Misery

Escrito por Natashia Kitamura - Siga a autora no Twitter

Sábado. O dia favorito de todas as pessoas no mundo. Todas as pessoas sãs, que tinham uma vida normal. Que trabalhavam duro durante a semana para então receber o merecido descanso do final de semana.
Eu estava sentada de frente para , meu namorado de dois anos e oito meses. era vocalista de uma banda que estava em seu ápice da fama. O que antes se resumia em semanas fora de casa para uma turnê no país, agora eram meses fora para turnês internacionais. Sempre fui a namorada perfeita, que seja antes da fama ou depois, não o deixaria de apoiar nunca. Não demonstro meu ciúme, tudo o que eu faço é deixá-lo feliz.
Aguardava ansiosamente a razão dele ter me chamado até aquele restaurante, onde tudo começou. Onde começamos o nosso 'Era uma vez'. Apesar de não haver janelas, o ambiente não deixava de ser claro, já que a parede para a rua era de vidro. Nosso primeiro encontro fora um desastre, mas não completo, já que foi exatamente quando nós começamos a namorar. O início de nosso relacionamento não fora muito normal. Começamos a sair entre amigos, e de repente estávamos sempre juntos. Depois da primeira vez que nos beijamos, passamos a nos beijar sempre, o que fazia todos acharem que já estávamos juntos. Fora apenas depois de cinco meses que ele resolveu me chamar para sair.
Devia ser uma razão especial, eu tinha certeza. nunca me chamava para encontros. A primeira vez fora quando ele me pediu em namoro. E então, depois de dois anos e oito meses, ele me chamara de novo. Não poderia ser casamento, nós dois havíamos combinado de não nos casarmos até acharmos que estamos maduros o suficiente para pular para essa fase. Talvez ele finalmente quisesse morar junto comigo. sempre foi uma pessoa reservada, que tinha medo de cair na dependência de algo que ele não achava saudável. O relacionamento, uma época, significava dar menos atenção para a banda. Então ele quis separar isso bem. Não prejudicou o nosso namoro, nós vivemos na casa um do outro, mas quem sabe seria este o momento em que ele me diz que aprendeu a separar as duas coisas?
Seus olhos verdes me encaravam como sempre me encararam desde o dia em que conhecemos. nunca me tratou diferente das outras pessoas apenas porque eu era a namorada dele. No começo isso me perturbava um pouco, mas com o tempo vi que isso era uma característica dele e aprendi a aceitar. Depois de um ano, eu já estava acostumada.
Tomei um gole da água que haviam nos servido, e quando o garçom chegou com o menu, ele levantou a mão, o dispensando. O encarei confusa aguardando uma explicação, mas ele apenas disse:
- Eu espero que você esteja de bom humor.
Olhei para os lados apenas com os olhos, confusa com o que ele havia dito. Pensei em diversas coisas sobre o que aquilo poderia dizer, mas tudo o que ele me disse, foi:
- , eu quero terminar.
Afastei a mão do corpo da taça com a água. Meus olhos piscaram tantas vezes que devo ter batido o recorde de piscadas em um minuto. Abri a boca afim de perguntar qual era a da brincadeira, mas ele estava sério.
- Por quê? - perguntei. levantou os ombros e com uma expressão indiferente, me disse:
- Acabou a magia.
- Aca... bou? Magia? - pergunto incrédula.
Ele respirou fundo e inclinou seu corpo para perto de mim, para que não pudesse falar em voz alta e todos do restaurante ouvirem.
- Essa história toda de virgindade e amor perfeito... você sabe. Eu sempre fui mais do tipo realista.
- Eu sei? O que-- ! Como eu poderia não saber como você é? Nós estamos a uma semana e meia de completar dois anos e nove meses! Como posso não te conhecer depois de todo esse tempo? E você sabe que esse papo de virgindade não é meu. O paranóico aqui é você!
- Está vendo? É isso! - ele aponta para mim acusador. Seus olhos eram duros e eu não conseguia entender como ele havia ficado assim de um dia para outro. Quero dizer, ele nunca fora uma pessoa carinhosa, mas com certeza nunca teve esse olhar. - Você não me entende. Mesmo depois de quase três anos, você continua não me entendendo.
- Eu não te entendo? , você ouve o que você está falando? - sinto meu sangue subir fervendo à cabeça, mostrando através de minhas bochechas vermelhas, o quão nervosa eu estava. - É você quem não me entende! Eu estou sempre sendo compreensiva com você!
- Desde quando você é compreensiva comigo? - ele diz agora mais alto, apontando para si mesmo com as duas mãos. - , você nunca quer me acompanhar nas turnês, você quer sempre sair só nós dois e ficou nervosa quando escrevi aquela música para minha mãe!
- Eu não fiquei nervosa com este fato da sua mãe, ! Quantas vezes tenho que falar para você? - começo a praticamente gritar, me inclinando ainda mais para perto dele, como se achasse que ele não estivesse me ouvindo direito. - Você escreveu Misery quando brigamos! Isso foi o que me deixou puta! Porque quando estamos felizes, você simplesmente age como se nada estivesse acontecendo demais, e quando estamos brigados, você se expressa através da música, falando para o mundo que nossa relação não é boa e ainda me chama de Miséria!
- Eu disse que não foi para você diretamente! Não posso mais ficar aborrecido?
- Você poderia ficar aborrecido calado! - digo nervosamente. O que diabos tinha de errado com ele? - Você havia concordado comigo! Disse que eu estava certa! Que fora um erro!
- Bom, eu fiz isso para não te enervar! Por que eu me preocupava com você?
- Por que está tentando me fazer parecer a vilã da história?
- Porque você é a vilã! Sou eu quem depois de três meses sem ver o namorado diz que não pode ir até a casa dele para vê-lo? Sou eu quem não atende o telefone durante a turnê? Sou eu quem nunca falou para dividir a conta?
- . Eu fiz isso uma única vez. E foi há um ano e meio. Por que você está decidindo, do nada, desenterrar essas coisas do passado? - me seguro, não aguentando mais toda aquela pressão que ele fazia para provar que estava certo. - Se eu desenterrar os seus erros, vamos ficar aqui até o fim da semana. E hoje ainda é segunda.
- Pois vamos ver então quem cometeu mais erros. Porque no final das contas, a relação vai estar terminada mesmo.
- Sabe - falo, me levantando. -, há uma única coisa naquela droga de música que está certa... - jogo uma nota de cinquenta na mesa. - Você tem mesmo desculpas por tudo o que você faz na sua vida.
- --
- Fica com a merda do troco. - falo desgostosa e lhe dou as costas, saindo do restaurante onde tudo começou.
Ele fizera de propósito. Quisera terminar onde tudo começou. Olhei para o restaurante uma última vez antes do taxi dar a partida e o pude ver na porta do restaurante acenar para alguém. Olhei para trás e o resto da banda estava em um carro. Todos felizes.
Felizes que eu finalmente sumi de suas vidas.

Por dias fiquei depressiva dentro de casa. Não sabia o que fazer. havia acabado com o resquício de sobriedade que havia em mim. Ele estava errado. Eu sempre fora uma pessoa fácil de se conviver. Sempre fui maleável, sempre me adaptei a todos os ambientes por causa dele. E ele ainda me disse aquelas palavras duras.
A cor do por do sol escurecia meu apartamento na zona oeste de Phoenix. Olho para as molduras das fotos quebradas no chão. A empregada não ousou entrar no meu quarto. Limpava a casa e às vezes tentava me levar algo para comer. Em vão. Fiquei cerca de quatro dias presa ali. Faltei ao trabalho. Faltei à faculdade. Não fiz as compras. Não retornei ligações.
Todo meu pensamento estava ligado às palavras de : "...você é a vilã!"
A frase ecoava em minha cabeça como eco de caverna sem fim. Ao fechar meus olhos, podia ver seu olhar sem sentimentos em minha direção. Sem ternura ou amor.
Eu sou a vilã.
Já ouviu falar aquela frase famosa, "uma mentira contada muitas vezes se torna uma verdade"? Parabéns, O'Callaghan; você criou a sua vilã.

Não fora tão difícil.
Ter duas amigas indignadas com a situação, não era de se imaginar que elas fossem deixar barato.
Passamos o mês planejando tudo. Todos os passos, todos os encontros, tudo... até o dia fatídico.

Tudo o que eu precisei fazer, fora ficar dentro do carro e chegar mais cedo no galpão abandonado, aguardando as quatro. Elas me ligariam quando fosse para eu ir até a cidade, disfarçada de motorista do vocalista do The Maine, que deveria chegar no show uma hora e meia antes para fazer o aquecimento com o professor que sempre aparecia quando a banda fazia show na cidade natal.
O telefone tocou meia hora depois do combinado e, lentamente, peguei a estrada até a cidade, onde fui exatamente aonde estava. O vi sorrir para os amigos antes de entrar na limusine que eu dirigia. Como estava com um terno preto com cap, não pode ter muita noção de como eu era. Tampouco parecia curioso.
- Você está pegando o caminho errado. - ele diz depois de um tempo.
- O centro está congestionado. - respondo com a voz rouca, provavelmente o fazendo duvidar se eu era um homem ou uma mulher.
Depois de minha desculpa, nada mais disse. Dirigi até o balcão como combinado e estacionei na parte de dentro. Como estava com os olhos no celular durante todo o tempo, só percebeu que não estava na casa de show quando eu abri sua porta e ele olhou para fora. Ao colocar o segundo pé para fora, o fiz dormir um pouco, tempo o suficiente para levarmos ele até uma cadeira no centro do espaço abandonado. Quinze minutos depois minhas duas amigas chegam dentro de dois carros com o resto da banda. Saíram com seus uniformes todo em preto. Saíram do carro e trancaram as portas de uma maneira que apenas elas e eu poderíamos abrir.
Os quatro estavam adormecidos, fora necessário para que elas pudessem pegar seus pertences e irem embora. Fiquei dentro do carro que eu havia alugado no nome de e observei tudo o que elas faziam. Colocaram o galão no meu porta-malas. Saíram sem fazer barulho.
Fora apenas depois de meia hora que acordou, um pouco dopado e olhando para todos os lados em desespero. Tentou se soltar, mas foi em vão. As cordas estavam bem presas. Acendi os faróis do carro, o fazendo virar o rosto para fugir da luminosidade repentina, até que seus olhos se acostumaram. Ele não conseguia ver nada além da luz. E não conseguiria me ver também, eu estava coberta da cabeça aos pés. Olhei para o lado e vi os quatro despertando um por um lentamente, ainda inconscientes, mas de olhos abertos. O tempo que eu levara para sair do carro e pegar o galão de gasolina fora o suficiente para os quatro começarem a se debater desesperados, não sei se era para salvar ou para se salvarem. Eles podiam ter certeza de que nem um, tampouco outro seria realizado.
Derrubei metade da gasolina que havia dentro do galão na cabeça de e em seguida ao seu redor.
O encarei por mais um tempo, pensando em quem agora era o miserável da relação. Caminhei para longe de e acendi o fogo, deixando-o cair na poça de gasolina. A esta altura tentava se soltar, mas, como da outra vez, não fora possível.
Os berros dos amigos chamando por seu nome era irritante. Dei as costas ao corpo de já parado no meio do incêndio e caminhei em direção a porta do galpão. Depois de quinhentos metros, cliquei o simples botão que me aguardava dentro do meu carro, ouvindo uma enorme explosão atrás de mim.

<em>"Looking for misery, but she found me..."</em>


- ? ! - ouço ao meu lado e abro os olhos em um susto. - Caramba, você estava tendo um puta pesadelo. - a voz de ecoa nos meus ouvidos. Olho para o lado e o vejo sem sua camisa, debruçado de frente para mim na cama.
- O que está fazendo aqui? - pergunto em choque. ri e balança a cabeça.
- Eu moro aqui, . Você também e isso o que acabou de "vivenciar" fora um sonho.
Respiro aliviada.
- Foi um pesadelo.
- Comigo, imagino.
- Com você, sim. - o abraço, fazendo-o deitar comigo de volta na cama. - Hey, você me ama não é?
- Como nunca amei ninguém. - ouço sua voz no escuro, sorrio aliviada e fecho os olhos esperando as batidas do meu coração diminuírem. - Esqueci de te contar, Misery será nosso próximo vídeoclipe.
- Mesmo? - abro os olhos e levanto um pouco a cabeça para enxergá-lo.
- Sim, tem alguma ideia para o que possamos fazer? Tivemos algumas, mas são bem vagas.
Hesito por um instante, até falar:
- Tenho a ideia perfeita.

 

Comentários da autora

Eu não acredito que consegui escrever essa fanfic em um dia. Eu estava com ela há tanto tempo na cabeça!
Espero que vocês gostem, O'Callaghans (Lola)!
Essa é para minha Lolita O'Callaghan. Difícil de eu dedicar as coisas para ela, mas agora foi! Hahahaha!

Estou chegando nos 100 seguidores, viram? http://natashiamkfictions.tumblr.com/
Se você não segue ainda, siga!




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