?É o momento de ir e dizer que foi bonito, que, mesmo se os atores saem de cena, o palco da vida permanece aberto e pronto para novos espetáculos, que lhe desejo tudo de bom e que sinto muito. Mas que o final chegou.?
Foi assim que começou a conversa sobre nossa separação e esta citação bonita, de nada amenizou a situação. Porque eu não gosto de fins e não podia acreditar que ela estava realmente me dizendo adeus. Só que lá estava ela, com todas suas coisas arrumadas aos seus pés, listando-me os motivos que a levaram aquilo. Segundo ela, não era feliz e eu deveria respeitar seus sentimentos. E ela, que respeito estava tendo com os meus, me deixando assim?
Tentei não prestar atenção, olhei a mobília enquanto ela gesticulava e andava para lá e para cá. Nossa, como eu realmente odiava aquela escultura ?conceitual? que ela me fizera a comprar. Aquela coisa horrorosa ela não levava. Deixava como uma lembrança para mim. A obra e o vazio na conta que ela deixou. Então ela se vira para me acusar novamente, dizendo que eu nunca ouvia. Queria dizer-lhe que eu a ouvia sim, era só que na maior parte do tempo ela não fazia nenhum sentido.
Fui me dar conta da seriedade da situação quando ela deixou a sala, munida de seus pertences e batendo a porta as suas costas. Apoiei meus cotovelos nos joelhos e segurei o copo de whisky, fitando-o a procura de uma resposta, ouvindo o silêncio do vazio da casa, sussurrá-la para mim. Então isto era estar sozinho.
Gostaria de dizer, que encarei aquela separação como todas as outras que tive antes. Que aproveitei todos os benefícios da fama e da beleza que meus pais me propiciaram. Ou que ao menos houve alguma dignidade nos dias que seguiram a partida de , mas seria mentira. Os dias que seguiram para mim foram um grande esforço. Me sentia confuso, frágil e com algumas lágrimas repentinas que vinham o vazio de não mais tê-la. Tentei fingir estar bem, mas atuar nunca fora meu forte e foi por isto que eu acordei várias vezes encarando o teto do quarto, sem a mínima vontade de levantar. Foi com a mesma não vontade que encarei as semanas, quase mês, que seguiram a nossa separação.
Só havia uma coisa que eu podia aturar menos do que a falta de ao meu lado, do que a incompreensão sobre sua partida: a pena de meus amigos. As conversas cuidadosas ao meu redor, não citando ela ou qualquer relacionamento. Me acolhendo em suas casas. Suas namoradas me analisando clinicamente procurando as aparências físicas das feridas que tinha deixado em mim.
Talvez tenha sido motivado por toda raiva que tenho daquela pena que eu aceitei o convite de para sair hoje. Uma amiga de estava chegando do Brasil, e os dois me convidaram para um jantar acompanhado da amiga em questão. Entenda bem, eu não vinha saindo muito com meus amigos. Todos eles tinham suas namoradas, ficar sobrando na mesa só me fazia lembrar mais ainda de , o que conseqüentemente aumentava os olhares de compaixão e juntamente crescia minha vontade de não estar ali. Então, por mais que a idéia de sair aquela noite não me animasse, sabia que estava devendo aquela para os meninos. Ainda que desta vez fossemos só eu e . Acho que eles ficariam menos preocupados, se eu ao menos fingisse estar seguindo em frente.
Olhei através da parede de vidro de minha sala, assistindo a neve dançando em direção ao chão e vi minha vontade que estava pequena ir ao zero. Ainda assim, respirei fundo, desliguei a TV e vesti o sobretudo antes de deixar o apartamento. Liguei o rádio baixo no carro, ouvindo uma voz masculina melódica cantar uma música meio tristonha e ao fundo o motor silencioso do carro, o atrito das rodas contra a rua, mais nada. As ruas não estavam muito cheias, já era um pouco tarde e com o frio que começava a fazer, sentia que só eu seria o louco fora de casa hoje. Com este pensamento, ultrapassei um cruzamento sem olhar para os lados. O sinal estava verde para meu sentido, mas eu tinha mania de checar. Como diria minha avó, seguro morreu de velho. Só que hoje eu não estava realmente ligando para nada, nem mesmo para minha segurança. Ao invés de olhar para pista, subi meus olhos na direção de um grande outdoor na lateral de um prédio onde sorria olhando para o lado. Foi quando um impacto na lateral esquerda de meu carro, a tempo de ver uma moto tombando para o lado carregando seu ocupante. Arregalei meus olhos com o susto, saindo apressado do carro na direção onde o veículo estava caído. Dando uma pequena olhada para cima, observando que no outdoor sorria bem naquela direção, como se rindo de minha desgraça. Ignorei a ironia do destino, sacudindo a cabeça e voltando a olhar para o motociclista acidentado, percebendo que se tratava de uma mulher. Já estava levando a mão ao meu telefone, quando ela começou a levantar-se e eu resolvi ajudar.
-Você está louco?! Não viu o sinal?
Ela gritou em minha direção, logo depois de retirar o capacete. Não respondi instantaneamente, distraído por sua beleza exótica. Os lábios cheios, os olhos amendoados, o cabelo que agora caía em camadas ao redor do rosto... Meus olhos estavam caindo por seu corpo, quando me detive para respondê-la.
-Está chapado... Não acredito!
Ela resmungou para si mesma, colocando o capacete no braço e apoiando a mão na cintura enquanto passava a outra pelo cabelo de uma forma meio estupefata, meio irritada, que eu achei estranhamente atraente.
-Não estou chapado, coisa nenhuma! E foi você quem ultrapassou o sinal vermelho!
Respondi, e ela me olhou parecendo admirada pela minha habilidade de falar ou ultrajada por ter colocado a culpa nela. Talvez os dois.
-Ainda vou ter que ligar para uma oficina... Eu nem tenho o número de uma oficina! Com certeza vou chegar atrasada e a... Caramba, você tinha que entrar no meu caminho logo hoje?!
Ela começou falando consigo mesma e terminou olhando para mim, parecendo estar realmente à procura de uma resposta enquanto encaminhava-se até sua moto ainda tombada.
-Você fala como se fosse a única com prejuízos aqui! Olha, esta lataria toda arranhada! Sua moto nem teve nada. E eu não entrei no seu caminho, se você não tivesse ultrapassado o sinal vermelho.
Respondi enquanto a ajudava levantar a moto, muito cavalheiro.
-Minha moto não teve, nada?! Este eixo quebrado é nada para você, é? E foi você quem ultrapassou a droga do sinal vermelho.
Olhei para baixo, observando o pneu ligeiramente direcionado para direita enquanto segurávamos a moto completamente para frente. Subi meus olhos, já não vendo os estragos da motocicleta e sim reparando nas curvas da mulher que estava ao meu lado. Eu estava triste por ter sido deixado, mas não estava morto.
-Olha, a gente pode continuar aqui discutindo a noite inteira ou podemos resolver nossos problemas.
Ela chamou e eu voltei atenção para seu rosto novamente, aliviado por ela ter achado que eu estava apenas analisando os estragos em sua motocicleta.
-O carro eu resolvo com o seguro. A sua moto, eu já não sei...
-Como assim, não sabe? Você foi o culpado pelos estragos na Marilza...
-Marilza?
Cortei sua fala estranhando aquele nome, assistindo-a olhar-me como se estivesse diante de uma criança perguntando algo muito evidente.
-É o nome da moto, oras!
Ela explicou como se fosse algo óbvio, logo voltando a reclamar com a mesma indignação de antes.
-E agora não quer pagar pelos estragos? Eu nem estou ligando para a polícia, nem nada. Você sabe que perderia vários pontos na carteira por ter ultrapassado o sinal deste jeito, não é? Eu poderia ter morrido.
-Ligar para a polícia? Dirigindo com estes saltos, você é que perderia pontos! Sem dizer que eu não ultrapassei sinal nenhum!
Retruquei um pouco exasperado, ouvindo-a bufar e abaixar a cabeça como se já estivesse cansada daquilo.
-Olha, ta frio para caramba e eu já estou para lá de atrasada. Então será que você poderia pelo menos me dar o número de um mecânico?
-Eu tenho cara de páginas amarelas?
Respondi ríspido, arrependendo-me logo depois, quando ela mirou-me parecendo realmente magoada e cheia daquilo. Quer dizer, a menina nem tinha feito nada demais para mim. Na verdade, ela tinha feito sim. Meu carro estava com um arranhado horrível, mas pelo menos ela estava me livrando da tortura que seria aquele Double date armado pelo .
Observei-a caminhar até um orelhão que tinha por ali e acabei por segui-la.
-Desculpa. Eu tenho um número sim.
Falei, vendo-a parar e olhar para trás desconfiada, depois rolando os olhos e vindo em minha direção.
-Ninguém tem culpa do seu dia estar ruim, ok?
Ela murmurou para mim, tomando de minha mão o celular que eu a estendia e digitando o número em seu próprio aparelho.
-Na verdade, você tem parte da culpa sim. Bateu no meu carro, esqueceu?
-Vamos entrar nesta questão de novo? Foi você quem ultrapassou o sinal vermelho!
Estava pronto para retrucar, mas ela o indicador em minha direção pedindo para que eu esperasse e começou a falar com a pessoa do outro lado da linha e eu me limitei a colocar as mãos nos bolsos e olhar para cima, me arrependendo em seguida. Lá estava o outdoor de brilhando e fazendo o conhecido misto de dor e raiva cruzar meu corpo. Não sei bem que expressão meu rosto demonstrou, porém seja lá qual foi, fez com que a menina também levantasse seus olhos naquela direção, olhando-me como se eu fosse louco logo em seguida.
-E então?
Perguntei ao vê-la guardar o celular e encostar-se na lateral de meu carro, encostando-me ao seu lado.
-Falou que em dez minutos está aqui.
Ela respondeu-me, começando a brincar com a fumaça que sua respiração causava na noite fria pouco tempo depois, fazendo-me sorrir.
-Fazer isto sempre me fez sentir um pouco dragão quando eu era criança.
Comentei para puxar assunto, vendo-a corar levemente ao notar que estava sendo observada.
-Por quê? Só a sua feiúra já não te dava esta impressão?
Ela perguntou fazendo-me estreitar os olhos e rir falsamente em sua direção.
-To brincando! Sempre achei isto bem mágico também. Frio, neve, fumaça da respiração... Fico tratando tudo como novidade.
-Você não é daqui, é?
-Não. Sou do Brasil.
Ela respondeu com um sorriso, fazendo-me sorrir de volta. Só ali percebi que ela estava me tratando com naturalidade. Não que todo mundo saísse me adorando por aí só porque eu tenho uma banda, mas quando você é famoso é difícil encontrar alguém que te trate com real naturalidade. Só mesmo se não te conhecer. E pelo jeito, ainda que o McFLY já tivesse uma proporção no Brasil, acho que ela não conhecia. Era bom ser tratado só como . Ou melhor, só como um estranho já que ela ainda não sabia meu nome. Nem eu o dela.
Não perguntei imediatamente porque engatamos numa conversa sobre seu país de origem, seus olhos brilhando numa mistura de saudades e orgulho enquanto falava de sua pátria. E eu não menti quando a disse que amava seu país. Gostei de tudo no Brasil. As pessoas, as praias, a intensidade do público, a comida, as boates... Na verdade, só tinha uma coisa brasileira que eu não tinha gostado: a cerveja. Mas isto eles compensam muito bem com a caipirinha... Acabamos entrando numa discussão sobre bebidas e sorri o ver que ela concordava comigo. Aproveitando para perguntar seu nome assim que o assunto rareou.
-.
Ela respondeu com um sorriso e eu estendi minha mão em sua direção, cumprimentando-a.
- Poynter, prazer.
Estava prestes a recomeçar uma conversa quando a caminhonete do mecânico estacionou em nossa frente. Ajudei-o a colocar a moto na caçamba enquanto perguntava coisas como quando a moto ficaria pronta e onde ficava sua oficina. Em menos de cinco minutos, o homem já estava indo embora sob o olhar quase desolado de ao meu lado.
-Então...
Comecei, sem saber exatamente o que dizer, brincando com a chave do carro dentro de meu bolso para disfarçar o certo nervosismo que sentia nem sei por quê. Só não sabia o que eu deveria fazer agora.
-Bom, você vai me dar uma carona, não é mesmo?
meio perguntou, meio exigiu olhando em minha direção enquanto eu estava momentaneamente incrédulo. Ela bate no meu carro, insiste que foi minha culpa e ainda quer carona. Mas eu mereço mesmo!
Se bem que ela era bem bonitinha, isto eu não posso negar. E é até bem legal, apesar de aparentemente daltônica. Sem dizer que aquele lugar não era lá muito movimentado, só alguns carros tinham passado por nós e ela nem conhecia a cidade, seria muita sacanagem deixá-la ali. Rolei os olhos, tirando as chaves do bolso e caminhei até o lado do motorista, vendo-a acomodar-se no banco do carona.
-Sabe, eu nem sei se você é uma serial killer que aborda suas vítimas com uma batida.
Comentei em tom de brincadeira enquanto ligava o carro.
-E eu não sei se você é um estuprador maníaco, pirado e daltônico que insiste que o seu sinal era verde.
Ela continuou minha brincadeira e eu sorri, o silêncio tomando o carro até que ela aumentasse o volume do rádio começando a acompanhar a música que tocava. Olhou surpresa em minha direção quando eu também comecei a cantar junto e eu pisquei em sua direção, os dois dando um show particular dentro do carro.
-Hei, eu não sei para onde você vai.
Constatei um tempo depois, já perto do restaurante onde havia marcado o jantar.
-Caramba, é mesmo. Bem... Acho que é aqui perto. É um restaurante italiano, sabe?
-O Nonna?
-Este mesmo! Sabe, eu nem estava muito a fim de sair hoje. Mas uma amiga me ligou e pediu para eu jantar com ela e o namorado, queria me apresentar um amigo do cara e tal... Eu nem gosto muito dessas coisas, normalmente só me sobram os caras altamente bizarros e nada a ver comigo, mas como faz muito tempo que não a vejo resolvi aceitar.
comentou e eu pude ouvir as peças se encaixando dentro de minha cabeça. É impossível! Amiga brasileira, Double date, o Nonna. Será que era a amiga brasileira de que queria que eu conhecesse?
-, qual é o nome desta sua amiga, hein?
-Benny, por quê?
Soltei o ar que eu não percebi que estava prendendo ao ouvir sua resposta. Ela não era a amiga de , afinal. Não posso esconder que fiquei um pouco desapontado com esta informação e acho que ela também percebeu isto, seus olhos passeando por meu rosto procurando respostas para a dúvida estampada no seu.
-Nada... É só que eu também tenho que encontrar um casal de amigos aqui hoje. E eles iriam me apresentar uma amiga do Brasil.
-Caramba, que coincidência. Imagina se fosse você o cara que eles quisessem que eu conhecesse hoje? Seria tão bizarro... Quer dizer, você bateu na minha moto. Com certeza não é um bom início.
-Que diga a lataria arranhada do meu carro. E foi você quem bateu.
Retruquei com humor seguindo o tom de seu comentário. Nenhum dos dois admitiria culpa nunca. Caminhamos conversando besteiras até a porta do restaurante, ambos hesitando em frente sua entrada, observando as pessoas pela vitrine de vidro.
-Então...
Ela começou, sem parecer saber bem o que dizer e sem olhar para mim. No entanto, nada mais falou ou mesmo se moveu. Permanecemos os dois ali.
-Quer ir ao Pizza Hut? Quer dizer, eu não estou muito a fim de macarronada... E também já estava destinado a jantar com uma brasileira desconhecida hoje mesmo. O que acha?
Convidei como quem não queria nada, observando-a considerar minha proposta pelo canto do olho. Estava nervoso e eu não fico nervoso com mulheres em geral. Culpei o tempo que fiquei com por aquele nervosismo. Talvez tenha perdido a prática, ainda que nem todo o tempo eu fosse fiel... Acho que na minha posição nenhum homem seria.
-Eu realmente adoraria. Tipo, nada melhor do que aquela pizza de calabresa. Só que eu não posso, . Desculpa mesmo. Sabe... É minha amiga e eu não a vejo há muito tempo. Sem dizer que ia ser sacanagem com o guri que está me esperando. Com a menina que está te esperando também, né.
Seu discurso que começou apologético, terminou com uma acusação bem humorada em minha direção. Sorri ao ver seus olhos apertados em minha direção, vendo-a sorrir em resposta e depois ficarmo-nos encarando sem saber o que dizer. Ela mordeu o lábio inferior e eu também. Talvez nenhum dos dois quisesse se despedir. Eu não queria.
-Me dá seu celular.
Ela pediu e eu entrei o aparelho em sua mão, recebendo o dela em troca e observei o objeto com dúvida.
-Anota seu número!
exigiu, rindo ao perceber que eu não começara a mexer no celular ainda. Observei-a sorrir em direção ao telefone, tirando uma foto que provavelmente seria sua identificação na chamada. Fiz o mesmo e destrocamos os celulares, sabendo que agora teríamos que nos despedir.
-Tchau.
Murmuramos um para o outro e eu senti os braços de englobarem-me, antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa. Abracei-a de volta, inspirando um pouco do cheiro doce de seu cabelo e pele.
Entramos separados no restaurante, ela andando em uma direção e eu em outra. A comida estava boa, parecia feliz com minha presença e a amiga de era até bonita. Só que foi em outra brasileira que eu prestei atenção durante toda a noite.
Sai do restaurante cansado, mas ainda assim dei uma carona à amiga de . Não troquei telefones com a menina, acho que nem eu nem ela ficamos muito interessados. Sorri brevemente quando passei pelo cruzamento onde houve minha batida, desta vez prestando atenção. Mas o impacto que eu senti desta vez foi ao chegar em casa. O impacto da realidade, aquela tristeza que insistia em não me deixar e que só tinha resolvido me dar um descanso por uma noite. No entanto, já não era como uma ferida aberta. Sentia como um corte de papel, doendo só para dizer que está ali. E quando eu fechei os olhos, estava em meus pensamentos de novo.
No outro dia, todos os meninos estavam animados no estúdio. A neve tomava toda a cidade causando um caos aéreo, mas ao mesmo tempo noticiando a proximidade do natal que deixava todos em polvorosa. A data era realmente apelativa e até eu estava animado. Presentes, comida, família... E férias! Ainda que o tempo que passamos nos EUA produzindo e mixando o novo álbum tenha sido bastante livre, a correria com o lançamento e a turnê que estava por vir, me fazia ansiar um descanso. Sem câmeras, sem revistas, sem programas de fofoca espalhando por todo país quão triste eu estava com meu término.
Meu celular tocou no meio de uma discussão com os garotos sobre onde iríamos gravar o último webchat do site. Vi me recriminar com o olhar, continuando, porém, a argumentar com . Não sei o que me deu, mas subitamente fui invadido por uma esperança de ser ela, . Desde que fora embora ela não havia tentado fazer nenhum tipo de contato e na minha mente fez sentido que ela estivesse ligando agora. Talvez ela só precisasse de um tempo como antes...
-Alô.
Atendi sem nem olhar o visor do celular, me afastando da mesa onde os meninos estavam conversando.
-Oi, . Tudo bem? É a .
-Tudo ótimo. E você?
Respondi com um esboço desapontado de sorriso nos lábios.
-Então, recebi uma ligação do mecânico e ele disse que minha moto estava pronta. Só que eu estou totalmente perdida com metrô, ônibus e não faço idéia de onde é a oficina dele. Pensei que como você conhece, podia me levar lá.
-, sabe nas ruas costumam ter uns carros pretos que existem exatamente para isto.
Falei com um tom de humor, brincando com . Levá-la ao mecânico não era lá a coisa mais divertida do mundo para se fazer, mas era alguma coisa para distrair a mente que não envolvia trabalho.
-Você poderia ser um pouquinho menos insensível. Lembra que é culpa sua que a minha moto foi pro conserto?
-Hm... Acho que nós não chegamos a um consenso quanto a isto.
Respondi contendo um riso, sabendo que ela voltaria a argumentar sobre eu ter furado o sinal vermelho. Coisa que eu sabia que não tinha feito. Voltei a falar assim que a ouvi tomar fôlego do outro lado da linha.
-Mas eu concordo em te levar com uma condição.
-Erm... E qual seria?
Ela perguntou desconfiada e eu mordi o lábio antes de responder.
-Vai ter que almoçar comigo. Quer dizer, está bem na hora mesmo e você já me enxotou ontem...
-Tá, , não precisa implorar.
respondeu rindo do outro lado da linha, fazendo-me rir levemente também sentindo o mesmo nervosismo que sentira no dia anterior abandonar meu corpo.
-Você me busca?
-Claro, só me diz onde.
Corri de volta na mesa onde os meninos estavam, fazendo todos observarem-me sobressaltados, enquanto eu anotava o endereço passado por antes de desligar o telefone.
-Onde estávamos?
Perguntei, guardando o endereço em meu bolso e voltando a me sentar, ainda com todos me fitando.
-Escolhendo o lugar onde nós vamos fazer o webchat do site...
-Hm... Eu acho legal o London Eye. Tá frio para fazer em um local aberto e é um lugar legal da cidade.
Continuamos discutindo aquilo durante algum tempo. O lugar, quais músicas iríamos tocar e se iríamos tocar. Achava meio inútil, uma vez que no fim nunca acabávamos fazendo exatamente o planejado. Cerca de meia hora depois, estávamos todos prontos para ir.
-Quem era no telefone?
me perguntou, enquanto vestíamos nossos casacos caminhando em direção ao elevador.
-Por quê?
-Por causa da cara idiota que você ficou ao atender. Era uma garota, não era?
Ele continuou e eu fiquei assustado com toda aquela investigação. Será que eu havia ficado tão mal por assim? nunca havia sido tão invasivo, normalmente eu mesmo contava as coisas. Talvez ele estivesse pensando que eu estava falando com a amiga de .
-Hm... O nome dela é . Conheci ontem quando estava indo encontrar vocês no restaurante.
Respondi indiferente, vendo murmurar qualquer coisa como sinal de compreensão.
-Achei que fosse a .
Ele comentou fazendo-me franzir o cenho com o nervosismo que ele parecia tentar esconder.
-Hã... A é legal, mas não rolou química, sabe? Acho que ela pensa o mesmo.
Falei lembrando-me da menina de ontem. Ela era linda e simpática, mas não havia me atraído. Não era exatamente meu tipo de mulher, ainda que se tivesse a chance e estes fossem outros tempos, eu ficaria com ela.
Despedi-me de assim que chegamos na garagem, ainda estranhando aquele seu comportamento enquanto caminhava em direção ao meu carro. Tirei o endereço que havia me dado do bolso e apressei-me naquela direção. As ruas naquela área eram movimentadas e não parecia muito fã de esperar.
Cerca de uma hora depois, estávamos adentrando um pequeno restaurante que ficava próximo do local de trabalho de . Já havíamos ido ao mecânico, mas a moto de acabara não sendo liberada. Parece que havia outro problema que eles não tinham notado antes e demoraria mais alguns dias até que ficasse pronta. Ela pareceu desapontada, mas não havia muito a ser feito.
-Cara, comida inglesa é sempre tão difícil de encarar.
comentou enquanto examinava o cardápio, percebendo pouco depois que eu não fazia o mesmo, só a observava.
-O que foi?
-Nada...
Respondi antes de pegar o cardápio, que estava na minha frente e examiná-lo, acabando por pedir o mesmo de . Começamos a conversar sobre coisas supérfluas, como o tempo e algo que tinha passado da BBC na noite passada.
-E o que você faz aqui em Londres, hein ? Eu não largaria o calor do Brasil se pudesse...
Comentei assim que nossos pratos chegaram, observando as primeiras gotas de chuva começarem a cair lá fora. Nada atípico.
-Eu voltei para cá para trabalhar com meu primo. A gente estudou juntos na Central St. Martins, sabe? Eu voltei pro Brasil e comecei a trabalhar na marca da minha tia e ele ficou aqui. Ele precisou de ajuda e eu voltei. Depois que você mora aqui, não tem como ficar longe.
-Então você trabalha com moda?
-Sim...
Ela respondeu olhando ao redor parecendo ligeiramente incomodada com alguma coisa. Estava pronto para perguntar o que a estava incomodando, quando ela aproximou-se por cima da mesa, falando mais baixo.
-, você percebeu que as pessoas estão te encarando?
Olhei ao redor e percebi um grupo de meninas me encarando enquanto cochichavam entre si, além de mais algumas pessoas do recinto. Encarei com certa dúvida, se ela havia vivido em Londres antes, como ela não me conhecia?
-, você já ouviu falar do McFLY?
Perguntei como quem não queria nada, observando-a franzir levemente o cenho enquanto tentava lembrar-se.
-Hm... O nome não me é estranho, por quê?
-É a minha banda. Nós somos... Hm, famosos sabe? Talvez seja por isto que elas estejam olhando.
Falei sem jeito observando fitar-me atentamente, como se a procura de um traço de escárnio ou tentando lembrar-se de mim. Ao tempo que eu achava toda aquela situação muito estranha, afinal de contas nunca precisara dizer para garota nenhuma quem eu era. Normalmente elas já vinham sabendo meu nome, idade, estado civil...
-Deve ser por isto que eu sentia que te conhecia de algum lugar.
falou por fim, voltando-se novamente a seu prato e dando ombros. Não sei por que, mas aquilo me fez sorrir. Parecia não fazer diferença para ela o fato de ser famoso ou não, o que depois de namorar uma celebridade fazia bastante diferença. Continuamos conversando descontraidamente por algum tempo, mas logo precisava voltar ao trabalho.
-Mas , se você já morava em Londres antes, por que ficou perdida para o metrô hoje, hein?
Perguntei desconfiado enquanto esperávamos a garçonete voltar com a conta, vendo-a parecer sem graça.
-Era tudo uma desculpa para me ver, não era? Eu sei que sou irresistível...
Continuei, passando a mão por meu peito enquanto falava o que a fez rir.
-Ah, só queria companhia.
admitiu fingindo desolação, seu lábio inferior ligeiramente sobrepondo o superior como uma criança chorosa fazendo-a parecer adoravelmente frágil. Não pude me conter em olhá-la com desejo, mordendo o lábio levemente.
-Pode ligar sempre que precisar.
Ofereci, assistindo-a sorrir ao mesmo tempo em que a garçonete chegava à mesa e entregava-me a conta. Rapidamente retirei o dinheiro da carteira, entregando a mulher e pedindo que ela ficasse com o troco.
-Eu achei que a gente iria rachar.
comentou enquanto deixávamos o restaurante.
-Nah, eu convidei, eu pago.
-Não é muito justo, .
-Por que não fazemos o seguinte: saímos outra vez e desta vez rachamos a conta, se te incomoda tanto.
-Hm... Quem está com desculpas para ver quem, hein?
acusou brincando, enquanto me encarava com certo desafio brilhando nos olhos.
-Talvez eu também esteja um pouco sozinho...
Comentei instigante, sorrindo e observando-a sorrir em resposta. aproximou-se, englobou-me em seus braços como na noite anterior e plantou um beijo em minha bochecha, o que me fez ficar desnorteado, até perceber que estávamos parados em frente ao prédio onde ela trabalhava.
-Tchau, .
-Tchau, .
Respondi vendo-a rolar os olhos.
-Pode me chamar de, .
Ela pediu, logo me dando as costas e adentrando o prédio enquanto eu ficava parado ali em meio a calçada a observando. Seu corpo esguio, seu andar tão diferente das outras, suas roupas bem combinadas, seu jeito espontâneo... Rolei os olhos e tomei meu caminho assim que percebi o que estava fazendo. De certa forma agradecendo pela certeza de que nos veríamos de novo.