Your arms are my home
O relógio batia insistentemente, tentando lembrar à menina que já era noite. Noite o bastante para ele estar atrasado e ela com sono. A lua não era visível, muito menos as estrelas. Chovia muito, e raios a tiravam o sono. A natureza não queria que ela dormisse antes dele chegar. Derrotada, levantou-se do sofá e bufou. Pôs a mão embaixo do sofá de couro preto até sentir o cetim da faixa que envolvia o presente. Olhou para o relógio de pulso, negando-se a encarar o irritante grudado na parede. Já eram dez horas.
Ela bateu o pé por mais ou menos cinco minutos até que ficasse com frio. Foi, em passos firmes, até o quarto no intuito de pegar um edredom. No caminho, parou no banheiro e arrumou, pela sétima vez naquela noite, sua maquiagem e cabelo. Será que ela estava arrumada demais? Ele provavelmente chegaria todo suado e desarrumado. Também, que fosse. Ela já estava daquele jeito e ponto final. Saiu do banheiro rapidamente, com borboletas agitadas em seu estômago, e correu até o closet. Por que estava com tanto medo?
Apertou o botão escondido atrás da última prateleira de roupas. Esperou até que a escada descesse e encaminhou-se ao sótão. Lá, dirigiu-se sem frescuras até a caixa que havia deixado escondida sob um edredom velho e a segurou com as mãos trêmulas. Segurando aquilo, os últimos restos de certeza lhe esvaíram e ela começou a se perguntar coisas terríveis. E se ele não gostasse do presente? Se ele a achasse ridícula por fazer tanta coisa? E se ele começasse a rir do esforço que ela fazia para...
O telefone tremeu no bolso do casaco. Ela o segurou com força, tentando focalizar os olhos nas letras brilhantes da tela. John. Suspirando, ela pôs o telefone na orelha enquanto descia as escadas. Fechou a entrada para o sótão e deitou-se na cama, cansada. Pelo menos ele havia lembrado de ligar. Agora ela começava a ficar com raiva de seu atraso em um dia tão importante.
- Pensei que tivesse esquecido de mim. - falou, com voz manhosa. - Sabe que hora são?
- Estou entrando em casa. Feche os olhos. - John respondeu, e logo depois desligou o telefone. estranhou, mas obedeceu.
Apenas alguns segundos depois, ouviu o barulho da porta sendo aberta e riu. Pôs o travesseiro em cima do corpo e continuou deitada, quieta, esperando que ele a encontrasse. De repente, teve uma ideia. Uma ideia muito, mas muito melhor da que tivera até agora. Deu um pulo da cama e trancou-se no quarto. Conseguia ouvir John largando as coisas em cima do sofá, e riu orgulhosa de si mesma.
- John? - gritou. - Saia da casa agora!
- O que? - um risinho baixo ecoou pela casa, e imaginou o rosto confuso dele. - Como assim?
- Eu ligo quando for a hora de você voltar! Vai demorar dez minutos, no máximo. Espere no corredor! - gritou.
Apenas relaxou quando ouviu o barulho da porta fechando chegou aos seus ouvidos. Prontamente, girou a chave e saiu do closet. Fez todos os preparativos. Escreveu em pequenos pedacinhos de papel frases misteriosas e passou perfume em todos eles. Foi colando-os, de um em um, nos locais corretos, foi para o quarto fazer a última coisa e pegou o telefone. Sentou-se no sofá e apertou o número "1" na discagem rápida.
John entrou na casa alguns segundos depois, a cara completamente curiosa. Entretanto, ao não notar nada de anormal no ambiente, sentiu como se ficasse desapontado. No entanto, quando pôs os olhos em , todo o contetamento voltou. Ela estava linda, com um vestido preto curto e um casaquinho branco. O cabelo estava preso em um coque um pouco desajeitado, mas para John era o suficiente. Ele correu até ela, puxou-a com apenas uma mão e nem esperou até que o corpo dela ficasse totalmente de pé; atirou-se em seus lábios com vontade.
No início, por causa do choque causado pelo toque dos lábios dele, ela ficou parada. Depois, gradualmente, seu corpo reconheceu o hálito, o frescor e o gosto de John. Quase que involuntariamente, sua língua encontrou a dele e os dois começaram um beijo apaixonado. De olhos fechados, ela sentiu as mãos dele segurando seus quadris, puxando-a para mais perto, sua boca e a dela em sincronia. entrelaçou os dedos nos cabelos negros dele, suspirando enquanto ele a beijava cada vez mais intensamente, seus braços envolvendo o corpo miúdo dela. Era como se seus corpos estivessem tentando se fundir. então mordeu o lábio inferior dele, tomada pelo desejo, e não parou até que percebeu o que estava fazendo. Mais um pouco e ela o machucaria. Tendo alguma ideia o que estava acontecendo, ela partiu o beijo. Não podia fazer isso.
Por um momento, os olhos de John ficaram desesperados, mas ele voltou a si e afastou-se um pouco da namorada.
- Me desculpe...
- Não se desculpe. - falou, com um sorriso no rosto. - Primeiro, hoje é nosso aniversário de cinco anos de namoro. Segundo, você é homem.
John deu uma risada, mas ficou sério de repente.
- Trouxe o seu presente, falando nisso. - tirou do bolso da calça uma caixinha pequena preta e ajoelhou-se no chão. - , eu já devia ter pedido há muito tempo, mas estava com medo. Quero dizer, temos vinte e quatro anos, estava na hora, certo? Só levou cinco anos para que eu fizesse essa pergunta. - ele despertou na mulher em sua frente uma risada baixinha. - Então, hm, você aceita?
- Se você disser as palavras. - ela respondeu, sorrindo, apenas para torturá-lo um pouquinho.
- Claro! - ele disse, batendo com a mão na cabeça. - Brooks, você me daria a honra de ser minha esposa?
- Sim! Sim, sim, sim e sim! - respondeu, atirando-se nos braços de John, que a beijou um pouco mais delicadamente do que antes. Aliviado, ele colocou o anel de diamantes no dedo dela. - É lindo, meu amor.
- "Meu amor"?
- Eu amo você, John! - a moça disse, como se aquela fosse a coisa mais óbvia do mundo. - Você é meu amor. E, bem, eu também tenho um presente para você... - disse, tentando manter o rosto neutro. - ...o problema é que ele não é tão impactante. - ela tirou a caixa preta debaixo do sofá e a entregou para o noivo, sorrindo.
Ele a abriu, curioso. Tirou de dentro uma almofada azul marinho, com um relógio que ele há tempos cobiçava envolto nela. Fez uma cara maravilhada, com os olhos brilhando. Havia amado. Com isso, não resistiu. Inclinou o corpo na direção do de e colocou os lábios em sua boca. Ela retribuiu o beijo, e John dirigiu-se então até a orelha da amada. Beijou-a e passou para o pescoço. Lentamente, tentou baixar uma das alças do casaco, mas esquivou-se, nervosa.
- Vamos comer, meu noivo? - disse, orgulhosa. - Apesar de você ter chegado atrasado, eu imagino que a minha comida ainda esteja boa.
O homem riu, não acreditando naquilo, mas levantou-se.
- Eu esquento o arroz.
John abriu os olhos, despertado pelo barulho de uma buzina de caminhão. Tentou fechá-los de novo e voltar a dormir, mas as memórias da noite passada lhe invadiam a mente e tiravam-lhe o sono. Como aquilo era possível? Como uma mulher como ela poderia ter aceitado ser sua esposa? Uma mulher linda, de pele clara e grandes olhos , com corpo escultural e caráter fantástico. Estava tudo quase perfeito. Virou-se para o lado para observar a noiva. Entretanto, seus olhos ficaram confusos quando viu a metade de na cama vazia. Percorreu os olhos pelo quarto, mas não enxergou nada. Por fim, acendeu o abajur e repetiu o gesto. Encontrou, em cima do travesseiro da moça, um bilhete com papel de carta rosa e perfumado. Espero que você acorde logo, porque eu estou com bastante sono. Siga os bilhetinhos para me encontrar. Não acreditou naquilo. Uma caça ao tesouro? No meio da noite? Deu uma risada harmoniosa e levantou da cama. Calçou os chinelos macios e pôs uma calça de abrigo qualquer. Então, ainda um pouco sonolento, foi até o banheiro lavar o rosto. Eram quatro horas da manhã, e levanto em conta a curiosidade que percorria o seu corpo, ficaria de pé até que encontrasse . Lavou as mãos, escovou os dentes e encarou a porta. Havia um bilhete colado nela. Ligue para a minha irmã. Rindo, John obedeceu às ordens da noiva. Voltou ao quarto, pegou o telefone e procurou nos contatos o telefone de Maggie. sempre brigava com ele por não ter decorado o número da cunhada, e apesar de todas as vezes que ela lhe falava isso, nunca conseguia lembrar. Discou, sem nem lembrar-se do horário, e ficou surpreso ao ouvir a voz de Maggie já no segundo toque.
- John! - ela gritou, animada. Estava sempre sorrindo. - ligou faz pouco.
- E o que eu tenho que fazer...?
- Ah, sim! Ela disse para você ir até a sala. - ficou calada por um instante. - John?
- Sim?
- Vai! - e desligou o telefone.
Já na sala de estar, encontrou um terceiro bilhete. Ele estava atrás de uma almofada do sofá central.
Entre no closet. Vou contar um segredo.
Foi para o quarto, quase corroendo-se de curiosidade. Estaria quase surtando se não estivesse tão feliz. Sempre tivera muito orgulho, talvez até demais, e odiava quando era excluído de segredos. Entretanto, estava calmo naquele dia. Abriu a porta do enorme closet e procurou por . Ela não estava ali, no entanto. Foi olhando, de roupa em roupa, até encontrar um outro bilhetinho. Ele não era rosa, desta vez, e sim amarelo. Também tinha um perfume diferente.
Começemos as intruções: a casa tem sótão e porão. Aposto que não sabia disso. De qualquer jeito, vá até a frente da sua parte no closet e olhe para cima.
Ele parecia estar parado no exato local que descrevia. Ergueu o pescoço e encontrou uma abertura na madeira do teto, um pouco mal-fechada, e tentou procurar um jeito de chegar ali. Lembrou-se de um pequeno interruptor atrás da última prateleira de roupas cuja função nunca fora descoberta - sempre dissera que estava estragado, e que John não deveria mexer ali a menos que quisesse tomar um choque. Bem conveniente, ele pensou, com sarcasmo. Apertou o botão e observou uma escara de ferro descer até a altura de seus calcanhares. Subiu, um pouco receoso, mas cheio de espectativas.
Estava escuro, ele não conseguia enxergar absolutamente nada. Por isso, procurou um interruptor. Colado nele, mais um bilhete. John começava a se irritar com todo o mistério que contruía.
Você está quase. Vire para a direção da boneca sem um dos braços e tire a estante da frente. Vai ver que tem uma porta ali atrás.
Suspirando, seguiu às instruções de . Havia, realmente, uma porta um pouco escondida ali. Também havia outro bilhete misterioso. Ele era vermelho, e estava escrito com caneta prateada. A sua noiva deveria estar ali, pensou John. Por isso, parou um pouco para observar a magestosa caligrafia de .
Abra a porta, John. Não venha até mim de primeira. E não esqueça que não vai poder abrir o presente agora.
Presente? Ele já não havia ganho um presente? Confuso, parou com a hesitação. Entrou no quarto, estupefato. Sim, ali estava ela. usava um top amarelo com um short da mesma cor. John adorava aquele conjuto. Entretanto, ficou decepcionado por ela estar virada para a janela, e não para ele. Seu cabelo preto sedoso estava solto, e aquilo era a única coisa de seu rosto que conseguia ver.
Finalmente, ela se virou. Estava linda, de um jeito especial. John nunca a havia visto tão radiante. Ela correu em direção a ele, atirando-se em seus braços. Ele a segurou pelos quadris, levantando-a do chão. Então, como se nem percebesse o que estava fazendo, deu um bejo na noiva. Ela correspondeu com a mesma intensidade, desta vez não tão hesitante quanto das outras vezes naquela mesma noite. Ou na noite anterior, que seja. Passou a língua pelos lábios de John, procurando encontrar a dele. Finalmente, elas se encontraram. Foi a vez de John morder o lábio de , parando para respirar. Porém, não largou a boca da noiva nem uma vez. Os dois voltaram a fundir suas bocas, e por pouco John não despiu a moça ali mesmo. A largou apenas depois de vários minutos.
- Amor? - a chamou, um pouco envergonhado em falar o que queria falar.
- John, só deixe eu falar isso, por favor. - interrompeu sua linha pensamento, com uma falsa cara brava. - Estou aqui há mais ou menos duas horas. Você é muito dorminhoco. Sabia que esse quarto não tem banco para eu sentar? Estou de pé desde que acordei. E você ficou fazendo o que? Babando no seu travesseiro.
- Poxa, desculpa. - respondeu, corando. Aquilo fez com gargalhasse, pondo os braços ao redor o pescoço de John. - Amor? - ele repetiu.
- Sim?
- Er... Cadê o meu presente?
- Tá aqui. - ela respondeu.
John desceu os olhos para as mãos da noiva. Ela cruzou as mãos ternamente sobre a barriga, uma em cima e outra embaixo. Pela primeira vez, ele percebeu um último bilhete. Entretanto, ele não estava escrito em um papel rosa, verde ou vermelho. Estava escrito com algum batom vermelho, e as letras não eram da caligrafia de . John pensou, e concluiu que deveria ser a de Maggie ou até mesmo da faxineira que viera mais cedo, porque a mensagem poderia estar muito bem escondida atrás da roupas que ela usava no jantar. De qualquer modo, o que fez seus olhos brilharem não foi ver a linda barriga de , de medida perfeita, com quadris largos o suficientes para completar seu corpo maravilhoso.
Não pode ser aberto antes de nove meses. Vai ter que esperar mais sete.
Os olhos do rapaz perderam o foco por um instante enquanto ele absorvia tudo. Primeiramente, ele sorriu, mas ficou sério novamente. Abriu a boca, mas fechou-a. Não sabia de certo o que dizer. Depois de alguns minutos, tomou fôlego para falar.
- Eu vou ser p-pai?
- E eu vou ser m-mãe. - o sorriso no rosto de quase não cabia no rosto. - Por isso eu estava daquele jeito hoje. A gente tem que ir com... temos que manerar. - corou.
- Mas... hm, ... - a preocupação tomou conta de seus lindos olhos acizentados. - Temos... Você tem... Você está... Eu tenho 22 anos, você tem 21. Sabe... eu terminei a faculdade esse ano, você vai terminar ano que vem. Vivemos com o dinheiro dos meus pais enquanto ainda não temos um emprego muito bom. Eu não sou rico que nem minha mãe. Ainda não sou o dono da empresa. E o pior nem é o dinheiro. É você estar na faculdade. Como vamos criar um filho tão novos assim?
- Simples. - os lábios de se contraíram em um sorriso. - Criando.
Finalmente, John deixou-se aproveitar o momento. Nem acreditava que aquilo estava acontecendo.
- Eu já disse que você é perfeita? E que eu amo você?
A pegou nos braços antes que ela pudesse reponder. Rindo, envolveu o pescoço de John mais uma vez, observando-o com os olhos apaixonados. Tudo seria perfeito dali em diante. Eles se casariam em breve, provavelmente no mês posterior, uma vez que já estava com dois meses de gravidez. Não queria causar uma cena para a imprensa, que provavelmente seguiria todos os passos do casal herdeiro da maior empresa de fotografia do mundo. Iria casar-se enquanto estava magra.
Fechou os olhos e esperou que John a carregasse para sua cama king size. Apenas os abriu novamente quando sentiu os travesseiros macios confortando sua cabeça. Mirou o rosto de John em toda a sua magnitude. Ele sorria de um jeito que nunca fizera antes. Parecia completo. Se não fosse ela quem estava grávida, estaria até mais radiante que a noiva. Mulheres grávidas possuíam um toque de felicidade especial. E , tão linda com sua pele aveludada, parecia uma deusa deitada naquela cama. Ela virou-se em direção à John com um sorriso e colocou seus braços no peito dele. Ele, quase que por instinto, envolveu-a em um abraço.
Nem ao menos precisaram se beijar. Todos os minutos, ou horas, que ficaram naquela mesma posição diziam tudo. Os olhos intensos de cada um, imaginando como seria seu futuro, já explicavam o que sentiam. De tempos em tempos, John saía de sua hipnose e ficava observando a noiva, que mantinha uma mão acariciando a barriga, levando a dele a seguir seu movimento. Era verdade; estava tudo perfeito.
- Não dá pra acreditar, né? - perguntou depois de um tempo.
- Ah, dá sim! - John riu, posicionando a cabeça na frente da barriga despida da noiva, por causa do top. - Oi... Eu sou o seu papai.
- E eu a sua mamãe! - a moça falou, falsamente ofendida por ter sido excluída. - John, é o nosso filho. - disse, seus olhos já marejados.
Com isso, John não conseguiu resistir. Deitou com a cabeça encostada no peito de e observou o serzinh dentro dela com fervor.
- Sim. - murmurou. - É o nosso filho.
John estava, provavelmente, mais nervoso do que .
Corria para todos os lados enquanto sua mente trabalhava em algum plano. Estavam ficando sem tempo e a festa começaria em exatos quarenta minutos. Os balões não estavam prontos, as toalhas de mesa haviam atrasado e, acima de tudo, a aniversariante estava doente. Agora, a pediatra estava dando um remédio para que a febre passasse. Durante algumas horas, a bebê ficaria bem.
E pensar que ela já estava fazendo três anos. O tema de seu aniversário era A Bela e a Fera, clássico da Disney que a pequena mais gostava. Sua linda fantasia era a única coisa que já estava pronta, mas se encontrava pendurada em um cabide dentro do armário rosa e branco no pequeno quartinho. A menina ficaria decepcionada demais se perdesse sua própria festa.
Sabendo disso, John surtava. Berrava no telefone com a moça do buffet e dizia que se em dez ou, no máximo, quinze minutos a entrega não chegasse, não pagaria por absolutamente nada. Dava para ouvir de longe a moça do outro lado da linha implorando por algum frangalho de compreensão, mas tanto John quanto não davam bola se a confeiteira estava doente. Haviam reservado o buffet há mais de dois meses, então não era exatamente uma boa desculpa. O homem desligou o telefone, bufando.
- , o que a gente vai fazer? - ele perguntou, aflito. - Só nós não vamos conseguir...
Para sua própria sorte, ele não conseguiu terminar a frase. A campainha tocou e alguém começou a buzinar animadamente. levantou-se da cadeira onde estava sentada e foi atender a porta. Maggie estava parada com um lindo bolo cor-de-rosa nas mãos, sorrindo como sempre, acompanhada de seu marido, Jared. Estava fantasiada de Bela Adormecida, como se fosse uma criança.
- Maggie! - abraçou a irmã, apontando para que ela e o cunhado entrassem. - Você sabia que os adultos não precisam se fantasiar, certo?
- Ah, eu sei, mas eu tinha essa fantasia parada lá e resolvi colocar. - a risada gostosa a irmã mais nova preencheu a sala, mas no momento em que esta pousou os olhos na sala principal, fez uma careta. - Você sabia que já são quatro horas da tarde? E vinte minutos?
- Sim, e eu agradeceria se vocês pudessem ajudar. Vou ver como a Lucy está. Coitadinha, ela está tão ruinzinha... Enfim. Ajude John com a decoração, por favor.
Nem esperou que a irmã assentisse, e correu até o segundo andar, onde a filha estava. Para seu alívio, a médica já ajudava Lucy a vestir sua fantasia, e esta sorria do jeito que só ela conseguia fazer. Abriu um sorriso desdentado e mexeu com os cachinhos meio loiros. contemplou a filha.
Tinha orgulho de si mesma por ter tido uma filha tão linda daquele jeito. Sabia que não a chamava assim apenas porque era sua mãe. A menina era realmente linda. Tinha uma pele de seda, daquelas que as modelos se entupiam de maquiagem para imitar, e os olhos de estavam perfeitamente colocados em seu rosto. Verde escuro, contrastavam com a pele clara. O nariz da menina também era lindo; tinha um sinalzinho minúsculo exatamente na ponta, e era delicado, não muito grande e não muito pequeno. Além disso, terminava nas feições perfeitas de sua boca. Ela tinha os lábios da mãe, e a única coisa que a ligava ao pai eram os cabelos castanhos, cacheados nas pontas e lisos e sedosos perto da cabeça. Na verdade, o nome da cor de seu cabelo era loiro escuro, de tão delicado que era. Era a mistura perfeita de castanho e loiro.
E ela já estava tão grande! Tinha quase um metro de altura. não conseguia acreditar que ela estava fazendo três anos. Lembrava-se como se fosse hoje do dia em que ela nasceu. Estava chovendo e era de noite. Foi hilário quando ela olhou para John com cara assustada.
O jantar era para apenas os membros da banda e alguns executivos importantes que eram fãs desta. Demorara um tempo até que John dissera para a mãe que não queria dirigir a empresa, e sim seguir a carreira musical. Sempre tivera uma queda por música, e quando foi convidado a participar do The Maine e recebeu o apoio de , largou tudo e foi praticar com os amigos. No jantar, eles comemoravam o primeiro CD lançado, e o fato de fazer seis meses desde que John e haviam se casado. Jared estava sentado ao lado da nova namorada, Maggie, a irmã de .
- Inglesa! ? ele gritou, do outro lado da mesa.
- Não me chame assim. ? respondeu, rindo. ? Você sabe que eu não sou inglesa.
- Não, mas é obsecada. ? ele estalou a língua. - De qualquer jeito, eu queria perguntar uma coisa: é muito ruim ser uma almôndega gigante?
- Que sensível, Jared. ? Maggie disse, pedindo desculpas com os olhos. ? Não precisa responder.
- Na verdade, não é não. ? respondeu com um sorriso no rosto. ? É muito bom, considerando que daqui a menos de um mês eu vou ter um bebê nos meus braços. E não reclame, John vive me dizendo que você tem muito vontade ser pai.
Aquilo fez todos da mesa rirem, e aproveitou a deixa para aproximar-se do marido. Ela encostou-se primeiro no ombro dele, e depois procurou seus lábios. Ele, tentando ser o mais gentil possível, abaixou a cabeça para dar nela um beijo. Havia algum tempo desde que os dois realmente não se beijavam.
Apesar de ter explicado mil vezes que não havia problema nenhum os dois se beijarem enquanto ela estava grávida, ele havia se tornado muito neurótico desde que ela começara a criar barriga. Nos quatro primeiros meses, ele não se importava tanto. Agora, entretanto, quase não a tocava.
Mas esse beijo estava tão delicado que ele não pôde resistir. Segurou o maxilar dela com a mão e a trouxe mais para cima gentilmente. Os dois beijaram-se por um bom tempo, esquecendo que estavam dentro de um restaurante com todos os seus amigos ali. Apenas largaram um ao outro quando ouviram Pat pigarreando e Jared rindo.
- Arrumem um quarto! ? ele gritou, jogando um guardanapo na cara de John. Este riu e corou, sendo acompanhando por .
O garçom passou mais algumas vezes antes do clima vergonhoso ter ido embora. No final da noite, mais ou menos às nove horas, todos haviam se calado e assistiam ao futebol na grande televisão de plasma pendurada no centro do restaurante.
pegou o copo de suco e o colocou na boca. Não entendia nada sobre futebol, apenas que o time para que John e o resto dos integrantes torciam estava ganhando. Revirou os olhos quando os homens pularam de suas cadeiras ao ver o time marcar mais um ponto. Ou gol, qualquer que fosse o nome atribuído.
Porém, de repente, sentiu vários chutes em sua barriga. Riu um pouco e puxou a mão de John para o ponto onde a menininha chutava. Ele adorava sentir sua filha ali. Era como se fosse o modo de ele ter certeza de que ela era real.
Ficara deslumbrado quando descobriu que eles teriam uma menina. Não lhe importava de que sexo a criança fosse, apenas que ela fosse saudável. Entretanto, saber que seria menina lhe causou água nos olhos. Teria uma princesinha correndo pela casa e brincando de boneca com as amigas. Uma menininha para proteger quando os perigos do mundo viessem à tona.
Agora ele quase chorava de emoção. Quanto mais ele e riam, mais ela chutava. No entanto, em algum momento, sentiu o vestido ficando molhado. Colocou a mão na cadeira para ter certeza. Retirou a mão molhada e enxugou os olhos. Começou a rir, mas uma pontada de dor lhe atingiu. Ela quis berrar, mas percebeu que não poderia o fazer no restaurante. Por isso, olhou para John com desespero. Ele ficou encarando-a por um tempo, confuso. Depois, olhou para baixo. A cadeira estava molhada.
- Você derramou suco, amor? ? ele perguntou com um sorriso rosto.
Outra pontada encheu os olhos de com água. Ela balançou a cabeça negativamente e apontou para a barriga, incapaz de falar. Droga. Ele ainda não entendera.
- Sou... ? ela falou fracamente, e fez força para tentar novamente. ? Sou... Eu.
Os olhos de John ficaram sem foco por um instante, e depois se arregalaram. Ele abriu a boca e soltou um gemido meio estranho, que mais parecia uma interjeição. Ele virou a cabeça para os amigos e Maggie, mas estava mais paralisado do que a esposa. Provavelmente desmaiaria na sala do parto.
- Maggie! ? gritou, depois de um tempo. Que se danasse o restaurante. ? A minha bolsa estourou!
Aquilo alarmou todos sentados naquela mesa. Os executivos fizeram caretas e saíram de fininho, e os integrantes da banda ficaram tão nervosos quanto John. Entretanto, retomaram a compostura. Jared ligou para a ambulância e os outros homens ajudaram a caminhar para a entrada do restaurante. Ela quase não conseguia se mexer, coitadinha.
Sua mãe nunca lhe dissera que doía tanto. Na verdade havia dito que a dor apenas começaria no hospital. Contara-lhe que não foi nada dolorida a sua ida até a clínica onde a teve. Mentirosa.
- Mamãe! ? a vozinha fina de Lucy chegou aos ouvidos de , tirando a mãe de seus pensamentos. ? Titia Carmen me deixou boa! ? ela apontou para a médica, fazendo esta rir.
- Que bom, meu amor. ? pegou a filha no colo, tomando o cuidado para não estragar o vestido de Bela que Lucy usava. ? Você está uma princesa. ? beijou-a no rosto.
- Dei um remédio genérico para ela que a deixará normal até amanhã. Se ela acordar com febre, a traga para o meu consultório e eu vou tratar dela, tudo bem?
- Ah, muito obrigada, Carmen. Você quer... Ficar para a festa? Eu empresto um vestido para você. ? falou calmamente.
A médica começou a negar, mas impediu-a de o fazer. Puxou Carmen até o seu quarto e escolheu um vestido cor de vinho lindo que tinha ganhado da mãe antes de engravidar. Apesar de ter mantido o mesmo corpo de antes, nunca mais usara as roupas mais justas por pura paranoia.
Quando desceu as escadas com Lucy no colo, John e Maggie haviam dado um jeito de ajeitar tudo a tempo. John já estava arrumado para a festa e apenas precisava vestir-se. Ela entregou a filha para o marido e correu até o banheiro do primeiro andar. Havia deixado o vestido salmão e longo para não ter que ir até o quarto, mas esquecera da maquiagem. Correu, com o vestido na mão e enrolada em uma toalha, até a suíte que dividia com John.
- Você está linda, . ? John falou quando finalmente conseguiram ficar sozinhos em um canto.
A festa já estava no fim, o parabéns já havia sido cantado. Alguns dos convidados haviam ido embora e não demoraria muito até que o resto fosse. Lucy parecia estar gostando da festa, mas não havia dado atenção para os pais. Sobravam apenas as crianças mais amigas de Lucy e os amigos da banda de John irem embora.
- Ah, você gostou do vestido? ? respondeu, provocante. Ela mordeu o lábio e deu uma volta para o marido desse uma boa olhada no que ela vestia.
O vestido ia até o chão e se abria apenas um pouco na saia. Ela era estampada com algumas listras e desenhos de rosas grandes, mas quase invisíveis no tecido. Além disso, a parte de cima era incrustada de pedras preciosas rosas, e indicava o quão escultural era seu corpo.
- Se eu não estivesse com você na sala do parto ? John disse, sorrindo ? não acreditaria que você é mãe.
- Como assim?
- Ah, você tem um corpo diferente de todas as outras mães que eu conheço. De um jeito bom, eu quero dizer. ? ele espremeu a esposa contra uma parede, aproveitando que estavam um lugar onde ninguém poderia os ver.
Começou a traçar uma trilha de beijos do ombro de até que chegou à sua boca. Sugou um pouco seu lábio inferior e abriu os dentes, tentando encontrar a língua da esposa. Finalmente, elas se encontraram e começaram a dançar em suas bocas. John pôs as mãos nas costas de e esta enlaçou as suas no cabelo do marido.
Ficaram assim por um tempo, mas ouviram Maggie gritando que os últimos convidados estavam indo embora. Por pura educação, foram até a porta e entregaram as lembrancinhas que faltavam. Os amigos de John começaram a rir.
- Qual é a graça? ? perguntou.
- Você está... um pouquinho borrada de batom. ? Jared disse. ? E você, John, está lindo com a boca vermelha desse jeito.
- É, a gente sabe que vocês não conseguem se desgrudar, mas é o aniversário da filha de vocês. ? foi a vez de Patrick falar. ? Desse jeito, , você vai acabar engravidando de novo.
Maggie empurrou todos para a porta.
- Que lindo. ? disse, com sarcasmo. ? Melhor nós irmos. Todos. Fiquem com a filha de vocês um pouquinho, pelo menos! ? gritou quando tinha descido o último degrau da escada da varanda.
- Mamãe? ? Lucy chamou, puxando a saia do vestido de e esfregando o olho.
- O que foi, bebê? Você tá com sono? ? a mulher pegou a filha no colo quando a viu assentir. ? Mas você está toda suada, princesa. Toma um banho com a mamãe?
- Ah, eu estava esperando que eu fosse poder fazer isso. ? John resmungou, rindo.
- Mas você tá que tá, hein? ? riu. ? Eu vou ficar com a minha filha. E não fale desse jeito perto dela. Vai virar má influência.
- Então espera um pouco.
John puxou o braço de Lucy e a segurou no colo. Ficou embalando-a por um tempo enquanto via tudo com admiração. Ele era muito bom com a criança em seu colo. Finalmente, ele puxou a mão da esposa e colocou-a ao seu lado. Pôs um braço ao redor de seu corpo e a abraçou, assim como Lucy fez.
- Eu amo você, gatinha. ? John disse com um sorriso no rosto.
- E eu também, princesa. ? disse, como um eco.
Haviam se passado dois meses desde o aniversário de Lucy, mas para , pareciam ser anos. Há dois meses John não parava mais em casa e não a tratava do jeito que antes tratava. Estava absorto demais no trabalho e mal em Lucy reparava. Parecia que a colocava para dormir, dava banho na filha e contava algumas histórias por pura obrigação. Eles haviam se tornado o estereótipo de um casal recém formado na faculdade e com filha pequena para cuidar.
Não era segredo que não estava mais feliz. Que se arrastava da cama todos os dias de manhã, fazia café para ela, John e Lucy e levava a filha para a escola sem um sorriso verdadeiro no rosto. Ela não estava aguentando mais morar com John. Queria mais atenção. Ela já estava infeliz com o novo trabalho e seu chefe idiota. Tinha que trabalhar mais do que a lei permitia, não podia levar a filha para o parquinho sem que os paparazzi a enchessem com suas mentiras e câmeras caras. Tudo isso por causa de John. Sempre por causa de John.
- Vocês vão querer alguma coisa? - a garçonete antipática perguntou, tirando de seus pensamentos.
- Claro! - Maggie gritou, animada. Ela e Jared eram os únicos que ainda eram felizes e a cada dia sorriam mais com o seu matrimônio. Sorte deles. - Me traga um petit gateau de chocolate com morango e batida de banana. - ao perceber que nem ao menos olhara para o rosto da garçonete, bufou baixinho e sorriu para a loira antipática do uniforme. - O mesmo para ela, por favor.
Alguns minutos se passaram sem que ninguém dissesse nada. Maggie realmente não queria conversar com a irmã assim, tão emburrada. Havia marcado para que elas se encontrassem porque queria levantar o astral da irmã. Fazê-la viver a vida e sair um pouco de casa. Além disso, tinha uma novidade para contar. Talvez a irmã ficasse um pouco mais animada - ou, então, ficaria braba com ela, tendo em vista que ela tinha 23 anos de idade. Que fosse. Não poderia ser pior do que como fora com a irmã.
Já havia contado a Jared, é claro. Os dois dividiam tudo. Mantinham uma vida feliz e saudável, como antes era o relacionamento entre e John. Todos os dias, quando Maggie saía do trabalho, Jared a buscava. Um homem famoso, com milhões de fãs e paparazzi o seguindo, e ele não deixava de ser romântico. Ele a buscava todos os dias no trabalho, a levava para jantar fora todas as sextas-feiras. Fazia piqueniques em parques que eram sempre interrompidos por alguma fã querendo tirar foto com ele. Algumas vezes, as fãs queriam tirar fotos com ele e com ela. E os dois eram sempre receptivos, por sabiam que eram as fãs que os faziam fazer sucesso e que os idolatravam como se fossem as melhores pessoas do mundo. Maggie, então, era mais receptiva do que o próprio Jared. Por sua natureza feliz e animada, tratava as fãs como se fossem amigas íntimas. Jared a amava por isso. Quando se casara, ficara imaginando se Maggie não teria ciúmes das fãs. Engano dele.
- E então? - falou, largando Lucy no chão para que esta fosse brincar um pouco na área recreativa do café. - Qual é a novidade?
Maggie respirou fundo antes de falar, alto demais para que apenas a irmã e a sobrinha escutassem:
- Eu estou GRÁVIDA!
deu um sorriso gigante ao escutar a novidade da irma.
- Ah, parabéns, Maggie. De quantos meses?
- Três. - a irmã deu uma gargalhada alta. - Jared está tão animado! Você precisava ver o sorriso que ele deu quanto eu contei. Parecia a pessoa mais feliz do universo!
- Ah, eles ficam. John poderia desmaiar de felicidade na minha frente quando eu disse também. - Jess disse e olhou para os lados. - Conte para a Lucy. Ela vai adorar ter um priminho pra brincar!
- PATINHO!! - gritou Maggie, chamando Lucy pelo apelido que apenas ela podia falar.
Se passaram alguns minutos, e Lucy não aparecia. levantou-se, irritada, para tirar a filha da área recreativa. Foi, a passos largos, até aonde as outras crianças estavam brincando. Passou os olhos por uma, duas, três, sete cabecinhas, mas não encontrou Lucy. Correu pela área das mesas, procurando a filha.
De repente, seu coração passou a bater rápido demais, e ela desmaiou. Mas antes, em um esforço sobrehumano, abriu os lábios e berrou:
- PEGARAM A MINHA FILHA, MAGGIE!!