
–– Shh? Você me arrastou pra uma droga de camarim vazio, sabia?
Ele tirou a cabeça da porta por um instante:
–– Qual a graça de me chamar pelo sobrenome, ? E assim que aqueles trogloditas saírem do corredor nós voltamos pra peça, ok?
–– Ok, que seja. –– bufei, peguei uns amendoins e sentei num pufe laranja.
–– ...? ! Terra chamando! –– pisquei várias vezes e percebi que Zayn tinha saído da porta e estava de frente pra mim.
–– Ah, oi. Que foi, Mali... Zaza? –– brinquei.
–– Zaza? Que porra é essa?!
–– Pelo menos não é Malik. –– segurei o riso.
–– Engraçadinha você, né. Vem, eles já saíram do corredor.
Me revirei no pufe (que parecia mais areia movediça) pra sair dele. Aravessamos o camarim em direção à porta, Zayn girou a maçaneta e forçou, mas a porta não abriu. Forçou de novo e de novo, mas nada.
–– Emperrada?
–– Não... Trancada.
–– Tá de brincadeira, né?! –– tirei ele da frente e tentei eu mesma abrir a porta. ARGH.
–– Claro que tô, aliás, eu adoro fingir que as portas estão trancadas. –– ele fez a melhor cara de “Wtf?” que já vi na vida.
–– Mas e agora?!
Zayn forçou a porta mais uma vez e franziu o cenho:
–– Alguém deve destrancar um pouco antes da peça acabar. –– ele começou a andar de um lado pro outro, pensativo, e continuou dois minutos depois: –– A única coisa que eu poderia tentar é ligar pro Liam... Mas acho que ele não teria muitas opções de como ajudar.
–– Ele teria opção nenhuma –– corrigi. –– Ao menos que ele tenha a chave daqui.
–– Não, não tem. DROGA, NÃO TEM O QUE FAZER! –– ele chutou uma bolsa do chão que foi parar do outro lado.
Me taquei de novo no pufe, Zayn se sentou pesadamente em uma cadeira e ficamos por muito tempo assim. Eu comia amendoim e brincava com o forro do pufe, Zayn se encarava em um dos espelhos e tinha a cabeça apoiada na mão, entediado.
–– Que música é essa, ? –– quebrou o silêncio.
–– Tá alucinando, é? Que música, Zaza?
Ele estirou a língua e fez careta, Eu ri e então ele continuou:
–– A que você tá cantarolando a quarenta minutos, bocó.
–– Tô? Sério?
–– Umhum. Tipo assim: –– ele imitou a música que eu cantarolava. Mas sem letra, só o som da melodia.
–– Ah, certo... –– Corei. –– É uma besteirinha que eu compus.
–– Vindo de você é óbvio que é besteira –– debochou, se ajeitando na cadeira. –– Brincadeira. Sério, agora esse ritmo não sai mais da minha cabeça.
–– Então... Gostou?
–– É, gostei –– admitiu. –– Já terminou ela?
–– Ainda não, mas tá quase lá... Espero que dê em algo mais pra frente.
–– Quer entrar no mundo da música, é? –– ele sorriu torto e quase morri. –– Boa sorte pra nós, então.
–– Sério? Quer dizer... Você toca? Canta?
–– Eu gosto de cantar, o tempo todo... Seria ótimo poder trabalhar com isso. Não que eu esteja totalmente focado nisso agora, mas quem sabe algum dia...
–– Então, boa sorte pra nós. –– joguei um amendoim e Zayn tentou pegar com a boca, mas por pouco ele não caiu da cadeira. O que me lembrou de uma coisa: –– Lembra quando você tava bêbado e quis dançar na mesa?
Nós dois começamos a rir:
–– Mais ou menos. –– tentou se lembrar. –– Mas não cheguei a dançar em cima da mesa... Dancei?
–– Não, afinal ninguém deixou você subir nela. Mas aí você começou a dizer algo sobre ser o rei da floresta e ninguém mandar em você...
Zayn gargalhou:
–– Eu tinha assistido Rei Leão com minha irmãzinha no mesmo dia. Acho que nunca mais vou beber na minha vida.
–– É só não encher a cara, ué. –– dei de ombros. –– Beber direito.
–– Esse é o problema. Só bebo às vezes em festas ou quando... Quando as coisas não estão muito legais... Nas poucas vezes que bebo é pra encher a cara.
Lembrei-me dele sentado sozinho no balcão. Aquilo com certeza não era uma festa.
–– Então... O que aconteceu? Se você não se importar em contar, claro.
Puta merda. Só falta ter sido um pé na bunda ou algo do tipo... Eu ia me sentir MUITO mal e culpada por ter me intrometido do nada num momento dele. Zayn respirou fundo e encarou o chão:
–– Ah... Uma das minhas irmãs, ela... Tá saindo com um babaca e eu acabei discutindo com ela. –– Fiquei em silêncio digerindo aquilo e o encarando até ele me olhar. –– O quê?
–– Nada. Isso é fofo, você ser superprotetor. Mas ela também tem o direito de curtir e namorar, Z.
–– Eu sei, eu sei. Ela já namorou outras vezes... Até fiquei amigo de um ex dela. Mas o cara atual, ele é um verdadeiro filho d...
Zayn parou de falar pra prestar atenção em um barulho baixo vindo do outro lado de uma das paredes. Eram aplausos abafados, acho.
–– Acho que a peça começou... –– falei.
Zayn bufou e se levantou:
–– Ok, agora chega. Precisamos achar um jeito de sair daqui.
Começamos a revirar as coisas em busca de alguma chave ou sei lá, qualquer coisa. Abri a porta do banheiro e olhei pra janelinha. Ah, não, nunca que eu tento passar por uma janelinha de banheiro de novo.
–– Hey, ! –– Zayn chamou e voltei pro camarim. –– Tive uma ideia! Me ajuda aqui.
Ele pegou uma cadeira e arrastou até uma parede, subiu nela e examinou uma espécie de grade...
–– Preciso de algo comprido e com ponta achatada, .
Olhei em volta.
–– Pera, o que você vai tá pensando em fazer?
–– Bom, se isso aqui for o que eu penso que é, temos uma chance de sair...
Fui até a penteadeira e peguei um pente de madeira, o cabo fino e achatado.
–– Serve? –– estendi o pente.
–– Sim, obrigado, . –– começou a desparafusar a grade que eu pensava ser da tubulação.
–– Tem certeza que quer... Quer entra nisso daí?
–– Não sei você, mas não quero ficar preso aqui até o final da peça. –– ele me entregou a grade e a coloquei ao lado das fantasias. Zayn examinou a entrada da tubulação: –– É larga o bastante pra uma pessoa passar, e não parece ser muito escura... Damas primeiro! –– desceu da cadeira em um pulo e fez um gesto com a mão, me apressando.
–– Vai mesmo me fazer entrar nesse negócio escuro, frio e sujo primeiro, Malik?
Ele deu de ombros:
–– E por que não? Nós não temos a peça toda, ... Tic tac, tic tac, tic tac...
–– Não, você vai na frente. –– cruzei os braços.
–– Tic tac, tic tac, tic...
–– TÁ BOM, TÁ BOM. Me ajuda aqui.
Ele me deu a mão pra subir na cadeira e entrei no tubo longo de ferro. Não dava pra ver aonde ele dava porque o final era totalmente escuro.
–– Z? –– chamei, olhando pra trás.
–– Tô logo atrás de você, pode ir. –– comecei a engatinhar naquele tubo totalmente empoeirado. MINHA. ROUPA. AI QUE DROGA. –– Pensa bem... Quantas pessoas já tiveram a oportunidade de fazer isso na vida?
–– Fora o elenco de filmes de ação? Acho que ninguém.
Ele riu.
–– E o seu tornozelo, ? Tá melhor? –– ele cutucou meu pé e eu quase bati com a cara na parede. Quando me fazem cócegas eu pareço uma lagartixa se debatendo. Zayn riu de novo.
–– Vai muito bem, obrigada.
Ele não disse nada depois disso, e também não ouvi mais o barulho dele engatinhando. Isso aqui tá virando um filme de terror, ai meu Deus, ai meu Deus...
–– Zayn?! –– me virei com muito esforço e me aliviei ao ver que ele ainda estava ali. Fui até ele, que estava todo encolhido e de olhos fechados. –– O que aconteceu? Você se machucou?
–– Eu tô legal –– choramingou.
–– Não tá não, você tá quase se borrando aí. O que foi? –– ele respirou fundo. –– Olha pra mim, Malik, o que aconteceu?!
–– Tá... Tá muito escuro aqui...
–– Você... Tem medo? –– ele balançou a cabeça positivamente. –– Olha, não vai aparecer coisa nenhuma do além, tá? Nenhuma menina pálida, nenhum monstro rastejando ou...
–– !
–– Ok, ok, desculpa. Mas eu tô falando sério... Nada disso vai aparecer e quanto mais cedo você andar, mais cedo saímos daqui.
–– Como sabe que não tem nenhuma coisa lá pra frente?
Segurei o riso, lembrando que esse é o tal “bad boy”. Mas até que é bom saber que ele não tá querendo dar uma de machinho ou algo do tipo, fingindo ser alguém que não é. QUE FOFO.
–– A única coisa que vai ter na sua frente sou eu, seu bobo. Agora abre os olhos vai. Somos eu, você, a tubulação e nenhum bicho feio.
Zayn respirou fundo novamente, mordeu o lábio inferior, tentando criar coragem, e abriu os olhos castanhos devagar. Olhou pra mim como se estivesse lendo minha alma, depois olhou por onde entramos, e então para o caminho ainda mais escuro à frente. Senti uma coisa quente apertando minha mão e quase gritei, mas vi que era só a mão dele.
–– Viu? –– encorajei. –– Nem é tão ruim assim.
–– É ruim sim, mas... Eu consigo.
–– AHÁ! Esse é meu namorado de mentirinha! Agora vamo logo, mexe essa bunda.
Ele deu aquela gargalhada fofa e doce de criança:
–– Tô logo atrás de você, coisa.
O fuzilei com o olhar e sorri, seguindo em frente com Zayn cutucando meu pé de vez em quando.
–– Acho que é a saída –– falei depois de uns dez minutos. Tinha uma grade como a primeira. Mas a questão era: Como tirar? Do lado de dentro e sem pente?!
–– Dá licença. –– Zayn me expremeu contra uma das paredes e tentou passar na minha frente.
–– Seu ogro!
Ele deu um chute na grade, e outro, e só no terceiro a grade caiu.
–– Aprenda com o mestre aqui. –– piscou e colocou a cabeça pra fora do tubo. –– Hã... ...
–– Quê?
–– É o banheiro masculino.
–– AH NÃO! –– expremi ele contra a parede pra ficarmos lado a lado e eu ver aquilo. Sim, o banheiro masculino. Eu quase podia ouvir aqueles miquitórios rindo da minha cara. –– Sem chance, não desço aí. Vamos por outro caminho e...
–– Nem ferrando, ou você desce aqui ou eu te deixo sozinha e vou pra peça.
–– Por que você é tão chantagista?
–– É só um banheiro! E tá vazio! Quanto mais cedo você andar, mais cedo vamos sair daqui, lembra?
–– Você não tem permissão pra usar minhas frases contra mim, mocinho. Ugh, que nojo. Tá, vai logo.
Ele colocou as pernas pra fora e pulou, era uma queda bem grandinha até.
–– Vem.
–– Não tem como pular na privada ou sei lá? Vou me quebrar toda.
–– Se você pular na privada a tampa vai quebrar, espertinha. Anda, eu te seguro.
Coloquei minhas pernas pra fora, e fiquei deitada de bruços no tubo. A cena que o Zayn tinha devia ser a mais ridícula de todas: Minha bunzanfa e minhas pernas penduradas. Respirei fundo, com medo. Aquela sensação de borboletas se metralhando no meu estômago.
–– Tic tac, tic tac, tic ta...
–– Eu vou enfiar esse tic tac bem no meio do seu...
–– Umbigo. No meu umbigo. Mas que boca suja, moça. ANDA, PULA.
Soltei as mãos e dei aquele gritinho básico com medo de virar panqueca de , mas Zayn estava me segurando pela barriga. Tipo, ele atrás de mim, me abraçando. Mais ou menos isso. Zayn afrouxou um pouco o abraço, permitindo que eu encostasse os pés no chão.
–– Obrigada... Já pode me soltar.
–– Ah, sim, claro. –– ele pigarreou. –– Hã... E agora? A gente... Vai pra peça?
–– Não não, vamo ficar aqui contando azulejo... –– ironizei.
Ele segurou o riso:
–– Ok, cê que sabe né. 1... 2... 3...
Eu o empurrei de leve:
–– Besta.
A porta se abriu e eu conegelei no lugar. SOU UMA MENINA NO BANHEIRO MASCULINO, MEU DEUS, COMO QUE FAZ PRA EVAPORAR?
Era Harry. Ele olhou pra mim, pro Zayn, e pra mim de novo... O sorriso enorme aparecendo no rosto dele:
–– Desculpa aí por interromper, volto depois. –– ele fechou a porta.
Zayn começou a gargalhar e gargalhar e gargalhar.
–– Cadê a arma? Eu preciso de uma arma.
–– Fica de boa, , é só o pirata. Ele parece ser um cara legal.
–– O pirata que agora deve tá contando o que viu até pra parede. –– bufei.
Zayn sentou ao lado do Liam duas fileiras à frente. Eu sentei ao lado da hiena da que ficou rindo da história que o Harry contou pra ela. E como a “boa amiga” que ela é, não acreditou na minha versão da história.
Ela disse “cara, não precisa inventar que ficaram presos no camarim da e rastejaram pela tubulação só pra tentar me enganar”. Vou alisar certos cachos. Sério.
A peça foi ótima. Todo o figurino, os cenários, o roteiro e os atores. Tudo muito lindo! No final, todos nós saímos e esperamos pela e pelo Louis do lado de fora. Sim, todos, até mesmo a e o Niall estavam lá. Eu nem sabia que eles viriam.
Zayn estava sozinho, olhando pro céu e... AQUILO É UM CIGARRO? OI? Quer dizer... Ele faz o que ele quiser com a vida dele... Mas cigarros deixam as pessoas enrugadas, elas envelhecem mais cedo e ele tinha me dito que adorava cantar.
Fui até e olhei pro cigarro em suas mãos. Nenhuma palavra, só o olhar. Ele fez uma cara de “sinto muito” e deu de ombros.
–– E aí, o bad boy vai no tal parque semana que vem? –– desviei do “assunto”.
–– Não sei –– ele respondeu rindo fraco. –– A garota que adora se jogar no chão vai?
–– Acho que sim. –– olhei de novo pro cigarro na mão dele. Poxa, esse gostoso não pode se estragar desse jeito. Percebi a tatuagem no pulso dele. –– Suas tatuagens têm significados, certo? Você não sai por aí se marcando à toa... Ou sai?
–– Não, todas têm significados. –– arqueei uma sobrancelha. –– Sim, todas –– insistiu.
–– Até o coração?
–– Qual o problema do coração?! –– ele riu.
–– Um coração, véi –– debochei. –– Afinal, onde é esse coração? –– olhei novamente para os braços dele, mas nada.
–– Er... –– olhou pro, hã... Amiguinho dele. –– Perto da região ali.
–– Tá de brincadeira, né?
–– Não. –– corou.
–– Cada segundo que passo com você é uma surpresa nova... Nova e bizarra.
–– Ei! –– protestou olhando em volta. –– Lee! Olha só essa menina aqui me zuando!
–– Te vira, mermão –– Liam respondeu fazendo um “jóinha” e piscando pra mim. Eu ri:
–– Ok, vamos fingir que você é normal.
–– Nhenhenhé –– resmunguei, Zayn bocejou. –– Tá com sono, chuchu? –– debochei também, e ele riu do apelido.
–– Um pouco, mas tenho que esperar o meu pai vir.
–– Eu tô com o carro da minha irmã aqui, se quiser uma carona...
Ele pensou um pouco na ideia:
–– Assim que a sair, a gente vai. Isso se você não nos matar no caminho. Pode ser?
–– Sem problemas, Zaza.
–– Até que você não é uma “namorada” –– fez aspas no ar –– completamente inútil, olha só que progresso. –– Ele colocou o braço por trás do meu pescoço e riu do próprio deboche.
–– Como é que é?
–– Nada, eu não disse nada. Tá ouvindo coisas, eu hein.
–– Besta.
Louis e se aproximaram de nós e formamos uma roda em volta deles, dizendo como cada mínima coisa estava perfeita e que partes nós mais gostamos da peça.
Lou e se desculparam por estarem cansados, porque passaram o dia inteiro nos últimos ensaios, a tarde se preparando a noite, claro, se apresentando. Nos despedimos e cada um foi pro seu canto. Harry, , Niall e em um carro... , e Liam em outro, Louis com a mãe dele e eu com o Malik.
Zayn jogou o resto do cigarro fora e entrou no carro.
–– Vai mostrando o caminho –– falei.
–– Em frente por enquanto. Posso ligar o rádio?
–– Pode sim. Mora onde?
–– Perto do aeroporto, na Duke St.
–– Sério? –– wow, eu moro a duas ruas dele! Sério isso?!
–– É, por quê?
–– Não, nada.
Dei partida e Zayn ficou procurando uma estação.
–– Desculpa por hoje –– ele disse do nada. –– Pelo banheiro, a tubulação e tudo o mais.
–– Não tinha como você prever tudo aquilo, relaxa. E como você mesmo disse... Uma experiência que poucos vão ter. –– ele assentiu e sorriu. Garotos assim deviam ser proíbidos de sorrir tão lindamente. Ai, Jesus. –– Essa noite foi bem mais animada do que eu pensei que seria, pelo menos.
–– Não é à toa né, olha só com quem você passou a noite. –– ele abriu os braços.
–– Com o Zayn Modesto Malik –– debochei e meu corpo estremeceu.
–– Frio? –– perguntou preocupado.
Dei de ombros e antes mesmo que eu pudesse protestar Zayn já tinha pegado o volante com uma mão e estava passando sua blusa xadrez pelos meus braços.
–– Não precis...
–– Shh –– ele me interrompeu, olhando pra mim por um segundo e voltando sua atenção à estrada logo em seguida. O ajudei com a blusa e peguei o volante novamente.
–– O que eu disse sobre me fazer favores? –– repeti. Não que eu me importasse em ter um deus grego massageando meus pés, me carregando e me entregando sua blusa de frio, mas... Poxa, eu já estou abusando demais dele e mal nos conhecemos. –– É sério.
Zayn riu e rolou os olhos, então continuou sua tarefa de procurar uma música.
...moving trough your body
Looking at you I can tell you want me
Don’t stop, keep moving till the morning light, yeah
–– Gosto dessa música. –– Zayn se recostou no banco e começou a balançar a cabeça no ritmo, me fazendo rir. –– Música legal, né?
–– Não muda de assunto, Z. –– eu ri.
–– Mudar de assunto? Quem tá mudando de assunto?
When I saw you there, sitting all alone in the dark like you didn’t have a care
I knew right then, you’d be mine, we’d be dancing the whole damn night right
Mas que tipo de música é essa? Sério? Ou eu que tô ficando paranóica com o negócio todo que rolou no pub? Olhei para ele, que parecia ter lembrado do pub também. Ele olhava pro rádio concentrado.
Oh baby, I just want you to dance with me tonight, so come on
Oh baby, I just want you to dance with me tonight
Break it down now, shake it like that
Now bring it all back to dance with me tonight
One more time, one more time, come on now
Nos entreolhamos. É impressão minha ou esse menino fica mais gostoso a cada segundo que passa? Melhor não pensar nisso, . Ok, esqueça como esse menino é perfeito, tem uma voz linda, um sorriso meigo e uns olh... ARGH!!!! Desviei o olhar e troquei a rádio antes que eu perdesse o controle.
I’m rolling downhill, no breaks
Can’t go back now, it’s too late oh
It’s too late to look away and unfeel what I feel for you
Look away and unsee what I see in you
Mas o quê?! Quem é o putinho cantando isso? Vai parar de ler minha mente agora ou agora?! Olhei de novo para o Zayn, que me olhava daquele jeito que parecia ver minha alma com aqueles olhos amendoados.
I’m gonna go for it, I hope you’re ready cos I don’t know if I can stop now
I’m going too fast, heart first, my head just can’t slow me down
Apertei as mãos no volante, mesmo sabendo que já tínhamos chegado na rua dele e tudo aquilo estava prestes a terminar.
–– Que casa? –– perguntei.
–– Aquela ali, a branca. –– apontou.
And I don’t care if you go and break my fall
You got me dreaming of a life that anybody else would die for
Oh baby, anybody else would die for
Zayn sorriu com a música. Pera, agora a música também tá se encaixando com o que ele tava passando no pub? Ah, carai. Parei o carro na frente casa branca e olhei pra ele.
First sight, I believed in first sight
No second thoughts in my mind just felt right
–– Valeu pela carona, –– ele disse meio sem jeito e corado e se aproximou pra beijar meu rosto.
Ohh, my goodness, ohh
Cos I don’t know if I can stop now
I’m going too fast, heart first, my head just can’t slow me down
Os lábios quentes dele encostaram no meu rosto e senti seu cheiro adocicado. Algo como uma mistura de perfume sedutor e amoras. Segurei nos cabelos da sua nuca sem pensar duas vezes e senti sua boca nas minhas bochechas, formando um sorriso travesso. Virei meu tronco de forma que eu conseguisse forçar meus lábios nos dele. Senti de novo aquele gosto maravilhoso que a boca dele tem, mas dessa vez sem o álcool. E novamente ele meu leves mordidinhas nos lábios.
–– Até que você não é tão inútil também, sabe –– disse em meio ao beijo, fazendo-o rir. Suas mãos deslizaram pelas minhas costas, me causando calafrios, e desci minhas mãos pelo seu pescoço até os ombros.
Zayn se afastou alguns milímetros e me examinou de cima abaixo com um sorriso torto e sexy estampado no rosto.
–– Você ficou linda nessa blusa, sabia? –– sussurrou e me deu um selinho rápido, seguido de outro demorado.
Ouvi três toquinhos na janela do carro, então afrouxei meus dedos seus ombros e nos afastamos.
–– Safaa! –– Zayn parecia bravo falando com a meninha do lado de fora.
–– Oi, Z! –– ela sorriu simpática. Awn, que fofinha. –– Oi, namorada do Z!
Corei e acenei abobada. Zayn riu, e assim que abriu a porta Safaa se jogou em cima dele.
–– Fala, marinheira –– ele disse, abraçando ela. AI, MEU DEUS QUE FOFO ESSE MENINO. A A A A A A A. Ok, se acalma, . –– Essa aqui é minha amiga .
–– Você beija suas amigas? –– ela perguntou franzindo o cenho, confusa. Então, sabe a vontade de evaporar que senti no banheiro masculino? Ela tá voltando.
–– Hã... Não, mas... Quer saber? Vai avisar pra mamãe que eu cheguei.
–– Tá bom. –– ela deu de ombros e saiu correndo.
–– Ela é uma graça –– eu falei.
–– Puxou a beleza do irmão, ué –– brincou. –– É melhor eu ir antes que ela traga a família toda.
–– Espera, sua blusa. –– comecei a tirar, mas Zayn segurou meu braço.
–– Fica. Depois você me devolve. –– piscou sorrindo de lado e meu deu mais um selinho antes de sair do carro.
Niall’s pov:
Nunca mais vou comer feijoada na minha vida.
Mentira, foi só coisa do momento. É bom demais pra ser esquecido.
Fazia quinze minutos que tava trancado no banheiro. Acho que emagreci uns dez quilos nessa, sem zuera.
–– Comeu demais o que não devia, é? –– a voz de atravessou a porta. Ela e Harry passariam pra nos dar carona até o teatro.
–– Depende do seu “demais” –– respondi.
–– Mais do que o Nível Niall de quantidade.
–– É, me superei –– admiti, rindo. –– As coisas tão meio podres por aqui...
–– Já senti o cheiro da sua podridão uma vez, lembra? Argh. E eu trouxe chá pra você. –– ouvi ela se sentando no chão, recostando-se na porta.
–– Obrigado, , mas... Hã, não é vômito não...
–– Não?
–– Sabe como é né... Cocô, fudum, fedor, caca...
–– Ah, que nojo! Nialler, você tá todo podre, menino! Tá dando pra sentir o cheiro daqui!
–– Desculpa. Passa o chá aí, vai. Preciso me reencher.
–– Nem ferrando que eu vou abrir essa porta. Quando você sair daí você toma.
–– Malvada.
–– Fedorento.
Me limpei, levantei as calças e abri a porta. , que tava encostada nela, caiu com tudo pra dentro do banheiro.
–– Niall! –– ela não sabia se ria ou me xingava. –– Devia ter me avisado! Você... Você...
–– Eu quero chá. –– pulei por cima dela e peguei a xícara.
–– Agora me ajuda a levantar, né! –– fiz cara de pensativo enquanto me fuzilava com o olhar, então estendi a mão pra ela. –– Você lavou as mãos, certo?
–– Não –– brinquei.
–– Então deixa que eu levanto sozinha, seu porco.
–– Nem pensar, um cavalheiro sempre ajuda uma dama. –– me joguei em cima dela e comecei a lhe fazer cócegas.
–– PARA! NIALL, NÃÃÃÃÃOOO!
–– Claro que lavei, né, bocó –– eu disse em meio às gargalhadas. Parei de trollar ela e nos levantamos. Peguei a xícara em cima da mesa de cabeceira: –– Valeu pelo chá.
–– Não foi nada. –– sorriu.
–– Tem bolachinha aí também?
–– Niall! –– brigou comigo e eu ri. –– Besta. Ah... Belo quarto.
Olhei em volta. Duas paredes vermelhas, duas azuis cor do céu. Alguns cartazes autografados, a cama de casal nas cores do Derby (mais conhecido por mim como O Melhor Time de Todos).
–– Tudo pelo futebol –– falei orgulhoso dos meus posteres. –– e Harry estão esperando?
–– Hm, não sei. A tava lavando a louça e o Harry ficou com ela na cozinha, então vim pra cá.
–– Vamo ver se já tá na hora de ir pro teatro... E pegar umas bolachinhas.
–– Santa mãe de Deus, você vai explodir.
–– Shiu.
Voltamos para a casa e checamos na cozinha, mas nenhum dos dois estava por lá. Talvez tivesse ido buscar uma bolsa ou sei lá, então subimos pro segundo andar.
–– Hey, Harry! –– falei logo assim que o vi, tentando soar o mais gentil possível. Sei lá, algo me dizia que eu tinha que impressioná-lo. Talvez por causa da ... Ok, não faço ideia. Mas... Bem, ele a estavam agarradinhos... Wow. –– Ah... Vocês... Certo, desc...
–– Shiu, Niall –– me interrompeu e me segurou pelo braço, me puxando. –– Desce, anda, vamos.
Ela tentava não rir, e eu também.
–– Foi mal, cara –– me desculpei uma última vez antes de sair de lá.
Assim que voltamos pro primeiro andar, gargalhamos feito dois idiotas.
–– Viu só a cara deles?! –– já tinha se jogado no sofá de tanto rir. –– Acho que o Harry quer te matar agora.
–– Eu também me mataria se tivesse no lugar dele.
–– Diz... Se estivesse... –– ela parou de rir, mas forçava um sorriso. –– Com a lá em cima?
–– Ah, sei lá... Não, não com a . Com alguma garota que eu goste. –– nenhum nome em específico veio à minha cabeça, mas era uma das garotas mais lindas que já vi.
Não sei se é com todas as garotas aqui de Donny, mas olha... São todas maravilhosas. Sério. Cada uma tem seu jeito, seu estilo. , , e são as garotas daqui de que mais me aproximei. E o jeito de cada uma me encantou. Digamos que não temos toda essa diversidade lá em Mullingar. Mas tinha algo a mais e não sei dizer o que era.
concordou com a cabeça e abriu a boca pra dizer algo, mas seu olhar ficou paralisado em algo ao lado da poltrona.
–– Hã... Niall, tem uma coisa peluda me encarando.
–– É o Jess. –– eu ri e fui até lá pegar o gato. –– Ele não morde, relaxa. –– o coloquei em seu colo, e ela começou a fazer carinho nele. Liguei a TV pra distraí-la e tentei sair de fininho.
–– Ei, onde você vai? –– droga.
–– Vou pegar água –– menti.
Ela franziu o cenho e sorriu:
–– Não sabia que bolachinhas agora se chamam água. –– quando foi que deixei ela ler minha mente? Pera, volta.
Coloquei o dedo nos meus lábios como se aquilo fosse segredo nosso e fui pra cozinha.
–– Ah, esqueci de contar –– falei alto o suficiente pra que ela me ouvisse. –– Vamos na sua escola amanhã, eu e a .
–– Então vão estudar lá? –– a voz dela soou da sala.
–– Provavelmente. Tem vagas e parece ser uma boa escola. Meu pai só quer ter certeza, saber um pouco mais, então vamos acertar tudo amanhã.
–– Pera, quantos anos você tem, Niall?
–– Faço dezessete lá pro fim do ano. E, pelo que me contou, você é mais nova que eu. HÁ HÁ.
–– E que que adianta? Tem cabeça de passarinho –– debochou.
–– Você tem resposta pra tudo né, impressionante –– brinquei.
Ela riu.
–– Então você fofocou com a , é? –– boca grande, Niall. Boca enorme. Seu besta. –– NIALL! VOCÊ TÁ NA TV! –– salvo pelo cong... HÃ, TV?
–– QUÊ?! –– larguei todos os potes de bolacha e voltei correndo pra sala.
–– É, no Animal Planet, olha. –– apontou pra imagem de uma cacatua na tela.
–– Você é tão engraçada. –– estirei a língua, ela jogou o cabelo e riu.
–– Harry pode te ajudar com a matéria que você perdeu. Os dois devem estar no terceiro, certo?
–– Aham. –– assenti e me sentei ao lado dela. Observei Jess ronronando, já quase dormindo com o carinho que recebia na orelha. É normal sentir ciúmes de um gato...? –– Ou ele vai me passar a matéria errada pra se vingar –– emendei.
sorriu de lado e riu baixo, me fazendo rir também. Quê? Idiotas riem de tudo, e a cena dos dois lá em cima foi engraçada. Não que ela seja idiota... Ah, deixa.
–– Sou o motivo da piada? –– Harry apareceu, me fazendo saltar no lugar. Mas ele não parecia tão bravo assim. Eu e nos entreolhamos.
–– Na verdade, é –– ela admitiu.
–– Nós não sabíamos, Harry –– eu disse, ainda tentando segurar a risada.
–– Sem problemas, nós nem estávamos fazendo nada demais. –– Harry deu de ombros. Abri a boca pra fazer uma piadinha, mas o cotovelo da acertou minhas costelas, me advertindo.
–– Você não vai... Você sabe... –– falou pro Harry. Ela olhou de canto de olho pra mim e desistiu do que quer que fosse que ia falar: –– Depois a gente conversa, Harry.
–– Então, vamos? –– se juntou a nós.
–– Hã... Claro, todos a bordo! –– Harry quase babou. Segura a risada, Niall, segura essa merda.
Ele abriu a porta da casa e fomos pro carro dele. Tava um clima um tanto... Pesado ali. Quer dizer, e Harry nos bancos da frente pareciam estátuas tensas e eu e tínhamos medo de falar alguma coisa.
Já vi que o trajeto vai ser uma maravilha. Altos papos, altas risadas... Não.
No meio da floresta tinha uma mesa cumprida lotada de xícaras sujas e quebras, bules e jarras. Louis... Quer dizer, o Chapeleiro Maluco, estava sentado na extremidade ao lado de um cara vestido de lebre.
Então apareceu na outra extremidade... Hã, a Alice... VOCÊ ENTENDEU. Então, ela apareceu. Na verdade se escondia atrás de uma poltrona enorme. E então, quando tentou se sentar, Louis soltou as chícaras indignado e subiu na mesa. Acho que só o fato de ser o Louis ali já tornava aquilo engraçado. E então ele gritou (o que não era muita novidade, sabe?):
–– VAZA DAQUI! TÁ CHEIO, TÁ CHEIO. NÃO TEM LUGAR. –– ele andava pela mesa derrubando tudo.
–– Tem! Tem muitos lugares! –– protestou, sentando-se.
O Chapeleiro desceu da mesa assim que chegou perto dela, e se sentou na cadeira mais próxima a ela. E então a lebre foi correndo até os dois.
–– Tome! Um pouco de suco... –– a lebre lhe deu uma xícara e “despejou” o suco lá.
–– Mas... –– olhou pra xícara. –– Não tem nenhum suco...
–– É que não tem suco mesmo. –– deu de ombros.
Ouvi uma risada gostosa vinda da pessoa sentada no assento à minha frente. Me debrucei um pouco para ver a dona dela, que eu já sabia quem era.
–– Gostando? –– perguntei baixo em seu ouvido pra não fazer barulho.
assentiu várias vezes com um sorriso no rosto:
–– E você?
–– Muito, eles são ótimos. –– sorri de volta e me sentei direito.
–– Se não tem suco, não é muito educado de sua parte oferecer! –– disse, ríspida.
–– E não é muito educado da sua parte sentar sem ser convidada! –– a lebre a cutucou.
–– Seu cabelo tá precisando de um corte novo –– Lou pegou uma mecha com cara de desdém.
–– Não se faz esse tipo de comentário! Isso é grosseiro!
–– Me diga uma coisa. –– Louis se recostou em uma cadeira, cruzando as pernas na mesa. –– Por que um corvo parece com uma escrivaninha?
–– Você acha que sabe a resposta? Pode dizer o que acha. –– a lebre se sentou na mesa.
Louis tirou um relógio do bolso e começou a batê-lo na mesa:
–– Droga! Droga de relógio! Que dia é hoje, menina?
–– Quatro –– respondeu, confusa.
–– Vê? Meu relógio está dois dias atrasado! Eu te disse que manteiga não adiantaria. –– ele deu um empurrão na lebre.
–– Mas era a melhor manteiga! –– protestou, pegando o relógio para analisá-lo. –– Você sabe que era a melhor manteiga.
Wtf? Curti essa peça. Principalmente agora que o Loui apareceu, deixando as coisas mais malucas. Ri baixinho.
–– O seu relógio... –– esticou o pescoço para dar uma espiada nele. –– ele marca os dias e não as horas?
–– Diga-me... –– Louis bufou. –– Seu relógio marca os anos?
–– Não... E nem precisaria. O mesmo ano permanece por muito tempo...
–– Exato! –– respondeu num pulo. –– Eu e o tempo tivemos uma disputa, e agora são seis da tarde sempre... Já desvendou a charada do corvo?
–– Não. –– cruzou os braços. –– Desisto! Qual é a resposta?
–– Não faço a mínima ideia! –– Lou jogos os braços pro ar.
–– Nem eu. –– a lebre concordou.
Alice fez uma cara de bosta e todos riram de novo. Dessa vez se virou rindo pra me olhar, acho que gargalhei alto demais. Pisquei pra ela, que sorriu em resposta. Senti meu estômago indo pro chão. Para de sorrir assim, menina, para.
As cortinas se fecharam, todos aplaudiam e as luzes se acenderam. Logo em seguida, as cortinhas voltaram a se abrir e cada um dos atores, um por vez, dava alguns passos à frente e fazia uma reverência. Reverência? Sei lá como chamam aquilo.
Primeiro, a irmã da Alice. Depois a desgraçada da rainha de copas, a lagarta noiada, o coelho apressadinho, a lebre estranha etc etc. deu três passos pra frente e eu quase fui parar no teto com o susto que levei. Liam e Zayn, que tavam do meu lado, pularam de imediato e começaram a gritar bem alto. Me recuperei um pouco do susto e me levantei também, aplaudindo, seguido de toda a platéia.
Então veio o Louis, rebolando e mandando beijos como se fosse O maioral, fazendo todos rirem de suas gracinhas. Sou fã desse cara. Harry parecia uma gralha gritando “Gostoso! Gostoso! Tira a roupa!” e coisas do tipo. Louis fez a reverência rindo (aliás, quem não ouviu o que o Harry disse?) e as cortinas se fecharam.
Eu e Harry seguimos Liam e Zayn, os dois já conheciam bem o teatro. Ficamos do lado de fora e os outros chegavam aos poucos. Liam olhava pros lados, ansioso:
Zayn olhou pra ele e riu:
–– Relaxa, Lee, ela deve estar no banheiro e você tá aí se torturando por nada.
Liam mordeu o lábio, ainda desconfiado, mas relaxou os ombros.
–– É, tá certo. Vou comprar uma água. –– ele respirou fundo e saiu de perto da gente.
–– Tá tudo bem com ele? –– perguntei preocupado.
–– Ele só é esquentado demais, superprotetor. –– Zayn deu de ombros. –– Desde o acidente do túnel ele tá mais fora de si que o normal quando o assunto é e Louis. –– explicou.
Harry balançou a cabeça, inconformado:
–– Primeiro que o Louis é lerdo demais e encalhado demais. Segundo que, quando ele encontrar ou se interessar por alguma garota, o que vai demorar... Ela vai ser muito sortuda. Digo... Cara, é o Louis. –– ele gesticulava indignado e eu ria.
Se eu não tivesse presenciado aquela cena mais cedo no corredor, eu diria os dois são meio... Afeminados... Meio... Casal?
–– Ele parece ser legal –– concordei. Não que fosse mentira, mas mesmo que eu achasse o contrário não admitiria. Harry me intimida um pouco.
–– Eu sei que é. –– Zayn assentiu. –– Simpático e engraçado pra caralho. Mas o Liam é cabeça dura, não adianta. Uma hora ele se toca. Hm... Eu vou... Sabem. –– tirou uma caixa de cigarros do bolso de trás. –– Licença.
Ele se afastou pra fumar. Eca.
Cocei a nuca, um pouco nervoso. Agora éramos só eu, Harry e meu puta medo dele.
–– A me disse que vocês vão ao colégio amanhã. –– ele tentou puxar assunto.
–– É, é... Nós vamos. –– engoli em seco. Aqueles cachos deviam ser angelicais, poxa. Não tá certo me intimidarem e fazerem minhas mãos suarem desse jeito.
Liam voltou com a água e , e chegaram junto com ele. GRAÇAS A DEUS. GRAÇAS.
Conversamos um pouco, se afastou pra ir com o Zayn, chegou e Liam fez um questionário completo. Pelo menos pra mim, era óbvio que toda a história dela de estar no banheiro e se perder na saída era mentira. Mas o que que eu tenho a ver com isso, né? Liam acreditou e ficamos de boa conversando sobre a peça, professores esquisitos e e videogames.
veio pra perto de mim e de Harry e tentou (só tentou mesmo) falar num tom que apenas o Harry ouvisse. E o que é que eu podia fazer? Ser maduro, me afastar deles e não ouvir a conversa, certo? ERRADO.
–– Você quer ficar com ela, não quer? –– perguntou, mas sem olhar pra ele. Ela apenas olhava para os outros, conversando um assunto toalmente diferente, e assentia às vezes.
–– De quem você tá falando? –– Harry perguntou um pouco tenso.
–– Não se faz de idiota, Harry. –– ela riu fraquinho.
–– Sim, eu quero... Mas por que você tá me perguntando isso agora, ?
–– Harry, não. Eles são nossos amigos, eu tô me dando bem com ela e o Niall. –– estava brava. –– Você não pode fazer a mesma coisa de sempre, não com eles. Não vai pegar ela uma vez, magoar e esquecer. Não quero nenhum deles com rancor.
–– Mas o que você tem a ver com... –– ele parou no meio da frase. Como assim o que a tinha a ver? Ah, qual é, Harry. Você é melhor que isso, vai. E se o cara magoar a vai ficar um clima bem estranho entre ela e . –– Ok, eu não vou fazer aquilo.
–– Mesmo? –– ela perguntou com um sorriso um pouquinho mais real no rosto, awn. –– Mesmo, Harry?
–– Sim, pirralha. Sim. –– ele riu do entusiasmo dela e bagunçou seu cabelo.
Os dois voltaram a prestar atenção no assunto que tava rolando entre Liam, e (e supostamente eu deveria estar envolvido, mas né).
––... do mesmo personagem, mas com história diferente. Foi o Niall que me mostrou, aliás. Qual era o nome mesmo? –– me perguntou e eu fiquei com o cu na mão. Oi? Alguém me atualiza sobre o assunto, por favor?
–– Ér... Eu... –– gaguejei. Socorro, socorro. –– É que eu esqueci agora o nome, sabe... Hã... Depois dou uma pesquisada.
Louis e saíram pelas portas da frente do teatro e Liam correu até a , sufocando ela num abraço. Enquanto Louis continuou andando até nós.
–– Hey. –– ele chegou com um sorriso de orelha à orelha e segurando um pinguim de pelúcia. E, bom... Ele olhava pra uma pessoa em especial... Mas acho que eu sou o único que repara as coisas por aqui... Né, ?
–– Você foi incrível! –– disse.
Harry a encarou:
–– Ei, ele é meu. –– todos rimos. –– Sim, foi o melhor, Loueh.
–– Verdade, parabéns! –– lhe deu um abraço.
–– Obrigado, pessoal. Ah! , acabo de me lembrar de que o bad boy me deve vinte libras... Eu vou até ali ped...
–– Louis, não. –– ela o fuzilou com o olhar.
–– Tá, tá, eu não vou. –– ele riu. –– Só dessa vez porque é mancada.
Liam, , Zayn e vieram dar os parabéns e conversamos por mais uns dez minutos, comentando nossas partes favoritas. Louis e contavam como era a sensação de estar lá em cima, que falas eles esqueceram e improvisaram, coisas do tipo. Depois que a e o Zayn foram embora, a mãe do Lou chegou pra levá-lo e todos nós decidimos ir também.
Toc, toc, toc.
–– Sim, pai? –– perguntei sonolento. Na verdade, sabe quando você tá com seus amigos, e então a diversão acaba e você fica meio sem rumo?
Não que eu conhecesse aquele pessoal há tempo o suficiente pra chamá-los de “amigos”, mas eu senti falta da companhia deles. Das merdas absurdamente grandes e engraçads que eles falam. Fiquei sentado por um tempo, depois que chegamos, meio perdido. É. Pra falar a verdade, quando o Jess apareceu ronronando no meu quarto, senti falta da pessoa que fez carinho nele e passou a tarde toda comigo.
–– Hã... Sou eu –– respondeu uma voz que definitivamente não era a voz do meu pai.
–– Aconteceu alguma coisa? –– me levantei preocupado e abri a porta do meu quarto. estava meio... Pra baixo. Talvez ela nem estivesse mal, mas não é normal vê-la quieta, sem um sorriso no rosto ou animada com algo.
–– Eu... Só não consigo dormir. –– Deu de ombros. –– Tô congelando.
–– Vem. –– abri espaço pra ela entrar. Já era normal pra nós dois. ainda tinha problemas com o fuso horário, com a distância da família, com o nervosismo pra começar no colégio novo (eu também estava bem nervoso quanto a isso) e com dificuldades pra se adaptar com o clima. Tá, eu vim da Irlanda. Mas o fuso horário é o mesmo e o clima não muda muito.
Então quando ela sentia muito frio ou não conseguia dormir, nós dois ficávamos conversando ou assistindo a algum filme.
–– Acha que vão nos aceitar bem na Hayfield? –– ela perguntou, encarando o chão e brincando com as próprias mãos em seu colo. Sentei ao lado dela, na minha cama:
–– De início, pensei que seria o inferno –– admiti, bufando. –– Logo as primeiras pessoas que conheci aqui foram Dan e . Aliás, as primeiras que você conheceu também, fora o papai. Mas então encontramos aquele pessoal no Doncaster Dome. Eles foram legais.
–– E o pessoal do parque de diversões –– completou e eu assenti.
–– , Harry, Louis e vão estar lá. Vamos ter bastante apoio, a gente não precisa se preocupar. –– sorriu, mais aliviada.
–– Falando em Doncaster Dome, por que será que o Jon surtou daquele jeito? –– ela finalmente tirou os olhos do chão e me encarou.
–– Deve ter bebido demais –– menti. Bom, talvez ele realmente tenha bebido demais, mas não sei se foi esse o motivo. Vamos ser sinceros aqui, a é linda e tem um corpão. E, pra variar, eu também estraguei as chances do Jon de ficar com ela quando esbarrei nele na festa.
assentiu, concordando:
–– Alguma notícia do Greg e da ? Não consegui falar com eles hoje, você sabe... Chegamos tarde e já era madrugada por lá.
–– Não. –– balancei a cabeça. –– A última vez que falei com o Greg foi na sexta pelo facebook. E o idiota tava indignado porque descobriu que brasileiros não falam espanhol e sim português. –– nós rimos.
–– Niall... –– ela se ajeitou pra ficar mais de frente pra mim e mexeu na franja, ansiosa. –– Se importa se a gente falar de homem?
Eu franzi o cenho:
–– Não espere que eu acabe falando que o Jacob é gostoso e o Edward é perfeito, mas você pode falar. Você fala e eu escuto, ok? Só não tente pintar minhas unhas ou...
Ela gargalhava e me deu um soquinho no ombro.
–– Não, não é isso! Não é de homens em geral... Mas cá entre nós, o Jacob é gostoso mesmo... Enfim, é de um só homem. Ou garoto, sei lá.
–– Ah, sim. Acho que sei do que você tá falando, mas não vou arriscar. –– vai que ela se irrita por eu falar que é o Harry e me dá um soco na cara, né, vai saber. –– Quem?
Ela respirou fundo:
–– O primo da . –– HÁ! BINGO!
–– Hmmmmmmm danados. Se interessou nele, foi?
–– Nada sério, mas sim, um pouco. A gente se divertiu no parque, ele é legal, engraçado e gentil. Um pouco ousado demais... E eu prometi pra mim mesma que não ia me envolver tão cedo com alguém daqui.
–– Não que eu duvide ele ou algo assim, mas... O Harry parece estar afim de se divertir e só isso. Não quero que você se machuque.
Ela sorriu e me abraçou:
–– Awn, Niall! Obrigada, mas não, é só atração física por enquanto. É muito cedo pra sentir algo mais sério. Eu só tava pensando... –– se afastou. –– Eu não tô conseguindo resistir, ele não tá ajudando.
–– Se você não vai se machucar, já que o caso seria só ficar sem compromisso, não vejo motivo pra resistir.
–– Tem, tem motivo sim. Vai gerar muito boato e você sabe muito bem a ideia que todo mundo tem das brasileiras...
–– Uma ideia ridícula, sim, eu sei. Mas quer saber, ? Você sabe a garota maravilhosa que você é, eu sei, e seus amigos sabem. Nada devia te impedir de fazer o que quiser da sua vida.
Ela pensou por um instante, e por fim assentiu:
–– Sim, tá certo. Eu faço o que quiser e me conheço melhor que ninguém.
–– É isso aí! E se encherem seu saco você samba na cara deles! –– ela começou a gargalhar. –– O quê? Falei a dança errada...?
–– Não, não... Tá certo. Mas é que foi engraçado...
–– Tá afim de ver um filme? –– apontei pra TV e a estante.
–– Tudo bem, mas dessa vez eu escolho.
’s pov:
O nervosismo de sempre, as mãos suando frio, o mal estar, o estômago embrulhando... Nada mais que sensações que eu já conhecia. Lou Teasdale, a maquiadora e cabeleireira do teatro, fazia os últimos ajustes no meu cabelo quando comecei a me sentir ansiosa e nervosa.
Nada demais, aliás, eu acho até saudável. Acontece um pouco antes de entrar em cena, mas é só pisar no palco que tudo some.
Lou terminou e amarrou o laço do figurinho no topo da minha cabeça.
–– E então, o que achou? –– perguntou pegando um espelho pequeno e posicionando-o atrás de mim.
–– Perfeito como sempre, Lou –– respondi me levantando pra colocar o vestido.
–– Boa sorte, . –– começou a pegar suas coisas. –– Vou pro camarim dos garotos agora, depois me conta como foi, tá? –– me deu um beijo na bochecha e se retirou.
Lou é uma fofa, sempre muito atenciosa. Dá conselhos, conta histórias e piadas. É mais como se ela fosse a melhor amiga de todos ali do que só uma funcionária.
Me vesti e me juntei às outras atrizes, todas prontas, esperando pela hora do espetáculo começar. Alguns minutos depois todos nós estávamos prontos nas laterais do palco. Dei uma espiada entre as cortinas e lá estavam eles, nos lugares de sempre. , Zayn e Liam sentados lado a lado, próximos a todos os outros que conhecemos no parque, conversando.
Liam e Zayn estavam me preocupando ultimamente. Os dois nervosos e fora de si, e nos dois casos o problema era a família. Então não tinha muito que eu pudesse fazer pra ajudá-los, o que só piora toda a situação.
Eu dava todo o apoio do mundo pro Zayn no problema dele. Quero dizer, ele estava completamente certo... Josh é mesmo um babaca, Waliyha não merecia aquilo. Ninguém merecia.
Mas o caso de Liam é complicado. Ele não estava certo, não mesmo. Conheço Louis há meses por causa do teatro, ele sempre esteve lá animando a todos e me apoiando. Não há comparações entre Louis Tomlinson e Joshua Devine. Então toda a sua raiva pelo Louis e sua tentativa de evitá-lo realmente não faz sentido.
Tudo bem, o acidente no túnel do parque foi mesmo perigoso. Mas foi acidente. Lou não pegou um taco de baseball e tentou acertar alguém, mas parecia que Liam encarava a situação assim.
E... Bom, eu não me lembro da parte da minha vida em que não conhecia o Lee, sempre fomos muito próximos e confidentes desde pequenos. Eu não consigo simplesmente discordar ou brigar com ele. Eu até posso tentar, mas não vai dar certo, acredite. Aqueles olhos castanhos e brilhantes me encarariam magoados e ele faria sua expressão de filhotinho enjustiçado. Bom, Liam já tem rostinho de filhote, então... Ficar brava com ele por muito tempo é impossível.
E então, quando ele e vieram me visitar no camarim e ela foi pro camarim do Louis com um pinguim, tentei dizer o que pensava sobre a situação, mas ele escolheu justo aquele momento pra me entregar um cravo rosa.
Ele sempre faz isso, antes de toda apresentação minha (o que é três apresentações por peça)... Me dá um cravo rosa. E eu não podia simplesmente repreender aquela coisa fofa que me deu uma flor, né? Você escolheu o momento perfeito, Liam, mas não pense que vai escapar da conversa.
Não demorou muito até Zayn perceber que eu estava ali, entre as cortinas, e cutucou o Liam, que acenou sorridente. Pronto, lá se foi meu nervosismo, mal estar e ansiedade. Pisquei em resposta, não queria chamar a atenção da plateia toda, afinal eu nem devia estar ali espionando.
A primeira cena começava comigo e uma garota não muito mais velha que eu, que atuaria como irmã da Alice. As cortinas se abriram, o borburinho deu espaço pro silêncio e senti o peso de todo mundo nos encarando.
Continuei olhando para o colar de flores que eu/Alice fazia embaixo de uma árvore enquanto a garota que atuaria como irmã tagarelava:
–– Napoleão Bonaparte, o segundo de oito filhos, nasceu na Casa Bonaparte, na cidade de Ajaccio, Córsega, em 15 de agost... –– bocejei, interrompendo-a.
–– Você tem que prestar atenção, Alice! É a sua lição!
E a peça se seguiu normalmente, tudo deu certo e acabou bem. O resultado realmente me animou, fez meu peito se estufar de orgulho. E ver a felicidade no rosto dos meus amigos – tanto o mais velho como Liam quanto que eu só conhecera no dia anterior –, me aplaudindo, me deu a certeza do que eu já sabia. Definitivamente atuar é o que eu faria da minha vida.
O mundo da arte é inserto, eu sei, é muito difícil de se obter um resultado mais que satisfatório... Mas eu não me via num escritório fazendo contas, desenhando plantas, fechando negócios ou em um laboratório, sei lá. Eu queria subir nos palcos, ficar de frente para as lentes, e não desistiria tão fácil assim.
Eu, Liam e fomos embora juntos. Liam tinha me pedido pra dormir lá depois da peça e eu não via problema nisso, muito menos meus pais. Aliás, eu amava sua família e me sentia em casa.
–– Sabe o que eu nunca entendi? –– apoiou os cotovelos nos dois bancos da frente, colocando a cabeça no meio pra poder ficar entre mim e Liam. Eu me virei pra ela, enquanto Liam apenas a encarou pelo retrovisor. –– Por que a Alice da peça não tem um par?
Liam e eu nos encaramos rapidamento com uma expressão tipo “do que essa garota tá falando?!” e rimos.
–– Como assim, ? –– perguntei.
–– Por que ela não encontra ninguém legal lá? Quero dizer... É o país das maravilhas, certo? Deveria ter no mínimo um príncipe encantado bem sarado por lá.
Eu e Liam não nos seguramos e começamos a gargalhar, ergueu uma sobrancelha:
–– Você só tá rindo porque não tinha um gostosão com a , aposto que se tivesse estaria todo enfezadinho –– resmungou.
–– O quê?! –– Liam parou de rir aos poucos e ficou um tanto... Desconfortável com a situação. –– Você sabe que isso não faz sentido... Ela é atriz e eu já a vi com outros garotos no palco. –– agora ele segurava o volante com uma força desnecessária. –– E nós somos amigos, só isso.
Não que eu quisesse que aquilo fosse mentira. Mas, velho, dá uma olhadinha no Liam. Feições perfeitas, peitoral e braços bem definidos e uma personalidade que foi, no mínimo, submersa num pote de mel. Se eu realmente acreditasse em contos de fadas, felizes pra sempre e essa baboseira toda, Liam seria a imagem perfeita do príncipe encantado.
É impossível não desejar por um segundo que fosse um garoto daqueles se sentindo atraído por você.
E, claro, vamos relembrar que eu não quero que a parte do “só amigos” seja mentira.
Não. De forma alguma. Puffft.
–– Sabe... –– interrompeu minha linha de pensamentos. –– Você já pode parar de tentar mentir, Liam. Sério, você é péssimo nisso. Vocês dois, aliás. –– ela esticou o braço, ligou o rádio e se recostou no banco de trás, cantarolando. Liam se remexeu no banco, visivelmente desconfortável. Ainda mais desconfortável que antes, se é que é possível.
–– E o que minha atriz favorita vai querer fazer hoje, hein? –– tentou quebrar o próprio desconforto.
–– Que tal um filme? –– sugeri, tentando não pensar muito no que tinha dito.
–– Certo, alguma sugestão? –– pelo tom usado, ele já estava um pouco mais à vontade.
–– Nadinha –– admiti e ele riu baixo. –– Mas videogame não é uma opção.
–– Ah, qual é! ! –– protestou.
–– Já disse, tô em greve de videogame –– zombei, forçando uma cara emburrada.
–– Por quê? –– perguntou nos bancos de trás.
–– Porque a acha que eu deixo ela ganhar. –– ele me mostrou a língua e eu fiz careta. Sempre muito maduros, como sempre.
E é claro que Liam me deixa ganhar. É óbvio e mesmo assim Liam não admitia.
–– Você deixa, sim –– protestei. –– Não que eu não seja perfeitamente capaz de te humilhar no videogame, de qualquer maneira... Mas quero uma disputa limpa.
Liam é muito previsível. Ou eu que o conheço bem demais, não sei. A questão é que não foi um desafio direto... Mas, sim, ele ia aceitar.
–– Você não ganharia uma única partida, –– ele também provocou. HÁ! Sou quase uma vidente.
–– Tem certeza? –– ergui uma sobrancelha, o desafiando.
–– Três partidas. Hoje. E eu serei o vencedor, você vai ver. –– estendi a mão direita, aceitando a aposta. Liam soltou rapidamente uma das mãos do volante e a apertou.
–– Hmmm, todo confiante, é? Mas e se você perder, garotão?
–– Eu não vou perder –– disse, decidido. Não que eu realmente fosse o humilhar no videogame, mas ele não era lá essas coisas. –– E o perdedor terá que fazer o que o vencedor quiser. Qualquer coisa.
Se fosse outro menino eu me preocuparia seriaente com as possíveis ideias sujas e pervertidas. Mas, bom... É de Liam Payne que estamos falando aqui, pessoal.
–– Fechado.
–– Cara, eu vou vomitar. Se casem logo, pelo amor de Deus –– resmungou lá atrás, batendo a cabeça contra o vidro.
–– ! –– eu dei um pulo na cadeira, assustada com o grito repentino. Mas logo me acalmei quando vi quem era a fonte.
–– Hey, ! –– Ruth me cumprimentou com um abraço rápido, seguida de Nicola (quem tinha gritado daquele jeito). Sim, Nick é um pouquinho mais... Espalhafatosa, digamos.
As duas irmãs mais velhas de Liam e vieram até a cozinha fazer um pouco de farra. Ruth, a mais “quietinha” tinha o cabelo um pouco mais comprido que o de Nick, mas os dois eram do mesmo tom de loiro. E apesar de Nick ser a mais velha, ela era bem louquinha. Engoli o pedaço de pizza que mastigava segundos antes e sorri simpática:
–– Hey, garotas! –– as abracei direito.
–– E então, como foi a peça? –– Ruth puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado. Contei pra elas cada detalhe, as “irmãs Payne”, as três, adoravam Alice no País das Marvilhas.
Doncaster não é uma cidade muuuuito grande, e não é tão fácil assim lotar um teatro nos dias de hoje. Por isso só nos apresentávamos três vezes por peça, três dias seguidos. No primeiro dia iam meus amigos, no segundo a minha família e no terceiro a família do Liam. Sim, como eu disse... Nossas famílias são bem grudadas.
Liam ia nos três dias, de qualquer forma.
Ruth, Nicola, Liam e seus pais iriam no último dia, terça feira, ver a peça. tinha um compromisso ou algo do tipo, por isso preferiu ir hoje mesmo.
–– Hã... –– Ruth coçou a pigarreou, encarando Liam.
–– O quê? –– ele perguntou, confuso.
bufou ao lado dele e começou a explicar com a boca cheia de pizza:
–– Ruth quer levar um cara pra peça e pediu pro Liam comentar isso com você, mas obviamente esse bobão aqui é avoado demais pra se lembrar... Ou... –– um sorriso enorme brincou nos lábios dela. –– Ou você mexe demais com a cabeça da criança aqui e ele se esquece de todo o resto quando vocês estão perto um do outro.
Ele fez uma careta emburrada pra ela, que sequer notou. Apenas voltou toda sua atenção pra pizza logo em seguida. É, é assim. Solta indireta aqui, ali, acolá, como fosse nada demais. Pelo menos eu preciso admitir que adoro a sinceridade dessa garota.
Ri um pouco da ideia ridícula de “mexer com a cabeça do Payne” e me voltei pra Ruth:
–– Claro que pode levar! É o Tom, não é? Depois de tudo o que você me contou, eu preciso conhecer ele.
Ela assentiu várias e várias vezes com um sorriso enorme estampado no rosto. Ela e Tom tinham uma amizade muito fofa, se conheceram na empresa em que ela começou a trabalhar esse ano. Ruth acabou descobrindo, um mês atrás, que gostava dele... E pela felicidade no rosto dela, acho que alguma coisa finalmente aconteceu entre esses dois.
Sim, Ruth, Nick, e eu conversamos bastante. Quando elas conseguem me desgrudar do Liam, claro. O que me lembra de que, na próxima “reunião” com as garotas Payne, eu teria que perguntar sobre o Louis pra . Não que eu me achasse no direito de saber tudo sobre elas, mas nós nunca escondemos nada sobre os nossos paqueras. Na verdade não temos motivos pra esconder.
Nicola e começaram a gargalhar de repente, o que me fez voltar a prestar atenção na situação. Eu realmente preciso parar de me desligar desse jeito. Tentei entender o que estava acontecendo... As duas observavam Liam, que tinha a mandíbula travada, nervoso, e olhava pra superfície da mesa como se fosse a coisa mais interessante que já viu na vida.
Hã?
Que que eu perdi, meu Deus?
–– HÁ! Eu disse! –– se vangloriou, animada. Só faltava fazer uma dancinha da vitória ali mesmo. –– Se tem um gostosão no meio você fica todo irritadinho!
“É o Tom, não é? Eu preciso conhecer ele”... Não não não, não pode ter sido isso.
–– Você sabe que eu não falei nesse sentido, certo? –– perguntei pra Ruth.
–– Sim, sei. Relaxa. O Lee foi o único que puxou a parte lerda da família.
Nicola riu e começou a fazer carinho na cabeça dele:
–– Relaxa, homem. É o paquera da Ruth, não o da .
–– Esse não é o problema, ok? –– rebateu, irritado.
–– Qual é então? –– Nick parou pra encará-lo.
–– É... Hã... Nada. –– ele bufou e eu o chutei de leve por debaixo da mesa, fazendo seus olhos encontrar os meus e sorri tentando tranquilizá-lo. Mesmo que fosse ciúmes (HAHAHAH, ciúmes de mim? Não mesmo), Liam nunca admitiria. Mas não custa nada tentar acalmá-lo. –– Certo, onde tá a mamãe? –– ele mudou de assunto, agora bem mais calmo.
–– Saiu com o papai mais cedo. Cinema, eu acho –– Ruth respondeu.
–– É, os dois foram passar um tempinho juntos. Sabe como são os dois, né? Todos os seus surtos de “renovar a relação” ou algo assim... –– Nicola fez uma careta de nojo e nós rimos.
–– Bom, se vocês não se importam... –– Liam se levantou e colocou as mãos sobre a mesa. –– Tenho um desafio de videogame pra vencer.
–– Perder, ele quis dizer –– corrigi, me levantando também. –– Perder bem feio.
–– Uhuhu! Desafio, é? E de quanto foi a aposta? –– Ruth perguntou.
–– Me diz que foi um valor bem alto, ! Porque é óbvio que você vai ganhar! –– Nick me balançou pelos ombros como se fosse uma questão tão importante quanto vender ou não minha alma pro diabo.
–– Acham mesmo que os dois bundões apostariam dinheiro? –– começou a gargalhar no canto. –– Qual é! Se o Liam ganhasse, teria tanta pena da que além de não aceitar o dinheiro dela, se ofereceria pra comprar um presente ou sei lá.
Pode até parecer exagero, mas aquilo parecia ser exatamente o que ele faria.
–– Ha. Ha. Ha. –– Liam ironizou. –– Desculpe estragar o momento de diversão de vocês, mas o palhaço aqui tá de saída.
Adivinha? Eu perdi. O que, por um lado, não é tão ruim assim. Isso prova que Liam sempre me deixou ganhar. Ok, foi uma disputa acirrada, por muito pouco eu não ganhei. Mas foi uma competição de verdade. Antes eu ganhava de lavada.
Foi muito melhor desse jeito, e Liam percebeu isso. Esse era o meu objetivo com toda a disputa. Não me deixar simplesmente ganhar nos rendeu um ótimo jogo. Várias risadas quando eu fazia alguma merda (e até mesmo ele), várias dancinhas com as músicas animadas de fundo, brincadeiras e piadinhas. Foi um jogo louco de corrida, não me pergunte o nome.
Já fazia uns dez minutos que Liam estava pensando em qual seria o meu “castigo”. Sempre que ele abria a boca pra dizer, balançava a cabeça e desistia com uma careta. Como se fosse algo perigoso ou maldoso demais. Pro Liam até a coisa mais inocente poderia ser perigosa.
Ele até mesmo sugeriu que eu apenas o abraçasse, mas... Qual é! Perder uma aposta e ser “obrigada” a abraçar o seu melhor amigo? Aquilo não seria aposta de verdade. E, sim, eu amo os abraços do Liam, ok? É simplesmente o melhor lugar do mundo.
–– Liam! Anda logo –– zombei. –– Não temos a noite toda, sabia?
Ele ergueu as sobrancelhas:
–– Pera. Você tá reclamando porque eu não estou te punindo, é isso mesmo? , juro que eu tento, mas não consigo te entender às vezes! –– ele riu.
–– Nem é tão difícil assim! Tem muita, muita coisa que você poderia me mandar fazer. E nem são tão maldosas assim.
–– Ok, sra. Rainha da Maldade. O que você faria se estivesse no meu lugar? –– ele cruzou os braços acima do peitoral.
–– Bom... Talvez te fazer abraçar uma árvore por dez minutos no meio do pátio do colégio. Ou te obrigar a fazer uma dancinha ridícula na frente da sala toda.
Um sorriso malvado surgiu no canto da boca dele. Sim, Liam com um sorriso malvado. E mesmo assim ele continuava adorável.
–– Amanhã, no intervalo... –– ele começou. –– Você vai abraçar a árvore do centro do pátio. Não só ficar abraçada com ela por... Ok, dois minutos... Como também vai conversar com ela. Se declarar. E bem alto pra todo mundo ouvir.
Meu queixo caiu e eu comecei a rir. Sim, rir. De nervoso, eu acho.
–– Isso é sério, Liam?! –– eu disse entre o ataque nervoso de risos. –– Tudo bem, então. Não vou fugir de desafio nenhum.
Eu não ligava de passar por aquilo. Bom, não totalmente. Seria engraçado, meus amigos estariam rindo da minha cara, obviamente, e o colégio todo entenderia que não passava de uma brincadeira. Mas... Bom, algumas vadias oxigenadas e babacas como Josh e Sandy me preocupam. Não que eu dê ouvidos pras merdas que eles dizem, mas não seria nada mal ficar em paz e sem provocações, pra variar.
–– Você tem certeza? –– sua cara de “mau” se desfez. –– Eu posso pensar em outra coisa. Eu... Você pode... Só abraçar a televisão. Eu chamo a , a Ruth e a Nicola. Ou os meus pais também e...
–– Liam, não. Agora é questão de honra, eu vou abraçar aquela árvore.
–– Tem... Tem certeza? Você... Se não quiser, tudo bem. A gente pode jogar de novo! Anda, pede uma revanche!
–– Não! –– agora eu ria da preocupação dele. –– Não, não e não. Nem é um desafio tão ruim assim. Relaxa, ok?
Liam bufou e se levantou, estávamos na sala jogando.
–– Então acho que é melhor você subir logo. –– hã? Subir? Ele colocou as mãos nos bolsos da calça e respirou fundo.
–– Por que subir? –– perguntei, confusa. Os cobertores já estavam todos espalhados no chão da sala, é sempre aqui que nós dormimos quando eu venho passar a noite. Um pouco antes de dormir, a gente assiste um filme bem escroto e fica zombando cada segundo dele, até cair no sono.
–– Eu acho que é melhor você dormir no meu quarto essa noite, e eu aqui. Você sabe, eu me mexo demais, vou acabar te acertando como sempre, ou te esmagando. –– ele riu baixinho, era exatamente o que tinha acontecido da última vez. Acordei com o corpo pesado do ogro em cima de mim, babando. Se eu não tivesse tão incomodada com a ideia de dormimos separados essa noite, eu teria rido também.
–– Tá, e daí? Você sempre me acerta. –– dei de ombros. –– Um tapinha aqui, um chute ali. Já tô acostumada, Lee. E não sou a pessoa mais quietinha do mundo, você sabe.
Ele concordou com a cabeça:
–– É que já tá tarde, . Acredite, isso é tão ruim pra mim quanto pra você. Tá tarde, você trabalhou na peça hoje, e ontem teve a festa... Você deve estar esgotada. Amanhã tem aula e peça de novo. Só quero minha melhor amiga descansada, ok?
Rolei os olhos:
–– Sim, eu tô um pouco cansada. Mas e daí? Vou dormir de qualquer jeito, não vou? Por que eu não descansaria dormindo aqui?
–– Primeiro –– ele levantou o dedo indicador ––, eu me mexo demais e você sabe disso. Segundo –– o dedo médio também se levantou ––, papai e mamãe vão chegar daqui a pouco e podem acabar te acordando também.
Eu amo o Liam, amo mesmo, mas às vezes eu tenho vontade de socar aquele rosto completamente lindo. O pior de tudo é que ele fica insuportavelmente teimoso quando está tenso. E sim, ele está. Com todo aquele papo de Josh, Sandy, Louis e . E quando ele está assim, ergue tipo um escudo imaginário quase impossível de ultrapassar.
Quase.
Com o passar dos anos eu aprendi da pior maneira como desarmá-lo. Da pior maneira porque demorou até eu entender que responder com mais teimosia só piora tudo. Liam fica irritado, impaciente e ainda mais responsável do que o normal. O único jeito de lidar com ele nesse estado é sendo o mais compreensível, fofa e cuidadosa possível, fazendo chamegos o tempo todo.
Pois é, Liam é um cara carente. E aquele coração enorme que ele tem realmente necessita de muito carinho de vez em quando.
Respirei fundo, mesmo acreditando parcialmente na desculpa dele, não estava muito afim de discutir. É, parcialmente. Liam evitava manter contato visual e tinha as mãos nos bolsos, algo estava errado e eu sabia que tinha outro motivo por trás desse papo de dormimos separados. Mas já bastava a conversa sobre Liam e que eu estava tentanto ter com ele, eu não precisava de mais motivos pra discussão.
–– Ok. –– me levantei do sofá, ainda um pouco recuada. –– eu durmo lá essa noite.
Ele abriu um meio sorriso, pegou na minha mão e me guiou pro segundo andar, até o quarto dele.
–– Ali dentro do armário tem mais cobertores e travesseiros, se você quiser. Os controles da TV bem ali, alguns gibis aqui, se sentir fome é só me chamar e...
–– E eu vou sobreviver. –– rolei os olhos, largando-me na cama.
Liam assentiu e atravessou o quarto, parando de frente pra mim:
–– Qualquer coisinha, pode me chamar. Mesmo. E se não quiser abraçar a árvore, você não precisa... –– tirou uma mão do bolso e ajeitou minha franja, adiantando-se a continuar antes que eu resmungasse: –– Boa noite, pequena.
Liam depositou um beijo demorado no topo da minha cabeça e se virou para sair do próprio quarto. Um nó se formou na minha garganta, eu não queria que ele saísse. Não queria passar a noite sozinha quando tinha o Liam a uma escada de distância. Queria o bobão do meu lado, se remexendo a noite toda, falando coisas sem sentido e babando.
–– Lee? –– chamei quando ele apagou a luz e estava prestes a fechar a porta. –– Fica.
A expressão no rosto dele beirava a dor, eu sabia que ele também queria ficar.
–– , eu já diss...
–– Amanhã tenho aula de filosofia e sociologia. Se eu não tiver descansada, tiro uma soneca na aula.
–– Você vai perder a matéria.
Eu gargalhei:
–– É filosofia e sociologia, Liam. É só viajar um pouco, escrever qualquer coisa e pronto.
Percebi um sorriso crescendo no rosto dele, aquele sorriso enorme que eu adoro.
–– Tem certeza? –– perguntou pela segunda vez aquela noite.
–– Tenho, agora deixa de besteira e vem aqui, idiota. –– eu mesma me levantei rápido, o puxei pelos braços e o empurrei na cama.
–– Depois não reclama se acordar toda dolorida, moça. –– me deitei ao lado dele e senti seus braços a minha volta logo em seguida.
–– Hã... Lee?
–– Sim?
–– Meu cotovelo tá meio dolorido e sua mão...
–– Ah, sim. –– vi o vulto de suas sobrancelhas se franzirem e ele ajeitou o abraço. –– O que você fez?
–– Caí no vôlei...
Sua gargalhada soou no meu ouvido. É disso que eu tô falando. Aquela risada fofa estaria logo ali no primeiro andar e eu não poderia ouvi-la?! Mas que merda Liam tinha na cabeça ao pensar em me privar daquilo?! Argh.
–– E como foi que caiu? Pisou na bola?
–– Bem... Quase isso... Não vi a rede e bati com a testa no ferro –– admiti.
–– Meu Deus! –– sua gargalhada ficou ainda mais forte, gostosa e alta.
–– Para, Liam! –– dei um tapa na mão dele. –– Insensível.
–– Atrapalhada! –– disse entre risos.
Alguns segundos de silêncio se seguiram, enquanto eu pensava na melhor forma de começar. Virei um pouco o tronco para poder “encará-lo” melhor, já que a única luz era a que entrava pela janela.
–– Lee, a gente pode conversar sobre... Josh e Sandy?
Não eram eles que me interessavam no momento, o foco da conversa, mas tudo começava aí. O sorriso em seu rosto se desfez:
–– O que eles fizeram dessa vez?
–– Nada, Liam, nada. É que... Você precisa parar de se preocupar tanto com isso.
–– Parar de me preocupar? , eles te enchem o saco, enchem o nosso saco. Agridem a mim, ao Zayn e até mesmo te empurraram da última vez. Eu não posso simplesmente fingir que nada tá acontecendo.
Respirei fundo antes de continuar:
–– Eu entendo esse ponto, tá? Eu não quero você e o Z em brigas, sendo ofendidos, nem nada do tipo. Mas você tá deixando isso afetar suas relações, sua vida. –– ele me olhou confuso e eu prossegui: –– Você vive nervoso, impaciente. Tá estranho.
–– Eu não tô estranho.
–– Sim, você tá. Lembra como tratou o Lou no parque? Parecia que ele tinha socado uma das suas irmãs.
–– O Louis é um assunto totalmente diferente, . Ele é irresponsável, podia ter machucado todo mundo, é três anos mais velho que a e fica arrastando asa pra ela. Aposto que é só mais um idiota que conquista mais novas, usa, brinca com os sentimentos delas e depois magoa.
–– Você conhece ele?
–– Bom, nã...
–– Se esforça pra conhecer? –– Liam não respondeu. –– Lou tem quatro irmãs mais novas, Lee. Ele nunca brincaria com os sentimentos de uma garota, jamais usaria alguém. Ele também se sente protetor a respeito delas, exatamente como você.
–– Não me compare com ele, .
–– Tá, que seja. Vocês são infinitamente diferentes, mas precisa admitir que ele entende as garotas. Ele é gentil e respeita todo mundo, sempre coloca o bem estar dos outros em primeiro lugar.
–– , chega. Não quero ficar ouvindo sobre o quanto Louis Timothy é gentil, meigo, gostoso e sei lá mais o quê.
–– Tomlinson, Liam. Tomlinson. E eu só quero que você entenda que ele e estão se conhecendo, se dando bem. Lou cuidaria dela, a faria se sentir bem, se algo acontecesse entre eles não seria ruim.
–– Quer saber? Por que você não está com ele se ele é tão bom assim?
Meu queixo caiu.
–– Liam, você está se ouvindo?
Ele bufou de novo:
–– Sim, eu tô. E se é pra continuar me dizendo o quão engraçado e foda ele é, acho que você já pode sair da minha cama e ir pra dele. Quem sabe você finalmente entenda o que eu tô dizendo quando ele for um otário e se aproveitar.
Ok, chega. Aquilo era demais.
–– Talvez eu vá –– respondi me levantando. –– Quem sabe ele seja menos teimoso e peranóico.
–– Ei, o que você tá fazendo? –– Liam se sentou na cama quando percebeu que eu já tinha recolhido minha mochila.
–– Você me mandou ir pra cama do Tomlinson, não mandou? Então. Tenha uma boa noite. –– bati a porta.
Claro que eu não iria para a cama do Louis, mas nunca pensei que Liam me atacaria daquele jeito. Tá, tivemos discussõezinhas bestas há anos atrás, nem me lembro do motivo delas. Isso só prova o quão alterado ele está.
E o papo de ser paciente e fofa para “quebrar o escudo”? É, acho que não certo. Aliás, eu não disse em momento algum que sou uma pessoa fácil de lidar.
Abri a porta da casa da minha avó e subi para o meu quarto sem sequer avisá-la de que eu passaria a noite ali, queria evitar todo o questionário que isso causaria. Eu quase podia ouvir o que Liam pensaria disso “VOCÊ SAIU DE MADRUGADA, SOZINHA? TÁ TENTANDO SE MATAR?”
Ok, Liam invadindo minha cabeça novamente. Bloqueia, . Bloqueia.
Coloquei o pijama e tentei manter minha mente afastada do que tinha acontecido, odeio ficar remoendo problemas. Mas parece que a vida não estava a meu favor.
Eu estava sem sono. Na verdade, estava muito elétrica e inquieta. O que significava que ia ficar acordada por um bom tempo, pensando. Me sentei na cama e puxei a mochila de debaixo da mesma, revirando o conteúdo lá dentro até encontrar o script da peça. Eu faria qualquer coisa pra não pensar no Liam, na discussão. Isso inclui reler e reler toda a peça quantas vezes fosse necessária para cair no sono.
I’m on a trip
I can’t get off, can’t get over
I want it all, I want it all inside of you
I call you up
You’re getting off, I’m coming over
Acordei meio abobada com o toque do celular e, ainda de olhos fechados, atendi:
–– A-alô? –– minha voz soou rouca e embolada.
–– Não vai pra escola?
–– Hã, hoje? –– pigarreei, tentando limpar a garganta. Olhei pro relógio na mesinha de cabeceira. 7:26. –– Não.
–– E por que não?
–– Não tô me sentindo bem –– menti. –– Tô... passando mal.
–– Mal de quê?
–– Sei lá, Liam, como é que eu vou saber?!
Ele respirou fundo do outro lado:
–– Ok. –– Desligou.
Eu podia ligar pra ele de volta, xingar, gritar, dar bronca... Mas essa sou eu, evito as coisas o máximo que posso. Enfiei a cabeça de volta no travesseiro e tentei voltar a dormir.
I’m on a trip
I can’t get off, can’t get over
I want it all, I want it all ins-
–– Oi –– falei, irritada.
–– Não vai mesmo para a aula hoje? –– insistiu. Me sentei na cama e passei a mão pelo cabelo, nervosa.
–– Já disse que não, Lee. Eu tô com dor.
–– , para. Você sabe que esse não é o problema. A gente ter brigado ontem não tem nada a ver com isso, então?
–– Exato.
–– Escuta... Não quero te magoar, tá? Te fazer mal por culpa do que eu falo ou faço, e... –– ouve uma pausa, então ele continuou: –– Eu admito que não tô normal. Minha cabeça tá uma bagunça e eu preciso de tempo pra colocar tudo no lugar e não ter você por perto só piora as coisas. Eu sou idiota, sei que te magoei e disse coisa que não devia. Não fica triste comigo, por favor, .
Liam não tinha dito que estava errado, mas pelo menos sabia que estava fora de si, descontrolado; e ouvir isso me deixou um pouco mais aliviada. Liam só estava um pouco confuso, eu não seria idiota de me afastar e, como ele disse, piorar as coisas.
Respirei fundo pra continuar. Nada estava resolvido, mas pelo menos aquilo foi como um pedido de compreensão que eu não negaria. Aquele babaca era parte de mim e eu já não conseguiria imaginar como seria minha vida sem ele.
–– Não quero te perder, Lee.
–– Não vai, pequena. Agora levanta dessa cama, toma um banho e vai para e escola.
–– Já tá tarde, não dá pra chegar.
–– Tem segundo tempo, corre se não você perde a aula.
–– Não me importo em perder a aula.
–– Você não se importa com nada, . –– ele riu. –– Agora, seja uma boa garota e vai se arrumar que eu tô aqui te esperando na rua desde as 6:30.
–– Por que você não entrou, seu idiota?! –– eu ri, me levantando e abrindo o armário.
–– Entrei onde? –– perguntou confuso.
–– No colégio, né.
–– Eu não tô na rua do colégio, sua anta. Tô aqui na nossa rua desde as 6:30 pra ver se você iria ou não pra escola, o que serviu pra me mostrar que te conheço muito bem mesmo e estava certo, você não ia.
–– Você tá...? Tá...? –– não pode ser, cara. Corri até a janela e a abri. Lá estava ele, sentado na calçada oposta com o celular, olhando pra mim.
–– Que pijama bonitinho –– ele disse, rindo.
–– Idiota. –– ri junto. –– Vou me trocar e já desço.
Louis' pov:
–– Pelo amor de Deus, Haroldo, olha por onde anda! –– gritei pela, sei lá, trigésima vez no dia. O apito do treinador tocou e nós demos uma pausa no jogo.
–– Dá um desconto, Lou. O jogo tá acabando, eu tô cansado e... Hm... –– ele coçou a nuca, desconfortável.
–– E você tá enferrujado? –– tentei.
–– Não, não é isso, é que... –– ele tombou a cabeça, ainda procurando as palavras. Eu sei que você enrola e demora um ano pra completar uma frase, Harry, mas hoje tá se superando, hein?
–– É porque você não alcança a bola? –– tentei de novo.
–– Olha, você não tá ajudando, gênio do futebol. –– ele bufou. –– Olha pra trás.
Girei nos calcanhares e meu coração bateu mais rápido como se fosse explodir. MEU DEUS, NÃO ACREDITO QUE TÔ VENDO... Um gramado vazio. Uau.
–– Era pra eu estar vendo alguma coisa? Porque, sabe... Não tem nada de demais aqui. Tem certeza que não bateu a cabeça no jog...?
–– Não é pra olhar atrás de você, caralho. –– me virei de volta pra ele. –– Olha quem tá ali atrás de mim, bocó.
AAAAAAAH SIM, tá explicado agora. Tinha um cara alto de cabelos um pouco grisalhos ao lado de um loiro irlandês e uma certa brazileira que eu já conhecia, conversando com a diretora e com a... Vish, fodeu.
–– Aquela é quem eu acho que é? –– coloquei a mão na testa, tentando tampar o sol e ver melhor.
–– Sim, é a Sra. Flack conversando com a . –– ele respirou fundo. Putz, Harry tem o dom pra se enrolar em relações complicadas, santa mãe de Deus.
Dei mais uma olhada neles. O grupinho andava em volta do prédio do colégio e de vez em quando a diretora apontava pra alguma entrada, tagarelando feito uma gralha, ou olhava feio pra algum aluno que estivesse fazendo algo errado. A típica apresentação da escola para os pais. A diretora simplesmente surge do seu lado querendo que você faça carinha de Oi, sou só um bom aluno dessa escola super maneira, venha estudar com a gente, EBA.
esbarrou no ombro do Niall e apontou pra nós dois na fila do bebedouro, suados feito porcos e esperando pra continuar o jogo. Pensei em fazer alguma piadinha sobre as duas estarem ali, olhando de vez em quando pra quadra, mas a cara do Harry era de poucos amigos. Devia estar bem, bem preocupado com a merda que aquilo podia dar.
Eu não gostaria de ter uma ex-namorada rancorosa que decide as minhas notas. Imagine só se ela resolve ficar de TPM justo na hora de somar as médias ou aplicar uma prova final?
–– Hã, Haroldo...
–– Sim?
–– Mas e se suas notas...? Hm, você sabe... Mulher é tudo doida.
Ele pensou por um momento, tirando uns cachos do olho.
–– Até agora minhas notas foram boas em espanhol, mesmo que elas abaixem eu acho que me garanto esse ano... É, por aí. –– Harry deu de ombros, mas ainda estava um tanto tenso.
–– Relaxa, Cachinhos Dourados. Relaxa que o seu alvo da vez veio do Brazil pra te ver jogar e você tá fazendo feio.
O apito tocou de novo e nós voltamos pro jogo.
–– Ei, Louis –– Harry disse enquanto eu trocava minhas meias, no vestiário.
–– Sim, esse é meu nome. Créditos para a mamãe Jay. Que foi?
–– Que que tá rolando entre você e a , hein?
Não sei por que, mas aquelas palavras fizeram eu me sentir como se tivesse um esquilo na garganta. Engasguei e comecei a tossir.
–– Hm, nada ué. Bons amigos. É isso.
–– Vocês ficam super sorridentes quando estão por perto um do outro, você fica olhando pra ela como se tivessem algum segredo ou sei lá. Não sou burro, ok? –– eu o encarei. –– Tá, mais ou menos. Mas mesmo assim... Vocês foram sozinhos na tumba e voltaram rindo com algodões doces. Aí foram juntos naquele buraco cheio de anões demoníacos e ela até te deu aquele pinguim estranho de presente na peça ontem. Fã número um, não é?
Eu tentei não sorrir com a lembrança do pinguim de pelúcia. Um pouco antes da peça começar, apareceu no meu camarim com um pacote estranho em mãos. Sabe quando alguém da família aparece com um embrulho redondo do tamanho e peso exato de uma bola, mas diz que é “surpresa”? Pois é. O embrulho era exatamente igual, fazendo o contorno do pinguim. Por um segundo eu pensei que fosse um pino de boliche (vai saber o que esperar dela, né), mas pinos de boliche não têm bico. Era um pinguim magrelo, meio torto, preto e branco, vesgo, usando uma gravata borboleta vermelha. E eu amei.
A lembrança das coisas que o Harry disse, o pinguim e até mesmo a competição de Chubby Gummy (eu ganhei, HÁ) que fizemos no camarim depois da peça fez a Sensação de Esquilo-Na-Garganta descer pro meu estômago. Parecia que meu coração estava tentando dar piruetas.
–– Qual é, Harry! Tá com ciúminho, é? –– brinquei, tentando acalmar a mim mesmo.
Harry franziu o cenho.
–– Você me chamou de Harry –– observou, sorrindo vitorioso. –– Harry. Você nunca me chama de Harry. É sempre Haroldo. Por que você tá nervoso, hein? Falar da te deixa assim, sem jeito? Interessante...
–– Chega, o que você tá falando não faz sentido. –– coloquei os sapatos de qualquer jeito e saí do vestiário.
–– Tá com pressa agora, é? –– ele me alcançou e não pude deixar de rir da situação. Eu estava mesmo fugindo do assunto e escondendo coisas do Harry? LOGO DELE? O cara que percebe tudo? Mas, não, pera. Não tem o que esconder. Você tá falando a verdade, Louis. Vocês e são amigos. Ouviu, esquilo? Já pode sair do meu estômago.
–– Sim, eu tô com pressa –– respondi. –– Na verdade tenho que resolver meus planos para o feriado.
Não era nada concreto. Na verdade tinha sido só uma manobra pra fugir do assunto, mas não era uma mentira total. Desde que encontrei minha antiga barraca enquanto procurava por uma fantasia pra festa, venho bolando uma ideia maluca para o feriado. Bem maluca, mas talvez funcione né. Vai saber.
–– Planos? –– ele franziu as sobrancelhas. PONTO PRO TOMLINSON! Mudei o rumo da conversa! –– Envolvem a ? –– bufei. Ponto pra bicha de olhos verdes.
–– Não, droga! –– eu ri. –– Tá, mais ou menos... Mas também envolvem você e mais gente, então não é nada demais. E eu ainda não tenho muita certeza do que vou fazer. Mas você vai ver, vai ser a melhor ideia que já tive.
–– Ok, agora eu tô com medo. –– ele balançou a cabeça, arrumando o cabelo.
–– Você se acha o rei da selva jogando essa juba de um lado pro outro né? –– debochei, dando continuidade ao plano “Distrair o Hazza”.
–– E você é a gazela. Quieto. –– eu estava prestes a retrucar quando ele me cutucou com o cotovelo e apontou pra e Niall no pátio, próximos à diretoria.
Eu e ele já conhecíamos bem o processo de “mostrar a escola para os pais”. Normalmente acontece à tarde enquanto estamos na educação física, e a gente sempre se surpreende quando nos deparamos com a diretora nos fuzilando com o olhar, nos flagrando fazendo algo estúpido e provavelmente pensando algo tipo “não acredito que vocês estão mesmo gritando, falando merda e cantando alto que nem babuínos na frente desses pais”. Pelo menos eu mostro a verdade sobre o colégio, ok? Ou eles esperam mesmo encontrar todo mundo bonitinho estudando? HÁ. HÁ.
HÁ de novo.
–– Se eles estão perto da diretoria... –– Harry ergueu as sobrancelhas e entendi o que ele disse. O tour tinha acabado.
–– Vamos –– concordei.
–– E aí, irlandês! Hey, brazileira! –– cumprimentei, os alcançando enquanto subiam as escadas para a diretoria. Agora é a parte que eles discutem preços, a qualidade dos professores, do material e blá-blá-blá com os responsáveis.
Niall respondeu com um aceno atrapalhado e me deu um beijo na bochecha. Logo em seguida veio o Harry quase me empurrando da escada, passando reto pelo loiro e dando um abraço demorado na brazileira. CARA, CALMA, NÃO VOU ROUBAR TUA GAROTA NÃO MENINO.
–– Vocês vieram mesmo. –– ele se afastou um pouco do abraço para ficar cara a cara com ela. E lá estavam as covinhas, o sorriso torto e o olhar penetrante do Mr. Flertador.
–– Não não, é só meu plasma que veio dar uma voltinha. A verdadeira tá lá em casa, viu? –– HAHA, BOA. Dá um trato nesse safado.
Harry resmungou e eu pigarreei:
–– E então, gente, o que acham de fazer um tour verdadeiro pelo colégio? –– ofereci e Harry riu.
–– Tour verdadeiro? –– Niall juntou as sobrancelhas.
–– Sim –– Harry respondeu. –– Vem, vocês vão entender.
–– Logo ali –– ele disse à nossa frente, lado a lado com a –– é onde fica o laboratório. Sei que a velha enrugada da diretora só disse da parte de estudos sobre todos os lugares, por isso eu e o Lou vamos mostrar o nosso jeito de ver o colégio.
Reprimi a vontade de fazer algum comentário relacionando velhas enrugadas com o Harry e apenas assenti, concordando com o que ele disse.
–– Ela disse que toda semana tem experimentos, né? Nada a ver. Nas poucas vezes que a gente vier vai ser por uns vinte minutos, mas até que vai ser interessante –– admiti. –– Então, o laboratório é quase como a nossa... Hm, área de lazer.
–– Como assim? –– perguntou.
Harry abriu a porta para a gente entrar. Não é como se o colégio fosse um lugar seguro à tarde. Nenhum inspetor, nenhuma porta trancada. A casa é nossa.
Entramos na sala grande com várias mesas redondas no meio, dois armários grandes com ferramentas, um cabide cheio de jalecos, a lousa em uma das paredes e uma TV enorme na outra extremidade.
–– É a única sala que tem cortinas –– Harry disse. –– Por isso é boa pra assistir filmes. Aí é só trazer alguns cobertores, chamar uma galera, se espreitar pelos corredores e tan-dan! É ótimo quando as aulas estão acabando e quase não tem matéria.
–– Se conseguir roubar umas sobremesas do refeitório, fica melhor ainda –– acrescentei.
–– Falando nisso, onde fica o refeitório? –– Niall perguntou.
–– Nesse andar mesmo, fim do corredor –– respondi. –– Se quiser uma sobremesa, hã, “de graça” é só aparecer lá pelas 2:30. É uma das vezes em que a moça de lá sai para supervisionar os reabastecimentos. Mas o melhor horário é um pouco mais cedo, quando fica lotado de alunos. É só pedir pra alguém que pagou o almoço pegar a sobremesa pra você.
Niall assentiu como se estivesse anotando tudo mentalmente.
–– E atrás do refeitório tem uma das três quadras. E virando à esquerda, saindo aqui do laboratório, tem a sala dos professores... Ao menos que você seja o Louis, eu diria pra tomar cuidado com aquele lugar.
–– Ao menos que seja o Louis? –– perguntou e percebi que o braço do Harry estava em volta de seus ombros. Cara rápido, tsc.
–– Ele é meio que amigo dos professores. –– Harry deu de ombros.
–– Mais ou menos. Então se precisar de alguém para colocar um trabalho atrasado na pasta de algum professor, conte comigo.
–– Então vocês são tipo a máfia da Hayfield –– Niall brincou e nós rimos.
–– Tem muita coisa ainda pra aprender, irlandês –– brinquei. –– Vem.
Continuamos nosso tour, falando sobre cada pedaço do colégio. A enfermaria, a lanchonete, a papelaria, as salas de judô e ginástica, a piscina... E terminamos com algumas fofocas. Harry fez questão de dizer, olhando descarado pra , quais eram os melhores lugares para fugir com uma garota. Niall perguntava sobre as coisas dos esportes e da lanchonete. No final, eu e Harry falamos um pouco de cada professor. Quais são legais, quais são rabugentos, chatos, paz e amor, malucos. Com quais eles poderiam apelar um pouquinho de nota caso precisassem e coisas do tipo.
No meio de uma das histórias meu celular apitou.
Bonitona em apuros!
Primeiro, o esquilo irritante no meu estômago deu uma mortal. Depois, tentei esquecer que as pontas dos meus dedos estavam formigando e comecei a rir da mensagem. Pedi licença pros três antes que Harry me fizesse alguma pergunta e começasse a zombar.
O que foi? Ficou pra fora de casa e não alcança a maçaneta? Haha
Engraçadinho você né -.-‘
Meu sorriso se desfez. E se ela estivesse mesmo com problemas? Louis, seu idiota. Disquei o número dela.
–– Hey, baixinha. Você tá bem? Aconteceu alguma coisa?
–– Não, não. Tá tudo bem. E contigo?
–– Tudo ótimo também. Eu tava aqui mostrando o colégio pra e o Niall.
–– O Harry não surtou ainda? –– ela brincou, me fazendo rir.
–– Não... Até que ele e o irlandês conversaram um pouquinho. Acho que o Harry está de boa com o loiro, eles não tentaram se matar ainda, então eu diria que está tudo sob controle.
Ela soltou uma risada gostosa e a porra do esquilo fez uma acobracia no meu estômago.
–– Então deixa que eu ligo outra hora, você deve estar ocupad...
–– NÃO –– eu praticamente gritei, procurando o que dizer pra mantê-la na linha. –– Na verdade já acabamos e o pai do Niall tá fazendo as matrículas. Mas e você? Tá fazendo o que hoje, fã número um?
–– Sozinha em casa, morrendo de tédio –– ela bufou. –– Ah, e com fome.
–– Foi pra isso que ligou, é? Pro titio Tomlinson tirar o seu tédio? –– zombei, sentando em uma cadeira do pátio.
–– Na verdade... Pensei se você poderia... Sabe... –– ela deu uma pausa, parecia um pouco nervosa do outro lado. –– Dar uma passada aqui. Daqui a pouco vou fazer compras sozinha e não tô no espírito.
Pensei um pouco. Ia ser complicado chegar lá, mas eu daria um jeito.
–– Sem problemas, chefe. Já já eu chego aí, ok?
–– Eba! Ok, tchau, testudo.
–– Ei!
–– O quê? Você me chama de baixinha e eu te chamo de testudo. Não pode?
–– Claro que não. Respeite os mais velhos, pirralha.
–– Ok, que seja. Tchau, idoso. –– ela desligou, rindo.
Olhei mais uma vez para a tela, que mostrava nossas últimas mensagens. Uma loooooonga discussão sobre qual seria o nome do pinguim de pelúcia. E... Hã, o nome dele é Fedido. Culpa da , não me perguntem.
Passei por , Niall e Harry com um aceno rápido e gritando algo para o Harold sobre ele ficar com o meu carro por mais um dia. Todos os dias eu dou carona para ele, e seria mancada simplesmente sair com o carro sem aviso e deixar ele na mão. Corri para casa o mais rápido possível. Para a minha sorte, Doncaster não é uma cidade muito grande. Tudo acaba ficando relativamente perto.
–– Ei! Lottie! –– chamei do quintal dos fundos. Ouvi passinhos apressados correndo pela casa.
–– Sim, Loueh? –– a cabecinha da Charlotte apareceu na janela.
–– Onde que tá aquela sua bicicleta antiga? –– revirei mais algumas tranqueiras da parte da garagem que a gente não usava e servia mais como depósito.
–– Hm... –– ela pensou por um segundo, saindo pela porta de trás. –– Deve estar aí. Ah... Não, mamãe acabou doando porque eu não usava mais. Por quê?
–– Droga! Preciso de... Sei lá, patins, bicicleta... Alguma coisa assim.
–– Tem a da Felicity logo ali, olha. –– ela apontou para um monte de bonecas de pano rasgadas, e logo ao lado delas tinha... Ah, merda. Tinha uma bicicleta rosa da Polly com rodinhas e uma cesta enfeitada com flores nela. –– Serve? –– ela perguntou fazendo careta.
–– Pelo menos vai me levar, não vai? –– responti com a mesma cara de cu, dando de ombros e tirando a bicicleta da garagem.
–– Mas e o seu carro, Lou?
–– Emprestei pra um amigo... Lottie, eu volto daqui a pouco, ok? –– Depositei um beijo no topo de sua cabeça e subi naquela bicicleta minúscula e ridícula.
Cheguei na casa dos Payne e larguei a bicicleta no gramado. Nem foi muito vergonhoso assim... Uma ou outra pessoa olhava e ria, eu me desequilibrava por causa das rodinhas e o acento minúsculo machuva minha bunda. Mas podia ter sido pior.
Era estranho ir até ali e não bater na porta da casa ao lado, a casa da vó da . Porque sempre que precisávamos tratar de algo para o teatro, era ali que ficávamos. Planejando panfletos, pintando cenários e ensaiando.
Toquei a campainha e quase saltei de susto quando em menos de um segundo a porta se abriu, como se já estivesse com a mão na maçaneta me esperando.
–– Tem certeza que quer minha companhia nas compras? –– eu disse, contendo um sorriso. Assim que sorriu como se pensasse “caraca, ele veio mesmo!”, o meu susto deu espaço para a sensação estranha no estômago novamente. –– Porque posso chamar o Fedido pra me substituir.
negou com a cabeça.
–– Claro que eu quero, idiota. Vem, entra. –– ela me puxou pelo braço e me deu um abraço de lado como cumprimento. VAZA DAQUI, ESQUILO MALDITO. –– E é só para comprar um pouco de comida porque só tem coisa de soja, fruta e verdura aqui. Eca.
–– A alimentação saudável mandou lembranças, tá? Só pra constar –– zombei e ela rolou os olhos.
–– Se não é gostoso, não é saudável. Regras da .
–– Então eu sou muito saudável, cara. Muito mesmo. Deviam tirar meu sangue pra fazer alguma vacina ou algo do tipo de tão saudável. –– ela começou a rir. –– O quê? Não sou?
–– Me tira dessa –– levantou as mãos em sinal de rendição. –– Não sei de nada. Só sei que a modéstia também mandou lembranças, só pra constar –– ela fez uma imitação péssima da minha voz.
–– Touché.
–– Hã... Lou... O Liam tá na aula de boxe e o resto da família, trabalhando. Espero que não tenha problema se você... Sabe...
–– Dar uma carona? –– tentei não rir imaginando a cena. Nós dois naquela bicicleta minúscula... Mas ela provavelmente não sabia que eu estava de bicicleta, então vamos só adiar o momento um pouquinho mais. –– Claro, . Sem problemas. E não gosto nada desse tom que você usa pra me pedir alguma coisa.
–– Que tom? –– perguntou, confusa, indo até a mesinha de centro da sala pra pegar dinheiro e um casaco.
–– Aquele tom de “Ai, eu tô incomodando... Droga. Desculpa”. Pode pedir qualquer coisa pra mim, você sabe disso.
–– Até mesmo fazer administração? –– levantou uma sobrancelha e fiz uma careta. Esperta ela, hein? Sabendo que odeio rotinas e coisas sérias demais, e faria todo o possível para nunca me tornar um chefe de empresa, advogado ou, sei lá, um contador. Sem ofenças.
–– Ok, não. Tudo menos isso –– respondi e ela riu, vestindo o casaco.
–– E então? –– abriu os braços e a olhei de cima abaixo. A camiseta cinza de bolinhas, o casaco azul escuro, a barra da calça jeans dobrada e o superga colorido... Uau, cara, que linda.
–– Nah, não gostei dessa roupa –– debochei, tentando conter o formigamento no estômago. –– O tecido e o caimento... Tsc.
Certo... A verdade é que eu nem sabia do que eu tava falando e a roupa estava ótima, mas irritar a é engraçado. Ela fica fofa.
–– Como é que é? –– ela soltou um barulhinho indignado, mas pelo sorriso em seu rosto, ela tinha entendido a brincadeira. –– Vai dar uma de modista agora, é?
–– Cara, eu sou Louis Tomlinson. Posso ser o que eu quiser, até mesmo virar astronauta agora mesmo, tá?
–– Mas já pararam de usar macacos, Lou. Sinto muito.
–– Ei! –– ela gargalhou. –– Pelo menos não é a minha roupa que tá zuada, ok?
–– Não tá zuada! –– protestou. –– E quer saber? Não ligo. Hoje minha autoestima tá maior do que eu mesma.
MEU DEUS HAHAHAHAHAHA ELA PEDIU POR ESSA. Comecei a rolar de rir, me apoiando nas paredes, sem ar.
–– O que é tão engraçado? –– perguntou, confusa.
–– Nada. –– mordi o lábio inferior, tentando não rir. –– Nadinha.
–– Diz logo, Loueh! O que foi? –– ela cruzou os braços vindo até mim.
–– Tá querendo um abraço, ?
–– Hã?
–– É que você disse que sua autoestima tá maior que você... Então ela continua bem pequena. –– gargalhei e peguei uma almofada do sofá, jogando nela. –– Quer que eu te elogie pra você se sentir melhor, quer, sua linda?
–– Seu idiota, quando é que vai parar, hein? –– ela pegou a almofada das minhas mãos, rindo, e devolveu a almofadada na cara.
–– Desculpa, baixinha. –– sorri que nem um idiota, minhas bochechas até doíam. O que tá acontecendo comigo?! –– Eu não resisti.
Ela estreitou os olhos e apontou o dedo, como se estivesse fazendo uma ameaça, o que só me fez sorrir mais ainda. atravessou a sala até a porta e voltamos para o quintal.
–– Er... Espero que você não se importe de irmos nisso. –– apontei com a cabeça para a bicicleta pequena e rosa jogada no gramado.
–– O quê? A gente vai... Hm... Nessa... Bicicleta? –– ela perguntou de olhos arregalados e tive que me segurar muito pra não rir da reação dela, porque era óbvio que ela também escondia toda a surpresa ao ver a bicicleta.
–– Se você preferir ir a pé... É que eu deixei o carro com o Harry, e isso foi o que pude improvisar, desculpe.
–– Não, não. Não tem problema nenhum, Lou. Vai ser uma experiência, hã... Diferente. E você vai estar comigo. –– deu de ombros e minhas bochechas queimaram.
–– Claro que vou. –– minha voz falhou e soou mais como um sussurro esganiçado.
–– Me lembre de te dar um belo tapa por isso mais tarde. –– riu atrás de mim enquanto passávamos por uma praça relativamente cheia. E, sim, todo mundo olhou pra gente.
–– Pra que isso, hein? Toda essa agressividade. Que garota má. –– ri junto.
–– Culpa do Malik, sabe. O bad boy.
–– Então acho melhor você se afastar dele, é má influência –– brinquei, fazendo voz grave. Eu sabia que ele era um cara legal.
–– Falou, então, papai.
Eu estava prestes a responder quando virei à direita e dei de cara com um decida. Ok, não era íngreme, mas não estávamos nas melhores condições e não consegui parar a tempo. Caralho de freios, merda de bicicleta.
–– Hã, ... Acho que você esqueceu de que essa rua aqui é uma ladeir...
Eu não fazia ideia de que podia ter medo daquela ladeira minúscula. Mas confesso que fiquei feliz por saber que ela tinha.
Senti seus braços envolverem forte minha cintura e sua cabeça ser enterrada nas minhas costas e todo o ar de meus pulmões foi expelido. Não porque ela estava me sufocando com o abraço ou algo do tipo, mas... Ah, cara, não sei. Foi estranho, foi rápido, e nunca tinha sentido algo parecido até então. Minhas mãos suaram, minha espinha parecia ter sido eletrocutada.
Alguém pode estender essa ladeira até ela alcançar uns, sei lá, infinitos metros? Por favor. Por favor. Por favor.
Merda. A ladeira terminou. Mas... Hm... Não, ela não soltou minha cintura. E isso não foi um protesto.
–– Você ficou mesmo com medo dessa decida de nada? –– ri, nervoso.
–– E você não? Olha o tamanho dessa bicicleta! E olha só quem é que está pilotando –– zombou, segurando o riso. –– Mas é claro que você não teria medo, né. Vaso ruim não quebra.
–– Ué, não entendi. Então por que você tava com medo? Até onde eu sei, vasos lindos e perfeitos também não quebram –– falei, e escondeu o rosto nas minhas costas, envergonhada acho.
–– Eu sou uma baixinha, ok? E não um vaso –– disse baixinho, ainda envergonhada. AWN.
–– Mas eu não tava falando de você. O vaso lindo sou eu, você que é o ruim –– brinquei, e ela soltou mais um barulho indignado, me dando um tapa leve no ombro logo em seguida.
–– Idiota! –– nós rimos.
–– Você sabe que não pode ser um vaso. Seria um vaso tão pequeno que te usariam como chícara... Então continua sendo a anã da história, de qualquer maneira.
–– Você vai ver o estrago que a chícara vai fazer no vaso gostoso se ele não parar com isso.
Meu coração decidiu dar uma mortal dentro do peito.
–– Eu não disse nada sobre o vaso ser gostoso.
–– Mas eu tô falando que é, oras –– disse quase num sussurro.
Não pude evitar sorrir e tive que me segurar muito pra não parar a bicicleta ali mesmo e poder olhar pra ela. Aposto que devia estar completamente corada e sem graça. E também tinha certeza que um sorriso bem idiota e enorme estava estampado no meu rosto.
–– Você sabe que você é que é o vaso lindo da história, não sabe? –– as palavras simplesmente saíram da minha boca.
–– Puft. Claro que sei, se não fosse assim... Seria o quê? Você, o lindo? –– ela riu irônica e o tom debochado dela me fez relaxar. O nervosismo era tanto que eu estava prestes a forçar o vômito pra expulsar aquele maldito esquilo de dentro de mim.
–– Posso não ser bonito, mas pelo menos sou gostoso. –– dei de ombros. –– Pelo menos é isso o que você mesma acha. Certo?
–– Er... Presta atenção no caminho, vai. Shiu.
’s pov:
Se Niall não tivesse me olhado como se eu estivesse a ponto de um ataque cardíaco, provavelmente eu nem teria percebido o meu próprio estado. Minha franja parecia um ninho de tanto que eu mexia nela, jogando de um lado para o outro; eu remexia minhas mãos inquietas uma na outra e esfregava meus próprios joelhos sentada no banco de trás. Isso tudo por causa de uma escola.
Desde meus seis anos eu estudei no mesmo colégio. Eu realmente não fazia ideia de como era ter um primeiro dia de aula em um lugar totalmente diferente.
Ok, não era realmente o meu primeiro dia de aula. Só iríamos até a Hayfield dar uma olhadinha e provavelmente fazer as matrículas. Mas aquilo só significava que faltava muito pouco para o tal dia chegar.
Primeiro, pensei que seríamos apenas eu e Niall. Mas logo esse medo foi embora quando conhecemos , , Louis e Harry. Acho que a pior parte já tinha passado, então. Na verdade eu já estava um tanto quanto aliviada por ter o Nialler e não precisar ficar isolada num canto, sem falar com ninguém... Então a ideia de mais quatro pessoas do nosso lado era mais do que um bom motivo para ajoelhar e agradecer a algum leprechaun generoso.
Mesmo que Niall não estivesse em nenhuma das minhas turmas, pelo menos o intervalo não seria tão... Solitário. Agora, com todos outros, sei que nesse quesito eu já começaria bem. Fora isso, eu tinha medo (MUITO medo) de me ferrar em todas as matérias.
Eu ficava me perguntando se teria aquele típico primeiro dia de aula que via os caras novos do meu colégio no Brasil... Boiando completamente no sistema da escola, não conseguindo me lembrar do nome ou da cara de mais de três pessoas e tendo que me “apresentar”. Nome, de que escola veio, etc etc. E era aí que fodia a bagaça toda.
1 – Meu inglês. Não é o pior, mas ainda está longe de ser fluente. E tenho certeza que vou acabar falando coisa errada quando todo mundo na sala estiver me encarando. Do tipo “então, de onde você veio?”... “Ah, maionese”. O que foi? É sério. Eu me conheço. Vou fazer uma merda dessas mais cedo ou mais tarde.
2 – Brasil. Não sei como as coisas acontecem aqui em Doncaster, mas, que eu saiba, minha escola nunca recebeu um estrangeiro. Eu tinha medo de como as pessoas na Hayfield me receberiam.
3 -... Harry? Ok, não. Harry definitivamente não é um dos motivos do meu nervosismo. Não mesmo.
Talvez um pouquinho.
Niall, eu e Bobby seguimos a diretora por toda a extensão do colégio até pararmos ao lado de uma das três quadras. E lá estavam Harry e Louis com o sol batendo nos rostos, ofegantes e suados. Não faço ideia de como aquilo era possível, mas estavam ainda mais lindos que das últimas vezes que os vi. Cara, se todo britânico que eu encontrar for como esses meninos, nunca mais vou querer sair de Donny.
Pouco tempo depois, os dois se aproximaram de nós e nos arrastaram para um “segundo tour” (bem melhor que o primeiro). E assim que o tal tour e as fofocas sobre a vida dos professores e dos alunos acabaram, Louis e Niall começaram a tagarelar sobre futebol. Eles realmente amam isso, meu Deus.
O bom é que eu também amo, então não fiquei sobrando. Logo nós quatro estávamos discutindo os altos e baixos dos nossos times favoritos. Pelo menos até Louis se levantar, ir até o pátio e depois sair correndo e gritando feito louco.
–– Tá tudo bem...? –– perguntei de olhos arregalados depois do susto que levei com aquela cena.
–– Acho que sim... –– Harry estreitou os olhos, dando de ombros logo em seguida. –– Acho que ele volta logo.
Nialler coçou a nuca, desajeitado:
–– Hm, Harry... A tá por aqui? –– perguntou quase num sussurro. Eu realmente não entendia porque ele tinha tanto medo do Harry. –– Quero dizer, a e a estão aqui?
–– Sim, sim –– ele respondeu. –– As duas lesmas devem estar na ginástica agora. Lembra onde fica?
Niall assentiu:
–– Perto de uma das quadras e ao lado da piscina... Certo? –– arriscou, e Harry sorriu em resposta. Aquele sorriso fechado dele que deixa suas covinhas bem fundas e sua boca... Ok, , chega. Pare de olhar pros lábios dele. –– Vocês vêm?
Abri a boca para responder, mas Harry foi bem mais rápido:
–– Talvez depois.
E com um aceno de cabeça, Niall saiu andando pelo pátio.
–– Ele é bem tímido, né –– Harry comentou.
Dei de ombros.
–– Ele só é assim perto de você. Acho que seus cachos assustam ele –– brinquei.
Harry balançou a cabeça negativamente.
–– Essas maravilhas aqui servem para seduzir, não para assustar.
Comecei a rir.
–– Quem foi que te disse isso? Acho que alguém andou te iludindo, viu...
Seus lábios se repuxaram num sorriso brincalhão e ergueu as sobrancelhas.
–– Não era isso o que parecia lá no corredor da sua casa...
–– HARRY! –– protestei esganiçada, tentando esconder o quão corada eu devia estar assim que ele colocou o braço em volta dos meus ombros de novo, só pra me irritar. –– Sai! Já disse que você tá todo suado!
Ele começou a rir.
–– Por isso mesmo. –– sorriu sacana, me abraçando mais forte ainda.
–– Seu nojento grudento –– resmunguei.
–– Não sei por que você tá achando tão ruim assim –– disse com o rosto afundado no meu ombro. –– Não é o seu plasma que tá aqui, afinal? Então, ele não devia se irritar com algo bobo como suor...
–– Muito engraçado, Styles. –– Revirei os olhos, tentando não rir daquele idiota.
Fechei os olhos com força quando senti a ponta de seu nariz percorrendo todo o meu pescoço, deslizando dos meus ombros até o lóbulo, e voltando à clavícula. Porra, Harry, por que você tem que ser tão... Tão... Ah, droga. Socorro.
–– Eu adoro seu cheiro, sabia? –– ele disse com os lábios macios e úmidos roçando na pele sensível do meu pescoço. Seu hálito quente e sua voz rouca fazendo minhas pernas estremecerem e segurei firme nos cachos da nunca dele, exatamente como da última vez. Se eu tivesse algo em que me segurar (mesmo que esse algo fosse o próprio Harry... E eu não estou reclamando disso) talvez fosse mais fácil conter meu próprio nervosismo.
–– ? –– outra voz me chamou. Tive que me esforçar para abrir os olhos e ver quem era. Harry já tinha afastado seu rosto, mas continuava do meu lado... E com uma cara de poucos amigos. Terceira vez que nos atrapalham, até eu estava começando a me irritar.
–– Jon? –– arrisquei. Eu tinha a péssima mania de confundir o nome dele com os dos amigos dele quando eu e Niall os conhecemos no Doncaster Dome.
–– Sim, eu mesmo! O que você está fazendo aqui? –– o sem noção veio me cumprimentar com um abraço rápido, ignorando Harry completamente.
–– Eu vou estudar aqui –– respondi. –– Eu e o Niall, na verdade. Lembra dele, né?
Jon assentiu com um sorriso satisfeito por causa da notícia.
–– Assim podemos ficar mais tempo juntos. –– sorriu de lado. Não me leve a mal, Jon era realmente fofo, mas eu não conseguia mais olhar para ele do mesmo jeito desde que agira daquele jeito rude com o Niall no parque. Ainda mais depois de ver com que tipo de gente ele andava... Dan e . E se ele fosse exatamente como eles? Espere... E se eles também estudassem ali?
Jon percebeu que eu não expressava a mesma alegria que ele por causa da notícia, e automaticamente olhou para Harry como se de repente tivesse se dado conta de sua presença ali. O sorriso no rosto dele logo se desfez assim que o fez, e o desprezo no olhar era tanto que seus olhos quase saltavam das órbitas.
–– Perdeu alguma coisa? –– Harry disparou mal humorado.
Jon fechou o punho e respirou fundo, voltando seu olhar pra mim.
–– Nos vemos por aí. –– forçou mais um sorriso e continuou seu caminho.
O peso da situação mais que constrangedora me atingiu em cheio e não me atrevi a olhar para Harry depois daquilo. Teria sido muito mais fácil se um certo Jon Shone não tivesse aparecido e atrapalhado tudo... Teria sido muito mais fácil continuar nos braços de Harry, num abraço desajeitado, com ele no meu pescoço. Eu não negaria pra mim mesma que o desajava... O cara é gostoso demais, poxa. Dá um desconto.
Mas eu também tinha certa coisinha chamada orgulho... Ou algo parecido, sei lá. Ainda me lembrava da “promessa” que fiz para mim mesma de não me envolver assim tão cedo com alguém de Donny e tentar me focar totalmente nos estudos.
Fiquei olhando para os meus próprios pés como se fossem a coisa mais interessante do universo, tentando manter minha cabeça vazia. Mas... Argh. Minha vontade era de puxar a gola da camisa do Styles, enfiar minha cara ali e ficar pra sempre respirando o cheiro amadeirado dele. E ele estava bem ali do meu lado. Sendo gostoso. Sedutor. Fofo ao extremo. Arghhhh filho da puta.
E então foi ele mesmo quem me trouxe de volta ao mundo real... E acho que esperaria qualquer reação dele, qualquer uma... Menos a que ele realmente teve:
–– Hm... Desculpa.
Tirei meus olhos dos meus sapatos para examiná-lo e me arrependi logo em seguida. COMO ELE CONSEGUIA SER TÃO LINDO?!?! Os olhos esverdeados me atravessando como adagas, os cachos rebeldes e ao mesmo tempo alinhados, os lábios carnudos... TUDO. Maldito, maldito, maldito.
–– Por...?
Ele deu de ombros com um rostinho de cachorro arrependido.
–– Invadir o seu espaço, eu acho.
Eu quase ri. Quase.
Não nego que seria mais fácil para mim não-agarrar o Harry se ele não me provocasse daquele jeito... Acho que ele ainda não tinha percebido que eu gostava. Isso mesmo, pode me julgar, eu não considerava nada daquilo como incômodo ou algo do tipo. Tá, ele era atrevido, sim. Mas e daí? Não é como se eu odiasse ter um cara como Harry Styles falando no meu pescoço ou me preensando contra uma porta e... Ai, Deus. Ok, parei. Respira, .
–– Não é como se fosse um problema. –– sorri, e a carinha dele só ficou ainda mais confusa e fofa awn uasldbhakdusahdaus. Pare com isso, Harry.
–– O Lou tem razão, mulher é tudo doida. –– abriu um sorriso enorme de covinhas mostrando os dentes perfeitos. –– E quem era aquele...? –– o sorriso dele vacilou.
–– Ninguém especial. –– dei de ombros.
–– Pelo que ele disse, parece que vocês já se conhecem bem. –– colocou as mãos no bolso da calça. Oi? Harry tá com...? HAHAHAHAHAHA Não vou nem me atrever a continuar a merda que tava pensando. Nossa, . Parabéns, você acaba de se superar no quesito pensar besteiras, hein?
Rolei os olhos, mais por causa da minha própria idiotice do que pela curiosidade repentina de Harry sobre Jon.
–– A gente acabou se encontrando num ponto turístico nos meus primeiros dias aqui, só isso. Por que a curiosidade?
–– Nada, poxa. Não se pode mais perguntar com quem as pessoas saem?
–– Eu não disse que estava saindo com ele. E desde quando se importa com quem eu saio?
–– Não me importo. –– engoliu em seco e desviou o olhar, tímido. –– Por quê? Você... Você queria que eu me importasse...?
Tentei sustentar o olhar dele, mesmo com a timidez me atingindo agora também. Se eu quisesse que ele se importasse com quem eu saía... Isso significaria que eu queria o ciúmes dele... Certo?
–– Você quer que eu queira que você se importe? –– foi o que eu consegui responder, ao invés do grande “sim” que queria sair da minha boca. ÓTIMO. AGORA A GENTE VAI ENTRAR NUM CICLO SEM FIM SENDO QUE EU NÃO ENTENDI NEM O QUE ACABEI DE DIZER. Aposto que meu inglês péssimo conseguiu piorar ainda mais minha frase confusa.
–– Hã? Pera... Você quer ou não? –– ele olhou novamente pra mim, as sobrancelhas franzidas.
–– Quero o quê? Calma, tô confusa...
Harry gargalhou como uma criancinha e foi inevitável rir junto.
–– Deixa pra lá. –– ele deu de ombros. –– Sabe de uma coisa? Nós nunca conversamos. Tipo... Pra valer. Não sei muito sobre você ainda.
–– Tudo bem, o que quer saber?
–– Tudo.
–– Se me contar um pouco mais sobre você também... Posso pensar no seu caso. –– sorri.
Nós andamos vagarosamente até o banco mais próximo ao passo que eu já começava a falar da minha família. Primeiro sobre os meus avós e meus pais, e então sobre alguns primos e tios, e até mesmo sobre o Tonto.
–– Tonto? –– perguntou com uma careta meio incrédula à beira do riso.
–– Bom, sim... Até que é fofo, não é? Sei lá, soa como um apelido carinhoso.
–– Chamar alguém de tonto não é carinhoso! –– riu. –– O cachorro já começou sofrendo bullying pela própria dona! Que horror –– dramatizou, fazendo uma careta de quem culpa alguém por um assassinato ou coisa parecida.
–– Até parece que você não xinga o Louis! –– acusei. –– E é carinhosamente! Bom... É, não é?
Ele tombou a cabeça, considerando.
–– Sim. Ok, continue, Tonta.
–– Ei!
–– O quê? Vai brigar comigo por eu ser carinhoso? –– um sorriso irônico brincou em seus lábios e ele ergueu uma sobrancelha.
–– Não, até porque eu teria outros motivos pra discutir com você. –– dei de ombros.
Ele me encarou, curioso.
–– Tipo?
Ser ridicula e irritantemente gostoso, talvez.
–– Tipo ter uma foto horrível minha nos seus contatos. –– o fuzilei com o olhar e ele segurou a risada.
–– Isso é passado, Tonta. Hora de seguir em frente. Anda, continua.
Nós nos sentamos no banco e comentei sobre o caso de com o Greg, aproveitando pra explicar o motivo de eu estar aqui em Donny agora. E Harry estendeu o assunto ao falar um pouco mais dos próprios pai, padastro, mãe e irmã. Falamos um pouco de tudo. Nossa relação com a família, as músicas que gostávamos (e ele até me convidou pra assistir a uma apresentação de sua banda, a White Eskimo), o dia-a-dia, filmes, sonhos e, claro, ele também não parava de perguntar sobre o Brasil. As “apresentações” acabaram, e começamos a falar, por exemplo, de coisas que odiamos e amamos ao extremo. Atitudes, músicas, roupas, comidas. Qualquer coisa.
Acho que pouco mais de uma hora se passou, e chegamos a um ponto em que parecíamos melhores amigos conversando. Era mais uma sinfonia de gargalhadas do que uma conversa, para falar a verdade. Mas era bom. Harry já tinha me feito rir e gargalhar várias vezes, mas a companhia dele se tornava cada vez mais agradável. Era muita informação nova sobre ele e minha cabeça pesava, mas eu estava feliz por conhecer um pouco mais sobre Harry Styles. Ele conseguia ser ainda melhor a cada segundo.
–– Você vai mesmo, né? –– ele perguntou pela décima vez.
–– Já disse que sim, agora pare de me perguntar antes que eu mude de ideia –– ameacei em tom brincalhão.
–– Vai ser ótimo. –– os olhos brilharam, Harry realmente amava música. –– Quero dizer, nunca tocamos pra alguém que não fosse minha mãe, ou Louis... Então, é. Vai ser legal.
–– AH EU TIVE UMA IDEIA! –– gritei, sem querer. Mas a ideia realmente me animou. –– Já que você nunca andou a cavalo, devíamos ir a algum haras. Eu amo cavalgar, e já faz tanto tempo desde a última vez... Então, sei lá, posso te ensinar um pouco.
O sorriso dele vacilou por um instante.
–– Tipo... Você vem na apresentação e eu vou ao haras? –– assenti com a cabeça várias vezes. –– Mas você não tem medo deles? –– perguntou, sério.
–– Medo de quem?
–– Dos cavalos, ué.
–– Claro que não! Por que teria medo deles? –– fiz uma careta.
–– Eu sei lá, eles são grandes... Parece que vão te esmagar ao menor passo. –– estremeceu.
–– Medroso –– provoquei. –– Bundão.
–– Não sou medroso! Nem bundão, ok? Isso é com o Lou. Só não quero me machucar e...
–– Pó pó pó pó pó pó. –– comecei a me remexer no banco numa espécie de dança epilética ou sei lá que porra era aquela. Eu disse que a gente já parecia melhores amigos, falando merda e fazendo idiotice um pro outro sem se constranger... Pois é.
–– Uaaaaauuuu quanta maturidade, ! –– ele começou a rir. –– Estou impressionado, Srta. Tenho Nove Anos.
–– Falou então, vovô. –– rolei os olhos. –– Póóóóó. –– imitei as asas de uma galinha com meus próprios braços.
–– Tá, tá bom, eu vou! –– levantou as mãos na altura dos ombros, levando-as pra minha boca loga em seguida. –– Agora, quieta.
–– EBA! –– gritei assim que ele as tirou. –– Vai ser divertido, não esquenta. É relaxante.
–– Realmente, espero que eu não morra nessa. Olha que eu posso voltar como espírito e puxar teu pé à noite hein?
–– Tudo bem. –– dei de ombros. –– Vai morrer com meu chulé antes mesmo de me alcançar.
–– É meu espírito, besta. Como é que vou morrer duas vezes?
–– Eu sei lá, você que é o espírito, não eu. E, na pior das hipóteses, o chulé te afasta, de qualquer maneira...
–– Não acredito que vai me fazer subir naquela coisa.
–– Ei, não fala assim deles! –– repreendi. –– Você que é cagão e tem medo, os cavalos não têm culpa nenhuma.
–– Como se você não tivesse medo de nada. –– revirou os olhos.
–– Bom, tenho. –– comecei a levantar os dedos da mão de acordo com o que citava: –– Baratas, escuro, lugares fechados e subterrâneos, agulhas... Só algumas coisinhas.
–– Então! Seria a mesma coisa se eu te fizesse montar numa barata gigante e andar por uma caverna com ela –– ele disse com tanta naturalidade quanto oferecer um sorvete de baunilha.
––... O que foi que você fumou, Styles?
–– O seu chulé, provavelmente. –– levou os dedos ao nariz, rindo.
–– E AÊ CAMBADA! –– uma voz aguda e irreconhecível gritou, do nada, bem atrás da gente. Pude jurar que meu coração deu um pulo... Hã, um pulo... não sei nome de saltos. Enfim. Deu um pulo muito louco tentando sair pela minha boca, enquanto eu soltava um grito curto e agudo. Assim que olhei na direção do escandaloso Tomlinson, vi que eles (Lou e ) encaravam o espaço vazio ao meu lado. –– Hã, cara... Desculpa... –– Lou começou a dizer enquanto Harry se levantava do chão, ofegante, e nós explodimos em risadas.
–– Por onde é que vocês andaram, hein? –– Harry perguntou. Acho que ouvi um quê de malícia na voz dele, mas deve ter sido coisa da minha cabeça.
–– No mercado –– respondeu de boca cheia, devorando um pacote de bolachas. Lou pegou uma também:
–– É, a bola de pelos tava em apuros, com fome, e então me chamou e nós demos uma voltinha.
–– Já avisei pra parar de me chamar assim. –– bateu o pé.
–– Bola de pelos? –– perguntei.
Louis segurou a barra da blusa de moletom felpuda que a usava (e era umas três vezes maior que ela):
–– É, comprei isso pra ela. Agora ela é uma bola de pelos –– disse sorridente, recebendo um olhar feio de logo em seguida. –– Vamos, vou te levar em casa. Vai com a gente né, Harry?
–– Na verdade... –– interrompi. –– Acho que ele vai jantar lá em casa hoje.
–– Vou? –– Harry perguntou, confuso.
–– É, acho que o Bobby não vai se importar. Você e a jantam lá, e depois nós levamos vocês pra casa. Sei que tá em cima da hora, mas...
–– O tio e minha mãe são bem tranquilos, eles não vão se incomodar... Eu acho. –– deu de ombros, já pegando o celular e teclando. –– Só pra conferir. Mas acho que eu fico mesmo, Lou.
–– Tá bom. –– Louis deu de ombros. –– Vamos, bola de pelos.
Os dois se afastaram discutindo e rindo.
–– Então... A que devo a honra do convite? –– Harry perguntou com aquele sorriso irônico irritante e sedutor.
–– Nada especial. Só quero ser gentil. –– tentei conter o nervosismo, fazer minha voz não falhar e minhas bochechas não corarem. –– Além do mais, vamos passar bastante tempo juntos daqui em diante, certo? Aqui na escola. E, claro, vocês vão ter que me dar uma ajudinha com as matérias.
–– E desde quando sou professor? –– brincou.
–– A partir de agora, bocó. –– fiz uma careta.
Graças aos leprechauns, eu não me arrependi de ter convidado Harry e ! E não, com isso eu não quis dizer “graças a Bobby e Niall”... O maldito do Nialler tem a mania de falar “pelas barbas do leprechaun”, “santo leprechaun!”, “oh my leprechaun” e agora fiquei com isso na cabeça.
Enfim.
não seria um problema mesmo. Ela foi a primeira garota que conheci aqui (fora a tal com o namorado troll e o saco de cocô, mas felizmente não cheguei a falar com ela), e nos entendemos muito bem. Já Harry... Não é como se ele tivesse se comportado muito bem da última vez que veio, né.
Jantamos o básico macarrão com queijo e, como ainda era cedo, sentamos na sala pra assistir um pouco de TV, só nos quatro. Bobby preferiu ficar no quarto dele pra não “atrapalhar a diversão” ou algo assim.
–– Ei, olha. –– Harry apontou pra tela e me cutucou com o ombro. –– Não sabia que você conhecia o Shrek.
–– Hã...? –– fiquei encarando a cena, tentando entender, enquanto Niall e já riam do outro lado da sala. Harry estava sentado no sofá, eu no chão encostada próxima às pernas dele. Niall na poltrona com o notebook no colo mostrando algo pra , que estava sentada ao lado dele, no braço da poltrona.
–– Ok, vamos lá, lerdinha do meu coração... –– começou a explicar como se eu fosse retardada. –– Quem é que tá na cena?
–– O Shrek e o... EI, EU NÃO SOU O BURRO.
–– Não? Tem certeza? –– começou a rir.
–– Não, não sou, Hazza. –– dei um peteleco na perna dele. –– Se eu sou o burro você é o príncipe encantado bichona.
–– Olha... Príncipe encantado eu posso até ser, mas bicha...
–– Aí você é com certeza.
–– HEEEEEEEEEEEEY!!! –– Niall e gritaram do nada, acabando com a nossa “dicussão”.
–– E aí, loiro aguado. –– pera, eu conheço essa voz de algum lugar... –– Oi, menina que não conheço.
Niall riu:
–– Essa é a , Greg. Lembra que te falei?
–– Aaaaaaaaaaaaaaah é, verdade... Ouvi falar muito de você, sabia?
corou e desviou o olhar.
–– Espero que ele não tenha falado muito mal de mim –– brincou.
–– Pode ter certeza que não. –– o tom malicioso de Greg foi TÃO, mas TÃO discarado que até eu senti vontade de corar.
–– E aí, Nialler, a besta da tá se comportando? –– outra pessoa disse.
–– ! –– gritei e corri pra entrar na conferência também, com Harry me seguindo.
–– Fala, pirralha! –– ela e Greg deram um aceno desajeitado, e arregalou os olhos quando Harry apareceu logo atrás de mim também. –– Mas gente, que é isso? O Niall mal saiu da Irlanda e você mal saiu daqui, mas já arranjaram parzinhos?
–– Essa bicha aqui não é meu par –– brinquei, vendo pela tela do notebook Harry rindo em resposta. –– É só o Hazza, um... hã, amigo.
–– E também o professor dela nas horas vagas, pelo jeito. –– assentiu. –– Prazer em conhecer vocês, e... Greg né?
–– Isso. Prazer em conhecer vocês também. –– Greg abriu aquele sorriso enorme e bobo dele. Coisa de Horan, eu acho.
–– Digo o mesmo. –– concordou, então olhou pra mim: –– Vai ter que me contar tudo depois, ouviu?
Rolei os olhos.
–– Que seja. –– dei de ombros.
–– Nós já estamos de saída... –– Greg lamentou. –– Mas foi bom ver sua cara feia de novo, loiro aguado. Até mais, gente.
Nos despedimos e Niall guardou o notebook. Conversamos mais um pouco, rimos, discutimos amigavelmente e dançamos as musiquinhas do Shrek.
Depois de um bom tempo, Harry e preferiram ligar pro pai da e pedir que ele os buscasse... Disseram que Bobby já tinha sido um anjo aceitando a visita barulhenta deles ali de repente.
–– É, até que não foi tão mal assim –– Harry brincou, já na porta. e Niall atravessavam o gramado na direção do carro do pai dela. Aquilo era uma cena que eu queria ver... Se Niall já tinha medo do Hazza, imagine então do pai da . –– Te vejo amanhã cedo, então?
–– Acho que sim. –– fiz uma careta. Acordar cedo no dia seguinte... Que droga. –– E eu não esqueci do nosso acordo, viu? Eu assisto à White Eskimo e você vem num haras comigo.
–– Merda. Você lembrou mesmo. Tudo bem, acho que posso fazer isso. –– deu de ombros.
Olha, eu sou a favor do Harry parar de me impressionar a todo segundo. Ele sorriu de um modo meigo, colocou a mão macia sobre minha bochecha e... E... Ele... Me deu um selinho. É. E foi completamente diferente de tudo que imaginei que poderia ser... Não que eu tenha ficado imaginando, claro que não... Puft.
Não foi desesperado, transbordando desejo ou safadeza. Foi calmo, delicado, um tanto demorado e até mesmo fofo. Fofo pra caralho. Os lábios quentes e absurdamente macios se afastaram de mim segundos depois, formando um sorriso bobo que ficava perfeito no rosto dele. Quando abriu os olhos esverdeados, seu sorriso se abriu ainda mais. Puta que pariu. Por que faz isso, Styles?!
–– Até amanhã –– disse com aquela voz ridiculamente sedutora e um pouco nersovo, coçando a nuca, se virando logo em seguida. AH, É ISSO MESMO NÉ? Vem, me beija e sem mais nem menos vai embora. Ah, seu bosta. Agora volta aqui.
Ele olhou uma última vez, sorrindo, por cima dos ombros para mim antes de entrar no carro e meus pulmões quase imploraram pelo cheiro amadeirado dele novamente.
Aquele... Argh.
Zayn’s pov:
–– Ok, ok, eu falo! –– levantei as mãos na altura dos ombros. –– Agora parem com a chantagem, vocês dois.
–– Certo, nós paramos –– Liam deu pulinhos no acento como uma criancinha animada. –– Desembucha.
Respirei fundo.
–– Tem sim algo rolando entre eu e a ...
–– Tá, disso a gente já sabe né. –– me encarou.
–– Deixa eu terminar, por favor? Obrigado. Então... Nós nos conhecemos num pub. Eu tava sozinho e ela com um grupo de amigos, e o ex dela...
–– Você tava enchendo a cara? –– a expressão ansiosa de Liam se desmanchou completamente.
–– Hã... Tenho um bom motivo pra isso. Agora me deixa continuar... O ex dela tava lá, ela queria esfregar na cara dele que estava bem, então escolheu um cara pra fingir ser o namorado dela... Ou seja, me escolheu. Era pra ter sido só aquela noite e uma mentira aqui ou ali pelo facebook caso alguém me encontrasse e perguntasse, mas nós nos trombamos de novo na festa à fantasia e conversamos bastante e...
–– Awwwwwwwwwwwn. –– colocou uma mão no peito e tampou a boca com a outra.
–– Calma, criatura. –– Liam brincou. –– Continua, Z.
–– E rolou um clima –– continuei, rindo da reação da . –– Aí aquele dia que todo mundo foi na sua peça, eu e ela fomos até seu camarim desejar boa sorte... Mas eu cheguei atrasado e você já tinha saído de lá. Enfim, resumindo... Acabou que ficamos presos no seu camarim, conversamos mais um bocado, tivemos que sair pela tubulação pra não perder a peça e ela me deu uma carona no final. Então...
–– Então...? –– Liam encorajou.
–– Ficamos uma segunda vez. –– um sorriso idiota ameaçou aparecer no meu rosto. –– E continuamos conversando pelo skype. Acho que... Significa que estamos ficando, não é?
pensou por alguns segundos:
–– Além de se agarrarem e serem fofos um com o outro, o resto do mundo pensa que vocês já namoram faz um tempo. Acho que isso significa que, sim, estão juntos. Eu acho.
–– Por que não pergunta pra ela? –– Liam perguntou.
–– Ah é, claro –– respondi. –– Então, , como é que a gente tá mesmo? Amigos que dão uns pegas, ficantes, namorados de mentira que entraram no clima...?
–– Por que não? –– perguntou, confuso.
bufou.
–– Liam, querido, se o Zayn não sabe o que é que está rolando entre os dois, por que ela saberia? É cedo pra isso. Vai parecer que ele já tá cobrando algo dela ou algo do tipo.
–– Exato –– concordei, dando mais uma mordida no meu sanduíche. O cara conseguia ser lerdo ao extremo. Acho que só por isso ele e a ainda não se comeram.
–– Hm... ... –– Liam olhou para o pátio. –– Tem certeza que quer fazer isso? Não precisa.
–– Já disse que vou fazer, caramba.
–– Pera, fazer o quê? –– perguntei.
–– Liam e eu fizemos uma aposta. Eu perdi e agora tenho que pagar o mico que ele escolheu, mas o cagão tá querendo voltar atrás.
Concordo com a , esses dois ainda vão casar, puta merda.
–– Mas, ... –– Liam continuou.
–– Quer saber? Vou lá agora mesmo. –– sem mais nem menos, se levantou da nossa mesa e atravessou o pátio, parando ao lado da árvore enorme que tinha bem no meio. Respirou fundo e abraçou a árvore. Todo mundo começou a encarar ela como se fosse uma louca e eu comecei a rir da coitada.
–– Belo desafio –– falei.
–– Não tem graça, Z...
–– Claro que tem, olha lá. –– comecei a gargalhar quando percebi que também estava cantando desafinado feito um ornitorrinco rouco.
–– Não, não é divert...
–– NEVER MIIIIIIND I’LL FIIIIIND SOMEONE LIIIIIKE YOOOOOOUUUUUUUUUUU!
–– Ok, é sim. –– gargalhou também.
–– AND I WISH NOTHING BUT THE BEEEEST FOR YOOOOUUUUU!
Então soltou a árvore e voltou pra nossa mesa. Só o idiota do Liam pra achar aquilo um problema. O povo ria e alguns aplaudiam, era óbvio que tinha sido uma aposta. Ninguém falaria mal dela... eu acho.
–– Viu? Tô viva. –– se sentou com a gente.
–– É, mas os meus ouvidos não. Por que fez isso com eles, hein? –– debochei.
–– Vai lá então abraçar a árvore, machão.
–– Bela apresentação, hein? –– a voz irritante do filho da puta do Sandy Beales soou logo atrás de mim, ao mesmo tempo que Josh aparecia atrás de e Liam à minha frente.
–– Vaza daqui. –– Liam fechou os punhos em cima da mesa.
–– Viemos em paz, seu merda –– Josh retrucou e eu me levantei bruscamente, mas Sandy segurou meu braço, me advertindo com o olhar. –– Ok, desculpe. Vou corrigir... Viemos em paz, Payne. Melhorou?
–– Não são bem-vindos –– disse, segurando o braço de Liam. –– Qual é, já tivemos confusão o bastante. Acabaram de serem suspensos. Vocês dois estão sendo ridículos. Cara, se toca.
Sandy e Josh se entreolharam por três segundos e assentiram, entrando em acordo com seja-lá-o-quê e sorrindo. Eu não fazia a mínima questão de saber o que eles pensaram, o que me importava é que foi o bastante pra Sandy largar meu braço e os dois seguirem seu caminho.
–– Não te quero falando com eles daquele jeito de novo, ouviu? –– Liam apontou o dedo na cara de e ela bateu nele, tirando-o de sua frente.
–– Se vocês dois vão agir como macacos e já chegando sempre na voadora, alguém inteligente aqui tem que falar a verdade e colocá-los no lugar deles.
–– Não, . O Lee tá certo. –– suspirei. –– Quanto menos você se envolver, melhor. Conversa não vai adiantar com eles, isso eu te garanto.
–– Hey, ! –– chamou a distraída logo à nossa frente no corredor de volta para as salas de tortura/aula, que seja.
–– Ah, oi. –– cumprimentou nós dois e deu um soquinho no ombro de Liam. –– Preparados para o piquenique quarta-feira? Fiquei ouvindo o fim de semana inteiro sobre isso, o Lo... hã... –– Olhou cautelosa para o Lee.
–– A falou bastante, né? –– a cortei, praticamente ao mesmo tempo. –– Eu sei, também ficou me enchendo o saco com isso –– brinquei. Ok, nós estávamos sim animados para nos rever no parque, mas não ficamos falando disso. Mas eu precisava resgatar a do quase-deslize que cometeria falando do Louis.
–– É, exatamente. –– concordou com a cabeça, sorrindo agradecida pra mim, e também percebi um misto de confusão na expressão dela. Talvez estivesse com um pé atrás pelo fato de eu ser o melhor amigo do irmão neurótico dela ou sei lá. Pisquei pra ela, dizendo sem som:
–– Pode contar comigo.
–– Não tenho certeza se vou ainda... –– torceu o nariz.
–– Por que não? –– perguntei. –– Ah, qual é. Eu vou, a vai... e pelo jeito o Lee também, a , o Tomlinson, o tal pirata Harry... Todo mundo, caralho. Você vai, sim.
–– , poxa. O Z já vai ficar dando atenção pra , provavelmente. O que abaixa minhas companhias para... . –– fez uma careta, brincando. –– Não me faça passar por isso, pelo amor de Deus.
–– Como se eu fosse adorar sua companhia, ó divino Liam –– resmungou e eu ri.
rolou os olhos:
–– Os dois babuínos vão se comportar? –– parou no meio do corredor, cruzando os braços no peito e batendo o pé. –– Não vou ser babá de ninguém, não. Cansei das todas as brigas e...
–– Não vai ter nenhum babaca por lá, então não vai ter confusão. –– ela ergueu uma sobrancelha e levantei as mãos na altura do ombro. –– Ok, prometo não botar fogo no parque... Nem começar uma revolução ou tentar dominar o mundo –– exagerei. –– Melhorou?
–– Sim, perfeito. Liam...?
–– Digo o mesmo. –– bateu continência e começou a rir escandalosa. –– Que foi?
–– É engraçado, ué. A brigando com você como se você fosse, sei lá, chutar um filhotinho... Sendo que o seu nível máximo de malvadeza é se esquecer de dizer saúde quando alguém espirra.
Eu ri também.
–– Verdade –– concordei. –– Mas sabe como é né... Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher.
–– Até porque se tivesse uma colher no meio o Liam já teria jogado tudo pro alto.
–– Será que já dá pra pararem com o momento anti-Liam ou tá difícil? –– nos fuzilou com o olhar.
–– Foi mal aí, cara. –– fiz biquinho. –– Sabe que eu te amo quase tanto quanto você me ama, né?
Liam gargalhou:
–– Você é muito retardado mesmo.
–– Tchau, gente! –– saiu correndo e virou um corredor à direita. Assim que eu e Liam paramos em frente à porta do laboratório de química (algumas das poucas disciplinas que tínhamos juntos).
–– E a ? –– Liam olhou em volta e deu um giro nos calcanhares, que nem um idiota, como se ela estivesse se escondendo nas costas dele. –– Cadê?
–– Sei lá. –– dei de ombros. –– Deve ter seguido a e já volta, ou foi até o armário dela... Vamos, ainda preciso terminar de copiar isso aqui. –– ergui a folha em minhas mãos (a lição que eu devia ter feito, mas deixei pra copiar do Liam e da no dia seguinte). Abri a porta, já me encaminhando para o balcão ao fundo da sala e abri o caderno do Liam. Ok, blá-blá-blá soluto, não sei o quê solução, porcentagem e o caralho a quatro. E... Hã? ?
Quase dei uma de Liam (lerdo) e perguntei se fazia parte da lição, quando reparei que tava no cantinho da folha e numa letra bem mais caprichada. Bom, pelo menos pra mim já não era novidade que ele a tratava como se fosse a última mulher do mundo... Era normal ver ele brisando na aula, escrevendo/desenhando coisas aleatórias no canto da página e olhando demais para trás. Ok, não é como se a aula dele fosse uma das mais animadas... Minha parceira é a e o dele é um menino estranho que só dorme. Pior que o cara pode ter passado a aula inteira dormindo, mas vai acordar na hora H e responder o professor corretamente. Sem contar que sempre gabarita as provas... Pois é, não sei quem é mais filho da puta sortudo... Ele ou o Liam.
–– Precisamos conversar depois, ok? –– eu disse, devolvendo o caderno e guardando minha lição.
–– Sobre?
–– Depois eu falo. –– ali não era o lugar mais adequado. Além do mais o professor gorducho me olhava como se quisesse me jogar pela janela por estar conversando.
Mesmo que esse bosta não saiba, ele gosta dela e é isso aí. Só não sei se devo comentar, até porque acho que não adiantaria muita coisa. As indiretas diretas da são quase um tapa na cara e um chute no saco, mas mesmo assim ele as ignora. Nem pra ajudar, hein, Liam.
Mas eu também precisava me colocar um pouquinho no lugar dele. Ele ama ela, no mínimo, como uma irmã. Cresceram juntos. Se eu tivesse um amiga de tanto tempo, acho que também não repararia se eu estivesse gostando dela. Deve ser meio difícil relacionar que já não é mais amor de amigo ou sei lá.
Enfim. Como sempre, o professor fechou a porta e logo tratou de passar na lousa as fórmulas que precisaríamos saber para fazer os exercícios daquela aula. não costumava se atrasar muito, e quando se atrasava era porque subiu feito uma lesma as escadas. Vai saber onde ela se meteu, né.
Copiei as fórmulas na bancada mesmo e comecei a resolver os exercícios sem ela. Troquei algumas respostas com o Lee e uns bons minutos depois, quando já estava quase terminando, ele se virou inquieto para me encarar. Sacudia o pé rapidamente, fazendo todo o corpo sacudir, e passava a mão pelo rosto.
–– Fui só eu ou você também percebeu quem tá faltando aqui? –– começou a entrelaçar os próprios dedos.
–– ... Tá de brincadeira, né? Ou você acha que eu sou assim tão lerdo a ponto de não reparar que a não tá aqui?
Liam rolou os olhos.
–– Não tô falando da , caramba.
Dei uma estudada na sala e percebi porque é que a aula estava tão tranquila. Primeiro, claro, por causa da falta da tagarela. Segundo porque uma certa pessoa do terceiro balcão, que vive tumultuando todo caralho de aula, também não tinha dado as caras. Sandy.
–– Acha que tem alguma coisa a ver com ele o fato da não ter vindo? –– perguntei, já me sentindo tão incomodado quanto Liam.
Ele deu de ombros:
–– Nada é impossível tratando-se deles.
Larguei a caneta no balcão e me levantei, atravessando a sala:
–– Posso ir ao banheiro?
O professor sequer ergueu os olhos do livro que lia:
–– Não até me entregar seus exercícios resolvidos, Malik.
–– É, hã... Urgente.
–– Sinto muito, regras são regras.
Merda.
Bufei e voltei para o meu lugar.
–– E agora? –– Lee perguntou com as sobrancelhas franzidas naquela sua típica carinha de filhote perdido.
–– Não falta muito pra essa bosta cabar. Na troca de aulas a gente dá uma escapada e olha por aí.
Assim que o sinal bateu e todos começaram a trocar de salas, nós dois nos trancamos no banheiro e esperamos os corredores esvaziarem (o que não demorou muito). Ficou combinado que eu reviraria o segundo andar, Liam o primeiro, e se mesmo assim não encontrássemos nada, daríamos uma volta pelo lado de fora.
Mas, primeiro, Lee tentou ligar para a umas cinco vezes, e nenhuma das ligações foi atendida. Passou a mão pelo cabelo, bufando, e saiu do banheiro feito um furacão.
Eles não poderiam ser tão baixos assim... Certo? Bom, até onde sei os dois animais me jogaram no rio sabendo que eu não podia nadar. E o filho da puta do Devine namora minha irmã só pra me atingir, já que aquele ser nojento é incapaz de amar alguém.
Saí do banheiro também e comecei a checar sala por sala (inclusive a de biologia que, de acordo com o horário, era onde devia estar agora com o Liam). Nenhum professor estranhou, até porque fingi que era pra entregar um trabalho a ela.
Um pouco menos da metade das salas estavam vazias, o que me desanimava cada vez mais. Já estava quase desistindo de procurar por conta própria, ir até a diretoria e pedir ajuda. Com a sorte que tenho nesse colégio dariam um jeito de não me ajudar ou me punirem por não estar na aula, e apenas isso. Merda.
Continuei feito um louco ziguezagueando pelo corredor e abrindo todas as portas, e meu coração deu um pulo no peito quando a porta do auditório não abriu. Forcei a maçaneta uma, duas, três vezes e nada. Nenhuma sala ficava fechada ali, pelo menos não pela manhã... Cara, se aqueles merdas prenderam a em uma sala... Arghhhh.
Encostei o ouvido na parede. Aquela com certeza não era a voz engraçada e fofa da ... Josh, talvez? Resisti ao impulso de chutar a porta, fazer barulho ou gritar. Minha curiosidade gritava bem mais alto.
Corri desesperadamente até a sala ao lado, atravessando-a. Me aproximei o máximo possível da parede que dividia aquela sala do auditório e coloquei minha cabeça para fora da janela. Sim, aquela era a voz do Devine. Sem dúvidas.
Pelo jeito, eles estavam bem afastados da porta, nos fundos da sala. Para não fazer barulho, talvez.
––... todo, .
–– Já disse que não é pra me chamar assim –– respondeu autoritária, como sempre, respondendo-os com confiança. Exatamente como falávamos pra ela não fazer. –– E eu também tenho o dia todo, Devine.
–– Qual é, vamos lá, bonitinha –– disse Sandy. –– Nem é um pedido tão difícil assim, é? Além do mais, o que você vai ganhar em troca não é nada mal.
–– Eu nunca faria isso. E, principalmente, nunca faria isso por vocês.
Josh riu:
–– Acho que você ainda não entendeu –– disse impaciente. –– Não é um favor pra nós dois, caralho. Mas sim um favor que você faz àqueles merdas do Payne e do Malik. Não é como se você tivesse escolha, sabe? Ou você faz o que estamos pedindo, ou eles pagam o preço da sua teimosia.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos que me pareceram infinitos. Aquilo conseguia ser ainda mais sujo do que prendê-la numa sala sem motivos. Mesmo eu não sabendo o que é que eles queriam dela, eles estavam colocando-a contra a parede ao chantageá-la com os amigos. Uma coisa é ameaçar a pessoa, outra completamente diferente é ameaçar os amigos dela. Ninguém merecia aquilo, muito menos a .
–– Se fode, Devine –– ela disse pausadamente e sem nenhum pingo de medo na voz.
Ele soltou uma gargalhada fria:
–– Ok, então... Fiquei sabendo o lago do parque está com saudades do nojento do Malik. E, ah, eu também estou com saudades do Payne. Liam deveria visitar a mim e meus amigos mais vezes. A última não foi suficiente, sabe?
Parecia que um tornado se agitava dentro do meu peito. Minha mão se fechava em punho com tanta força que minhas unhas machucavam a palma da mão. Pouco antes de Liam entrar para o boxe, Devine e seu grupinho de derrotados se juntaram covardemente e o cercaram. Lee estava sozinho, e mesmo que fosse tão bom lutando quanto é hoje, não teria se saído muito melhor contra quatro caras particulamente fortes.
–– Z? –– me virei num salto e vi Liam parado na porta, me encarando confuso.
–– Shhh. –– levei o dedo aos lábios. –– Vem aqui.
Liam se aproximou e também colocou a cabeça pra fora.
–– Ou então... –– Beales adicionou. –– O Richards pode preparar mais algumas surpresinhas para o irlandês e aquela brazileira... E tem a Waliyha. Acho que mais um coraçãozinho tolo terá que ser despedaçado. Seria um pena, hein, Josh?
–– Sim, uma pena. Na verdade, um grande desperdício. –– a malícia em sua voz era tanta que era quase palpável. –– Você não faz ideia das coisas que aquela gostosa faz...
Só me dei conta de onde estava e o que tinha acabado de fazer quando minha perna inteira protestou de dor após chutar a porta do auditório com força. Logo em seguida, Liam também disparou um chute contra a porta e ela abriu. Devine e Beales nos encararam assustados.
Avancei imediatamente na direção de Josh e acertei em cheio um soco no queixo que o fez recuar alguns passos. Aproveitei os segundos de vantagem e o prendi em uma chave de braço. Toda vez que ele tentava se debater, me acertar com os pés/joelhos ou me alcançar com as mãos, eu pressionava ainda mais sua cabeça.
–– O QUE FOI QUE VOCÊ DISSE? –– gritei tão alto que aquilo deve ter ecoado pelo corredor inteiro.
Josh tentou dizer algo, mas acabou desistindo.
O bosta do Sandy tentou libertar o amigo, mas Liam tirou a chave do carro do bolso e o acertou com a parte pontuda quando ele tentou avançar.
–– Z! Para, solta ele! –– começou a puxar meu braço, os olhos lacrimejando. –– Por favor, Z. Por favor. Solta ele!
–– REPETE, FILHO DA PUTA!
–– Zayn! PARA!
O queixo de começou a tremer e uma lágrima escorreu pela bochecha dela. Só podia ser por causa daquela bosta de chantagem. Eu não acredito nisso. COMO. PODE. ALGUÉM. SER. TÃO. PODRE???
O soltei bruscamente, fazendo-o cair sobre uma ou duas cadeiras do auditório e ele não tentou se levantar. Nós dois ofegávamos e minha mão implorava por mais alguns socos naquele rosto metido.
Sandy fez menção de avançar contra Liam, mas Josh o parou com um olhar reprovador.
–– Deixa eles irem, acho que já conseguimos o que queríamos mesmo. –– Josh deu de ombros, voltando seu olhar para . Todo aquele ar superior e cheio de si dele estava ali, como sempre, e ele ergueu uma sobrancelha, desafiando-a. –– Certo?
Dessa vez, Liam deixou Sandy de lado para avançar alguns passos na minha direção e na de Josh, mas eu coloquei a mão em seu peito. Se fosse só por mim naquele lago, eu não deixaria o idiota fazer toda essa pressão em . Mas o próprio Lee estava em jogo ali. Ele, Niall, , Waliyha e sabe-se lá quem mais.
Liam puxou pelo braço e limpou o rosto dela. Aproveitei e comecei a atravessar a sala rumo à saída, com os dois no meu encalce. Tinha que agradecer pela confusão não ter se arrastado e queria sair o mais rápido dali, ou as provocações deles acabariam em merda.
–– Nunca mais cheguem perto da outra vez, entenderam? –– Liam avisou, ríspido, olhando para trás. Também olhei por cima dos ombros antes de sair da sala, Josh e Sandy continuavam com aqueles sorrisos irritantemente satisfeitos no rosto.
–– Ou o quê, Payne? –– Sandy cruzou os braços.
–– Vocês até podem ter aqueles outros dois bostas do lado de vocês –– respondi sem pensar, pouco antes de sair daquele lugar de uma vez por todas. –– Mas também temos nosso grupo. Maior e mais forte, pode apostar.
Não imagino Louis numa briga ao menos que o assunto fosse realmente sério, e muito menos o imagino ganhando a briga. É mais capaz Niall sair correndo nos primeiros cinco segundos, ou ser nocauteado. Harry... Sei lá, o cara parece ser um pouquinho encrenqueiro. Só um pouco. Mas Devine e Beales não precisavam saber desses detalhes.
–– Já estamos ansiosos pra conhecê-los. –– Josh riu irônico. Incrível como tudo o que os dois faziam e diziam só aumentava meu nojo por eles e me dava cada vez mais vontade de acabar com eles.
Mas eu (e Liam também, creio eu) já estava mais que cansado daquilo. Olhei para ele por um segundo, tirando meus olhos do chão do corredor. Ele abraçava de lado, fazendo carinho na cabeça dela e a observando preocupado. O cara estava um caco, na verdade. Os olhos vermelhos, os músculos tensos, o rosto franzido numa expressão raivosa/confusa/cansada. Eu não devia estar muito diferente.
–– Já sei o que pode levantar nosso ânimo. –– lembrei das tardes com o vovô Malik, anos atrás, e como ele me ajudava quando algo me aborrecia. –– Vêm.
Nenhum dos dois protestou. Nenhum de nós estava com vontade ou em condições de voltar para a aula, e era a última do dia. Uma fugidinha não traria problemas.
Depois de passar rapidamente em casa e puxar um assunto aqui e ali no carro, descemos no parque e fomos até o polêmico Hyde Park e Liam e me encararam como se eu fosse louco ou estivesse prestes a fazer besteira. É, eu caminhava na direção do lago.
–– Zayn, o que exatamente você planeja fazer? –– Liam perguntou, ainda me seguindo, carregando os tomates.
–– Fica quieto e continua andando, vai. –– comecei a subir a ponte que atravessava o lago. Uma ponte bem larga, comprida e verde.
Assim que estávamos bem no meio dela, olhei para os dois lados. Apesar de adorar aquele parque, meu estômago se remexia por causa das más lembranças do lago... E o som da água correndo pouco abaixo dos meus pés não ajudava muito. Mas eu tinha que admitir que era um lugar lindo, com uma vista linda. Vários peixes, alguns patos, uma ou outra tartaruga e tudo envolto por um bosque enorme.
Eu, minhas irmãs, Liam, as garotas Payne e sempre frequentamos o parque (o maior de Doncaster). Começou com um evento de música, mas tomamos gosto pela coisa. Era bom ir até lá e andar de skate, fazer caminhada ou simplesmente ficar sentado na grama conversando o dia inteiro.
Uma vontade enorme de levar ali me atingiu em cheio, e sorri automaticamente com a ideia de que isso de fato aconteceria quarta-feira. Aguente firme, Malik, só mais dois dias e vocês vão se ver.
–– Ok, o plano é o seguinte... –– falei tirando um tomate de um dos sacos, posicionando-o no chão e segurando firme o taco de golfe. –– Quando eu era menor e brigava com meu pai ou algo do tipo, meu avô costumava me levar até o Silsden, um rio bem grande de Bradford, e nós atirávamos coisas nele. Sempre foi bem relaxante, sabe? –– dei de ombros, acertando uma bela tacada no primeiro tomate, que afundou com um “ploc” no lago. –– Você pensa em algo que te deixa fora do sério, atribui ao que vai ser arremessado e manda ver. –– passei o taco para a . –– Vai em frente, .
–– Eu sou péssima nisso, Z. –– fiz um gesto no ar como se espantasse uma mosca e entreguei o taco a ela. se posicionou toda atrapalhada e arrumei os ombros dela, corrigindo sua posição.
–– Não é difícil. É só acertar o tomate, nem precisa mirar.
–– Espera, no que você pensou? –– ela perguntou.
Respirei fundo antes de soltar um rápido, embaralhado e fraco “Waliyha e Josh”.
Liam deu tapinhas nas minhas costas, o que me fez rir. sorriu compreensiva como uma mãe e tentou acertar o tomate. Só tentou mesmo. Além disso a besta ainda fez uma força danada, o que a fez girar no mesmo lugar e quase cair de bunda. Nós gargalhamos feito retardados, já sentindo a tensão indo embora, exatamente como acontecia com meu avô.
–– Vai de novo, bobona –– Liam “encorajou”. –– Mas dessa vez o alvo é o tomate e não a mulher invisível, ok?
–– Cala a boca, Liam. –– ela riu, disparando mais um golpe que dessa vez deu certo.
–– E aí? No que pensou? –– Liam pegou o taco das mãos dela, já colocando um tomate no chão da ponte.
–– Você e Zayn. –– nós dois a encaramos. –– O quê? Eu me preocupo, tá? Não gosto de ver vocês assim.
Soltamos um grande “awwwwwwwwwwwwwwwwn” ao mesmo tempo e corou.
–– Vai logo, Lee, sua vez –– ela disse encarando o chão.
Liam hesitou um pouco antes de acertar o tomate, franzindo as sobrancelhas. Soltou o ar pesadamente e o jogou no lago, mas não foi como se ele acertasse a cabeça do Devine ou do Beales ou algo do tipo. Tinha sido mais... Sei lá, parecia que ele tinha acabado de completar uma tarefa difícil.
–– O que foi dessa vez? –– perguntei.
–– Foi pela minha confusão. –– mordeu o lábio inferior, olhando pro céu por alguns instantes. –– Sei lá, minha cabeça anda um inferno ultimamente, não sei de mais nada. Não sei o que eu quero, o que não quero. O que eu sinto ou não sinto... –– olhou para a e pude jurar que ele corou um pouquinho. –– Uma confusão enorme.
–– E desde quando sua cabeça funciona direito? –– debochou, rindo, já colocando mais um tomate no chão. –– Minha vez!
Eu não sabia o que esperar, muito menos como agir. Ok, eu ia chegar lá e... Abraçar ela? Acenar? Dar só um “oi” discreto? Merda. Eu devia ter pensado nisso antes, e não cinco segundos antes de entrar no parque com , Liam e .
E o brutamonte do Boris me arrastando pela coleira. Boris é meu cachorro (lê-se: urso). Enorme, forte e bobão. É, isso mesmo, tipo um Liam.
Mas acho que não tive muito tempo de pensar em como cumprimentá-la ou chegar até ela, já que mal me aproximei de todos eles (sim, fomos os últimos a chegar) e gargalhei com o grito esganiçado dela:
–– PUTA QUE PARIU, XANA!
sacudia a toalha que, creio eu, elas estavam sentadas antes. Mas agora estava toda melada de suco.
se virou, me procurando pela risada e sorriu tímida, acenando.
–– Vai lá, garanhão. –– se materializou do meu lado. Essa menina tá dando uma de cupido ou é impressão minha?
–– Não sei o que eu faço –– admiti.
Ela me encarou com uma típica cara de “pelo amor de Deus, pense um pouquinho vai”, mas percebeu que eu realmente não fazia ideia e continuou:
–– O que vier à cabeça. Comenta algo sobre última coisa de que conversaram ou que fizeram. Mas se nada vier à cabeça... Bom, você tem o Boris aí com você. Cachorros são fofos. Garotas gostam de coisas fofas. Puxa um assunto. Simples. –– deu de ombros. –– E, ah, ela trouxe a cachorrinha dela também. Olha ali. –– apontou pra um cachorrinho minúsculo preso a uma árvore pela coleira, perto de onde elas estavam. –– Se não for da , é dela. Francamente, vocês meninos são lerdos pra caralho.
E SEM MAIS NEM MENOS ELA SAIU SALTITANDO NA DIREÇÃO DO LOUIS. Taqueopariu, qualquer dia eu ainda desvendo essa menina viu. Enquanto um Payne é mais lerdo e bocó que o recomendável, uma Payne já tá uns vinte passos à frente de qualquer um. Enquanto o Liam tá vindo com a farinha, a já tá com o leite na mão. Não, pera...
Puxei Boris comigo enquanto e Liam também iam cumprimentar o Louis, que estava ajeitando uma das mesas do parque com a comida que eles levaram. Harry, e Niall estavam lá com ele, conversando.
–– Oi, gente –– falei um pouco alto. As duas não estavam longe dos outros três, então todos me ouviriam. Ouvi um coro de “oi Zayn” e se agachou pra fazer carinho no Boris. –– Não tem medo dele, não? –– brinquei.
–– Um pouco. –– riu. –– Comparada com ele, a Demi é uma pulga. –– apontou pra cadelinha na árvore.
–– É sua? –– perguntei, esticando a mão pra fazer carinho no fucinho da Demi. Acho que era vira-lata... Não entendo muito de raças, mas parecia uma mistura de beagle com... Sei lá, um poodle? Enfim, era muito fofa.
Ela assentiu, e deixou de olhar pro Boris para me encarar, apesar de continuar fazendo carinho nele:
–– Tudo bem com você? –– sorriu meiga. –– Entrando em muitas tubulações ou cansou dessa vida?
soltou uma risada anasalada, resmungou algo sobre “buscar clientes até em tubulaçoes” e se juntou aos outros, levando a toalhada lambuzada com ela.
–– Nah, cansei. Mas e você? Continua entrando em muitos banheiros masculinos, agarrando caras inocentes em pubs...?
–– Ei! –– ela riu. –– Eu só fiz essas duas coisas uma vez, e você sabe muito bem o motivo.
–– Aposto que no momento em que você colocou os pés naquele lugar, já tramou um plano pra abusar desse meu corpinho lindjo.
–– Ô coitado. É nisso que dá ter mãe coruja. A mãe baba ovo pro filho mesmo que ele tenha cara de porco espinho virado do avesso.
–– Muito obrigado, srta. . Muito obrigado. Da próxima vez vou me lembrar disso e deixar você morrendo de frio no carro, ok?
–– Ah, é! Sua blusa! –– ela pegou a mochila dela e me devolveu a blusa xadrez. Dobrada, lavada, com cheirinho de . Awn. –– Prontinho.
–– O porco espinho do avesso agradece –– brinquei.
–– Eu não disse que você era o porco espinho. –– ela rolou os olhos.
O dia foi melhor do que eu esperava. No piquenique, comemos feito porcos, conversamos bastante. Quem ainda não se conhecia direito, se apresentou e falou um pouco de si. Me senti meio que num grupo de retardados anônimos, já que todo mundo ali era meio estranho. Mas são os estranhos os legais, né? Gente normal não tem graça.
Fizemos uma guerrinha básica de bolacha (tudo começou com, adivinhem? Louis) e cantamos. É, dez idiotas cantando mal de propósito no meio do parque. Why not.
Depois, Liam disse que queria dar uma volta. Então eu, , Harry e fomos andar um pouco de skate, enquanto os outros foram brincar com um frisbee perto da área dos skatistas. Pelo visto, ainda tava aprendendo, já que só andava de um lado pro outro. Harry zoava ela e arriscava algumas manobras de vez em quando. não sabia porra nenhuma, mas eu chamei ela mesmo assim. Eu ia “ensinar”. E tentei mesmo, mas só tentei. Foi engraçado, de qualquer maneira... Eu tentava guiá-la segurando-a pelos quadris, mas ela tinha medo então gritava feito uma galinha possuída e segurava forte (lê-se: esmagava) a minha cabeça e os meus ombros. Nenhum tombo, pelo menos.
Depois fomos até o parquinho dali. É, no parquinho. Tinha uma área estranha de “música” com tambores, canos coloridos pra gritar neles (cada um fazia sua voz ficar de um jeito diferente, e engraçado), e alguns sinos. PUFT. É claro que N-I-N-G-U-É-M que passasse por ali naquele momento pensaria que éramos um bando de babuínos drogados. Puft.
Aí a e inventaram de tentar escalar uma árvore, só deu merda, claro. Subir foi fácil, mas depois tivemos que dar uma de bombeiros e fazer uma espécie de “operação resgate”. não conseguia descer de lá de jeito nenhum e só desceu à base da queda mesmo.
e ficaram babando no Boris, e as duas retardadas acabaram se distraindo com um cara que passou caminhando sem camisa do lado delas e Boris acabou fugindo. Aí, claro, lá fomos nós correr atrás dele, atropelando todo mundo.
Acho que me ideia de segunda-feira realmente funcionou. Liam e Louis estavam se dando relativamente bem. Tiraram até fotos! Tá, todo mundo tirou, mas teve uma só dos dois fazendo careta perto da estátua de um aviador. Como fazia sol pra caramba, Niall nos arrastou pra debaixo de uma árvore enorme (que estava ACIDENTALMENTE, umhum sei, do lado de um carrinho de sorvete).
Mas chegou a calhar, já que estava bastante calor. Ficamos na beira do lago, na sombra, conversando mais e ouvindo música. Acho que já tinha passado duas horas desde que chegamos ali, mas não sei quanto tempo passou ali na árvore. A grama estava fresca, o barulho da água e dos patos tava aconchegante, cantarolando do meu lado era muito melhor que qualquer cantiga de ninar. Fiz minha blusa xadrez como travesseiro, mas não queria dormir.
Sabe quando você tá com sono, mas quer prestar atenção no que tá rolando à sua volta e fica meio que pescando? Então. Mas aí Boris deitou do meu lado e sorriu toda fofa, começando a me fazer cafuné. Pronto, fodeu a porra toda.
Parecia que tinha dormido uma eternidade, mas podiam ter sido só cinco minutos. I dunno.
Depois de um tempo, algumas risadinhas e um formigamento na minha testa me fizeram ficar meio acordado, meio dormindo... Bem grogue.
–– It’s time to geeet uppp –– Liam cantarolou. Só resmunguei alguma coisa e fiz menção de virar pro outro lado, MAS AÍ ACORDEI NUM SALTO POR CAUSA DE UM TAPA NO SACO.
LIAM PAYNE, SEU FILHO DA PUTA.
Levantei na mesma hora e me joguei em cima dele.
–– SAI DE CIMA DE MIM, NÃÃÃOOO. –– ele começou a me bater.
–– Viu como é legal pular em cima dos outros? –– ria.
–– Seu merda –– xinguei e me sentei na grama, mostrando a língua pra ele. Liam me mandou um beijinho em resposta. –– Bichona.
–– Pelo menos não sou eu que tô com um pênis na testa.
–– Quê?
Todos gargalharam. Eu jurava que Niall ia morrer sem ar de tanto rolar na grama.
–– Foi isso aí que você ouviu. –– Liam riu também, olhando pra minha testa e escondeu uma caneta no bolso da bermuda. Calma, pera...
AH NÃO.
NÃO, NÃO, NÃO.
Me olhei no reflexo do lago, e tan-dan. Um grande, feio e vermelho PINTO na minha testa.
Que maravilha.
Molhei a mão na água e comecei a esfregar minha testa.
–– Odeio vocês. –– bufei.
Louis riu:
–– Depois eu que sou a miss drama. –– rolou os olhos. –– O que acham de jogar futebol agora? A brazileira fica no meu time!
Todos se entreolharam e deram de ombros:
–– Ok, pode ser. –– me levantei.
–– Aiiiiiiiiiiin não. –– se jogou pra trás. –– Futebol agora não. Mais tarde, vai, por favor.
–– Quer fazer o que então? –– Niall perguntou com um sorriso bobo no rosto.
–– Continuar aqui, quietinhos descansando, é uma boa ideia.
–– Ou ver o Zayn caindo de skate. –– sugeriu.
–– É, é, e eu vou te jogar no lago. Que tal? É uma boa ideia. –– baguncei o cabelo dela.
–– Sou a favor de um verdade ou consequência –– Harry, que antes estava deitado, disse se apoiando nos cotovelos. Todos encararam ele, afinal era óbvio onde ele queria chegar com aquilo. Mesmo que ele dissesse que não, o sorriso safado entregava tudo. –– O quê? O propósito aqui não é todo mundo conhecer todo mundo? Então.
–– Verdade ou consequência, então –– Louis pegou uma garrafa de água e colocou no centro do que era a nossa “roda”/ovo.
’s pov:
–– Sua cagona –– revirou os olhos, rindo e entrando na brincadeira.
–– ATÉ VOCÊ?! –– soltei, indignada.
Todo mundo na roda ria e provocava a mim e Niall, já que a maldita da me desafiou a B-E-I-J-A-AR ele. BEIJAR, É, BEIJAR. PQP.
Assim, do nada, no meio de perguntas como “é verdade que você já mentiu para fulano?” e desafios do tipo “dá uma rebolada em cima da ponte” (ah, tenho que admitir... Liam é meio paradão, mas quando decide se soltar vira uma franga louca).
Não é que eu não quisesse aquilo, muito pelo contrário. E esse era exatamente o motivo. Lá veio toda minha insegurança minha acertando em cheio como os pedalas do Harry. E se Niall não quisesse? Se ele estivesse pensando agora “puta que pariu, qualquer coisa menos isso” ou sei lá, cara, sei lá.
Olhei de relance para ele, já sentindo minhas bochechas ganhando a coloração pimenta feat. tomate feat. tudo que é vermelho no mundo.
E lá estava ele, bochechonas tão vermelhas quanto as minhas, ou até mesmo mais. Olhinhos azuis brilhantes encarando a grama como um filhotinho perdido, cabelo bagunçado e sorriso tímido.
AR, QUERIDO AR.
CADÊ VOCÊ?
Por alguma razão nada desconhecida, minhas pernas tremiam, eu hiperventilava e meu estômago fazia piruetas. Do jeito que meu coração disparou, eu não estranharia se me dissessem que ele decidiu fazer meu estômago de rampa e foi até lá dar umas manobras.< br />
–– Vai logo, caralho –– Louis deu um tapinha no ombro do Nialler, que se assustou, me fazendo rir. –– É só uma bitoquinha. Vai!
–– Mas...
–– VAI, HOMEM! O QUE UMA BATATA FARIA NO SEU LUGAR?! HEIN?!
Todos começaram a gargalhar, inclusive eu, mas já não sabia se era de nervosismo ou da cara de militar mandão do Louis.
–– Tudo bem! –– Niall se levantou e senti minhas pernas amolecerem. Ou melhor, não senti as minhas pernas. , você me paga.
Antes mesmo que eu pudesse reagir, Nialler já estava de frente para mim e com a mão esticada para me ajudar a levantar. Ai minha nossa senhora santa cecília.
Segurei sua mão áspera e quentinha, que parecia suar tanto quanto a minha, e me levantei. E então ele começou a me puxAR PARA O MEIO DAS ÁRVORES. HÃ? OI? VOLTA.
–– Ei, ei, ei... Onde é que vocês vão? –– interrompeu, fazendo-nos parar.
–– Ah, qual é! Não precisamos de uma plateia... Certo? –– Niall respondeu, e sua voz fez com que eu me acalmasse um pouco.
–– E quem garante que vão mesmo cumprir o desafio e não ficar olhando pro céu como os dois lerdos que são? –– Louis ergueu as sobrancelhas.
–– Deixa, vai –– fez um sinal estranho com a mão, despachando a gente. –– Aposto que se desejam tanto que além de me agradecer, vão do bosque direto pro motel.
Eu a fuzilei com o olhar:
–– Espero que você tenha um plano dentário, senhorita –– disse apontando o dedo para ela. –– Um dos bons.
Niall riu alto e balançou a cabeça, voltando a me puxar para o meio das árvores e se certificando de que nenhum dos bobocas nos seguia. E aquela situação estranha só me deixava cada vez mais nervosa, ansiosa e desconfortável. O silêncio e a expectativa... Ou talvez fosse somente o medo de saber o que ele estava pensando de tudo aquilo. Niall olhou para trás mais uma vez e relaxou os ombros, satisfeito, parando onde estava e ainda envolvendo minha mão com a sua firmemente.
–– Você... Sabe que não precisa, né? –– falei sem pensar duas vezes. Ah, qual é! Ele estava com vergonha de fazer aquilo na frente das pessoas? Tá, quem sou eu pra cobrar alguma coisa dele? Não somos nada além de amigos, até onde eu sei.
Ele assentiu sem graça, encarando o chão.
–– S-sei –– gaguejou. Finalmente olhou nos meus olhos, aproveitando pra colocar uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Eu teria preferido que ele continuasse com o olhar no chão. Aqueles olhos como diamantes eram perfeitos demais pra serem reais. –– E é por isso que te trouxe aqui, assim ninguém enche o nosso saco e você não precisa fazer nada que não quiser.
Então Niall sorriu de lado, mas não era um sorriso verdadeiro, sabe? Estava mais para aqueles sorrisos forçados de quando a gente admite algo que não gostaria.
Nada que eu não quiser? Ah, é, claro. Aham. Não quero nada. Tá ‘serto’, amigo.
–– Precisar fazer algo que eu não quero? –– perguntei sem pensar duas vezes. Já comentei que minha boca é meio solta e tem o péssimo hábito de falar o que não devia, né? Pois é. Ela costuma ser meio rebelde e não esperar pelas ordens do meu amigo cérebro aqui. Argh.
–– É... Bom, pelo menos eu achei que você não queria... –– ele corou. –– Tô errado?
Meu estômago parecia chumbo, ou um imã com atração direta pro inferno já que ele parecia ter tomado vida própria.
Olhei para a boca dele automaticamente, e não sei o que eu (ou ele) teria feito em seguida. É, não sei. NÃO SEI O QUE TERIA ACONTECIDO. Por quê? Porque um barulho DO ALÉM de galho quebrando nos assustou. Tá, não foi do além. Você entendeu. O importante é que o susto fez a gente se afastar uns dois passos e soltar as mãos. Ah, caralho. Volta aqui com essa mão quentinha, vai.
–– Porcaria de galho. –– chutou o maldito galho e Harry bateu a mão na testa.
–– Tinha que ser você pra fazer barulho, né? Tava tudo indo direitinho...
–– Na verdade, se vocês respeitassem a privacidade dos outros nada disso teria acontecido. –– Liam fez cara de “eu avisei”.
–– Que mané privacidade, eles tem é sorte de eu não ter gravado. –– retrucou. Sempre ela que fica causando, né, impressionante.
–– Gravado o quê? A bocó aqui estragou o plano –– Harry balançou a cabeça como se estivesse desapontado.
–– Ah, cala a boca vai, cupcake.
, Zayn e começaram a discutir algo sobre “eu avisei que pelo outro lado era mais fácil” ou sei lá o quê.
–– EI! –– Niall gritou, fazendo todo mundo calar a boca. –– Estávamos meio ocupados, sabe?
Todos eles se envergonharam (inclusive eu) e com uma série de “desculpas” e “podem continuar aê”, todos eles sumiram e voltaram para o lugar de onde NÃO DEVIAM TER SAÍDO.
Ótimo clima esse que ficou, né? Só que não.
–– Hã... E o Greg? –– perguntei rapidamente, me sentando em um tronco caído e dando dois tapinhas do meu lado. Acho que não devia ter feito isso e sim dado continuação ao que não terminamos... Mas eu sou medrosa, é. –– Bem?
–– Sim, ele diz que está amando o clima e a alegria do Brazil. –– sentou do meu lado. –– E agora quem não para de falar de você, é ele. –– riu. –– Fica o tempo todo E aquela sua amiguinha, heeeeein, Nialleeeeer? Garanhão!
A gente começou a gargalhar.
–– Manda um abraço pra ele da próxima, então. –– me virei para o Niall e me arrependi logo em seguida. Ele estava todo bobo por causa das risadas, os olhos semicerrados e um sorriso largo estampado. O pouco de luz que passava pelas árvores salpicava o rosto dele, fazendo-o ficar incrivelmente bonito e natural. E eu devia estar exatamente do mesmo jeito, na mesma posição. Nós dois, lado a lado, rostos próximos, nos olhando sorrindo e de olhos semicerrados. Seja lá o que eu tenha sentido naquela hora, acho que Niall sentiu o mesmo, porque não eram só olhares bobos. Era quase como se eu pudesse ler a alma dele e ele a minha. Tá, foi gay o que eu disse. Extremamente gay. Mas é a verdade, sorry not sorry.
Aquele único momento fez meu corpo esquentar e desviei o olhar para o chão, Nialler pigarreou logo em seguida e fez o favor a nós dois de quebrar o constrangimento:
–– O Brazil é um dos lugares que eu mais quero conhecer, sabe? Fora o futebol, e agora o pouco da comida que tô provando com a lá em casa... –– ele riu. –– Greg tá me deixando com uma vontade louca de passar umas férias lá.
–– Um lugar bom mesmo deve ser a Irlanda –– comentei. –– Pelo pouco que você me contou lá na escola, parece ser um lugar incrível.
É, na escola. Lembra que o Nialler e a começaram a estudar lá na Hayfield? Eles começaram lá ainda ontem, e tivemos bastante tempo pra gastar jogando conversa fora.
–– Quem sabe um dia você viaje com a gente... Meu pai e eu. Não tenho certeza se minha mãe vem aqui nas festas de fim de ano ou nós que vamos até lá... De qualquer maneira, seria um prazer te mostrar cada cantinho de Mullingar!
Sorri com a empolgação dele:
–– E aposto que a e o Harry vão acabar viajando juntos pro Brazil algum dia. A gente se esconde na mala de um deles.
Ele ficou pensativo, coçando o queixo e encarando uma árvore, como se estivesse levando a ideia ao pé da letra.
–– Terra chamando Nialler. –– passei a mão na frente do rosto dele, que riu.
–– Tava pensando na comida do avião, foi mal. –– eu ri muito, muito alto. Puta merda, acho que até a mãe do Niall na Irlanda ouviu essa. Tampei minha boca, envergonhada. Tenho que admitir que sou parecida com o Niall no quesito de rir até do ar, mas a questão é que eu gargalho, e gargalho bem alto, de qualquer besteira. Ele percebeu que eu tava sem graça e riu de mim, mudando de assunto: –– Tudo certo pra hoje, né?
–– Ah, sim. e Harry vão pro haras logo depois do parque, como planejado... E o Hazza continua morrendo de medo... Então eu e você vamos pra sua casa e ficamos lá até eles voltarem. Sim, tudo como o combinado.
–– Ótimo! Greg deixou os jogos dele em casa e eu tô louco pra testar alguns. Gosta de videogame, né?
Dei de ombros:
–– Se tiver alguém pra me ensinar, jogo qualquer coisa.
Ele assentiu.
–– Esse é exatamente o problema, acho que seu professor não vai ser um dos melhores.
–– Aposto que vai ser melhor que eu, tá ótimo assim. –– respirei fundo, me levantando: –– Acho que já podemos voltar, né?
Ele concordou e se levantou também, dando um tapinha atrás da minha cabeça e se afastando logo em seguida porque sabia que eu iria revidar. Apontei um dedo pra ele, que se encolheu:
–– Não encosta em mim! Eu sou inocente! –– falou no tom mais forçado que conseguiu.
–– Se eu fosse você dormiria de olhos abertos, Horan. –– apontei o dedo no rosto dele, que tentou morder, mas eu o tirei a tempo.
–– Conselho aceito, . –– ele bateu continência e se virou pra continuar o caminho. Abaixei e peguei um galho, espetando a bunda dele com a ponta.
–– Ei! –– Niall se virou forçando uma cara de ofendido. –– E minha dignidade, como é que fica? Acha que pode sair por aí espetando a bunda dos outros, é?
–– Não fui eu! Foi o graveto aqui. Briga com ele.
–– Olha aqui, Fred. –– ele apontou pro graveto e ergueu uma sobrancelha à lá mafioso. Mordi o lábio segurando o riso.
–– O nome dele é José.
–– Olha aqui, José. –– Niall se corrigiu, rindo. –– Da próxima vez tem que pedir minha permissão, tá ok? Se não acontece isso aqui... –– quê? Hã? Ele foi rápido pra caralho e pegou o graveto da minha mão, espetando minha barriga.
–– Niall, para!
–– En garde! –– ele continuou me espetando enquanto ria que nem besta.
–– NIALL! –– comecei a correr da loira maníaca do graveto que tentava me alcançar, e quando conseguiu ele simplesmente pulou nas minhas costas! Preciso nem dizer que fomos os dois pro chão, né? –– Besta!
Aproveitei que ele ria para pegar o graveto dele e me levantar. Nialler se recompôs e ameaçou tirá-lo da minha mão.
–– Nem se atreva, irlandês. –– apontei na cara dele com o graveto.
Ele sorriu desafiador e um tanto malicioso ao mesmo tempo. E então tudo aconteceu MUITO rápido, num piscar de olhos. E apesar de eu ter tido no momento uma leve impressão de que tudo já estava calculado por parte dele, foi melhor que tenha sido inesperado pra mim... Caso contrário eu não duvido nada que eu teria dado um jeitinho especial de estragar qualquer clima.
Niall segurou decididamente na ponta do graveto e o puxou. A força que ele usou foi tanta que me assustou e acabou me puxando junto, fazendo com que eu trombasse de peito com ele. Sorte a nossa que ele já estava preparado para aquilo e praticamente não se moveu com o impacto. Mal tive tempo pra raciocionar aquilo e Nialler já tinha me envolvido num abraço desajeitado, apertado e aconchegante ao mesmo tempo.
Devolvi o abraço, enterrando meu rosto em seu pescoço e PUTA MERDA, que cheirinho bom. Nos separamos aos poucos, e Niall estava um tanto quanto constrangido por causa do abraço repentino.
–– Foi mal –– falou olhando para os próprios pés.
–– Gosto dos seus abraços. –– dei de ombros e o soquei de leve no ombro, fazendo-o abrir um sorriso arteiro no rosto. Nialler se debruçou, me beijando rapidamente. É... Ele... M-me beijou. E tão rápido quanto seus lábios colaram no meu, se afastaram.
Pera, pera, pera! HÃ?
Nialler começou a rir da minha cara de besta e deu dois tapinhas no meu queixo antes de simplesmente SAIR CORRENDO:
–– Fecha a boca que pode entrar entrar mosquito, .
QUÊ?! NIALLER, VOLTA. Seu putinho! JIQ8Y4E3DBWA7D4QU%AHF! Porra! Aquele maldito, lindo, perfeito, arghh, simplesmente saiu correndo! Como ele?!?!?! Argh.
Continuei seguindo aquela puta loira, que olhava para trás ainda rindo da minha cara (que devia estar hilária) de inconformada e confusa.
Assim que chegamos lado a lado no círculo do verdade ou desafio, apontei novamente com o dedo pra ele e disse em tom autoritário e brincalhão ao mesmo tempo:
–– Vou querer uma explicação –– sussurrei para mais ninguém ouvir.
–– Demoraram, hein? –– Harry cruzou os braços e disse com voz maliciosa. Tá, quando é que a voz dele não tá maliciosa?
–– Caramba, estão até ofegantes. Acho que no fim das contas a gente nem atrapalhou os pombinhos! –– também se juntou às milhares de caras maliciosas que nos encaravam.
–– Verdade, deu pra ouvir a risada da daqui! –– até o LIAM começou a provocar. Acho que além de ter chutado a cruz, eu devo ter roubado o pão da santa ceia, porque não é possível.
–– E quando é que não dá pra ouvir a risada dela? Até os ETs já ouviram –– Harry zombou.
–– Eu gosto da risada dela. –– Nialler disse do nada e minhas pernas ameaçaram falhar. –– Eu disse isso em voz alta?
Todos riram. Niall olhou para o chão, corando, e eu segurei forte em sua mão. semicerrou os olhos e fez cara de quem chupou limão, quase como se fosse uma detetive:
–– E o que foi que aconteceu lá dentro, hein, senhores?
–– HISTÓRIA PROÍBIDA PARA MENORES DE IDADE! –– Louis gritou, tampando os ouvidos da .
–– Ei! Mas todo mundo aqui é menor de idade! –– ela reclamou, tentando tirar as mãos dele.
–– Tá, mas você é a menor pessoa de menor de idade. Quieta.
–– N-não aconteceu nada demais, ok? –– Niall apertou um pouco mais a minha mão, e então se sentou na roda fazendo com que eu sentasse ao seu lado e pondo um fim ao assunto.
Zayn e Louis olharam do Liam pra várias vezes, pensando se deviam ou não perguntar o que queriam.
–– É verdade que você gosta do Payne, ? –– Louis perguntou fazendo pose de interrogador e Zayn fez um “jóinha” pra ele. Nossa, até complô pra ferrar casal tá rolando aqui.
–– E-eu... Gosto, claro. Ele é meu melhor amigo.
–– Não desse jeito, caramba... Você sabe do que eu tô falando, algo a mais que amizade... Rola um sentimento caliente, assim? Meio devasso, da cor do pecado...?
–– Eu... Eu... –– ela começou a ficar vermelha. –– Já respondi, não respondi? Então gira essa porcaria aí, vai.
Zayn segurou a garrafa.
–– Ou responde ou paga um mico.
–– Mas eu...
–– Responde.
–– Não quero, caralho! Tá, fala o mico, vai, Malik.
–– Só porque sou muito legal e te adoro, vou deixar você escolher entre mico e desafio.
Ela riu, descontraindo um pouco:
–– Como se fizesse diferença, né, Zayn. Até parece que seu desafio não vai ser vergonhoso.
–– Cê que sabe. Ok, te desafio a dar uma bitoca no Liam –– Zayn disse devagar, quase com medo da reação dos dois. Louis e sorriram. Ok, temos uma máfia de cupidos aqui e ninguém me avisou.
A reação dos dois? Foi a mesma que eles teriam se o Z se transformasse no Barney e dançasse a macarena. Eles ficaram estáticos, de boca aberta, quase sem respirar e de olhos arregalados.
–– Ei... Tá tudo bem aí? –– cutucou o braço do irmão.
–– T-tá... Aham... É que...
–– Vai ou não vai? –– perguntou direta e reta, na lata.
lavantou o rosto, já que antes encarava o chão como se fosse de ouro, e suas bochechas pareciam dois tomates de tão vermelhas. Olhou de relance pro Liam, que sorriu nervoso em resposta. Eu sinceramente não sei explicar o que tinha no olhar daqueles dois, mas que tinha alguma tinha. E pareceu que todos puderam perceber de tão forte que era.
Todo mundo esparava uma ação da , né, já que o desafio era pra ela. E acho que todo mundo ficou mais que chocado quando Liam agiu rapidamente, segurando as laterais do rosto dela e a beijando numa mistura de urgência e medo. Começamos a bater palmas que nem idiotas e até se levantou pra dar uns pulinhos alegres, Zayn sorria que nem uma mãe orgulhosa.
Liam se afastou uns centímetros dela. Eles se olharam fundo nos olhos e sorriram abertamente. AWN. AWN, QUE FOFO! AWN.
Quando começou a esfriar e não faltava muito para o sol começar a se pôr, decidiu que era melhor ir para o haras logo e todos os outros aproveitaram a deixa para irem embora também. e Liam, ainda sem graça, foram embora com a . O ficante fofo da , o Zayn, e ela aproveitaram uma carona do Louis e foram embora abraçadinhos. Awn.
–– Acho que nunca vi o Harry daquele jeito –– Niall disse já dentro do táxi que pegamos para a casa dele.
–– Com medo? –– arrisquei.
–– É, ele parece ser sempre decidido, sei lá.
Eu ri.
–– Ele não faz o tipo medroso... Só pra algumas coisas. E, hã, eu fui um pouco maldosa com ele ontem... –– Niall juntou as sobrancelhas. –– Ele veio me perguntar o que eu sabia sobre cavalos e se eu tinha alguma dica pra hoje. Aí inventei na hora uma história sobre cavalos terem surtos sem explicação e matarem as pessoas, pisoteando ou, sei lá, mordendo.
Nialler arregalou os olhos:
–– QUE HORROR! –– começou a rir. –– E ele levou isso a sério?!
–– Pela cara que ele fez, acho que sim. –– gargalhei. –– Mas acho que ele encara até mesmo essa pela . –– ele concordou com a cabeça.
Passamos pouco mais de um minuto observando a passagem, até que o taxista ligou o rádio e eu e Niall nos encaramos imediatamente ao ouvir a melodia.
–– Gosta? –– perguntou.
Assenti, já cantarolando o refrão de No Worries, do McFly:
–– Captivated by the way you look tonight, the light is dancing in your eyes.
–– Oooooh your sweet eyes –– cantamos juntos olhando um para o outro e forçando expressões meigas, mas o esforço se foi assim que ele gritou animado balançando a cabeça:
–– Times like these we’ll never forget!!! –– fez uma pausa, marcando a minha deixa:
–– Staying out to watch the sunset!! –– gritei fazendo um microfone com a mão. –– I’m glad I shared this with yooooou. –– apontei pra ele, que riu.
–– You set me free! –– gritamos juntos, chamando a atenção de algumas pessoas da rua. Sorte é que o taxista levou numa boa e ria. –– Showed me how good life could be!
–– How did this happen to meeee? –– ele cantou baixinho, mais para si mesmo, encostando a cabeça no banco e piscando pra mim.
Continuamos cantando todas as músicas que tocavam, às vezes nos exaltando com a performance e gritando, às vezes só cantarolando baixinho, até chegarmos na casa dos Horan.
Não cheguei a perguntar, mas acho que o pai dele estava trabalhando lá no shopping em que vi ele, o Nialler e o Greg quando fui fazer umas compras.
Fomos direto para a sala, Niall ligou o videogame e correu até o segundo andar, voltando com vários videogames e cobertores. Ele começou a falar o nome das opções que tínhamos pra jogar e ler um pouco da sinopse de cada um. Jess, o gato, apareceu não muito depois para se enroscar nas minhas pernas.
–– E então, qual vai ser? –– terminou de ler o último, jogando-o por cima dos outros e se sentando do meu lado no chão, encostado ao sofá.
–– Não gosto muito dos que só tem tiros. –– fiz biquinho, me referindo aos de guerra. –– Que tal só dançar e, sei lá, tentar um de terror?
–– Ok, eu topo! –– se esticou, pegando o Just Dance 4 e colocando enquanto eu brincava com o Jess. –– Pronto! Escolhe aí a música.
Levantamos e fui passando de uma em uma, parando em uma agitada que eu nunca tinha tentado antes.
–– Pode ser essa? –– ele assentiu com uma careta e coloquei Viva La Vida Loca pra dançarmos.
QUE MÚSICA DO CAPETA.
Não, sério, não tô falando em quesito de dificuldade, mas de coreografia mesmo. É engraçada pra caralho! Não foi uma boa escolha pra um par de pessoas que riem até do ar como eu e Nialler.
Pra piorar, Niall exagerava no rebolado de propósito, me fazendo rir mais ainda. Eu cantava forçando um sotaque bem carregado, e provavelmente errado, fazendo-o rir também. Fora as risadas de quando olhávamos um pro outro e víamos quão ridículo era dançar aquilo, ou quando colocávamos o pé na frente do outro, tentando atrapalhar.
A música acabou e nos jogamos no sofá, cansados, de barriga doendo. Ganhei por muito, muito pouco mesmo.
–– Vou querer revanche, hein? –– Nialler ergueu uma sobrancelha. –– Mas não agora que eu tô morto. –– fez uma careta fofa e foi pegar água pra gente, aproveitando pra trocar de jogo e colocar um de zumbis. Se sentou do meu lado, nos cobrindo com um dos cobertores. Véi, tava frio mesmo.
Uma musiquinha sinistra começou no jogo e Niall deu um pulo do meu lado. A introdução de uns zumbis mancando e a tela começou e ele assistiu tudo de olhos BEM arregalados. Eu até tentei segurar a risada, mas era impossível, e ele ficava me batendo por isso.
O jogo começou, escolhemos o primeiro cenário: Uma fazenda. Mano, vai dar merda.
–– Como é que atira? –– perguntei, apertando todos os botões.
–– Não sei também, nunca joguei esse antes. –– o personagem dele bateu a cara na parede. –– Não sei nem andar, puta que pariu.
–– Tá calmo demais isso aqui, deve ter alguma coisa errada... –– olhei em volta. Era noite no jogo, eu estava perto de uma cerca e tinha uma ou outra chama queimando no chão.
–– Vem pra cá onde eu tô, .
–– Não sei nem onde EU tô, como é que vou até aí?
–– Sei lá, se vira... NÃO! Não passa no fogo, sua bocó! Viu? Você tá pegando fogo agora!
–– Bela observação, Horan, se não tivesse me avisado nem teria percebido, hein.
–– Nossa, sua ironia foi tanta que até me estapeou agora.
–– Ironia recebida com sucesso, então. Pera, que que é aquilo?
–– Aquilo o quê?
–– Ali na minha tela, olha. Tem alguma coisa se mexendo ali atrás... Santa mãe de Deus, Niall, tira a cara da parede!
–– Não sei andar direito nesse treco! E você tá vendo coisas, não tem nada ali. Só tem milho.
–– Milho? –– estreitei os olhos. Não dava pra ter certeza do que era. –– Como você sabe...?
–– Sou agricultor nas horas vagas –– brincou.
–– E amante de paredes.
–– Shiu.
–– Não tem nada acontecendo, tô achando que bugou, sei lá... AAAAAAAAAAAAH MEU DEUS OLHA O ZUMBI!
–– CADÊ?! –– ele deu um pulo do meu lado que foi quase parar no teto!
–– Brincadeirinha.
–– Maldita... PUTZ, TEM ZUMBI MESMO!
–– Não vou cair nessa.
–– Olha pra trás! OLHA PRA TRÁS! NÃO ERA MILHO COISA NENHUMA. PUTA MERDA, CORRE!
–– ME AJUDA AQUI! AI, CARAMBA, AINDA NÃO SEI COMO ATIRA!
–– VOCÊ TÁ PASSANDO NO FOGO DE NOVO! NÃO PASSA NO FOGO!
–– POR QUE É QUE VOCÊ TÁ ATIRANDO PRO CÉU, NIALL?!
–– Não seeeeeeeeeeei, eu tô com meeeeeeedo!!!! Bosta! BOSTA DE JOGO! –– o cenário começou a encher de zumbi.
–– NIALL, EU VOU MORRER! Os zumbis tão me dando uns tapas aqui.
–– SEI QUE TÁ MORENDO SÓ PELO TAPA, AHAM... TÔ FALANDO PRA SAIR DO FOGO, MAS NÃÃÃÃO...
–– Me deixa pular fogueira em paz! FAZ ALGUMA COISA!
–– Calma, tô indo! TE ACHEI! –– ele parou no meio do caminho e começou a rir.
–– O QUÊ?
–– Seu personagem tá no chão parecendo uma lagartixa!
–– Vou mostrar a lagartixa na tua cara se você não me ajudar! –– dei um tapa no braço dele, que ainda ria.
–– Ok, ok! Calma! Doutor Horan chegou pra te ajudar... –– o personagem dele começou a tirar bandagens do bolso e a curar o meu, mas ele era lerdo e fez o processo demorar um teco.
–– Me ajudar a morrer, só se for. Porque né...
–– Quieta, já tô fazendo demais te ajudando aqui.
–– Ah, desculpa por atrapalhar sua dança de acasalamento com a parede... NIALL, ATRÁS DE VOCÊ!
Ele soltou um gritinho NADA másculo e jogou o controle longe. Soltei meu controle também, mas é porque meu personagem já tinha morrido e eu tive que rolar de rir daquilo. Nialler parecia um esquilo assustado.
–– Chega desse jogo! –– ele disse desligando o videogame, acabando com a linda imagem do meu personagem morto e o dele olhando pro céu, dando voltas no mesmo lugar e pegando fogo.
–– Esse jogo pôs toda sua sexualidade à prova, cara. –– me aconcheguei melhor no tapete, puxando o cobertor até o queixo.
–– E toda a sua lerdeza também! –– ele se cobriu também, puxando Jess para o colo dele.
–– Lerda? Mas eu não fiz nada demais! –– me defendi.
–– Ah, não. Deixa eu fazer as contas... Setenta zumbis e você teve o dom de morrer sozinha passando por cima do fogo!
–– Isso não conta. –– mostrei a língua e deitei a cabeça nas almofadas do chão. Nialler fez o mesmo, fechando os olhos por alguns segundos.
–– Você canta bem –– falei. –– Muito bem, aliás.
–– Sério? –– ele me olhou nos olhos, sorrindo tímido. –– Valeu.
Sorri pra ele, fechando os olhos também. Eu estava cansada. Muito. O dia no parque tinha sido bem agitado, e acho que a dancinha do Just Dance esgotou a energia que nos sobrara.
–– Não se importa se eu dormir, né? –– perguntei fazendo um carinho no Jess.
–– Claro que não. Eu também tô cansado. Quando a e o Harry chegarem, eu te acordo, pode deixar.
–– Ok. –– dei um beijo na bochecha dele e voltei a fechar os olhos. –– Boa noite, Nialler.
–– B-boa noite, .
Tentei não pensar e relaxar o corpo, mas é meio difícil fazer isso quando se sente que tem alguém te observando.
–– Vai ficar me encarando mesmo?
Ouvi a risada dele em resposta.
–– Como sabe que eu tô te encarando?
–– Na verdade eu não tinha certeza, mas você acabou de confirmar. –– eu ri.
–– Posso cantar?
–– É claro que pode. Melhor, deve.
A voz angelical e rouca de Nialler ao meu lado cantarolando It’s All About You (também do McFly) e ele brincando com as pontas do meu cabelo são as últimas coisas que me lembro de antes de cair no sono.
Continua...
Oi, meninas! Quanto tempo! Tranquilas? :D
Ok, ok... Eu sei... Mais de dois meses sem att (sou péssima com tempo, me corrijam se eu estiver errada). Demorei pra caralho e quando atualizo venho com só um POV... Não me matem! Meu coraçãozinho (filho duma quenga) tá me enlouquecendo ultimamente por causa de uns rolos aê e tudo o que eu tento escrever de romance sai uma bela bosta. Mas não, esse não é o problema MESMO. É só um dos obstáculos do cap 13 que eu espero que vocês entendam.
Antes de qualquer coisa: Eu N-Ã-O estou abrindo mão de This Is Just The Beginning, ok? Eu amo essa história e ela VAI ter o começo, o meio e o fim dignos que planejei u-u
A questão é que tive três semanas inteiras de correria por causa de provas em que eu sequer abri a fic (tá, eu sei, "três semanas não são dois meses", mas essas semanas me atrasaram e tiraram meu pique de escrever). E vocês já sabem que eu sou lerda pra escrever (sorry not sorry)... O que resultou nessa demora do capeta e, hã, apesar de ter os tópicos e o rascunho do cap 13, não tem muita coisa :ss Antes um só POV do que nada, né?
Eu sei que vocês querem cortar meu pescoço, MAS EU TENHO NOVIDADES ÓTIMAS, CALMEM, ABAIXEM AS FACAS PLMDDS.
Quero avisar que já mandei mais QUATRO fics minhas pro ATF pra vocês :D Vi pelos comentários que muitas de vocês viram elas no site e já leram (aliás, obrigada por comentarem, de coração :3). Meus planos eram mandá-las mais tarde... Mas como vocês são leitoras tão lindas *-*, eu decidi que vocês mereciam ter algo pra ler enquanto eu enrolava com o cap 13.
As novas fics são:
TORNADOS (pra quem curte mundos paralelos, raças mágicas etc. ah, praticamente só uma pessoa narra e é o MENINO principal, não a leitora. Mas tem sim romance, então calmem as teta).
EN REMONTANT LE TEMPS (dois bobões que acabam entrando numa máquina do tempo e não conseguem sair, aí já viu a bosta né)
ANGEL BEATS (sim, aquele anime fodelão. eu tô meio que reescrevendo ele com cenas novas e muito mais romance porque né, vamos combinar... Tá faltando naquela porra --')
ZOMBIELAND (o nome já fala tudo lol)
Zombieland é a única shortfic de todas, e ela e Angel Beats ainda estão no comecinho. Já nas outras duas tenho BASTANTE coisa escrita (projetos antigos, pois é).
Bom... Era isso, gente!
Bjs bjs bjs bjs e DESCULPEM-ME, PFVR T.T