- ! - Ouvir minha mãe chamar meu nome, provavelmente o som vinha do andar de baixo.
- O que é? - Perguntei. Como sempre, estava com preguiça de descer e ser obrigada a fazer algo como lavar a louça ou por a mesa para o almoço.
- ! - A ouvi chamar de novo. E dessa vez sei que vou ser obrigada a descer. Acreditem, é melhor do que fazê-la subir.
Levantei da cama e pus o livro que estava lendo no criado-mudo, procurando descer o mais rápido possível.
- Oi mãe. - Disse ao chegar ao andar de baixo.
- Você não me ouviu chamar? Você nunca me responde! - Ela disse nervosa.
- Mas eu perguntei o que era! - Odeio quando ela faz isso.
- Parece que temos vizinhos novos... como seu pai não está aqui, quero que me acompanhe até lá.
- Mas mãe...
- Vamos. - Essa era a sua resposta final.
Caminhamos até a casa ao lado. Não sabia que os Harrison tinham a colocado a venda. Na verdade não sou muito ligada ao que acontece na minha rua, nunca fui do tipo que se importa com vizinhos e prefiro ficar trancada em casa.
Haviam uma mulher e um homem em frente à casa, ambos com aparência bastante cansada. Esperavam do lado de fora enquanto o caminhão de mudança descarregava seus pertences.
- Olá - Ouvir minha mãe dizer ao se aproximar deles com um grande sorriso no rosto - Eu sou e essa é a minha filha . Viemos dar as boas-vindas.
- Oi - eu disse timidamente, acenando com a mão.
- Oi - A voz da mulher saiu como um sussurro.
- Olá... eu sou Mark Tomlinson e essa é minha esposa Johannah Tomlinson. - O homem logo assumiu a voz por sua esposa. - Desculpem, mas estamos muito cansados por causa da viagem e da mudança...
- Ah não... eu que peço desculpas... parece que estamos atrapalhando vocês - Minha mãe disse envergonhada.
- Não, não foi isso que quis dizer, desculpe Srª . - O homem, ou melhor, o Sr. Tomlinson, logo se desculpou. - É que minha esposa está muito fraca agora, preciso fazê-la comer algo e descansar.
- Ah sim, entendo. Precisam de alguma ajuda? - Minha mãe perguntou.
- Não, muito obrigado. - O Sr. Tomlinson disse.
A Srª Tomlinson parecia realmente muito fraca. Dava para perceber que estava muito magra e quase não se aguentava de pé, seu apoio era o braço do marido que a segurava com um abraço.
- Bom... então bom dia... e desculpem qualquer coisa - Nos despedimos, minha mãe ainda envergonhada. A cena foi estranha. E eles mais estranhos ainda. Fiquei com pena de minha mãe, que levou um fora por tentar ser simpática. De qualquer forma não via a hora de sair dali e voltar para o meu quarto.
Quando estava subindo as escadas em direção ao meu quarto ouvir minha mãe chamar novamente o meu nome.
- ! Espera. - Ela estava parada em frente a escada com uma expressão preocupada.
- O que foi agora, mãe? - Respirei fundo. Já estava impaciente.
- Filha... estou preocupada com você. - Pronto, começou - Você só sai de casa para ir à escola e quando chega se tranca no quarto. Já faz dois meses desde qu...
- Mãe, por favor...
- Chega ! Você tem que parar com isso. Ficar trancada dentro de um quarto se lastimando o dia todo... eu marquei uma consulta com uma psicóloga para você.
- VOCÊ O QUÊ!? Você não tem o direi...
- Eu só quero o melhor pra você. Você não quer aceitar que tem que se tratar, que está doente!
- EU NÃO ESTOU MALUCA! - Senti meus olhos arderem, lutando contra as lágrimas que queriam cair. A verdade sempre foi essa... E é difícil de ouvir.
- Filha... eu não disse isso... - Subi as escadas correndo. Só queria que ela me deixasse em paz... só queria ficar sozinha. Queria que ela entendesse o quanto era melhor assim para mim. Ficar isolada. Sozinha. Viver num mundo de sonhos, lendo meus livros, me imaginando dentro deles, com uma vida perfeita como aquela. Encontrando um amor, vivendo aventuras... eu não queria acordar. Era bem mais fácil viver assim. Mas no mundo real eu era mais uma garota comum e sem graça, que ninguém notava, que ninguém nunca se apaixonou e que ficou maluca de um dia para o outro. Maluca. É isso que eu sou.
Joguei-me na cama, deixando as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. Escutei minha mãe chamar meu nome algumas vezes, e pedindo desculpas, mas só pedi para ela me deixar em paz.
Eu estava no meio de uma rua residencial. Não sei como fui parar lá. Pelo estilo das casas eu estava em algum lugar da Inglaterra, mas ali não era Londres. Decidi começar a andar para procurar por alguém para pedir informação mas a rua estava vazia. Nenhum sinal de vida. Foi então que eu o vi. Ele olhava fixamente para mim e sorria. Usava camisa, bermuda e tênis brancos, o que chamou minha atenção. Quem se vestiria assim? Todo de branco? Ele veio caminhando até mim. Não tive medo dele. A pesar de nada estar fazendo sentido. Quando ele estava a 2 metros de distancia de mim ouvi o barulho de um carro, só vi o seu borrão passando por minha frente. Quando olhei para o chão pude vê-lo. A roupa branca estava manchada de vermelho e seus olhos arregalados. Eram de um azul incrível e eu tinha a impressão que já havia visto aqueles olhos em algum lugar. Ele se esforçava para conseguir respirar e ao mesmo tempo queria falar algo para mim. Eu gritava por socorro, mas ninguém aparecia. Estávamos sozinhos.
Acordei suando frio. Meu coração batia forte. Foi o sonho mais estranho que eu já tive.
O relógio marcava 3:00 pm o que significa que minha mãe não fez nenhuma outra tentativa de me fazer sair do quarto. Senti minha barriga roncar. Segui para meu banheiro e tomei uma ducha bem quente.
Fazia frio hoje em Londres, como sempre, mas pelo menos não estava chovendo. Enquanto a água quente caia pelo meu corpo lembrei novamente do menino do meu sonho. Daqueles olhos arregalados querendo me falar algo. O que ele queria me falar? Não importa. Era só um pesadelo, . Esqueça. Mas ainda assim muito estranho. Eu nunca vi aquele menino antes. Ele era lindo. Cabelos lisos e castanhos, olhos azuis... não era um azul comum, era meio acinzentado. E estava morto. Foi só um pesadelo. Lembro a mim de novo.
Quando desço são 3:30 pm. Minha mãe não está em casa, nem meu pai. Melhor assim. Vou para cozinha e abro a geladeira em busca de algo para satisfazer minha fome. É quando eu ouço gritos. Parece vir da casa ao lado, onde estão meus novos vizinhos, Sr. E Srª Tomlinson.
Fui em direção a janela lateral da cozinha onde dava para a janela da sala de estar deles. Lá estava ela sentada, chorando e gritando.
- ELE TEM QUE VOLTAR - Ouvir ela falar, parecia desesperada. Vi o Sr. Tomlinson abraçá-la. Não dava para ouvir o que ele falava. Só consegui a ouvir porque estava gritando muito.
- Que família estranha - Falei para mim mesma e voltei a comer uma fatia de pizza que achei na geladeira.
Eu estava sonhando. Sabia disso pelo simples fato de nunca ter estado naquele lugar antes, a não ser em um sonho. Continuei andando pela rua, explorando cada detalhe. Era uma rua comum, de classe média, com casas decoradas com tijolos vermelhos e todas tinham uma pequena área na frente, algumas com flores e arbustos. Era dia, a pesar de estar um pouco escuro, devido ao tempo nublado. Eu não sabia para onde estava indo mas sabia exatamente o que estava procurando. Ele. Foi neste lugar que estive em meu último sonho, foi neste lugar que o vi morrer, em meus braços. Foi então, ao olhar para o asfalto que percebi uma mancha estranha e seca. Era sangue. Então reconheci o cruzamento onde o carro o atropelara. Depois da mancha havia alguns pingos de sangue. Continuei andando, seguindo as manchas, seguindo o que seriam seus rastros. Foi então que o avistei, sentado em um pequeno muro, em frente de uma das casas, de número 04. Ele tomou um leve susto a me ver, mas não se mexeu, apenas me observava, atento.
- Pensei que esse sonho fosse meu. - Ele disse assim que me aproximei.
- Sonho? - Indaguei. - Isso parece mais um pesadelo. - Ele riu.
- Você tem razão. - Ele disse, analisando a rua vazia e, depois, voltando seu olhar para mim. - Pelo menos você apareceu. Agora não estou mais sozinho. - Ele disse, mostrando um sorriso encantador.
- Quem é você? - Perguntei. Minha voz saiu tão baixa que me fez pensar se estava perguntando mesmo para ele ou para mim mesma. Talvez eu não quisesse realmente saber. Mas a quem eu estava enganando? Tinha passado o dia pensando nisso. Quem era ele? Porque ele estava invadindo meus sonhos? Ou será que ele tem razão? Eu que estou invadindo o sonho dele?
- Louis. - Ele disse.
- Lui? - Perguntei. Ele riu.
- Se fala Lui, mas se escreve L-O-U-I-S. - Nós dois rimos.
- E você? Quem você é? - Ele perguntou. Observando-me como se quisesse me decifrar.
- . - Eu disse. Era tudo muito estranho para mim. Eu estava sonhando, e sabia disso, e estava tendo uma conversa aparentemente sã com um garoto. Um garoto que usava uma roupa branca e suja de sangue. - Você se lembra o que aconteceu? - Perguntei, apontando para sua roupa.
- Não. - Ele disse. - Quer me ajudar?
- Como? - Perguntei, vendo-o respirar fundo e abaixar a cabeça. - Estamos sozinhos.
- Quer dar uma volta? - Ele disse, finalmente pulando do muro. Ele estendeu sua mão para mim. Segurei a mesma e vi um sorriso surgir nos seus lábios. Ele tinha um dos sorrisos mais lindos que tive a oportunidade de ver. Sua mão era quente e reconfortante, como um abraço. Sorri de volta para ele.
- Seu sorriso é lindo. - Disse, vendo-o virar a cabeça e rir timidamente. - Pena que você existe apenas em meus sonhos.
- Como? - Ele perguntou, confuso.
Foi então que ouvimos um som estranho. Era uma música. O toque do meu despertador!
- O que é isso? - Ele perguntou.
- Meu celular! Meu despertador... Adeus, Louis. - Eu disse, sabendo que em questão de segundos eu acordaria, que voltaria para o meu mundo real. Ouvi ele sussurrar um "Não" seguido de um "Fica", mas meu "corpo" não estava mais lá.
Quando acordei o relógio marcava 7 horas da manhã. Mesmo acordada, continuei deitada em minha cama, pensando no sonho que acabara de ter. Quem realmente é Louis? E porque estou sonhando com ele?
Sentei na cama, com minha cabeça encostada em meus joelhos, abraçando minhas pernas. Como se isso fosse ajudar a me reconfortar. Queria poder voltar a dormir só para encontrá-lo. Mas infelizmente não podia.
Passei quase 10 minutos assim, parada, pensando nele, no sorriso dele, naqueles olhos azuis. No garoto sozinho e confuso.
Levantei da cama e segui para o banheiro. Foi muito difícil sair debaixo do chuveiro. Quando o tempo está frio, a vontade é de passar o dia inteiro debaixo daquela água quente.
Quando desci eram 7 e meia. Encontrei meu pai e minha mãe sentados na mesa tomando café. Em frente ao lugar vazio havia um prato com torradas e bacon, e uma xícara de café.
- Bom dia, querida. - Disse meu pai, mostrando um sorriso a me ver. - Não te vi ontem o dia todo. Como você está?
- Bom dia. Eu estou legal. - Disse, sentando na mesa. Meu pai era o tipo de pessoa reservada. Saia para trabalhar de manhã e só voltava a noite. Isso nunca foi problema para mim. Quando eu era criança, não importava a hora que ele chegasse, ele se sentava comigo para brincar. Hoje em dia, talvez ele se sentasse comigo para conversar, mas eu confesso que não tenho dado muito espaço para ele.
- Você sabe onde ela estava, . Trancada naquele quarto como sempre. - Disse minha mãe, se intrometendo na conversa.
- Mãe...
- ... - Meu pai olhou para minha mãe como quem dissesse "deixa ela" e voltou o olhar para mim - Você está ótima hoje. Quer dizer... Parece com sono, mas está com um humor agradável. - Eu ri.
- Digamos que eu tive um sonho mais ou menos bom... - Eu disse, sorrindo.
- Que ótimo. Quer uma carona pra escola hoje? - Ele perguntou.
- Seria ótimo, pai!
Quando estava prestes a sair da cozinha para apanhar minha mochila no quarto ouvi minha mãe me chamar.
- Oi mãe? - Perguntei.
- A sua primeira consulta com a psicóloga é hoje, 3 e quarenta da tarde, não se esqueça. - Ela disse.
- Ok, mãe. Tchau. - Não valia a pena a contrariar. Minha mãe andava tão chata ultimamente. Eu entendo ela... Está preocupada, e eu sou filha única, o que piorou ainda mais a situação, porque ela só tem a mim para se preocupar. Chega a ser superprotetora demais.
- Bom dia! - Disse a Prof. Nunes ao entrar na sala - Quero duplas! Hoje teremos teste surpresa. - Ah, que ótimo! Era só o que faltava. A Prof. Nunes era professora de espanhol. Muito revoltada se querem saber.
Senti alguém me cutucar e olhei para o lado. Era uma garota. Nunca a notei antes. Não sou muito boa em gravar rostos. Sua pele era muito branca, tinha olhos grandes e escuros, e seus cabelos eram simplesmente lindos. Loiros, longos e ondulados.
- Posso fazer com você? - Ela perguntou timidamente.
- Tudo bem. - Dei de ombros. - Mas vou logo avisando que sou péssima em espanhol - Ela riu.
- Não tem problema... minha mãe é espanhola. Eu sou fluente. - Ela sorriu - Eu sou Inés.
- .
Inés não teve dificuldade alguma para fazer o teste. Fomos as primeiras a terminar, que dizer, ela foi a primeira a terminar. Conversamos um pouco. Como nós duas somos bastante tímidas, a conversa não rendeu muito assunto. Ela me contou que se mudou para Londres faz 1 semana, por causa do trabalho do pai, e que morava na Irlanda. Contou que seu pai, Irlandês, conheceu sua mãe em uma viagem à Espanha, mas ela nunca visitara o país de sua mãe.
Fazia um tempo em que não conversava com ninguém do colégio. Sentia falta de poder sentar com alguém no intervalo e conversar sobre qualquer assunto. Como eu fazia com a .
.
Sentia muita falta dela.
Voltei para casa a pé. Não era tão longe assim. Quando cheguei subi direto ao meu quarto.
- ! Não esqueça d...
- Da psicóloga! Eu sei! - Disse, cortando-a. Era incrível a capacidade que minha mãe tinha de me irritar. - Estou indo tomar banho agora.
Tomei uma ducha e desci para o almoço. Minha mãe cozinhava muito bem. Ela não trabalhava, então passava a maior parte do dia cozinhando. Hoje tinha a sua especialidade. Lasanha. Ela sabia que era meu segundo prato preferido. Acho que ela está tentando me bajular.
- - Ela surgiu de trás da porta com um sorrisinho, meio que forçado - Pode entrar.
Sua sala era pequena. Com uma péssima iluminação. Não era como eu imaginava. Nos filmes as salas costumavam ser 3 vezes maiores que esta e tinham dois sofás. Um para a paciente e um para a psicóloga. E estante com livros, é claro, em toda a parte. Aqui só tinha uma mesa com um computador e uma cadeira simples, em frente à mesa, me esperando. E só tinha uma estante pequena, com poucos livros.
- Tudo bem? - Acenei com a cabeça, fazendo que sim. Se estivesse tudo bem de verdade para que eu estaria aqui? - Eu sou a Drª Emily Foster.
Passamos quase 1 minuto em silencio. Até ela quebrá-lo.
- Então ... me conte um pouco da sua vida... Quantos anos você tem? - Ela perguntou, sorrindo.
- 18.
- Hm, 18, que ótimo! Está perto de formar?
- Sim... - Queria sair logo dali.
- E por que você está aqui? - Ela perguntou. Abaixei o rosto, olhando para as minhas mãos.
- Só estou tentando não piorar a situação com a minha mãe...
- E porque ela achou que você precisava vir aqui? - Essas psicólogas insistem mesmo, né? Outra coisa diferente dos filmes... Pensei que só eu deveria abrir a boca. Então meu plano era ficar calada, e ela também, e então eu iria embora. Séria ótimo.
Respirei fundo.
- Se eu contar tudo ainda assim vou precisar voltar aqui? - Perguntei, com esperanças de só precisar de uma consulta.
- Não é assim que funciona, Carolina. Talvez, se você me contar o que te deixa aflita o seu tratamento seja mais rápido.
- Ela morreu... - eu disse, começando a sentir meu olho arder. Eu não queria chorar. Nunca conversei sobre isso com ninguém. Não queria ter que conversar com ela.
- Quem? - Ela perguntou, me analisando.
- Ela era minha melhor amiga. Nós conhecíamos há 5 anos. Faz dois meses que ela morreu. Eu liguei para ela, mas ela estava no banho... Até hoje, quando escuto o telefone tocar, penso que é ela me ligando, para saber o que eu queria.
Ficamos em silêncio. A Drª Foster não interrompeu. Por algum motivo ela sabia que eu terminaria a minha história.
- Os pais dela disseram que assim que ela saiu do banho caiu no chão. Ela teve aneurisma. - Senti as lágrimas rolarem pelo meu rosto.
- Acho que está bom por hoje. - Ela disse, me olhando sem nenhum tipo de emoção no rosto.
Avistei outra porta, além da que entrei, em sua sala.
- É um banheiro? - Perguntei, apontando para a porta.
- Sim. - Ela disse.
- Posso usar? Não quero que minha mãe me veja chorando...
- Tudo bem.
Assim que sai da sala minha mãe se aproximou de mim. Com certeza iria me encher de perguntas.
- Como foi a consulta? - Ela perguntou com um sorriso de orelha a orelha.
- Normal...
- Só isso? - Ela perguntou chateada.
- Ela disse pra eu voltar semana que vem.
Quando cheguei em casa eram 5 horas da tarde. Tomei outro banho. Dessa vez me permitir demorar debaixo da água quente. Precisava dessa sensação, precisava anestesiar meu corpo. Minha dor.
Demorei quase 1 hora no banho. Quando desci para a cozinha já eram 6 horas da noite e minha mãe estava sentada na mesa. Meu jantar estava em frente a minha cadeira, pronto para ser ingerido. Comi o mais rápido que pude. Sei que ainda estava cedo, mas não via a hora de subir para o meu quarto para dormir. Para vê-lo. Será que eu me encontraria com ele hoje?
Subi as escadas correndo, fechei a porta atrás de mim e me joguei na cama. Fechei meus olhos, idealizando ele, Louis.
Depois de dois meses finalmente comecei a me permitir sonhar. De novo.
- ! - Ouvi ele gritar meu nome. Ele correu em minha direção, quase me derrubando no chão com o seu abraço. Ele me abraçava forte, como se eu pudesse escapar a qualquer momento.
Seu abraço era... como posso descrever? Quente. Acho que esta é a palavra certa para se usar. Era como um cobertor num dia frio. Quente e reconfortante.
- Calma... - Eu disse tentando me afastar um pouco para observar seu rosto. Ele estava chorando. Alisei seu rosto carinhosamente, limpando suas lágrimas. Ele fechou os olhos. Desta vez eu o abracei, mas de um jeito calmo. - Está tudo bem.
- Achei que você nunca mais fosse voltar - Ele disse, perto do meu ouvido. Me arrepiei com o ar quente que saiu de sua boca.
- Quando deitei na minha cama hoje, sabia que sonharia com você. - Eu disse, sorrindo. - Eu queria sonhar com você. Talvez ter desejado isso tenha ajudado. - Ele sorriu, segurando minha mão. Eu adorava a sensação de sentir sua mão entrelaçada na minha.
- Que lugar é esse? – Perguntei olhando em volta. – Sei que estamos em algum lugar da Inglaterra, mas não sei onde exatamente.
- Doncaster – Ele disse.
Caminhamos por um longo tempo, em silêncio. Eu poderia andar quilômetros e não iria me cansar, porque eu sabia que estava deitada em minha cama, dormindo.
Paramos em frente a um lago. Era enorme.
- Eu costumava pescar aqui com meu pai... – Ele disse, com o olhar triste.
- O que aconteceu com ele? – Perguntei.
- Você quer dizer o que aconteceu comigo, não? Acho que essa é a pergunta certa a pesar de eu não saber a resposta. – Ele disse.
- Eu vou te ajudar. – Eu disse, confiante.
- Como?- Ele perguntou.
- Eu não sei... apenas vamos dar um jeito nisso. Eu prometo. – Eu disse.
Segurei sua mão, entrelaçando nossos dedos. Ele sorriu.
Sentamos na grama, de frente para o lago. Era lindo. Não resisti e deitei a cabeça em seu colo, olhando para o céu. O sol brilhava nele, haviam poucas nuvens, um milagre na Inglaterra. Eu adorava esses dias de sol. Não fazia calor, o tempo era fresco e a quentura do sol era boa. Fechei os olhos por um instante, sentindo a brisa passar.
- Eu costumava ir para um parque com minha melhor amiga nesses dias de sol... – Disse, e pela primeira vez não me senti triste ao lembrar dela. . – A gente deitava na grama e ouvia música. Fazíamos um pequeno piquenique também. – Eu ri. – A gente sempre brigava na hora de decidir o que levar para comer. Ela sempre queria levar frutas e coisas integrais e eu queria levar cachorro-quente e refrigerante... “De manhã cedo?”, ela sempre perguntava... e sempre ganhava.
Nós dois rimos.
- Porque você fala dela assim? Como se ela estivesse no passado... – Ele perguntou. Com aqueles lindos olhos azuis e meigos me encarando.
- Porque é lá que ela está... ela... ela morreu... – Eu disse, sentindo um pesar no meu coração. Era a falta que ela fazia.
- Eu sinto muito... eu...
- Não precisa... sério... já tem muitas pessoas que sentem por mim e isso é um saco. – Eu ri tentando descontrair ele. Ele já estava numa situação estranha e triste, não queria trazer minha tristeza para ele.
- Eu adoraria ouvir mais sobre você. – Ele disse, mostrando aquele sorriso encantador.
- Eu não sou muito boa nisso – Eu ri.
- Vai... – Ele insistiu.
- Está bem... faça uma pergunta então. Assim fica mais fácil.
- Hmm... deixe-me ver... qual sua comida preferida? – Ele perguntou.
- Essa é fácil! – eu disse – PIZZA!
- A minha também! – Ele disse, rindo.
- Todo mundo ama pizza. Quem não ama é louco.
- Eu sempre achei isso. – Ele disse. Nós dois rimos.
- Agora é minha vez! – Eu disse. - Qual o seu filme preferido?
- Grease! – Eu ri. – É legal! Porque as pessoas riem quando conto isso?
- Sei lá... talvez porque parece mais o tipo de resposta de nossas mães? É um filme da época delas... minha mãe ama Grease. – Nós rimos.
- Eu participei de um musical da escola... era Grease... então... – Ele sorriu timidamente. – Qual o seu filme preferido?
- Querido John.
- Nicholas Sparks. – Ele riu.
- O que foi?
- Toda menina já leu algum livro de Nicholas Sparks ou assistiu algum filme baseado nas histórias dele... – Ele disse com um sorriso no rosto. Dei língua para ele. Ele riu.
- Quer dizer que você participou de um musical de Grease na escola? – Perguntei, me interessando mais sobre o assunto. – Você canta?
- Sim... eu ia tentar um teste por The X Factor mas...
- Mas você veio parar aqui... – Eu disse, sentindo o pesar dele. - Canta pra mim? – Perguntei. Vi ele abrir um lindo sorriso. O sorriso dele me transmitia uma paz que eu não sei explicar.
- “If I don't say this now I will surely break
(Se eu não disser isso agora eu certamente enlouquecerei)
As I'm leaving the one I want to take
(Como se deixassem a última coisa que quero ter)
Forgive the urgency but hurry up and wait
(Perdoe a urgência, mas apresse-se e espere)
My heart has started to separate
(Meu coração começou a se partir)
Oh, oh, oh
Oh, oh, oh
Be my baby
(Seja minha garota)
Oh, oh, oh
Oh, oh, oh
Oh, oh, oh
Be my baby
(Seja minha garota)
I'll look after you”
(Eu cuidarei de você)
Enquanto ele cantava mantive meus olhos fechados. Eu amava essa música. Nunca me cansava de escutá-la... ela combinava com o seu tom de voz. Sua voz. Sua voz era linda. Doce e suave. Eu gostava de fechar os olhos enquanto ouvia música. É um jeito que eu tenho de sentir... sentir o que a pessoa que estar cantando sente. A voz também passa emoção.
Fiquei imaginando o rosto dele enquanto ele cantava. Sorri ao imaginar. Mas só essa visão imaginária não bastava. Abri meus olhos. Ele olhava para mim, com um olhar que não soube distinguir. Ele sorriu. Levantei minha mão, na tentativa de tocar seu rosto mas minha visão havia escurecido.
Escutei o despertador tocar.
- Droga- Resmunguei.
Respirei fundo e sorri. Estava me sentindo feliz. Depois de dois meses de pesadelos Louis surgiu para salvar meus sonhos. Levantei da cama e segui para a janela do meu quarto a fim de olhar como estava o tempo. Abri a janela e sentir o vento frio tocar meu rosto. Vi um sol lugar para aparecer, mas haviam muitas nuvens cinzentas encobrindo-o. Quando olhei para a rua avistei o Sr. e a Sr.ª Tomlinson parados em frente a um táxi. O Sr. Tomlinson abriu a porta de trás para ela entrar e logo após fechou-a. Fiquei esperando ver ele entrar no carro, mas ele não o fez. A Sr.ª Tomlinson, por sua vez, tinha a mesma aparência triste de sempre porém parecia um pouco mais forte, como se tivesse algo maior para qual devesse lutar. Sempre admirei pessoas assim, pessoas que mesmo tristes e passando pelas piores situações possíveis acham forças para continuar. Sempre quis ser assim. Pelo menos é assim que enxergo a Sr.ª Tomlinson. Pelo olhar triste dela. Sei que há algo acontecendo na família Tomlinson. Eles são muito estranhos e fechados... bom, de qualquer forma... o que isso me importa?
Segui para o banheiro a fim de tomar uma bela ducha quente. Fiquei cantarolando a música que Louis cantara para mim. Ela não saia da minha cabeça. Será que aquela letra significava algo?, “Para, ”, disse para mim mesma, “Isso é só um sonho. E se ele não existir?”. Era uma experiência muito estranha, pois os sonhos pareciam muito reais, muito lúcidos de ambas as partes. Tinha que ser verdade. Eu prometi para o Louis que o ajudaria a descobrir o que aconteceu com ele... o único motivo d’eu saber se ele realmente existe é procurando-o. É isso que eu vou saber e eu já sei muito bem onde devo ir.
Desci para a cozinha e como sempre havia um lugar vazia na mesa reservado para mim, com um café delicioso à minha espera.
- Bom dia! – Disse. Meu tom de voz soava muito alegre. E eu realmente estava alegre, ainda mais depois da decisão que acabei de tomar e além disso hoje era sexta-feira. Dei um beijo na bochecha de minha mãe e meu pai e depois sentei no meu lugar. Vi meus pais se olharem confusos e logo depois olharem para mim.
- Posso saber qual o motivo de tanta alegria? – Minha mãe perguntou, sorrindo.
- Vários... mas o principal é que hoje é o segundo dia que não tenho pesadelos. – Eu disse. Estava muito feliz com isso. Depois da morte de eu tinha pesadelos frequentes. Eram horríveis.
- Que ótimo, querida! A psicóloga tem algo haver com isso? – Minha mãe perguntou, bem alegre pelo visto.
- Talvez... – Disse. Mas a verdade é que a Dr.ª Foster não tinha nada haver com isso. Mas eu não tinha motivos para desapontar minha mãe. Deixa ela pensar que essa consulta deu certo e que as outras também darão.
- Que bom, que bom! – Ela disse, sorrindo.
- Estou muito feliz por você, filha. – Disse meu pai dando um beijo na minha testa e logo após se levantando da sua cadeira. – Tenho que chegar mais cedo no trabalho hoje... infelizmente não poderei lhe dar carona...
- Tudo bem, pai... – Eu disse, sorrindo.
- Oi, ! – logo reconheci a voz.
- Oi, Inés! Tudo bem? – Perguntei.
- Tudo ótimo! E pelo visto com você também... – Ela disse, sorrindo.
- Sim, está – Eu ri e ela sorriu junto.
- Quer sentar ali? – Ela perguntou apontando para um banco no pátio da escola.
- Pode ser. – Eu disse.
Passamos alguns minutos conversando mas logo nos separamos pois tínhamos aulas diferentes. Na hora do intervalo nos encontramos de novo no mesmo banco pra conversar.
- Já fez algum amigo? – Perguntei.
- Não... pelo visto só tem pessoas de alto nível aqui. Acho que elas não me consideram do mesmo nível delas, então... você foi a única que aceitou conversar comigo. – Eu ri.
- Nossa! Muito obrigada! – Nós duas rimos.
- Não ter te incluído no alto nível foi mais para um elogio. – Ela explicou.
- Eu sei... eu prefiro ficar onde estou mesmo... no nível médio, talvez? Pode ser? – Inés riu. – Eu já fui como eles. Achava que eles eram meus amigos. Até que quando precisei...
- Eles não estavam mais lá... sei bem como é – Ela disse, fazendo uma cara triste.
- É. – Eu disse. – Mas um dia eles vão passar por isso também. Todos mundo passa. – Inés concordou, balançando a cabeça em sinal de concordância.
Cheguei em casa muito ansiosa. Queria subir pro meu quarto e por minha ideia em prática, mas antes disso eu tinha que almoçar com minha mãe. Comi o mais rápido que pude dando a desculpa para minha mãe de que tinha um trabalho para fazer.
Abri um site de pesquisas e digitei "Londres para Doncaster". Logo apareceu um site de compras de passagens de trem... ele informava que haviam trens que iam para Doncaster e que a viagem durava em torno de 1h 53m. Ótima noticia! Sorri comigo mesma. Eu estava decidida. Eu iria para Doncaster.
- Aí está você! – Ouvi a voz dele e logo sorri.
- Louis! – Eu disse, correndo em sua direção. Abracei-o forte. Ele retribui o abraço. – Tenho ótimas notícias!
- Quais? – Ele perguntou, ansioso por saber.
- Eu vou para Doncaster! – Eu disse. Ele abriu um lindo sorriso.
- Sério? – Ele parecia não acreditar, mas dava para ver que estava muito feliz.
- Sério! Eu prometi que te ajudaria. – Eu disse. Ele me abraçou novamente.
- Obrigado. – Ele sussurrou, mas logo depois se afastou. A expressão alegre em seu rosto logo sumiu dando lugar a um olhar triste e preocupado.
- O que foi? – Eu disse me aproximando dele e levantando seu rosto cuidadosamente.
- E se... E se eu estiver... Morto? – Ele disse. Vi lágrimas em seus olhos. Ele fechou os olhos permitindo que elas caíssem pelo seu rosto. Levantei a mão, enxugando-as e o abracei novamente.
- Você não está. – Eu disse, confiante.
- Como pode ter certeza? – Ele perguntou.
- Esse sonho... Ele parece ser uma espécie de limbo...
- Limbo? – Ele perguntou confuso.
- Você não assiste filmes? – Eu ri tentando descontraí-lo. – Limbo é uma espécie de lugar onde você está entre o céu e a terra. Você não está morto.
- Mas estou perto disso. – Ele disse.
- Para, Louis... Eu não vou deixar que isso aconteça... Eu vou encontrá-lo. Eu prometi, não prometi?
- Você pode até me encontrar, mas não pode me impedir de morrer. – Ele disse.
Eu não sabia o que dizer. Louis estava certo. Mesmo se eu o encontrasse não havia nada que poderia fazer para ajudá-lo.
- Vem comigo – Eu disse o puxando para sentar debaixo de uma árvore, em frente ao lago que estivemos no último sonho. – Tudo vai ficar bem. – Apoiei minha cabeça em seu ombro e senti sua mão tocar meus cabelos de forma carinhosa.
- Você não falou nada sobre a música. – Ele disse.
- Sua voz é linda. E a música também. The Fray... Eu amo essa banda. E a música que você cantou é a minha preferida. Estranho o jeito que estamos ligados. – Eu disse, sorrindo.
- Isso é... Estranho. – Ele disse. Nós rimos.
- Canta para mim de novo? – Perguntei. Ele sorriu.
Eu reconheci a música na hora. Ele só cantava as minhas músicas preferidas. Como isso era possível? Era “Blackbird” dos Beatles. Não resistir e comecei a cantar junto com ele. Ele olhou para mim, sorrindo.
- Você tem os olhos mais bonitos que já vi. – Ele disse. Eu sorri envergonhada. – Ele levantou a mão delicadamente em direção ao meu rosto, acariciando-o. – Você é linda.
- Por que eu tenho a sensação que te conheço? Por que estamos ligados? Eu poderia sonhar com qualquer outra pessoa, mas toda noite eu sonho com você. – Eu disse.
- Você não gosta de sonhar comigo? – Ele perguntou.
- É claro que eu gosto! – protestei. - Você não tem noção do quanto que me faz bem. Antes de sonhar com você eu nem dormia. Eu tinha medo de dormir, na verdade, porque eu sempre tinha pesadelos. E agora você me faz ficar pensando o dia inteiro em você, doida para chegar em casa e me deitar naquela cama só para me encontrar com você. – Ele sorriu. – Eu acho que a gente tem algum tipo de ligação. Algo muito forte me trouxe até você.
- Você deve ser a única que pode me ajudar... – Ele disse se aproximando de mim. Nossos lábios estavam muito próximos. Eu me afastei, mesmo querendo muito beijá-lo, mas eu tinha medo de estar me entregando a algo que não existia. Eu tinha medo dele ser fruto do meu inconsciente. – Desculpa... – Foi a última coisa que eu o ouvi dizer.
Acordei sentindo uma sensação estranha. Uma mistura de ansiedade e medo. Ansiedade porque daqui a algumas horas estaria em um trem rumo à Doncaster e medo de não encontrar Louis, ou pior, descobrir que ele não existe. Senti vontade de chorar. Respirei fundo e me obriguei a levantar da cama. Tomei uma ducha rápida. Vesti um vestido marrom de manga longa e listras, uma legging preta e uma ankle boot também preta, para finalizar coloquei uma boina azul. [Link], me olhei no espelho e gostei do que vi. Pela primeira vez, depois desses dois meses, estava me sentindo linda. E decidida.
- ! – Quase caio da escada com o susto que tomei. Olhei para trás e vi meu pai me encarando, meio surpreso. – Você está linda, filha.
- Ah, obrigada pai. – Disse meio envergonhada.
- Para onde você vai? – Ele me pegou de surpresa. Esqueci de meus pais. Que desculpa eu inventaria?
- Hm... eu... vou... para... a casa de uma amiga! – Pela cara que ele fez, ele não pareceu convencido.
- Casa de uma amiga? Bem vestida assim e as 8 da manhã? – Ele continuou me encarando, pensativo. – Vamos fazer o seguinte... vamos fingir que eu acreditei... tenha cuidado e se divirta! E volte antes da 11 da noite... – Por isso que eu amava meu pai.
- Obrigada pai... e a mamãe?? – Ela não acreditaria na mesma desculpa e não me deixaria sair.
- Pode sair tranquila, sua mãe ainda está dormindo. E como eu falei, tenha cuidado. – Ele disse dando um beijo na minha testa.
- Tchau pai! – Eu disse, descendo as escadas devagar para não chamar atenção de minha mãe.
Sai de casa sem tomar café, não podia demorar lá e dar de cara com a minha mãe. Posso ser maior de idade, mas devido ao meu comportamento durante esses 2 meses, minha mãe meio que passou a me enxergar como uma criança novamente.
Enquanto andava pelas ruas sentia os olhares das pessoas sobre mim e lembrei de uma frase que sempre dizia... ela dizia que quando a gente se sente bonita, todos em nossa volta nos acham bonita, e era assim que eu estava me sentindo.
A estação de Kings Cross estava cheia, como sempre, pessoas correndo de um lado para outro com medo de perderem o trem. Segui em direção a bilheteria para retirar a minha passagem, que eu havia comprado pela internet. Faltavam 20 minutos para o próximo trem chegar. Sentei em um banco na plataforma onde o meu trem chegaria. Ele não demorou muito. Esperei um tempo para que as pessoas que estavam a bordo descessem e, quando todas haviam saído, entrei e sentei do lado da janela. Não importa quantos anos você tem, você sempre vai querer sentar do lado da janela.
A viagem até Doncaster foi tranquila, e as paisagens incríveis. A viagem durou exatamente 1h e 47min. Assim que sai da estação em Doncaster, entrei em um táxi. Expliquei ao motorista que não conhecia a cidade e gostaria de ir até um lago. Ele me perguntou qual lago era e eu não soube informar o nome, então ele me levou no que consideram o lago mais bonito de Doncaster. Logo reconheci o lago. Era o mesmo do sonho. O mesmo que Louis me mostrara e disse que era onde ele pescava com o pai. Paguei o táxi e desci. Caminhei um pouco envolta do lago. Estava um pouco espantada pelo fato de ter estado aqui em um sonho e de ele ser totalmente igual ao do sonho. Logo avistei a árvore em que avia estado com Louis. Sentei embaixo dela, olhando para o lago, e me lembrando dele. Agora que eu estava em Doncaster não sabia o que saber, não sabia onde procurar informações sobre Louis, sobre o que aconteceu. E não sabia o nome de nada, nem da rua em que ele morava.
Levantei e continuei andando, mesmo sem saber para onde estava indo... eu tinha que encontrar alguma pista. O lago era muito grande, dei quase uma volta completa, até que avistei uma banca de revistas. Fui em sua direção, na esperança de que vendessem água nela ou qualquer outra coisa que pudesse matar minha sede. Foi então que vi uma notícia que me fez esquecer de tudo ao meu redor, inclusive da minha sede. Na verdade não foi o título da noticia, mas sim a foto que estava no jornal. A rua. Era a rua onde avistei Louis pela primeira vez. Na mesma foto pude ver o número 4 do muro onde ele esteve sentado no meu sonho. Na foto haviam um carro e alguém jogado no chão. Só podia ser ele. O título da notícia era “Tragédia no transito de Doncaster”. Peguei o jornal, o homem na banca de revistas me olhou desconfiado.
- Quanto é? – Perguntei.
- £1.
Paguei o jornal e voltei para a árvore em que estava. Sentei e comecei a folhear o jornal em busca da matéria. “Um Jovem não identificado fora atropelado hoje por um motorista que, segundo pessoas que estavam no local, dirigia em alta velocidade. O motorista fugiu sem prestar socorro à vítima. O Jovem foi encaminhando ao Hospital de Doncaster, e segundo os médicos apresenta um quadro de traumatismo craniano e está em coma.” Comecei a chorar. Olhei mais uma vez para a foto. Será que era mesmo ele? Será que era o Louis. Só tinha uma maneira de descobrir. Levantei com tudo em direção a rua.
- Táxi! – Entrei no táxi, me acomodando no banco de trás. – Hospital de Doncaster, por favor.
Paguei o táxi às pressas. Eu tinha urgência em saber o que aconteceu com Louis. Eu temia por ele. Assim que entrei no hospital, segui para o balcão principal.
- Com licença, bom dia. Eu gostaria de saber se tem um paciente chamado Louis internado aqui. – Perguntei meio desajeitada.
- Qual o sobrenome dele?
- Eu não sei... – A moça do balcão me encarou, respirou fundo, parecia impaciente.
- Olha garota, temos muitas pessoas internadas aqui. Como poderei saber que Louis você está procurando? E isso só prova que você nem conhece o paciente direito. Não posso compartilhar informações de pacientes para desconhecidos.
- Por favor, senhora. É muito importante. – Senti algumas lágrimas escorrerem pelo meu rosto. Eu não aguentava me sentir assim... Como se não pudesse fazer nada! Eu tinha que conseguir! Eu prometi ao Louis que o ajudaria!
A moça do balcão ficou me encarando. Peguei o jornal, mostrando a foto da notícia para ela. Apontei para o homem jogado no chão.
- O jornal disse que ele veio para cá. Você sabe o nome dele? É o Louis?
- Olha, eu não posso divulgar informações sobre os pacientes internados nessa clínica.
Não sei bem o que deu em mim naquele momento. Mas eu não podia deixar assim. Eu não sairia de lá sem informações. Sai correndo por um corredor, ao lado do balcão. Ouvir a mulher do balcão gritar: “Seguranças!”, mas eu já tinha entrado no elevador. Apertei qualquer número, só depois reparei que foi o número 4, por coincidência, o número da casa de frente para a rua em que Louis sofreu o acidente. Sai desesperada pelo elevador, me esbarrando em alguém.
- Calma! – Ouvi-lo dizer.
- D-desculpe. – Eu não conseguia segurar minhas lágrimas. Eu me sentia bastante sensível. Na verdade eu estava me sentindo como se realmente não pudesse fazer nada.
- Está tudo bem? – Minha visão estava um pouco embaçada devido às lágrimas, mas pude ver que o homem usava um jaleco. Conseguir ler seu nome bordado nele... Dr. Robert Johnson.
- Dr., por favor, me ajude. Eu não consigo encontrar meu amigo.
- Ali! – Ouvir alguém gritar alto. Olhei para o lado e vi um segurança correndo em minha direção e outro vindo logo atrás.
- O que está acontecendo? – O Dr. Johnson perguntou confuso.
- Essa menina entrou sem permissão no hospital. – Um dos seguranças disse.
- Qual o seu nome, querida? – O Dr. Johnson me perguntou.
- . Eu só queria saber se meu amigo está internado aqui. Por favor, só isso. – Levantei o jornal, mostrando a foto. – Na verdade eu não sei se é ele. Mas se parece muito. Por favor!
- Qual o nome do seu amigo? – O Dr. Johnson perguntou, sinalizando para que os seguranças saírem. “Está tudo bem”, ele falou para os dois, que se retiraram.
- Louis.
- Então ele é sim o garoto da foto... Sinto muito. – Senti mais lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
- C-como e-ele e-está? – Perguntei entre soluços. Então tudo o que sonhei era verdade. Inclusive Louis. Me arrepiei. Vieram flashes dos meus sonhos em minha cabeça. A rua. Louis sujo de sangue. A casa de número 4. A única coisa que não fazia sentido era... Por que eu?
- Ele apresentou uma pequena melhora e aconselhei aos pais deles para que o levarem para um hospital em Londres. Ele foi transferido na terça-feira.
- Então ele está bem? – Eu perguntei, sorrindo aliviada.
- Não... Ele ainda está em coma. Eu disse uma “pequena” melhora, que pôde possibilitar em sua transferência. Louis precisava de um lugar onde oferecessem mais equipamentos para o seu tratamento.
- Que hospital de Londres ele está? – Perguntei. Ao mesmo tempo em que Louis parecia estar perto, ele voltava a ficar longe.
- Os pais dele não me deram permissão para falar sobre isso com ninguém. Desculpe. É questão de profissionalismo. Muitos repórteres vêm aqui para saber informações sobre o quadro do paciente. Os pais de Louis só queriam sossego para o filho. Mas se você conhece o Louis, deve os conhecer também, não? Ligue para eles. – Ele disse, batendo de leve em minhas costas, como se estivesse me amparando.
- Na verdade, não os conheço. – Respirei fundo, deixando uma última lágrima cair. – Então é isso... Obrigada, Dr.
- Boa sorte! – Ele disse entrando em uma sala qualquer.
Quando cheguei em Londres já eram 4h e 30min da tarde. Estava exausta. Passei a viagem toda dormindo. Não queria voltar pra casa agora. Só queria sentar em algum lugar e refletir mais um pouco sobre tudo que havia descoberto hoje.
Peguei o troco que restou de minhas economias (havia gastado quase tudo hoje, em Doncaster) e paguei um táxi para me levar até o Hyde Park. Eu adorava aquele lugar. Mesmo a noite, o parque ficava bem iluminado e movimentado, especialmente nos sábados.
Caminhei um pouco por uma ruazinha entre as árvores, que eram decoradas e iluminadas por pisca-piscas. Adorava esse lugar de noite. Tudo bem que de dia era melhor, por causa da vista do lago, mas a noite também era agradável. Eu me sentia bem aqui. Me sentia livre. Eu me sentia como se tudo que eu desejasse pudesse acontecer. Sentei em um dos bancos perto das árvores. Fiquei olhando duas amigas, de aparentemente 14 anos de idade, conversando alegremente. Sentia falta disso. Mas também me sentia culpada... Culpada de tentar ter outra amiga, de substituir . Ela foi a melhor amiga que já tive.
Depois de algum tempo admirei um lindo casal que passeavam abraçados. Lembrei de Louis. Sei que ele não era nada meu. E na verdade eu nem o conhecia, mas sentia como se o conhecesse. Fechei os olhos e o imaginei ao meu lado, sentado no banco, cantando. Cantando para mim. Sorri ao imaginar isso. Eu não iria desistir. Eu iria encontrá-lo.
Passei quase uma hora no Hyde Park. Quando cheguei em casa eram 6h 45min da noite. Tentei subir rápido para o meu quarto para não ter de me encontrar com minha mãe, mas não deu certo.
- Onde você estava? – Ela perguntou enquanto me olhava séria.
- Na casa de uma amiga.
- ...
- , deixa ela. Ela está aqui, não está? E está bem! – Meu pai também não gostava do jeito que minha mãe me tratava. Ele sempre foi do tipo que acha que não se devem prender os filhos. E neste momento, em minha vida, ele sempre foi a favor da minha liberdade.
- Está. – Minha mãe olhou para mim, respirando fundo. – Desculpa filha... É que eu me preocupo com você. Uma mãe nunca aceita o fato de que seu filho cresceu. E devido ao problema que você passou com a morte de . Eu tenho medo de que você fique deprimida de novo. Sinto que você está se empenhando mais nesses últimos três dias. Estou feliz com isso.
- Tudo bem mãe... – Eu disse, abraçando-a. – Eu te amo.
- Eu também, meu anjo.
Subi para o meu quarto, tomei uma ducha quente e tentei me lembrar dos nomes de hospitais de Londres que eu conhecia. Mas eram muitos. Alguns eu nunca havia pisado.
Quando desci para cozinha encontrei meu pai e minha mãe sentados à mesa, jantando.
- Pizza! – Não pude deixar de lembrar de Louis.
- Seu pai ligou pedindo, um pouco antes de você chegar...
- Obrigada pai! – Ele sorriu. Sentei em meu lugar, pegando uma fatia de pizza da caixa e dando uma mordida.
- Eu estive conversando com a Sr.ª Tomlinson hoje. - Meu pai e eu olhamos para a minha mãe, perplexos. Nesses quatro dias em que o Sr. e a Sr.ª Tomlinson haviam se mudado, ninguém havia conversado com eles. – Vocês sabiam que o filho dela está em coma? Mas parece que ligaram do hospital hoje e ele mexeu a mão. Incrível, né? Ela estava muito feliz.
Entrei em choque na hora. Louis. Será que é ele?
- Qual o nome dele?
- Eu não perguntei. Nos falamos rapidamente.
- Você sabe o nome do hospital, pelo menos?
- Porque o interesse? – Minha mãe perguntou, sem entender o que eu estava pretendendo.
- Só curiosidade...
- No Hospital de São Marcos.
Levantei rapidamente da mesa, correndo em direção ao meu quarto... Só pude ouvir um “Pra onde você está indo? Nem comeu a sua pizza!” de minha mãe. Peguei a primeira blusa que vi no closet, vesti uma calça, e coloquei um casaco bem quentinho. Desci a escada com pressa e voltei para a cozinha.
- Pai, me empresta seu carro? – Perguntei, vendo minha mãe encarar meu pai. Ele riu.
- É claro que empresto filha. – Ele disse, minha mãe deu um tapa de leve em seu ombro, reclamando. “!”. – Deixa ela se divertir, .
- Para onde você vai, filha? – Ela perguntou séria.
- Eu... Vou... Em uma festa! – Disse, sem nem pensar direito. Eu não sou muito boa mentindo.
- Assim do nada? – Ela perguntou, me encarando.
- Aqui estão as chaves. – Disse meu pai me entregando a chave. – Cuidado.
- Obrigada, pai! Tchau, mãe! – Disse, saindo o mais rápido que pude. “!”, ouvir minha mãe gritar.
Eu estava muito nervosa. Ansiosa por chegar logo no hospital. Eu sei que não deveria estar dirigindo rápido neste estado em que estou, mas eu tinha que ver. Tinha que ser o Louis. Se for mesmo ele, significa que ele sempre esteve perto de mim. Pelo menos enquanto estava internado aqui, em Londres. A minha sorte foi que eu já conhecia o Hospital de São Marcos. Não demorou muito e eu havia chegado. O segundo hospital que piso hoje. Eu meio que tenho trauma de hospitais...
Estacionei o carro e corri até a entrada do hospital.
- Boa noite. Visita para Louis Tomlinson, por favor. – Eu não poderia perguntar se tinha um Louis internado lá, já que da primeira vez não havia dado certo. Eu tinha que ser rápida e esperta. Usar o sobrenome dos Tomlinson seria mais rápido ainda e logo confirmaria minhas dúvidas.
- 2º andar, quarto 204. – Ela disse me dando um crachá de visitante. Isso só significava uma coisa. Era ele. Louis. Ele estava perto de mim todo esse tempo. Sentir meu corpo estremecer. Se ele estivesse acordado seria o meu vizinho. Por isso o Sr. e a Sr. Tomlinson andavam com aquele olhar triste... Agora tudo faz sentido, tudo se encaixa.
Respirei fundo e fui em direção ao elevador, quando finalmente pisei no 2º andar sai andando rapidamente em busca da sala de número 204, que não ficava muito longe do elevador.
A sala tinha uma enorme janela que dava para o corredor, só que uma cortina impedia a visão de dentro do quarto. Hesitei um pouco antes de entrar, com medo de ver o estado em que ele se encontrava, até que finalmente tomei coragem e abri a porta.
- Louis.
De repente o mundo se calou. Senti minhas pernas ficarem bambas. Perdi o controle sob o meu corpo. Toda a emoção que estava sentido nesse momento transbordavam em meus olhos. Louis estava bem a minha frente, deitado em uma cama, imóvel.
Fiz um grande esforço para conseguir chegar até sua cama. Me aproximei dele. Não conseguia enxergar seu rosto direito, devido às lágrimas que embaçavam minha vista. Fechei e abri os olhos algumas vezes, até minha visão estabilizar. Foi quando conseguir focar no rosto de Louis. Eu não conseguia acreditar. Minhas mãos, trêmulas, tocaram seu rosto. Havia pequenos arranhões nele. Ele usava máscara, que deduzi ser para ajudá-lo a respirar. Queria tanto abraçá-lo... Mas não podia. Isso estava me matando. Então apenas encostei minha cabeça levemente em seu peito. Seu coração palpitava devagar, lutando para continuar batendo.
Me senti mais inútil ainda. Eu estava ali. Havia encontrado o Louis... Mas exatamente para quê? Como eu o ajudaria? Porque ele teve que visitar logo os meus sonhos? Não havia nada que eu poderia fazer para acordá-lo. Eu sou apenas uma garota de 18 anos, que mal se formou, que odeia hospitais, que perdeu sua melhor amiga e com ela a vontade de viver. Eu deveria estar no lugar de Louis, que com certeza devia ser mais sucedido que eu. Se eu pudesse trocaria de lugar com ele.
Respirei fundo e sentei em uma cadeira que estava ao lado da cama. Devia ser ali que a Sr.ª Tomlinson ficava... Esperando seu filho acordar. Fechei meus olhos sentindo mais uma lágrima cair. Enxuguei-a. Essa seria a última. Encarei Louis mais uma vez. Deitei minha cabeça num espaço vazio do colchão e rezei. Rezei por Louis e por todas as pessoas e famílias que estavam passando por momentos difíceis como este. Fazia muito tempo que não rezava... desde a morte de . Acho que eu fiquei um pouco zangada com Deus.
- Você desaparece do nada... Odeio isso. – Ele me encarava, de braços cruzados, tentando parecer sério. Não pude deixar de sorrir. Ele devolveu o sorriso. Caminhei em sua direção, segurei suas mãos, balançando-as devagar. Ele me olhava, ainda sorrindo. Abracei-o.
- Eu te encontrei – Sussurrei em seu ouvido. Ele se afastou um pouco, me olhando. Deu um sorriso, que logo desapareceu de seu rosto. – Eu sei... – Desta vez ele me abraçou. Alisei suas costas, tentando reconfortá-lo. Seu abraço era tão bom.
- E agora? O que acontece? – Ele perguntou ainda me abraçando. Nós dois nos sentíamos bem assim. Abraçados.
- É o que eu estava me perguntando, Louis. – Senti meus olhos lacrimejarem, mas logo tratei de enxugá-los. Havia prometido que não iria chorar mais. Não vou e não posso. Não posso deixar que Louis me veja chorar, isso faria ele pensar no pior. – O único jeito é esperar.
- Você vai estar comigo? – Ele perguntou, sua voz soou triste.
- Sempre. – Respirei fundo. Eu adorava estar com Louis. Nunca havia me sentido deste jeito antes. Sempre que estou com Louis sinto vontade de viver. Eu acho que o que eu mais temia havia acontecido. Eu estava apaixonada por Louis. Cada abraço, cada toque, cada palavra. Se pudesse ficaria presa nesse sonho para sempre, para poder ficar com ele, assim... Apenas abraçados. Um sentindo calor do outro. – Eu achei que quando te encontrasse você acordaria. Mas isso não é como um conto de fadas né? – Eu ri.
- Já tentou me beijar? – Ele perguntou. Nós dois rimos.
- Você não é a princesa da história. Quem tinha que ser beijada era eu. Eu devia estar no seu lugar. Condenada. Deitada em uma cama esperando um príncipe me encontrar para me salvar com um beijo... Se a vida fosse fácil assim.
- Você fala sério? Queria estar em meu lugar? – Ele me encarou, com a expressão séria.
- Se pudesse, sim.
- Como pode pensar numa coisa dessas, ? – Ele parecia estar chateado comigo. Abaixei minha cabeça, não queria encará-lo agora. – É horrível estar aqui. Eu passo o que parece anos te esperando. A única coisa boa deste sonho é você. – Ele levantou minha cabeça delicadamente, tirando uma mecha de cabelo do meu rosto e dando um beijo em minha bochecha. – Nunca mais fale um absurdo desses de novo.
Fechei meus olhos, apertando-os.
- O que você está fazendo? – Ele perguntou.
- Feche os seus também. – Disse.
Imaginei o Hyde Park. Meu lugar preferido de Londres. Da última vez que estive lá pensei em como seria se Louis estivesse ao meu lado.
Quando abri os olhos tive uma surpresa. Lá estava o Hyde Park como eu nunca havia visto antes. Não havia ninguém. Só eu e o Louis, que ainda estava com os olhos fechados. Era dia e estava ensolarado, como eu adorava. O lago estava incrivelmente lindo. Eu ri ao olhar pra Louis mais uma vez e vê-lo de olhos fechados. Cutuquei-o.
- Pode abrir os olhos.
Ele ficou surpreso.
- Que lugar é esse?
- Você está em Londres. Esse é o Hyde Park. Eu amo esse lugar. É o meu preferido da cidade. – Eu disse.
- É incrível!
- Eu estive em Doncaster, Louis. – Disse por fim. Ele me encarava. – Mas você não estava lá.
- Onde eu estava? – Ele perguntou, estranhando.
- Em Londres. Você estava o tempo todo perto de mim. Literalmente.
- Como assim “literalmente”?
- Seus pais compraram uma casa do lado da minha. Você é meu vizinho. – Eu disse. Ele sorriu.
- Eu tenho que acordar, . É o que eu mais quero. E agora eu tenho outro motivo para querer isso.
- Qual? – Eu perguntei.
- Você. – Senti minhas bochechas queimarem. – Eu... Sei lá... Isso tudo é tão estranho. Às vezes ainda acho que tudo isso seja só um sonho e que eu vou acordar e voltar para minha vida simples em Doncaster, mas uma parte de mim quer que seja verdade. O fato de você estar aqui. De você ter vindo parar logo em meu sonho. E agora você descobre que esteve o tempo todo perto de mim... Então... Eu... Eu quero ficar com você, . Eu te amo. Você me salvou. E ainda acho que vá me salvar mais uma vez. – Ele disse. Havia lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Enxuguei-as. Segurei sua mão, o levando para uma parte cheia de árvores e com um lindo gramado. Me deitei na grama, pedindo para ele fazer o mesmo.
Ele se deitou ao meu lado. Nós dois nos encarávamos.
- Eu nunca amei ninguém como estou amando você. – Eu disse, alisando o rosto de Louis. Senti ele me abraçar por trás. E ficamos assim por um bom tempo.
Senti alguém me cutucar forte no braço.
- Foi você? – Perguntei para Louis.
- Eu o que? – Ele parecia confuso.
Senti alguém me cutucar de novo. E estava doendo.
- QUEM É VOCÊ? O QUE ESTÁ FAZENDO AQUI? – Levantei meu rosto com tudo da cama. Fiquei um pouco tonta e senti meu braço doer, passei a mão por cima tentando amenizar a dor. Ainda estava confusa. Que voz é essa? – VOCÊ É SURDA? O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI? – Levantei minha cabeça e dei de cara com uma Sr.ª Tomlinson muito brava. Tomei um susto. Que desculpa eu daria agora?
- Sr.ª Tomlinson! Eu... Eu sou sua vizinha.
- Eu não me lembro de tê-la visto.
- Eu s-sou filha de .
- O que você está fazendo aqui? – Ela perguntou confusa.
- É-é que m-minha mãe me contou s-sobre o s-seu filho e... E eu me senti triste por você e seu marido e vim visitá-lo. – Foi a única desculpa que consegui pensar.
- Sem a minha autorização? – Ele me encarava, ainda nervosa.
- Me desculpe... Eu...
- Você dormiu aqui? – Ela perguntou. Foi então que percebi que já era dia e a luz do sol entrava pela janela do quarto.
- Parece que sim... Eu acabei dormindo. Desculpe mais uma vez Sr.ª Tomlinson, eu não tive intenções ruins...
- Tudo bem. – Ela disse – Mas da próxima vez me avise.
Olhei para o Louis, deitado na cama. Parecia tão tranquilo... Tão em paz.
- Ele é lindo, não é? – Perguntou a Sr.ª Tomlinson, me encarando.
- Muito. – Eu sorri, me sentindo meio boba.
- Minha mãe me disse que ele mexeu a mão, é verdade? – Perguntei.
- É sim... Mas o Doutor disse que é normal. É só um reflexo... Não significa que ele irá acordar. – Ela disse e mais uma vez senti um aperto no peito. Uma tristeza profunda.
- Sinto muito – Disse por fim.
Encarei a mão de Louis na esperança de vê-la se mexer. Foi então que me lembrei de algo que Louis falara no sonho. A questão do conto de fadas, do beijo. É claro que eu não iria beijá-lo... Isso seria uma ideia ridícula, mas já que estamos tão ligados... Se eu o tocasse... O que aconteceria? E me lembrei de outra frase que ele falara “Você me salvou. E ainda acho que vá me salvar mais uma vez.”. Será?
Levantei minha mão tocando a mão de Louis, segurando-a delicadamente. Foi então que algo surpreendente aconteceu. Seus dedos se fecharam-se segurando a minha mão de volta.
- AI MEU DEUS! DOUTOR! – A Sr.ª Tomlinson saiu correndo da sala.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto e eu permitia isso, nunca me senti tão feliz como agora. E pela primeira vez depois desses 5 dias senti esperança. O Louis ficaria bem. E eu tinha certeza disso.
A porta se abriu e por ela entraram a Sr.ª Tomlinson acompanhada do Doutor que cuidava de Louis. Ele olhou para as nossas mãos e depois para mim.
- Isto... Isto é... – O Doutor procurava a palavra certa a ser dita, mas foi interrompido pela Sr.ª Tomlinson.
- Um milagre! – A Sr.ª Tomlinson estava com o rosto inchado e vermelho. As lágrimas rolavam pelo seu rosto. Qualquer um poderia sentir sua felicidade.
O Doutor se dirigiu em direção a Louis, tirando uma pequena lanterna, daquelas de médicos, do bolso do seu jaleco, abrindo os olhos de Louis devagar, examinando-o. No momento em que ele afastou a lanterna percebi algo. Louis havia fechado os olhos com uma certa força, como se a luz o tivesse o incomodado.
- Doutor, você viu isso?! – Perguntei, ainda sem acreditar no que estava acontecendo. Talvez a Sr.ª Tomlinson tivesse razão... Era um milagre.
- Sim... – O Doutor parecia ser o mais surpreso de nós três. Ele apontou novamente a lanterna em direção ao olho de Louis, que apertou os olhos novamente. Agora eu e a Sr.ª Tomlinson chorávamos. Nada poderia descrever a felicidade que eu estava sentindo. Eu finalmente iria poder ficar com o Louis... Abraçá-lo... De verdade.
- Ele esta tentando falar algo... – A Sr.ª Tomlinson andou em direção ao filho, aproximando-se do seu rosto. Ficamos em silêncio.
- Ma... Ma... – Ai meu Deus! Ele está tentando falar o meu nome. Louis... o som de sua voz era quase inaudível.
- Não sei o que ele está tentando dizer... – A Sr.ª Tomlinson, ainda chorosa, parecia confusa.
- Isso é normal. Ele ainda não tem forças para falar, e não está muito lúcido, por causa dos medicamentos fortes. Agora é só aguardarmos. – Disse o Doutor.
- Ele vai ficar com alguma sequela, Doutor? – A Sr.ª Tonlinson foi direta.
- Não temos como saber agora... Temos que aguardar o paciente voltar ao estado normal.
Enquanto eles conversavam eu observava Louis, que voltara a dormir agora, ainda encantada. Nossas mãos ainda estavam coladas. Não queria separá-las.
- Querida... É melhor você ir pra casa descansar... Passou a noite aqui. – Disse a Sr.ª Tonlinson. E só agora havia percebi que o Doutor havia saído.
- Não... Tudo bem... – Eu não queria sair dali... Não agora que o Louis estava acordando.
- Eu insisto. Eu já estou aqui. Qualquer coisa, ligo para sua mãe para informar sobre o Louis... Por favor...
- Tudo bem... – Eu entendia a Sr.ª Tomlinson... Ela queria ficar só com o Louis. Ela estava muito feliz, assim como eu. Agora que ela não desgrudaria mesmo do filho. Mas eu tinha que respeitar a vontade dela, afinal Louis era seu filho. – Mais uma vez desculpas...
- Já está tudo bem querida. Você foi uma benção que Deus enviou... Você ajudou a trazer o Louis de volta. – Eu sorria. Agradeci a Deus. Talvez agora ele estivesse finalmente do meu lado.
Levantei da cadeira, soltando devagar a mão do Louis. O calor de sua mão permaneceu na minha. Fechei os olhos deixando uma última lágrima cair.
- Tchau, Sr.ª Tomlinson. – “Tchau, Louis...” Pensei comigo mesma me dirigindo ao carro que meu pai me emprestara noite passada.
- Onde você estava até agora? Você nunca dormiu fora de casa antes, ... – Minha mãe parou em minha frente, com os braços cruzados, esperando uma resposta.
- Eu estava no hospital...
- HOSPITAL? ACONTECEU ALGUMA COISA COM VOCÊ FILHA? – Ela disse, vindo em cima de mim, analisar cada parte descoberta de meu corpo.
- Não mãe... Calma... Eu fui visitar o filho da Sr.ª Tomlinson – Eu disse, fazendo ela parar de procurar manchas pelo meu braço.
- Que alívio! Ahn? O filho da Sr.ª Tomlinson? Você nem o conhece... O que você foi fazer lá, ?
- Eu só... Me senti comovida com o que a senhora contou e fui visitá-lo. Estava tão cansada que nem vi as horas passarem e acabei dormindo lá. Desculpa, mãe. Se não acredita em mim pode ligar para a Sr.ª Tomlinson que ela irá confirmar o que aconteceu. Agora eu vou subir para o meu quarto, tomar um banho e ir dormir. Estou muito cansada mesmo. – Disse, deixando minha mãe parada à porta de entrada da casa e subindo as escadas em direção ao meu quarto.
Segui para o banheiro do meu quarto, arrancando todas as minhas roupas. Não via a hora de me livrar delas e sentir a água quente tocar meu corpo.
Não conseguia parar de pensar em Louis. Às vezes eu me pegava sorrindo do nada. Eu estava tão feliz por ele. Por nós. Eu finalmente poderei abraçá-lo de verdade. Sentir o calor do corpo dele, sem ser em um sonho. Fechei os olhos enquanto sentia a água quente cair sobre o meu corpo. Lembrei de todos os sonhos que tive com Louis. De cada momento que passei com ele. Do sorriso dele e da forma que ele olhava pra mim. Queria tanto que ele acordasse logo, que viesse para sua nova casa, e que fossemos um casal. Eu o amava, sabia disso. Nunca amei ninguém, essa era a primeira vez e era algo muito forte.
Saí do box, enrolando uma toalha em volta do meu corpo e seguindo para o meu quarto. Vesti um blusão bem quentinho e uma calça folgada, bem confortável. Me joguei na cama. Não via a hora de dormir e encontrar com ele. Louis. De contar tudo que havia acontecido. Será que ele sabe? Será que ele me viu quando abriu os olhos?
Eu estava em uma sala, que logo reconheci. Era a casa dela. Estava vazia e abandonada. Senti uma tristeza profunda que tomava o lugar. Ouvi um grito e corri para procurá-lo. Ela estava no chão, com os olhos ainda abertos, mas sem vida. Eu queria gritar, mas minha voz não saía. De repente eu não tinha mais controle sob o meu corpo, não conseguia levantar para pedir ajuda. Ela estava bem à minha frente, eu podia tocá-la, mas nada podia fazer para salvá-la. Sentia as lágrimas rolarem pelo meu rosto, quando finalmente consegui gritar.
- ! !
Abri os olhos e dei de cara com minha mãe e meu pai me encarando.
- O que aconteceu filha? – Meu pai perguntou, se sentando ao meu lado na cama.
Foi quando percebi que ainda estava chorando e que o que eu mais temia tinha acontecido. Meus pesadelos voltaram. Mas por quê? Por que eu não consegui sonhar com o Louis?!
Comecei a chorar mais ainda, e agora eu soluçava. Meu pai me abraçou e voltei a me sentir uma criança. Talvez minha mãe tivesse razão. Talvez eu ainda não possa me cuidar sozinha.
Passei um bom tempo ali, abraçada com o meu pai. Minha mãe alisava meus cabelos. Eles sabiam o que era. Eles sabiam que meu pesadelo havia voltado. Eles passaram dois meses ouvindo esses gritos, esses choros...
E agora eu me sentia com tanto medo... Não... Eu não poderia voltar a ter esses pesadelos... Não. Por quê? Por que isso? Minha cabeça parecia que ia explodir.
Quando me acalmei um pouco minha mãe se voltou para mim.
- Está melhor? – Fiz que sim com a cabeça. – A Sr.ª Tomlinson ligou.
Me endireitei rapidamente na cama, olhando para ela, esperando por uma resposta. Estava ansiosa. Ela sorriu.
- Ela pediu para avisar que o Louis acordou.
De repente minha tristeza e meu medo foram embora. Uma felicidade tomou conta de mim, e ela queimava por dentro. Era oficial, o Louis estava acordado.
- Quero visitá-lo. – Disse, encarando minha mãe.
- Tudo bem. – Ela disse, e isso me surpreendeu. Achei que ela não deixaria. – Todos nós vamos, afinal, ele é o filho dos nossos vizinhos.
“Droga”. Pensei. Eu queria ficar sozinha com ele.
Tomei outro banho antes de ir ao hospital, e devo admitir que nunca passei tanto perfume na minha vida. Eu estava feliz porque veria o Louis, e queria estar bonita para ele, e cheirosa, é claro. Eu estava me sentindo uma boba, e sorria de tudo.
Meu pai nos levou de carro até o hospital. Quando chegamos, seguimos direto para a recepção, onde a moça deu um cartão de visita para cada um de nós.
Já estávamos no segundo andar quando avistamos a Sr.ª Tomlinson. Ela estava radiante, assim como eu. Quando ela me viu, logo abriu um sorriso.
- ! Minha querida. – Ela me abraçou, permitindo que algumas lágrimas de felicidade caíssem.
- Como ele está? – Perguntei.
- Ótimo. O médico disse que ele não teve nenhuma sequela, mas que vai precisar ficar internado pelo menos mais uns três dias. Isso é um milagre! Os médicos não conseguem acreditar que o Louis acordou e não teve nenhuma sequela.
- Isso é ótimo, Johanna! – Disse minha mãe, abraçando a Sr.ª Tomlinson.
- Sim! – Ela disse, ainda com um sorriso enorme no rosto. – Venham! – Ela disse, abrindo a porta do quarto, onde Louis estava, e nos convidando para entrar.
Lá estava ele, deitado na cama. Ainda tinha a aparência fraca. Estava um pouco pálido e os arranhões do acidente se destacavam no seu rosto, em vermelho. Sorri ao vê-lo. Assim que entramos ele virou o rosto para a porta, nos encarando.
- Visita para você, filho. Esses são os nossos vizinhos aqui em Londres. Sr. e Sr.ª e a filha deles, .
- Olá! – Ele disse, dando um pequeno sorriso. Tudo para ele parecia exercer um grande esforço.
- Que bom que você acordou, Louis. Sua mãe estava tão triste. É ótimo ver que você está bem! – Disse minha mãe, se aproximando a cama de Louis.
- Obrigado, Sr.ª . – Ele disse, mostrando outro pequeno sorriso.
- Pode me chamar de , querido. – Disse minha mãe, sorrindo.
- Vocês querem café? Tem uma máquina ótima aqui perto, vamos lá! – Disse a Sr.ª Tomlinson.
Meus pais a seguiram, mas eu fiquei na sala. Louis me encarou sem entender nada. Tinha algo estranho. Me aproximei dele, sentando na cadeira ao lado da cama, a mesma onde peguei no sono.
Louis continuava me encarando.
De repente, tudo fez sentido para mim. Estava feliz pelo Louis estar acordado, mas agora uma tristeza tomava conta de mim. Ele não se lembra de mim. Senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto. Ele me olhou, confuso.
- Você está bem? – Ele perguntou.
- Você não se lembra de mim, não é? – Perguntei.
- Não... Desculpe. – Ele disse. Parecia triste por mim.
Agora eu sei por que não sonhei com o Louis e o porquê do meu pesadelo ter voltado. Louis estava acordado e não mais preso a um sonho... E também não precisava mais de mim.
Enxuguei minhas lágrimas e forcei um sorriso. “Tudo bem”, eu disse para ele. Não havia nada que eu pudesse fazer.
A Sr.ª Tomlinson entrou na sala acompanhada de meus pais, cada um com um copo plástico nas mãos, com certeza da máquina de café. Voltei meu olhar novamente para Louis, que fez o mesmo. Ele deu um pequeno sorriso de canto, fiz o mesmo.
Alguns minutos depois o Sr. Tomlinson entrou na sala.
- Com licença... – Ele disse, se aproximando de Louis. Os dois choravam.
O Sr. Tomlinson abraçou Louis cuidadosamente.
- Desculpe não ter vindo antes, filho. Eu senti tanto sua falta, tive tanto medo de te perder.
- Eu te amo – Louis disse.
Senti vontade de chorar de novo e senti um pouco de inveja. Queria que Louis pudesse se lembrar de mim... tudo que a ente viveu, mesmo que em um “sonho” foi uma mentira? Pra mim foi tudo tão real. Eu me apaixonei pelo Louis, e eu tenho certeza de que ele também se apaixonou por mim... mas por que ele não consegue se lembrar de nada?
Depois de conversar com Louis, o Sr. Tomlinson se voltou para meus pais e para mim, nos cumprimentando e agradecendo nossa visita. Aproveitei o momento em que eles conversavam e me aproximei novamente de Louis.
- Eu só queria que soubesse que a pesar de não se lembrar de mim, sei lá, eu não vou esquecer de você, não tenho como. Queria tanto que pudesse se lembrar. – Disse, abaixando minha cabeça.
- Eu também queria me lembrar, mas se não conseguir lembrar de você, a gente poderia começar tudo de novo... Poderíamos? - Levantei minha cabeça, olhando para Louis, ele sorriu. Sorri junto com ele.
- Claro! - Eu ainda sorria.
- De onde eu te conheço? – Ele perguntou, fazendo aquela cara de quem tenta forçar para lembrar de algo mas não consegue.
- É complicado... – Eu disse. Seria estranho contar isso para o Louis... acho que ele nem acreditaria e ainda me acharia uma idiota. Isso seria... estranho. Pelo menos se eu estivesse no lugar dele e ouvisse a verdade soaria estranho.
- ! – Minha mãe me chamou, interrompendo uma pergunta que Louis estava prestes a fazer. – Vamos! – Ela se aproximou de nós dois, se despedindo do Louis.
- Tenho que ir... – Disse para ele. – Até.
Três dias se passaram. Mesmo a conversa com Louis sobre ele querer começar tudo de novo, me conhecer de novo... não seria a mesma coisa. Isso estava me deixando louca. Nesses 3 dias não voltei ao hospital para vê-lo, mesmo querendo muito vê-lo de novo. Sentia sua falta. Falta de conversar com ele, abraçá-lo. Se me encontrasse com ele novamente não saberia o que dizer... e se ele me perguntasse de novo sobre como nos conhecemos? Não conseguia mais sonhar com ele, o lugar dos sonhos com Louis eram preenchidos por antigos pesadelos. estava neles. E devo confessar que a tristeza voltava a tomar conta de mim. Só sentia vontade de ficar no meu quarto, deitada em minha cama. Na maior parte do tempo lamentando sobre minha vida, ou a vida em si. Chorava e sempre me perguntava: Por quê? Porque teve que morrer? Eu sei que todos nós teremos que morrer algum dia, mas era só uma jovem como eu, e tínhamos feito muitos planos juntas... planos que nunca saíram do papel. Às vezes eu sentia medo da morte. Logo quando morreu a ficha demorou um pouco para cair... era estranho. De repente uma pessoa que você conhece e ama não existe mais... só restam lembranças. E todas aquelas perguntas de crianças assombravam minha cabeça. Perguntas como: “De onde viemos?”, “Para onde vamos?”. Eu me sentia muito pequena. Sério. Quando você para, para analisar o mundo e tudo que existe nele, o Universo em si. É algo muito grande e complexo... e você não faz ideia de como aquilo tudo surgiu, e quando tudo vai acabar, e porque estamos aqui... como pode tudo ter surgido do nada? Não estou dizendo que não acredito em Deusm mas quando eu era criança sempre me perguntava: “Se Deus existe quem foi o homem que criou Deus? Ou o homem que criou quem criou Deus?”. É, eu sei. Muita loucura pra uma criança pensar. Mas como eu disse, é estranho pensar que tudo surgiu do nada. E às vezes eu me pergunto se tudo isso existe mesmo e como seria estranho morrer. Talvez agora eu acredite em fantasmas, depois dos sonhos que tive com o Louis, porque de alguma forma, Louis estava à beira da morte... mas ainda sim tenho dúvidas. Como seria morrer e ser um nada? Não existir. Não consigo imaginar. Acho que acredito que quando as pessoas morrem acabam voltando depois de um tempo. E eu não consigo ter só uma religião, porque às vezes algo que tem em cada uma delas me interessa... tem coisas que eu acredito e outras não. Da mesma forma que consegui sonhar com o Louis, gostaria de sonhar com ... saber onde ela está e como ela está. Ou será que ela já voltou para a Terra? É estranho.
Esses pensamentos e perguntas tem voltado a assombrar minha mente esses dias e tenho sentido muito medo. Acho que a depressão está voltando a tomar conta de mim.
Amanhã é quinta-feira, dia de ir para a psicóloga. Será que eu devia contar tudo o que penso para ela? É complicado.
Faltei aula nesses três dias, sem minha mãe perceber. Fingia que ia para escola e depois voltava para casa, quando ela já havia saído para trabalhar. Era estanho sentir tudo isso de novo, e ter vindo assim tão rápido piora mais ainda.
O telefone tocou pela manhã, quando minha mãe já havia saído. Era da minha escola. Tentei deixar minha voz “rouca”, fingindo que estava doente. Eles acreditaram. Pelo menos não vão tentar ligar mais para falar com minha mãe.
Ouvi uma barulho de carro chegando e tomei um susto. Será que eram meus pais? Fui até a janela do meu quarto, me escondendo atrás da cortinha para observar. Era o Sr. e a Sr.ª Tomlinson e no banco de trás estava ele... Louis. Respirei fundo ao vê-lo. Sentia tanta saudade. A pior saudade é aquela de quem está perto de você, mas não há nada que você possa fazer para mudar a situação.
Os três entraram em sua casa e lá ficaram. E eu voltei para a minha cama.
Mais tarde minha mãe havia chegado em casa, ela apareceu em meu quarto, perguntando como eu estava. “Bem”, eu disse. Não adiantaria nada dizer tudo que eu estava pensando ou sentindo.
O dia foi normal e chato e agora eu pensava que na minha vida não estava tento muito diferença entre a morte. É como se eu em existisse mais. Como se só meus pais soubessem de minha existência e sentissem minha falta. Digo isso porque nem mais na mesa de jantar faço questão de estar.
Na manhã seguinte não tinha como ficar em casa. Hoje minha mãe havia tirado o dia de folga e mais tarde ela me levaria à psicóloga.
A temperatura estava agradável hoje e o Sol tentava aparecer por entre as nuvens.
Quando cheguei na escola lá estava Inés, sentada sozinha. Parecia triste.
- ! – Ela abriu um sorriso quando me viu, e veio em minha direção.
- Oi Inés! – Tentei ser agradável, a pesar de não estar com vontade de ver e nem falar com ninguém. Afinal, ela não tem culpa.
- Não te vi nesses três dias de aula. Estava doente? – Ela perguntou, me convidando para sentar.
- Quase isso... – Eu disse, me lembrando de tudo que tinha acontecido. Deixei uma lágrima cair, e enxuguei logo desejando que Inés não a tivesse visto. Mas infelizmente viu.
- O que aconteceu, ? – Ela perguntou, alisando minhas costas, como quem dissesse: “Vai ficar tudo bem.”. Eu gostava quando as pessoas diziam essa frase para mim, a pesar de eu saber que nada mudaria, mas a frase passava um pouco de esperança. Se é que me entendem.
- É complicado, Inés... não tem como você entender... às vezes nem eu mesma entendo.
Inés balançou a cabeça em concordância.
- Vê se não some mais. Você é a única pessoa legal nessa escola. Passei esses três dias sozinhas. – Ela disse. E eu sabia que ela estava dizendo a verdade, porque ela parecia meio triste.
- Desculpe, Inés. – Era estanho pedir desculpas por isso, mas eu sabia como era se sentir sozinha. E realmente, não tinha ninguém legal naquela escola.
- E se precisar desabafar, eu quero que saiba que pode contar comigo. Eu não vou contar nada para ninguém, . Eu conheço boas pessoas de longe, e você é uma pessoa boa. Eu espero que algum dia você me considere como uma amiga.
- Obrigada. – Foi a única coisa que conseguir dizer. Mas eu ainda não estava pronta pra contar minha história para Inés, pois ainda era muito difícil para mim pensar nisto, quanto mais contar toda a história para alguém.
O sinal tocou e então tive que me separar de Inés. Mais tarde nos veríamos na aula de espanhol. Segui para minha primeira aula do dia, e a única que eu gostava: Aula de música.
Fui a primeira a entrar na sala, então aproveitei e escolhi logo um Instrumento no fundo da sala. Peguei um violão. Era o único que sabia tocar. Sentei numa cadeira qualquer e comecei a tocar. Fazia um bom tempo que não tocava violão, meu dedos doíam um pouco.
- Muito bom! – Ouvi alguém falar e me assustei. Ou me arrepiei? Porque eu conhecia aquela voz. Levantei a minha cabeça e minha suspeita se confirmou. Era ele. O Louis.
Senti meu rosto corar. Parei de tocar na hora. Meu corpo tremia. E agora?
- Ern... obrigada... – Eu disse. – O que está fazendo aqui?
- Eu vou estudar aqui. – Ele disse, sentando ao meu lado. – É bom ter uma conhecida.
Eu não conseguia parar de olhar seus olhos. Aqueles olhos esverdeados. Acho que eu meio que paralisei.
- Alô-ôu! – Foi então que eu me toquei que o Louis balançava a mão diante do meu rosto, para me fazer notá-lo.
- Des-desculpe. – Eu disse sem graça. – Como você está? – Perguntei. E meu Deus! Eu ainda não conseguia acreditar que o Louis estava ali.
- Estou bem... – Ele disse respirando fundo.
- Como é “estar de volta”? – Perguntei, e ele deu uma risada tão linda.
- É muito bom! – Ele disse.
Ficamos em silêncio por um breve tempo.
De repente Louis começou a cantar uma música. Ele não cantava alto. Era como se estivesse cantando só para ele.
A música era Look After You, do The Fray.
Senti uma lágrima de felicidade cair do meu olho. Lembrei do sonho em que estive com o Louis naquele lindo lago em Doncaster... e ele cantou esta mesma música para mim.
Então comecei a tocá-la no violão. Louis olhou para mim, confuso, mas ainda continuava a cantar. Era como se ele estivesse se lembrando de algo. Ou tentando se lembrar.
- ? ? – Ouvir a voz do professor me chamar e parei na hora de tocar, e o Louis de cantar.
- Desculpe professor. – Foi então que notei que a sala estava completamente cheia e nem eu, nem o Louis havíamos percebido isso. Ele olhou surpreso para mim.
Agora o professor fazia a chamada.
- Louis Tomlinson? – Louis levantou a mão. – Seja bem-vindo.
Louis olhou para mim e sorriu. Ele era tão lindo.
- Então alunos, quero que cada um de vocês se dirijam ao fundo da sala e escolham um instrumento. Parece que já tem o dela. – Dei um sorriso sem graça.
Louis apareceu um teclado nos braços.
- Quero toco mundo tocando e cantando Let It Be dos Beatles.
Digamos que valeu a pena acordar e ir para a aula hoje. Não só por ter me encontrado com Louis, o que foi a melhor coisa nesse meio da semana, mas eu adorava Beatles, e ver todo mundo cantando e tocando juntos me emocionou um pouco. E Louis tocava o teclado tão bonito. As vezes me pegava olhando para ele, e quando ele olhava de volta, e percebia, eu virava minha cabeça rapidamente, mas sentia que ele dava um leve sorriso.
Depois de mais algumas músicas e ensinamentos a aula chegou ao fim.
Enquanto eu guardava o violão no fundo da sala Louis se aproximou de mim. Tomei um leve susto.
- Qual sua próxima aula? – Ele perguntou, cheio de expectativas.
- Espanhol... – Eu disse, e ele pareceu triste.
- A minha é de história...
- Como você vai voltar para casa? – Eu perguntei, e me surpreendi comigo mesma.
- Minha mãe vem me buscar de carro. Quer carona? – Ele perguntou, sorrindo.
- Seria legal. – Sorri de volta.
- A gente se vê no intervalo. – Ele disse.
- Até mais... – Eu disse.
A aula de espanhol demorou para terminar. Acho que porque eu estava muito ansiosa para a hora do intervalo, para poder ver o Louis.
Quando o sino bateu, quase sai correndo para o refeitório. Inés estava louca atrás de mim.
Louis estava logo na entrada do refeitório, e sorriu ao me ver. Inés estava ao meu lado.
- Inés, este é o Louis, meu vizinho. – Eu disse, sorrindo.
- Oi! – Ela disse, apertando a mão de Louis.
- Oi. – Ele respondeu.
Escolhemos uma mesa no fundo do refeitório. Louis contou um pouco de sua história e Inés ficou muito surpresa.
- Foi um milagre! – Ela disse, sorrindo. – Como mi madre diria: “Usted has nacido de nuevo!”
Louis olhou para mim, sem graça. Ele não havia entendido nada que Inés falou. Sorri.
- Ela quis dizer que “você nasceu de novo!”. – Eu disse, baixinho, perto de seu ouvido. Ele riu sem graça.
- De onde você é, Louis? – Inés perguntou.
- De Doncaster. – Nós respondemos juntos. Louis me olhou surpreso, e eu fiquei vermelha de vergonha.
O sinal bateu anunciando o fim das aulas. Fiquei na frente da escola, esperando por Louis.
- Oi! - Ele apareceu, com aquele sorriso lindo no rosto.
- Oi – Sorri timidamente.
- Nada de Sr.ª Tomlinson até agora, né? – Ele perguntou e eu balancei a cabeça negativamente, confirmando sua pergunta. Nós rimos – ... – Ele ficou um pouco sério – Onde nos conhecemos?
Eu respirei fundo. Eu temia que ele me perguntasse isso. E porque eu fui dizer que ele morava em Doncaster? Inés havia perguntado a ele, e não a mim!
- É... – Uma boazinha me interrompeu na hora em que ia dar um desculpa. “Ainda bem!”, pensei. – É sua mãe! Vamos! – Eu disse, puxando seu braço cuidadosamente.
- Oi ! Querida! Não sabia que estudava aqui! Que surpresa boa! – A Sr.ª Tomlinson ficou muito feliz em me ver.
- Oi tia! Tudo bom? – Perguntei.
- Tudo ótimo. Como foi o dia de vocês?
- Foi bom... – Disse Louis, e eu sabia que tinha sido mais ou menos. Primeiro dia de aula em uma escola nova sempre é assim. – Ainda bem que a estuda aqui, se não com certeza teria passado o intervalo sozinho. – Ele olhou para mim e sorriu. Porque ele fazia isso comigo.
Depois de alguns minutos havíamos chegado na nossa rua.
- Tchau, tia! Obrigada pela carona! Tchau Louis...
- Foi bom passar o dia com você, , espero que possamos ser amigos de novo. – Ele disse, e eu senti um aperto no peito. “Amigos”. – Até logo! – Ele disse.
- . - Ouvir a Dr.ª me chamar. Dirigi-me até a porta que levava ao seu consultório. - Tudo bom, ? - Ela perguntou e eu fiz que sim com a cabeça.
Sentei na mesma cadeira que havia sentado uma semana atrás e nossa... Passou tão rápido... Só agora havia parado para analisar que em uma semana conheci o Louis em meus sonhos, me apaixonei por ele, havia encontrado ele e ele havia acordado. Mas a verdade é que quando eu estava sonhando com Louis aqueles sonhos parecia não ter fim. Eu sentia como se conhecesse ele há anos.
- Como passou essa semana? - Perguntou a Dr.ª Foster, interrompendo meus pensamentos.
- Normal... - Menti, afinal o que eu falaria? "Foi muito agitada, conheci um menino nos meus sonhos, descobri que ele estava em coma e faz uns 3 dias que ele acordou".
- , você não está colaborando muito. Precisa me ajudar... Se ajudar. - Disse a Dr.ª Foster, me encarando como estivesse tentando me decifrar.
- Desculpa se minha vida é tão monótona, Dr.ª Foster. E caso não tenha notado, eu não quero ajuda. Eu já te contei o que me atormentava semana passada, estou me sentindo bem melhor, então...
- Não é assim que funciona, . - Ela disse, sem perder a postura.
- Como é então? Quer que eu conte do meu dia no colégio? Como se eu fosse uma criança? Então tá... Meu dia no colégio foi normal, com pessoas normais, aulas normais, cheguei em casa e almocei um comida normal e depois minha mãe me trouxe aqui, ou seja, dia normal, vida normal. Adeus. - Eu disse me levantando da cadeira.
Saí da sala com uma raiva que me tomava por dentro. Não conseguia entender porque minha mãe e essa Dr.ª achavam que eu precisava dela. Isso era ridículo.
- ! Onde você está indo? - Minha mãe se levantou correndo atrás de mim. - !
Saí andando pelas ruas de Londres, aos poucos deixando minha mãe para trás. Ela gritou meu nome várias vezes, mas tudo que eu queria era ficar sozinha. Estava cansada. De tudo.
Corri umas duas quadras até avistar um ponto de ônibus. Peguei um ônibus que passasse pelo Hyde Park. Meu lugar preferido em toda Londres. Lá era o melhor lugar que tinha para pensar, onde eu podia ser eu mesma.
- ? - Senti um arrepio percorrer todo o meu corpo. Eu conhecia aquela voz. Me virei para ver quem era, ainda surpresa.
- Louis... O que está fazendo aqui? - Perguntei, e devia estar parecendo uma idiota porque ele deu um pequeno sorriso.
- Vejamos... Pegando um ônibus? - Ele riu. Ri junto. Senti minhas bochechas queimarem de tanta vergonha que estava sentindo.
- Eu quis dizer... É... Para onde está indo? - Perguntei, sem graça.
- Eu entendi, só estava te abusando. - Ele disse, com aquele sorriso lindo tomando seus lábios. Não tinha como não devolver aquele sorriso. - Eu não sei... Na verdade não conheço Londres, nunca estive aqui. Só estava tentando me perder mesmo...
Ele se sentou ao meu lado.
- Se perder? - Perguntei, sem entender muito bem.
- É que minha vida anda tão... Diferente. Parece que falta alguma coisa. - Ele disse. Parecia ter sido tomado por uma tristeza repentina. E naquele momento eu pude compreendê-lo, porque na minha vida também faltava algo. Ele.
- Deve ser normal você está se sentindo assim, Louis. Depois tudo vai melhorar. Você vai ver. - Eu disse, alisando sua mão. Ele sorriu, alisando minha mão de volta.
Sentir seu toque era a melhor coisa. Era como se eu ainda estivesse em um daqueles sonhos com o Louis, eu podia sentir seu toque exatamente como era no meu sonho. Quente e reconfortante.
- Eu vou te apresentar a Londres. Você vem comigo? - Perguntei.
- Claro! - Ele disse, animado.
O ônibus havia parado em um ponto de ônibus perto do Big Ben, e eu não podia deixar de apresentá-lo ao Louis.
- Venha! - Eu disse me levantando do banco do ônibus. Ele me seguiu.
Caminhamos por Londres a tarde inteira e acho que eu não me esqueci de mostrar nenhum lugar ao Louis... Quer dizer... Faltava um, que era muito especial.
Quando já estava escurecendo pegamos outro ônibus, agora eu o levaria ao Hyde Park. Meu refúgio. Onde já estive com Louis em um sonho.
- Para onde estamos indo? - Ele perguntou ansioso.
- Só falta eu te mostrar um lugar. Você vai adorar. - Na verdade, ele já adora, mas não sabe... Não se lembra disso. - É o meu lugar preferido de toda a cidade. Sempre que estou triste ou preciso de um tempo sozinha para pensar eu vou lá.
- Estou precisando de um lugar assim - Ele disse pensativo.
- O que foi? - Perguntei. Do nada Louis ficava com uma carinha triste e aquilo partia meu coração.
- Nada - Ele disse. Mas eu sabia que tinha algo incomodando o Louis.
- Chegamos - Eu disse, levantando-me da cadeira.
Quando soltamos no Hyde Park Louis parecia bastante surpreso.
- Eu já estive aqui. - Ele disse. - Isso é muito estranho... Porque eu... Nunca estive aqui.
Uma felicidade tomou conta de mim. Louis poderia estar perto de se lembrar de mim. Dos momentos que passamos juntos.
- Desculpe - Ele disse - Estou confuso...
- Talvez você tenha estado aqui... Em um sonho. - Eu disse, esperando que isso despertasse algo nele.
- Pode ser - Ele disse, parecendo tentar de lembrar-se de algo. Mas nada aconteceu.
- Vamos? - Eu disse, o convidando a atravessar a rua para entrar no Hyde Park.
Caminhamos um pouco pelo parque e depois paramos, sentando em um banco de frente para uma enorme fonte. Lembrei-me do dia em que eu havia voltado de Doncaster e estive naquele mesmo parque, sentada em um banco qualquer, desejando que Louis estivesse do meu lado. E ali estava ele, mas ele ainda não me pertencia. Me senti triste de novo. Não havia nada que eu pudesse fazer pra mudar isso... Para fazer Louis se lembrar de mim e dos sonhos que tivemos... E se eu contar para ele sei que ele não vai acreditar em mim.
- O que foi? - Ele perguntou, reparando em minha tristeza repentina.
- Nada... É que eu estava perdida em pensamentos... - Disse, respirando fundo.
- Eu posso perguntar o que é? - Ele disse, sorrindo, tentando me fazer sorrir também, o que ele sempre conseguia.
- É que também falta algo em minha vida, Louis. - Senti meus olhos lacrimejarem e sabia que ia chorar. Abaixei minha cabeça. Não queria que ele me visse chorando. Permiti que as lágrimas caíssem.
Eu me sentia tão mal... Ao mesmo tempo em que não queria contar, eu queria contar, e isso estava me deixando louca. Eu não podia viver sem o Louis, mas viver com ele agora, sem ele se lembrar de nós dois antes era uma sensação horrível. Sei que devia agradecer por ele estar ao meu lado, mas eu me sentia estranha, ainda mais por esconder isso dele.
- Louis - Eu respirei fundo - O que falta em minha vida é você. -Disse. Ainda mantia minha cabeça abaixada. Passamos, o que pareceu uma eternidade, calados, até Louis quebra o silêncio.
- ... - Ele disse, tocando em meu queixo. Levantei minha cabeça para olha-lo. Lágrimas ainda escorriam pelo meu rosto. Louis enxugou alguma delas e me abraçou.
Estava desejando esse abraço há muito tempo.
- Eu queria muito me lembrar, juro - Ele disse, e então eu percebi que ele também estava chorando. - Eu passo o dia todo tentando me lembrar... Sei que te conheço de algum lugar... Às vezes acho que vou ficar maluco, de tanto forçar isso. Me ajude a lembrar, .
- Se eu te contar você não vai acreditar. Sei que parece clichê... Mas é a verdade. - Eu disse.
- Por favor, ... Conte como nos conhecemos. - Ele disse. - Só você pode me ajudar... Nos ajudar. - Ele disse, olhando nos meus olhos.
Eu respirei fundo.
- Está bem - Eu disse por fim - Eu... Eu te conheci em um sonho... - Antes que eu pudesse terminar de contar a história ouvi a risada de Louis. - Eu sabia... Eu sabia que você não ia acreditar em mim... Que nem sequer iria querer saber da história.
- Em um sonho? Francamente, ... Você podia ter inventado outra coisa, uma coisa mais real, se não quisesse que eu soubesse a verdade. - Ele disse, e sua expressão mudou totalmente. Ele havia parado de chorar e agora seu rosto estava vermelho. Ele estava com raiva de mim, eu podia sentir.
- Mas essa é a verdade, Louis. Eu juro. Enquanto você estava em coma eu tinha sonhos com você... Você me visitada. Foi assim que a gente se conheceu... que eu te ajudei. Por favor, acredite em mim. - Mas era tarde demais. Louis havia se levantado do banco e me deixado sozinha. Não tive forças para ir atrás dele. E do que adiantaria? Ele não me deixaria continuar a explicação. O único jeito era esperar... Esperar que ele se lembrasse de algo. Essa era a minha esperança agora.
Eu caminhava pelas ruas iluminadas de Londres, já era noite. Pessoas apressadas esbarravam em mim, sem nem ao menos pedir desculpas. Eu me sentia perdida, apesar de saber exatamente onde eu estava, e uma tristeza horrível tomava conta de mim, a mesma tristeza que senti quando foi embora. Lágrimas escorriam pelo meu rosto e eu não conseguia as fazer parar. Meu coração doía e o frio de Londres percorria todo meu corpo. Aos poucos ia perdendo a pouca força que ainda tinha. Encostei-me em um poste qualquer e deixei meu corpo escorregar até sentar na calçada. As dezenas de pessoas que passavam por mim me encaravam como se eu fosse maluca. Tateei os bolsos da minha calça, a procura do meu celular e digitei o número de casa, analisando-o por um instante para pensar se ligava ou não.
- ? – Era Inés. Ela se agachou até seus olhos ficarem na mesma altura que os meus. – Você está bem?
- Sim... – Eu disse, esfregando minha mão nos olhos, tentando limpar qualquer vestígio de choro.
- Tem certeza? Porque dizer que está bem e enxugar algumas lágrimas no rosto não transparece isso. – Ela disse, dando um pequeno sorriso. – Venha comigo.
Inés segurou minhas duas mãos, me ajudando a levantar.
- Para onde você está me levando? – Perguntei um pouco zonza, por conta da quantidade de pessoas que passavam por nós na calçada.
- Meus pais viajaram, então eu sai para comprar alguma coisa para jantar... E você, o que fazia sozinha por aqui?
- Prefiro não falar sobre isso... Tudo bem?
- Tudo bem. – Disse Inés. – Está com fome?
Fiz que sim com a cabeça.
- Inés... Posso passar a noite na sua casa? – Perguntei. A verdade é que eu não estava afim de voltar pra casa e ter mais uma discussão com minha mãe, ou ver Louis me ignorar.
- Claro! Odeio ficar sozinha.
Não demorou muito e logo chegamos a um supermercado no mesmo bairro.
- Você gosta de pizza? – Perguntou Inés, enquanto passávamos pela área de frios, e imediatamente me lembrei de Louis, de uns dos nossos sonhos, onde conversamos sobre nós, tentando conhecer um ao outro. Ele havia me perguntado qual era minha comida preferida e eu havia dito que era pizza, assim como era a dele. – ? – Inés balançava a mão freneticamente em frente ao meu rosto, tentando chamar minha atenção, e havia conseguido.
- Gosto sim. – Disse, dando um pequeno sorriso.
- Tem de mussarela, calabresa e quatro queijos. Qual você prefere?
- Qualquer uma tá bom. – Disse dando de ombros. – Gosto das três opções.
- Ok... Então vou pegar a de quatro queijos. – Disse Inés, pegando a pizza e me chamando para segui-la até outro corredor. Era o corredor dos doces. Quem não ama esse corredor?
- Bem que a gente podia fazer uma noite do pijama. – Ela disse. – Comer um monte de besteira a noite toda, assistir filmes até tarde, sem ninguém para nos controlar.
- Seria muito bom! – Eu disse. Desde a morte de que eu não me divertia. Costumávamos nos reunir quase todos os fins de semana para fazer uma noite do pijama. – Mas amanhã temos aula...
- E se não formos à aula?
- Inés! – Eu disse, jogando um saco de alcaçuz nela. – Adorei!
Nós duas rimos.
Seguimos para o caixa com o carrinho cheio de besteiras. Pizza, alcaçuz, marshmallows, chocolates, salgadinhos e refrigerante. Eu não tinha muito dinheiro, mas ajudei Inés a pagar, apesar de ela ter insistido para que eu não pagasse nada.
Uma parte de mim se sentia feliz, por estar com Inés, eu sentia que agora eu tinha uma amiga... Mas a outra parte doía. Sentia por Louis.
Saímos do mercado, atravessamos umas duas ruas e logo estávamos no lugar em que Inés morava. Era uma rua típica de Londres, com casas e apartamentos, uns colados nos outros. Inés morava numa linda casa, entre dois apartamentos. A fachada quase toda encoberta por uma planta que se enroscava pela parede. Era linda. Parecia aquelas casas de filmes românticos, com flores caindo por cima da porta principal.
A porta de entrada dava para um hall, que era decorado com duas poltronas, uma mesinha com algumas fotos de família e um lindo papel de parede de listras brancas e amarelas. Eu estava encantada pela casa de Inés. O papel de parede com listras brancas e amarelas trazia um sentimento de aconchego inexplicável. Em um dos porta-retratos que estavam na mesinha, havia um casal abraçado, os dois sorriam, olhando para a câmera.
- São os meus pais. – Ela disse, com um sorriso nos lábios. – Lindos, né? Essa foto foi tirada no dia em que eles se conheceram.
Sim, os dois eram muito bonitos. Inés se parecia muito com sua mãe. Os mesmos olhos grandes e castanhos, cabelos loiros e ondulados. Já seu pai tinha uma beleza típica dos homens britânicos... Cabelos curtos e morenos, alguns dentes tortos e olhos azuis.
- Venha. – Inés me convidou para subir uma linda escada helicoidal, que nos levaria ao seu quarto.
- Sua casa é incrível! – Eu disse, analisando o quarto de Inés. Parecia um daqueles quartos de revistas de decoração de imóveis, que todo mundo sonha em ter.
- Obrigada, . – Ela disse. – Minha mãe é arquiteta. Ela decorou essa casa inteira sozinha. Amo o trabalho dela.
Ela me chamou “”? Fazia um bom tempo que ninguém me chamava pelo meu apelido.
- Agora eu sou uma grande admiradora do trabalho de sua mãe. – Eu disse.
- Direi isso a ela quando ela voltar. – Disse Inés, sorrindo. – Ei, vê se tá passando algum filme legal aí na TV. – Ela disse, jogando o controle para mim.
Louis’ POV
Não sei como consegui chegar em casa. Peguei um ônibus qualquer e parei em uma rua que reconheci, pois era próxima a minha. Essa foi a minha sorte, se não, eu não saberia como voltar para casa.
Estava me sentindo bastante confuso sobre a . Sobre as coisas que ela me disse hoje à noite. Por que ela inventaria uma história daquelas? Ela poderia ter inventado qualquer outra coisa... Nada fazia sentido para mim. Eu sentia minha cabeça doer, como se ela fosse explodir a qualquer momento. A todo tempo eu forçava, tentava me lembrar de onde eu conhecia a , e eu sentia que isso ia acabar me levando a loucura. Senti algumas lágrimas escorrerem de meus olhos.
- POR QUE eu não consigo me lembrar?! – Perguntei a mim mesmo, batendo minha testa na porta da frente de minha casa, numa fracassada tentativa de me lembrar de algo. Qualquer coisa associada à .
- Filho? – Ouvir minha mãe chamar. A voz vinha de dentro da casa.
Ela abriu a porta, me encarando, estava com a expressão preocupada.
- O que aconteceu? Você está... Chorando? – Ela perguntou.
- Eu estou bem, mãe... É só que... Tem coisas de que eu não consigo me lembrar. – Eu disse, me jogando no sofá da sala.
- Filho, já conversamos sobre isso. O doutor disse que é normal, aos poucos sua memória voltará. Não force tanto isso, só vai piorar. – Ela disse, alisando minha cabeça. Depois mudou totalmente de expressão, me observando. – E, a propósito... Onde você estava até agora? Eu estava preocupada com você. Nem conhece a cidade direito. Onde você estava?
- Fui dá uma volta por aí... E, “a propósito”, CONHECER a cidade. – Eu disse rindo, e logo a vi rir junto.
- Ah, é? Então me conte tudo. Ainda não conheci a cidade. – Ela disse, empurrando minhas pernas para o lado devagar e sentando-se ao meu lado no sofá.
- Na verdade a me mostrou tudo... – Eu disse, me lembrando dela, e logo senti um aperto no coração. Não devia ter tratado a daquela forma. Mesmo que eu não tenha gostado da história que ela inventou. Ela foi legal o tempo todo comigo. Desde que eu acordei.
- Ah, é? – Ela disse, rindo. – Ela é uma boa garota.
- Mãe... Não comece. – Eu disse. Mas a verdade era que eu sempre senti algo muito forte em relação à ... Amor, ódio... Não sei explicar.
- Eu te contei que no dia em que você acordou ela estava lá no seu quarto? No hospital... Eu achei muito estranho, na verdade, eu tomei um susto quando a vi, cheguei a tratá-la mal. Mas aí ela me disse que era minha vizinha. Mas, mesmo assim, até hoje eu não entendo o que ela fazia lá. – Disse minha mãe e eu simplesmente não conseguia entender o motivo da guardar todos esses segredos. Por que ela não me contava logo toda a verdade? Por que essa história de ela ter me conhecido em um... Sonho. Isso não é possível. Isso é ridículo.
O que minha mãe havia acabado de contar só fez gerar mais pensamentos em minha cabeça.
- Mãe... A disse que nós nos conhecíamos, mas eu não consigo me lembrar dela. E agora que você me disse isso... Tenho certeza de que eu não poderia ter conhecido ela, não em Doncaster. Se não você a conheceria também. O que é estranho também é que eu nunca estive em Londres. Também não a conheci aqui, quer dizer... Só agora.
- Só porque eu não a conheci em Doncaster, não significa que você não a conheceu. – Ela disse, forçando um pequeno sorriso. – Filho, pare de se testar... De forçar tanto isso. Quando for a hora certa você se lembrará. – Ela disse, e eu pude sentir que era verdade. – Já está ficando tarde e eu estou cansada... Vou me deitar. Boa noite, querido. – Ela disse, dando um leve beijo em minha cabeça.
- Boa noite mãe.
Eu estava na minha rua, em Doncaster. Como eu sabia? Eu apenas sabia. O céu estava cinzento, apontando uma grande tempestade e a rua estava vazia, a não ser por mim. Comecei a caminhar, à procura da minha casa e um pouco mais a frente eu vi algo... Alguém. Comecei a caminhar em sua direção e logo parei. Dois metros de distância nos separavam. Ela pareceu não me reconhecer. Estava assustada, diferente de mim... Eu estava calmo, porque não estava sozinho. Ela estava comigo. Foi então que ouvi um barulho ensurdecedor e depois senti meu corpo inteiro ser tomado por uma dor insuportável.
- ? – Abri meus olhos, ainda a enxergando em meu sonho.
Levantei com um pulo. Esse provavelmente foi o sonho mais estranho que eu já tive. Talvez uma lembrança do dia do meu acidente... Mas o que a fazia nele? Será que ela estava lá no dia do meu acidente?
Milhões de perguntas vieram à tona em minha cabeça, e muitas delas sem sentido. Comecei a sentir aquela dor estranha na cabeça, então me levantei de minha cama, seguindo para o banheiro. Hoje era sexta-feira e com certeza eu encontraria a no colégio. Eu queria me desculpar, mas também queria conversar sério com ela, saber por que ela tinha tanto medo de contar a verdade.
Tomei uma ducha quente. O tempo estava esfriando em Londres, ameaçava nevar, o que eu adorava. Vesti uma roupa de frio e desci para tomar meu café.
- Bom dia, querido. – Disse minha mãe, me convidando para sentar-me à mesa. – Consegui um trabalho no hospital em que você estava internado.
- Que ótimo, mãe! – Fiquei muito feliz por minha mãe. Minha mãe era enfermeira, mas teve que abandonar o emprego em Doncaster para cuidar de mim depois que sofri o acidente, até porque a gente teve que se mudar para Londres, pois o hospital daqui oferecia mais recursos para minha recuperação. – Eu consegui lembrar do meu acidente hoje... – Eu disse, mudando totalmente o assunto da conversa.
- Sério filho? Como foi? – Ela perguntou, tensa.
- Eu não sei se foi real, mas parecia. Na verdade foi um sonho, mas pude sentir meu corpo todo doer. Era uma dor insuportável. – Eu disse, lembrando-me do sonho... E da . Por que ela estava no meu sonho? Mas não iria contar essa parte para minha mãe.
- Oh, querido! – Ela disse me abraçando.
- Mãe, onde eu fui atropelado? – Perguntei, querendo confirmar se o que vi em meu sonho era real.
- Foi no começo da nossa rua... – Ela disse.
- Então meu sonho era uma lembrança desse dia, porque eu estava na nossa rua em Doncaster.
- Eu disse para você ter paciência, que logo se lembraria.
- Mas eu ainda estou com dúvidas em relação à . – Disse, tentado desvendar o meu sonho.
Eu precisava saber.
Louis’ POV
Eu não havia visto a no colégio hoje, nem a Inés, o que me pareceu bastante estranho. Eu precisava muito conversar com a , estava me sentindo muito mal pelo modo que a tratei ontem no Hyde Park. Eu não conseguia acreditar na história que ela me contara, sobre ter me conhecido em um sonho. Isso seria impossível. Com certeza devia haver algo por trás de tudo isso, algo que ela deve estar com medo de contar. Algo haver com o sonho que eu tive, o mesmo sonho onde a vi antes de ser atropelado.
Assim que bateu o sinal anunciando o término da última aula segui para a frente do colégio e logo avistei minha mãe. Ela ainda tinha receio de me emprestar o carro para dirigir, por causa do acidente e tudo mais, eu não a culpava. Às vezes eu sentia algumas dores estranhas na cabeça, memórias tentando se encaixar, não seria seguro estar dirigindo numa hora dessas.
- Oi mãe. – Disse, enquanto entrava no carro.
- Oi filho. – Ela disse, com um sorriso enorme no rosto. Era ótimo ter seu filho de volta. – Onde está a ?
- Ela não veio hoje. – Disse, sentindo um aperto no peito. Algo me dizia que o motivo de a ter faltado aula hoje estava relacionado à nossa pequena discussão de ontem. O que não se encaixava era o fato de a Inés também não ter ido à aula.
- Será que ela está doente? – Minha mãe perguntou, parecendo preocupada. Preocupação que só mãe entende.
- Eu não sei, não a vejo desde ontem à tarde. Mas ela estava bem, a não ser pe...
- A não ser pelo que, Louis? – Ela me encarou, parecendo bastante chateada. – O que você fez?
Alguns carros atrás começaram a buzinar, o que a distraiu por alguns segundos.
- Não pense que as buzinas te salvaram... – Ela disse, prestava atenção no trânsito, mas esperava ansiosamente por minha resposta.
- Não faça me sentir mais culpado ainda, mãe... Por favor.
- Filho, fala logo o que aconteceu.
- Ontem à noite eu tive uma discussão com a .
- Sobre o quê? – Ela perguntou, agora olhando fixamente nos meus olhos, enquanto esperava o sinal abrir.
- Sempre que eu pergunto para a como a gente se conheceu ela inventa umas histórias estranhas, de que a gente se conheceu através de sonhos... Ontem ela repetiu isso de novo e eu não gostei. Poxa, eu só queria saber a verdade, tentar me lembrar, já é bastante difícil para mim e ela ainda fica fazendo isso. – Eu disse, e a forma como minha mãe me encarou não ajudou a me sentir melhor.
- Filho, não sei se a te contou, mas esses dias estive com e ela me disse que tem depressão. Tem alguns meses que ela perdeu uma amiga, e ela não lida muito bem isso. – Ela disse, alisando minha mão ao perceber minha tristeza sobre isso. – Não fique triste, filho, você não devia saber. Quando chegar em casa peça desculpas a ela. Seja lá o que ela tenha te contado, releve.
- Mãe, eu não sabia disso. – Disse, sentindo uma lágrima escorrer pelo meu rosto, e a enxugando antes que minha mãe a percebesse. Sentia uma dor terrível por dentro. Pela .
A volta para casa seguiu em silêncio, o que me aliviou, porque depois de receber essa notícia eu só queria ficar calado, sofrendo. Eu não devia ter tratado a daquele jeito. Mas eu não sabia da história dela. Por mais estranho que fosse sobre ela falar que me conheceu em um sonho... Sei lá, pode ser invenção da cabeça dela por conta de depressão.
Quando chegamos à nossa rua, para piorar toda a minha culpa e a tristeza que estava sentindo, avistei um carro policial parado em frente à casa dos .
- Mãe... – Fiquei perplexo. O que eu havia feito para a ? Se tiver acontecido algo com ela... Ai meu Deus, a culpa é toda minha.
Minha mãe estacionou o carro de qualquer jeito na calçada, e seguimos em direção à casa dos .
A porta estava aberta, lá dentro estavam a Sr.ª e o Sr. , ambos sentados no sofá, abraçados. A Sr.ª chorava muito. Na frente deles haviam dois policiais.
- O que aconteceu? Cadê a ? – Eu encarava os policiais e depois me voltava para o Sr. . Eu sentia meu corpo todo doer.
- Você conhece a ? Sabe onde ela está, rapaz? – Um dos policiais me perguntou.
- O QUE ACONTECEU? – Minha voz saiu mais alterada do que pretendia.
- Calma filho... – Senti minha mãe apertar de leve o meu ombro.
- A está sumida deste ontem à tarde. – Disse o Sr. , enquanto algumas lágrimas escorriam do seu rosto.
- Você sabe alguma notícia dela, rapaz? Onde ela esteve, você a viu ontem alguma hora?
Eu me sentia atordoado. Lágrimas escorriam pelo meu rosto e a única coisa que eu conseguia sentir era culpa. Ela me consumia.
- Com licença, policial. Se me permite... Meu filho conhecia a sim, por isso está nesse estado. Peço que dê um tempo para ele se acalmar um pouco e aí sim ele poderá responder as suas perguntas. – Disse minha mãe, me levando para um canto vazio da sala dos .
- Mãe... A culpa é minha. – Eu disse, abraçando-a.
- Não filho, não é. Não fique assim. A vai aparecer, você vai ver. – Ela disse, alisando meu cabelo.
- Mas eu tenho que contar a verdade, para eles poderem encontrá-la.
- E você dirá, é claro, só não precisa comentar sobre a discussão que tiveram. Filho, fique calmo. Respire fundo. Quando mais rápido você falar, mais rápido poderão localizar a .
Dei um último abraço em minha mãe, ouvindo um “vai ficar tudo bem”.
Contei aos policiais que encontrei a no ônibus, pela tarde, e que ela havia me levado para conhecer a cidade. A Sr.ª confirmou que ela havia sumido pela tarde, quando saiu sem permissão da consulta com a psicóloga. Contei que o último lugar em que estive com ela tinha sido o Hyde Park e depois fui para minha casa.
- Mas não aconteceu nada? Algo que pudesse ter ocasionado o seu sumiço? – Perguntou o policial. Fiz que não com a cabeça, me sentido a pior pessoa do mundo.
- Vamos procurá-la naquela localidade. – Afirmou o outro policial. Aguardem aqui.
- NÃO! EU VOU TAMBÉM VOU! EU TENHO QUE ENCONTRAR A MINHA FILHA! – A Sr.ª tentava se levantar do sofá, mas estava tão triste que não tinha forças. O Sr. ainda a segurava em um abraço.
- , querida, não vai adiantar nada irmos com eles. Só vamos atrapalhar. É melhor aguardarmos aqui. Eles são policiais, vão saber o que fazer. E ainda estão com um foto da . – Disse o Sr. , tentando tranquilizá-la.
- É verdade, . – Disse minha mãe, tentando ajudar.
Os policiais saíram da casa, deixando um vazio horrível na sala dos , a não ser pelos suspiros de choro.
Enquanto todos estavam na sala, à espera dos policiais, eu não conseguia ficar sentado. Sem ninguém ver, subi as escadas, a procura do quarto da . Queria poder senti-la. Mesmo que dessa forma.
Reconheci uma porta como sendo a do seu quarto, nela havia várias fotografias dela, desde recém-nascida até hoje. Em uma das fotos haviam duas meninas, as duas aparentavam ter uns 13 anos e sorriam de volta para quem quer que estivesse tirando aquela foto. Em baixo da fotografia havia escrito “. Saudades.”, e um pequeno coração desenhado ao lado. Senti uma lágrima cair do meu olho. Não enxuguei. A dor que eu estava sentindo neste momento era realmente para ser sentida. Eu era o culpado. Somente eu.
Abri a porta e dei de cara com um quarto desarrumado. Roupas e sapatos jogados pelo chão. Na mesa do computador haviam vários papéis espalhados, e uma página e internet aberta. Segui na direção da mesma. Na pesquisa do Google várias páginas abertas, a principal sobre algo chamado “Sonhos lúcidos”, em outras guias o termo “Onironauta” e a palavra “Limbo”. Sonhos Lúcidos e Onironauta falavam sobre ter o domínio de um sonho, e Limbo sobre um lugar além dos limites do céu, um lugar para onde iriam as almas inocentes.
O que havia com a ? Porque ela tinha essa obsessão por sonhos?
- LOUIS! LOUIS! A (Marian.toUpperCase()) ESTÁ AQUI! – Ouvi minha mãe gritar do andar de baixo. Saí correndo, descendo escada a baixo. Eu precisava vê-la, me certificar de que ela estava bem.
Parei bem em frente à escada. Lá estava ela num abraço com o Sr. e a Sr.ª . Os dois policiais não estavam ali. Um alívio tomou meu coração. Do outro lado da sala minha mãe sorria para mim, eu sorri de volta. Comecei a chorar novamente, agradecendo a Deus por ela estar bem.
Foi então que finalmente nossos olhos se encontraram. Ela tomou um leve susto ao me ver, mas tinha a aparência calma, estava bem, como se o dia tivesse sido normal para ela. Confesso que fiquei chateado com isso. Enquanto estávamos aqui chorando, preocupados com ela, ela estava bem. Mas o que importava nesse momento era que ela estava ali.
Olhei para ela uma última vez e subi as escadas. Queria ficar a sós com ela, me desculpar.
Senti meu coração bater forte. Eu estava com medo da reação dela... Se ela iria me perdoar, se ela iria vir atrás de mim aqui em cima.
Entrei no quarto dela, ficando de pé em frente à porta, a esperando. Então ela surgiu em minha frente, ainda sem entender direito o que eu fazia ali. Meu coração batia rápido e de repente senti um frio percorrer o meu corpo. Respirei fundo e andei em sua direção, parando à sua frente.
- Me desculpa. – Eu disse. Então ela levantou uma das mãos, tocando meu rosto. Seu toque era reconfortante. Enquanto ela alisava o meu rosto, fechei os olhos e então me surpreendi sentindo seus lábios encostarem-se aos meus. Num momento entre o desespero e o conforto de tê-la ali, devolvi o beijo. Eu nunca havia me sentido desse jeito antes.
Continua...
Gente, eu queria pedir desculpas pela demora dos capítulos. Minhas aulas na faculdade começaram e eu estava em semana de prova. Não se preocupem, eu não vou abandonar Dare to Dream e muito obrigada pelos comentários que vocês deixam aqui, me incentivam muito. ^^