Porque quando o amor vem por aí, ele vem sem um som. Faz todas as estrelas brilharem tanto e o céu cinzento se transforma em azul.
When Love Comes Around – College 11
O mesmo pesadelo de sempre. A mesma garota ruiva dos olhos verdes. Ela corria, enquanto o vento fazia o lenço amarrado em seu pescoço esvoaçar. Com certeza estava atrasada pra alguma coisa importante. Tropeçou várias vezes nos próprios pés, quase perdendo os All Star pretos que usava. Do nada, ela se jogou na rua, tentando desesperadamente chegar do outro lado, mas não dava pra ver o que acontecera. O sonho se focava na visão da bolsa caqui da garota, agora estirada no chão, aberta. Eu sentia que precisava ver o que tinha acontecido, ou simplesmente o que havia dentro daquela bolsa, porém, meus pensamentos não as alcançavam, como se eu quisesse correr, e meu corpo não obedecesse aos comandos. Num espasmo, acordei assustado de novo.
Niall dormia na cama ao lado, num ronco baixo, a cabeça enterrada no travesseiro. Zayn do outro lado, dormindo como uma pedra, como sempre. E mais uma vez estávamos ali, dividindo um quarto na turnê.
O sonho começava a se repetir com frequência nas últimas noites. Eu queria entender o porquê daquilo. Eu nunca vira aquela menina na minha vida, e como um passe de mágica, ela simplesmente invade meu único momento sozinho comigo mesmo. Levantei, mais cansado do que quando fui dormir, em direção ao banheiro. Parei uns segundos, observando meu reflexo no espelho. Eu pude jurar nunca ter me sentido tão acabado. Pesadelo idiota!
Depois de acordados, eu e os meninos descemos para o café. Louis fazia as mesmas piadinhas, que pra mim, nessas circunstancias pareciam ridículas, enquanto os outros riam, sem prestar muita atenção em mim. Eu queria dormir, e poderia, sem sequer ser notado, devido aos enormes óculos escuros que usava, mas eu tinha certo receio de que acontecesse tudo de novo. Que diabos significava tudo isso? Coisas do subconsciente, Liam. - insisti pra mim mesmo, sem sucesso.
Talvez aquela fosse a quinta torrada de Niall, e eu teria o repreendido em outro momento, mas eu estava preocupado demais sobre o que teria acontecido, o que teria dentro da tal bolsa tão robusta. Tão cansado e desorientado, eu me senti perseguido, por um instante, ao olhar pros lados. A terrível sensação de estar sendo observado. Paparazzis, talvez.
****
Alguma coisa caíra ali, e eu queria saber como e o quê. Procurei, encontrando meu boneco Woody no chão. Ele não estava no chão. De volta ao meu quarto, depois de tanto tempo, eu recolocava minhas coisas no armário, ansiando pela parte em que eu poderia sentar, relaxar e assistir à um bom desenho. Mas Woody ficava muito bem colocado, modéstia à parte, e não cairia daquela estante sem que alguém o tivesse tocado. Mas não tinha ninguém ali. Ótimo.
Os pesadelos mudaram um pouco, ao decorrer dos dias, que agora já eram muitos. Dessa vez, dava pra ver os olhos assustados da menina, que eu já sabia o nome, pois estava cravado na pulseira dela, enquanto uma luz forte vinha em sua direção. segurava a alça da bolsa com força, como se fosse a coisa mais importante pra ela, e com certeza era. E se apagava novamente.
Voltei minha atenção ao boneco em minha mão, o recolocando na prateleira, bem ao lado do Sr. Cabeça de Batata, e quando me virei, minha visão embaralhou um pouco e eu tive certeza de ter visto algo, uma espécie de vulto, ou coisa assim. Só uma sombra idiota, de novo. Não estava tão convencido assim. De inicio, o tal borrão me lembrou uma labareda de fogo acesa, pronta pra queimar, mas era consideravelmente mais vermelho que fogo... Chegava a me lembrar os cabelos da Hayley Williams ou os de . .
- Quem está ai? – perguntei pro nada, e me senti o ser mais estúpido na face terrestre. As cortinas sopraram forte, o que me fez imaginar o porquê de tal brisa, sendo que estava ensolarado há pouco tempo. – Mas que droga... – resmunguei de novo, e as cortinas bateram ainda mais forte, o vento direto na minha cara. – Vou ter que fechar a janela. – falei sozinho, indo até lá.
- Não! – gritou algo, ou alguém. Eu cerrei os olhos, muito perturbado, procurando ao redor.
- Quem está ai? – repeti. Uma figura se formou ao lado das cortinas. A mesma garota dos sonhos, porém menos arrumada, o que não a fazia parecer menos assustada.
- Por favor, não fecha. – ela pediu, num sussurro.
- De onde você...? Como é que...? – gaguejei, tentando encontrar alguma teoria racional pra tudo aquilo.
- Me desculpa. – implorou. – Eu não devia te invadir assim.
- Como? – indaguei sem rumo.
- Os sonhos... Sei que tem te deixado preocupado. E agora, ficar por aqui... Me perdoe. – pediu novamente.
- Quem é você? O que você quer? – perguntei, já preparando táticas de ataque, caso necessário.
- Não se faça de idiota, Liam. – ela parecia encabulada, mas ainda apavorada. – Você sabe meu nome.
- Você é ?
- Não parece óbvio? – agora ela parecia um pouco menos tensa, uma vez que eu me acalmava.
- Isso não muda o que eu quero saber... O que você quer? – hesitou, as mãos ainda encostadas na parede.
- Desculpe Liam. – disse por fim, desaparecendo.
- ! – gritei pro nada.
As imagens do sonho me atormentavam cada vez mais, principalmente depois do acontecido no quarto, que eu preferi esquecer e enterrar na memória. Queria conversar com alguém sobre isso... Mas o que eu diria? Espíritos do mal me assombrando? Iriam me internar e dizer pra imprensa que eu estava com depressão ou viciado em drogas, porque dizer que eu estava louco mataria o fandom inteiro.
Andei devagar pelo corredor, a caminho do estúdio onde gravaríamos hoje. A música nos meus fones de ouvido era alta, o que me distraiu, fazendo- me esbarrar em algo.
- Ai, que droga! – reclamei.
- Oi. – uma voz doce respondeu. A encarei, constatando a mesma garota em minha frente.
- Você é... Não pode estar acontecendo de novo! – passei as mãos pelas têmporas, implorando pra que fosse um grande pesadelo.
- Liam, você está muito nervoso. – ela sorriu.
- E o que você sabe sobre nervosismo?! Aliás, o que você quer?
- Você vai enfartar desse jeito, Liam. O que seria uma pena... Vida de fantasma é dura, dura. – ela se lamentou. – Me desculpe por aquele dia no quarto... Eu ainda não tinha me acostumado a estar morta. É bastante diferente.
- Eu estou ficando louco! É loucura! É o estresse, com certeza é o estresse! – disse a mim mesmo, piscando algumas vezes pra ver se a ruiva que me olhava desaparecia.
- Para de negar o que você já sabe que é verdade, que coisa! – reclamou. – Presta atenção: eu tô morta, entendeu? Morta! – ela me explicou, como se eu fosse uma criança do jardim de infância.
- Isso é impossível! – retruquei.
- Payne, me poupa! Você acha mesmo que a Demi Lovato estava com depressão, ou a Lindsay Lohan ta na droga? – ela fez careta. – Todos como eu... Fantasmas.
- Você é que é louca! Você é alguma jornalista maníaca que quer me deixar louco! Ou alguma fã renegada, sei lá!
- Você é tão previsível. – ela me jogou contra a parede, me cercando com os braços. – Não pense que eu gosto mais disso do que você. – sussurrou. – É coisa do destino. Coisas que não deram para serem cumpridas enquanto eu estava viva. Você vai ter que me aguentar, Payne. Até eu fazer o que deve ser feito.
- E o que seria isso? – perguntei receoso.
- Agora eu vi conversa! – ela se afastou, se encostando na parede da frente. – Bom, vamos por partes: você já viu que eu estou morta, certo? – assenti com a cabeça. – Ótimo. Você já ouviu falar em reencarnação?
- Sim. – respondi.
- Isso não existe! – ela riu de si mesma. – Continuando... Reencarnação pode não existir, mas existem almas gêmeas. E você é a minha. – respondeu como se falasse de novela.
- Quê? – perguntei incrédulo.
- Tão simples Liam! Você é minha alma gêmea, mas eu estou morta, mortinha. O que acontece... Você não tem alma gêmea. Nenhuma garota que você beijar, que você comer, que você achar gatinha vai ser sua pra sempre. Pode até ser, mas será inútil, porque os dois vão ser infelizes.
- E pra que você está aqui? – perguntei de novo.
- Pra quê? Que óbvio Liam! Eu vou ficar com você. Vou ficar com você pra sempre.
- Calma, Liam, é só uma alucinação! – disse a mim mesmo, passando por .
- Liam, para de agir como um idiota!
- Para de me atormentar, , que droga! - me virei, berrando com ela.
- Quem é ? – me deparei com Harry atrás de mim, me encarando.
- , hm, ninguém. – respondi, me perguntando mentalmente onde ela havia se metido.
- Sei... – concordou desconfiado, levando o copo de cappuccino até os lábios. – Então vamos.
Harry passou por mim, me deixando sozinho olhando pra trás, tentando entender qual era a daquela garota, e porque eu parecia odiá- la. Ah claro, Liam, ela não existe!
- Liam? – Harry chamou, me fazendo encara- lo novamente. – Vamos logo! – revirou os olhos, e eu o segui.
- Bom dia, atrasados! – Niall disse. – Até o Zayn que é o Zayn chegou no horário!
- Niall, cala a boca. – Zayn mandou, se jogando num pufe perto de Louis.
- Liam tava falando sozinho no corredor, oras. Parei pra ajudá-lo. – Harry se defendeu.
- EU? – gritei indignado. – Eu não estava falando sozinho... Eu só... Só estava encenando uma parte de um film... Digo, livro.
- Que livro, meu filho? – Lou perguntou.
- Ahn, você não conhece, é muito antigo.
- Tá, vamos começar logo com isso! – Zayn sugeriu indo pra dentro do estúdio.
- Acho que o Louis devia cantar esse solo. – Niall disse, encarando a folha com a letra da canção. – Ficaria melhor na voz dele do que na sua, Harry.
- Ah, Niall, faça o favor! Essa parte é feita pro Liam Payne aqui, querido! – Harry respondeu, batendo em minhas costas. O produtor nos olhava pela “janelinha” entediado.
- Sugira o Zayn. – alguém disse pra mim.
- Quê? – perguntei para os garotos.
- Ninguém disse nada, Liam. – Louis rolou os olhos. Olhei para meu lado esquerdo e lá estava , perfeitamente encostada na bateria de Josh.
- Diga. – ela ordenou.
- Zayn canta. – pronunciei de imediato.
- Finalmente! – o produtor gritou, me apoiando.
- Finalmente o quê? – Zayn o fitou.
- Liam finalmente teve um pensamento coerente. O timbre da voz do Zayn fica perfeito nesse solo, meninos. Nessa nota aqui, - agora ele já estava dentro da nossa “salinha”, nos indicando as notas na canção. – que é mais alta, vai ficar perfeito!
- Mas... – Louis tentou argumentar.
- Nada de “mas”, Tomlinson. – ele disse por fim, voltando para seu posto. – Começando!
- Eu te disse. – sussurrou em meu ouvido, sorrindo e desaparecendo.
Olhei na direção da menina, que me lançou um sorriso irônico, acompanhado de um breve aceno, e desapareceu.
Liguei a luz do quarto e passei a encará-lo, tentando encontrar qualquer vestígio de ou qualquer alucinação idiota que me dissesse ser minha “alma gêmea”.
- Às vezes eu te acho meio covarde, sabe? – falei pro nada, na intenção de que ela aparecesse com o mesmo mau humor de sempre. – Você vem, fala o que quer, e quando estamos prestes a ter uma conversa descente você vira as costas e some. – esperei alguns segundos, e quando percebi que provavelmente seria ignorado, ouvi a voz dela.
- Ótimo, então vamos conversar. – se recostava na cabeceira da cama, encarando suas próprias unhas como se fosse mais interessante que qualquer outra coisa.
- Por que você simplesmente não vai embora? – desabafei, sentindo certo peso em minhas costas diminuir.
- Você só reclama, Liam Payne. – disse com amargura.
- Não, não estou reclamando. Mas tem que haver algo errado aqui, não tem jeito! Eu nunca me apaixonaria por alguém como você, não alguém tão... - procurei a palavra certa, mas não em tempo suficiente.
- Tão o quê? Tão insuportável, Liam? – ela passou a olhar dentro dos meus olhos de uma forma demasiadamente intensa.
- É que se você me detesta tanto assim, por que não vai? – respirei fundo, tentando me controlar.
- Não é tão fácil como parece! – ela alterou a voz, se levantando, passando a perambular pelo quarto. – Qual a parte do “eu estou morta” você não entende, Liam?! Não é fácil estar morta, ta? No inicio você se sente uma das Meninas Super Poderosas, mas não é bem assim. As coisas são difíceis. A solidão é muito dolorosa, e a única pessoa a quem posso recorrer, que não sei porquê, sinto que não vai me exorcizar, ou seja lá o que for, é você. – ela olhou pra mim, algumas lágrimas brotavam em seus olhos. – Eu não escolhi isso. E se eu pudesse, eu sumiria, mas eu sou bastante egoísta para deixar você viver sua vida tranquilamente enquanto eu, infeliz, espero você morrer. Você e eu fomos feitos um pro outro. Como uma lareira em noites frias.
- Então... Vamos deixar isso mais fácil. – opinei. – Você não pode aparecer com respostas que só me causam mais perguntas... Você tem que esclarecer pra mim tudo. Tudo isso.
- Eu era a nerd, a chata, a garota mais arrogante, orgulhosa e sozinha do colegial. – ela se sentou ao meu lado na cama e disparou a falar. – Sabe o tipo de garota que afasta qualquer um? Que acha todos a sua volta uma reles amostra da escória da humanidade? Pois então, isso é a definição mais resumida de mim. Eu nunca participei de um grupo de Matemática, Ciências ou coisa assim, não por falta de vontade, ou capacidade, e sim por falta de convites. Ninguém queria trabalhar com a nerd mais metida que as patricinhas do colégio. Era quase um pesadelo fashionista genial. E de todas as pessoas da escola, da vizinhança... Da minha vida, só uma sabia me colocar no meu lugar. Jake Shay era o tipo de cara que eu sonhava pra mim. Ele não era o mais bonito, mas era o mais inteligente, o mais arrogante e o mais orgulhoso existente lá. Ele chegava a ultrapassar a mim mesma. E eu gostava. Eu adorava quando ele se dirigia a mim, mesmo que pra se mostrar superior. A gente se beijava de vez em sempre, mas transamos numa festa certa vez, mas ele espalhou pra toda a escola como se eu fosse o ser mais fácil daquele lugar. Eu nunca me vi tão fraca. As pessoas riam, apontavam, e eu vi tudo que eu plantei colhido, sem eu precisar arrancar nem um fruto.
- Eu sinto muito... – foi a única coisa que consegui proferir.
- Não sinta. – ela sorriu tristonha. – A culpa é minha. Naquela tarde, depois da aula, eu só queria fugir, correr pro lugar mais longe possível e me esconder, meu lenço fazia questão de tampar minha visão várias vezes, e a bolsa, na qual eu levava a coisa mais importante da minha vida. Onde sempre esteve tudo o que sou, tudo que eu vivi e tudo que eu senti. Meu diário sempre foi meu melhor amigo, e de alguma forma, você precisa dele.
- Eu? Mas pra quê? – arregalei s olhos, incrédulo.
- Temos mais em comum do que você pode imaginar, Liam. – afirmou. – Só sou deveras difícil de se explicar e de se entender. No fundo, eu sempre soube que existia alguém como você. Alguém que de alguma forma soubesse me fazer falar tudo isso aqui, por bem ou por mal.
- Superei suas expectativas? – brinquei.
Com um sorriso zombeteiro, assentindo levemente com a cabeça, ela proferiu palavras muitas vezes ouvidas, mas nem sempre tão significativas:
- Eu amo você. – e dito isto, sumiu como de costume.
Qualquer um notaria o choque no meu rosto depois disso.
Continua...