"O verão chega cada vez mais cedo", pensava Holmes enquanto abria dois botões de sua camisa. "Bons eram os tempos em que ficávamos ao lado da lareira durante todo o ano", ainda acrescentou em seus devaneios, sendo logo interrompido por um estridente Watson avançando para dentro da casa.
- Holmes, há quantos dias não joga o lixo fora? - começou o amigo, o olhando assustado pela quantidade de restos que se encontravam espalhados por seu pequeno apartamento.
- Não sei, perdi as contas no quinto dia. - nem se ocupou a olhar para o amigo - Mas é fácil descobrir: Quando foi a última vez que você jogou o lixo fora? - e diante da pergunta, amaçou mais uma folha de papel e jogou para perto das outras.
- Está tentando me dizer que os oito dias que eu fiquei fora você nem se preocupou com o lixo? - indignado, ele tentou fazer com que suas palavras repreendessem a atitude de Sherlock. Ou a falta dela.
- Você me largou por sua namorada, Cary, e... - Watson o interrompeu:
- Mary, Sherlock, seu nome é Mary, e ela é minha noiva! - corrigiu cólero.
- Tanto faz - deu de ombros, finalmente parando seu olhar sobre o amigo - O que importa é que você foi viajar com ela e me deixou aqui sozinho. Estava solitário, resolvi que o lixo era uma ótima companhia.
- Você está brincando, não, meu caro? - exclamou Watson, prendendo o riso de pretensão, quando viu Holmes menear a cabeça negativamente - Holmes, quantos anos você tem? SETE? Por que sempre tão irresponsável? - passou as mãos pela cabeça, retirando o chapéu dali e o jogando na poltrona mais próxima. - Onde está aquela sua amante?
- Amante? - Holmes encarou o doutor com uma cara de desentendido - Que eu saiba, o que foi enfeitiçado por uma mulher foi você, meu amigo. - ergueu as sobrancelhas em sinal de desprezo.
- Pode não admitir, mas seu caso com aquela mulher é antigo, pena que não recordo seu nome.
- Oh, assim como não lembrava o deu sua namorada. - repetiu o erro só para irritá-lo - Estamos quites, meu caro.
- Nunca estaremos quites, Sherlock, nunca - finalmente se acomodou na poltrona ao seu lado, onde antes havia deixado seu chapéu - Estão aqui suas cartas. - colocou-as na mesinha que separava os dois - Pensava que havia muitas cartas esses dias, mas já sei que não foi buscá-las durante o tempo que viajei.
- Watson, meu amigo, está ficando bom em adivinhações, hein. Seu professor deve ter sido ótimo - sorriu presunçosamente.
- É uma pena não poder dizer o mesmo sobre as aulas que você anda tomando de humildade. Você faltou essas aulas o tempo que fiquei fora também, não? - ele foi ignorado por Sherlock - Não atrase mais essas cartas do que já estão, Holmes. Você precisa sair um pouco de casa.
Dito isso, o doutor pegou sua bengala e ajustou o chapéu na cabeça, já se preparando para partir tão rápido quanto havia chegado.
- Vai sair de novo, Watson? Tudo bem, eu mando um telegrama quando eu resolver um desses casos de roubo de joias. - ironizou. A verdade era que Holmes não era um simples detetive. Roubos de joias eram dispensados por ele, que queria casos intrigantes, que o fizessem pensar.
- Eu estarei aqui mais tarde, caso você se interesse por algum caso. - assentiu com a cabeça para o amigo antes de sair porta a fora, sabendo que Sherlock bem ao fundo adorava sua companhia.
Suspirando, Holmes pegou uma carta no meio do bolo que John havia deixado e a observou. Primeiramente leu o destinatário, torcendo para que o carteiro tivesse se enganado, mas logo percebeu que o endereço era 221-B, Baker Street. Agora a esperança era que o próprio remetente houvesse errado o endereço, porque, se não, o destinatário era mesmo sua casa, como estava apontado ali.
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Sherlock jogou mais uma carta fora, junto com o castelo de papeis que viraram lixo. Pedidos de resgate de dinheiro e objetos valiosos, agradecimentos, curiosidades e somente um desaparecimento, nada que despertasse atenção do detetive lendário.
Até que o desaparecimento seria legal, se ele não soubesse, só por meio das informações da carta, que a nova moça não havia desaparecido, mas sim fugido com um amor proibido. "Era tão óbvio", ele refletia, "o quão mais dicas eles querem disso? Estava escrito na testa dela, e eu nem ao menos havia visto um único dia sua testa!", ainda acrescentou mentalmente, esnobe.
Sobre o dinheiro e joias que eram supostamente roubados, uma carta ou telefonema resolveria, mas ele não as fazia por puro desprezo. A resposta seria "veja em baixo de seu travesseiro, em seu cofre e em esconderijos, como paredes falsas", porque ao menos metade desses roubos eram só esquecimentos. "Se não achou até aí, procure nas coisas dos familiares que moram na mesma casa e dos empregados, e você achará". Tem como ser mais simples?
Entediado, Holmes encarou o lixo, que havia crescido desde que John saíra dali. Todos aqueles papeis haviam formado um monte de porcarias, restos e compartilhavam dessa característica. Holmes, de repente, viu-se vislumbrado em como seres mortos podiam também construir uma relação por características em comum. Assim como os humanos fazem amigos por pensarem e terem gostos parecidos.
Correu para perto do monte e tirou tudo dali que não era papel e, portanto, intrusos. Em seguida, com cuidado, começou a montar uma espécie de castelo gótico, alto e aparentemente frágil, sem mudar as estruturas que os papeis haviam adotado quando Holmes os amassou mais cedo. Foi colocando uma em cima da outra, até que quase todas estivessem intactas em suas posições e funções. Só faltava uma.
Sorrindo por seu trabalho, ele escutou um barulho vindo da porta, mas ignorou, se concentrando ao máximo para encaixar sua última peça.
Feito isso, virou seu rosto para o lado e vislumbrou seu velho amigo Watson acompanhado por Lestrade, Inspetor da Scotland Yard.
- O que está fazendo, Holmes? - inquiriu o amigo surpreso. Era incrível. Por mais que o conhecesse há anos e que soubesse que nunca podia esperar que o mesmo fosse previsível, ou ao menos normal, Watson sempre se surpreendia com as diferentes loucuras do amigo.
- Meu caro John, não é incrível como seres mortos como papel podem também se misturar por características parecidas? - explicou ao amigo, seus olhos chegando a brilhar pelo entusiasmo.
- Sherlock, levante daí, o Inspetor deseja falar conosco e você está todo sujo no chão. Aliás, há quanto tempo não toma banho?
- Quantos dias você ficou fora mesmo? Essa é a resposta. - sorriu triunfante, levantando-se do chão.
- Como ainda me surpreendo com você, Holmes? - balançou a cabeça negativamente. Chegou perto da mais nova experiência do amigo, e com um segundo, destruiu tudo aquilo, quando sua bengala atingiu todos os papeis e os jogou no chão.
- Típico de você, Watson - desaprovou a atitude do amigo com a cabeça - Sempre tão previsível! - E como se suas últimas três horas de trabalho não estivessem sidas totalmente perdidas com a última ação de John, ele simplesmente sentou-se de volta em sua poltrona e encarou Lestrade.
- Estou aqui para pedir sua ajuda, Sherlock Holmes, em um caso extraordinário que nos cometeu na polícia. - Lestrade informou.
- Sempre são extraordinários para mentes tão pequenas como vocês. - fez uma careta fingindo desapontamento. - Então, qual é o caso que sua polícia não consegue resolver dessa vez? - e sorriu falsamente.
Flashback - Um mês e meio atrás...
A neve havia parado de cair a uma semana, mas o frio e a chuva constante ainda recobriam o céu londrino. Mesmo os habitantes, acostumados com o clima típico de inverno de Londres, sentiam o vento gélido e as gotas de chuva que podiam ser comparadas a lâminas bem afiadas, já que passavam tão rapidamente que cortavam de frio as peles descobertas.
Se os ingleses já sofriam com isso, um indiano, então, estava sofrendo aqueles dias para simplesmente levantar da cama do hotel em que estava hospedado. Havia se arrependido de não ter adiado a visita para este país em um mês mais quente, quando o verão já estivesse preenchido os ares.
Por trás de um grande sobretudo de lã original que protegia seu corpo da hipotermia, estava Majub Meret, o indiano habituado com temperaturas acima de 30° graus e nunca inferiores a 10°, como fazia no momento.
Saía do hotel logo depois de uma xícara de chocolate quente. Sabia, afinal, da essência e tradição inglesa dos chás, mas o chocolate fumegante que explodia na boca e lhe trazia uma sensação prazerosa pareceu-lhe muito mais atrativo, e por isso este foi o escolhido como um aquecedor do sangue antes da caminhada até o comitê.
Era só atravessar a avenida e chegaria ao local onde seria realizado mais uma conferência contra o colonialismo, no qual ele era o palestrante e líder. Escondendo suas mãos também no casaco felpudo e grosso e abaixando a cabeça para fugir das pequenas poças que formavam no chão pela chuva, ele corria na travessia da rua.
Olhando para os lados para ver se alguma carruagem estaria na via, ele continuou sua correria, vendo que as pessoas decidiram se esconder em casa durante o frio e a rua estava praticamente deserta. Viu, somente, uma carruagem da polícia a poucos metros, mas esta estava parada.
- MONSIEUR MERET, AQUI! - escutou um grito chamando seu sobrenome e levantou a cabeça para procurar de onde vinha.
Parou onde estava mesmo, no meio da rua, e olhou para a casa majestosa onde estariam o esperando. De longe avistou Ravi Ankar, seu assistente, dando-lhe um tchauzinho exagerado com os braços para que o indiano o encontrasse com o olhar.
Majub riu da reação do ajudante, sempre bem eufórico e extravagante, além de ansioso. Levantou a mão, mostrando que já havia achado Ravi, quando sentiu algo encostando-se a seu corpo e o jogando para o chão.
Fora tão rápido que tudo que pode distinguir era que a carruagem havia acabado de passar por cima dele. Ainda pode escutar, bem ao fundo, o grito estridente de Ankar, mas depois, fora só escuridão.
Fim do Flashback
- E você, Lestrade, está querendo que eu faça o quê? Console o assistente do indiano? - perguntou Holmes, maroto, ao fim da narrativa do inspetor sobre o estrangeiro atropelado.
- Na verdade não. Seria mais provável que você o prendesse, se me deixasse finalizar a história. - avisou.
- Holmes, deixe que o inspetor conte-nos tudo até o fim. - pediu Watson.
- John, meu caro, ele está me fazendo perder tempo com esses casinhos da polícia! - respondeu ao amigo - Eu, afinal, preciso jogar o lixo fora e tomar banho e ele está me atrasando - fingiu uma cara de decepção - Ah, e claro, resolver algumas dezenas de roubo de joias importantíssimas para o mundo. - exclamou, como se realmente se importasse com aqueles furtos.
Watson encarou o amigo forçando uma cara de repreensão e vendo que estava sendo ignorado por Holmes, que encarava suas unhas, olhou para Lestrade e pediu que o mesmo continuasse a narrar os fatos.
- Como estava falando, o atropelamento foi só um começo. O juiz Gregson Wilker julgou o caso e exonerou o condutor da carruagem, Wilson Jay, da polícia. E encerrou o caso. - limpou a garganta antes de continuar - Há aproximadamente uma semana atrás, porém, nossa polícia recebeu uma carta em que o movimento anticolonialista condenava a morte o chefe da Scotland Yard, Rud Tenson, pela participação de oficiais de sua equipe na morte do Majub, que eles chamaram de irmão. Disseram que executariam Sir Tenson no primeiro dia de abril, portanto amanhã. - engoliu em seco - Rud não quer se desfazer de suas atividades já marcadas para amanhã, então preciso que o senhor descubra como vão atacá-lo para que possamos fazer nosso trabalho.
- Fazer o trabalho de vocês? Eu estarei fazendo o trabalho de vocês! - corrigiu Holmes. - Como sempre. Mas, bom, me diga aonde o nosso querido chefe vai amanhã e, se vocês ao menos sabe de algo, alguns suspeitos.
Lestrade pigarreou, antes de responder a frase teimosa de Holmes. Ainda permitiu-se ajeitar-se na poltrona onde estava acomodado. Retirou o chapéu e o alisou antes de finalmente retomar a palavra:
- Garanto, Holmes, que se não fosse de suma importância, não estaria aqui lhe pedindo ajuda. - deu um sorriso forçado - Bom, Sir Rud Tenson almoçará no hotel, fará uma visita ao bar no fim da tarde e irá ao teatro à noite assistir "A viúva Negra". Com isso, temos três suspeitos. Gunar Sherd, Marjory Wils e, principalmente, Ravi Ankar. - disse entregando as fichas que descreviam as pessoas dos nomes antes falados. Sherlock passou somente um olhar por elas. - O que me diz, monsieur?
- Por hora, que vocês precisam abrir suas mentes. - concordou consigo mesmo, assentindo e sorrindo.
Gunar Sherd acordou aquele dia pelos gritos da mulher. Levantou-se da cama sórdid de cansaço, colocou uma roupa de ficar em casa e lavou sua boca antes de, enfim tomar coragem para encarar a mulher que estava na sala.
Ele havia trabalhado até tarde no bar como garçom, mas a Sra. Sherd parecia não s importar muito com isso. Sentada no sofá, lia, abismada, o jornal do dia que detinha notícia da ameaça de assassinato do chefe da polícia londrina.
- Como é possível, meu querido, que as pessoas possam ser tão selvagens? - perguntou ao marido, ignorando sua cara de fadiga - Só porque o líder deles foi acidentalmente atropelado pela polícia, eles querem matar o policial que não tem nada a ver com isso!
Lisa Sherd vinha de família nobre inglesa e, portanto, concordava com o colonialismo, logo tratando os anticolonialistas como selvagens. Gunar, entretanto, sempre fora mais humilde e sendo filho de estrangeiros que viviam numa colônia na América do Sul em situações precárias, era contra o colonialismo. Só era mais uma divergência daquele casal.
- Selvagens, Lisa? Selvagens? Eles lutam por uma causa! - elevou a voz para defender sua opinião - Uma causa, afinal, muito boa e sã, que infelizmente não infla a todos os corações. Eu ouvi muitos burburinhos que o atropelamento não fora ocasional e acredito nisso! Nada mais do que válido eles lutarem por seus direitos!
- Por que estou discutindo isso com você, afinal? - ela perguntou retoricamente - Você é tão selvagem quanto eles. - e deu de ombros, lendo a próxima notícia do jornal. Pelo jeito, esse era mais um dia que Gunar ficava sem seu café-da-manhã.
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A primeira dama da Inglaterra estava animada para mais uma estreia. Bom, não que ela fosse realmente a primeira dama do país, mas ela bem que se sentia como se fosse. Na verdade, Marjory Wils era só a esposa do dono do teatro mais famoso de Londres. Não que isso fosse pouca coisa.
A questão era que o tão esperado espetáculo "A viúva negra" iria estrear e ela corria de um lado para o outro do estabelecimento ditando ordens para manter tudo às ordens.
- Envernize mais uma vez o palco, só para que ele fique ainda mais brilhante - ordenou a um empregado que passava, sorrindo pelo uso da última palavra. Tudo porque brilho lembrava extravagância, beleza e status, três coisas que ela adorava.
- Madame Wils, estão te esperando para a abertura franca lá na entrada. - uma mocinha falou, detendo a atenção de Marjory, que agradeceu com o sorriso mais uma vez nos lábios. Só havia uma coisa que ela gostava mais do que brilho, e esta era ser chamada de madame.
A entrada franca no teatro consistia em duas horas onde qualquer visitante, gratuitamente, podia visitar as dependências do local e se vislumbrar com tamanha beleza. Marjory não concordava com essa atitude do marido, mas ainda sim não podia fazer mais do que abrir todos os dias o teatro para todos e reclamar com o marido à noite sobre aquela proposta indecente.
Com passos apressados, logo ela chegou à entrada e enxergou alguns interessados em conhecer o teatro. Observou, ainda, a rua, encarando uma pessoa com um cartaz na mão no meio da rua, reivindicando sozinha por alguma coisa.
Forçando os olhos, leu o que estava escrito e entendeu do que se tratava. Apoio ao anticolonialismo. E a condenação à morte do tal chefe da polícia. Ela concordava com aquilo, pois seu marido também concordava. Simples.
Desviou o olhar novamente para os visitantes e abriu um sorriso forçado. Tinha de trabalhar duro agora, aguentando aquele povinho. A esperança era que, à noite, ela tinha certeza, a estreia de "A viúva negra" seria um grande e verdadeiro estouro!
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Ravi Ankar era daquelas pessoas que esbanjavam sempre um sorriso no rosto. Podia não estar muito bem, nem feliz, mas o sorriso sempre estava ali, para todos. Com isso, já podemos até supor, ele não era inglês.
Na verdade, ele é indiano. Como seu chefe. Oh, sim, seu ex-chefe, Majub Meret, a quem ele adorava. E que estava morto, morto pela própria polícia inglesa. Tudo porque defendia uma causa e estava aqui para lutar por ela.
Ravi era simpatizante de Londres pelos cartões postais quando criança dos primos e amigos distantes. Seu clima frio fazia seus olhos brilharem, porque não existia algo que odiasse mais do que o calor e a miséria em seu país. A polícia londrina, também, por muitas vezes fez com que o jovem rapaz, de carcaça franzina, sonhasse em trabalhar na polícia.
Até tentou quando completara a maior idade, alguns poucos anos atrás, mas desistiu quando viu que não era nada comparado ao que escutava sobre a polícia da Inglaterra. Portanto, fora trágico para a cabeça de um jovem sonhador como ele saber que Sr. Majub, do qual era assistente, morrera pela a polícia que ele tão glorificava.
"Seu regime contra o colonialismo teria gerado mesmo sua morte?" Ele pensava, roendo as unhas. "Será que teriam outros?". De repente, a pergunta surgiu, o desesperando. "Oh, meu Deus, aquilo não podia continuar!" Ele só esperava que alguém fizesse alguma coisa, porque a própria polícia estava envolvida até os fios do cabelo nesse crime.
Seu rosto impassível, suas linhas levemente rígidas, sua boca reta. Sem nenhum resquício de sorriso por ali. Isso, oh, era raríssimo. E, garanto, as consequências não eram poucas, nem brandas.
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- Holmes, o inspetor está nos chamando na Scotland Yard - Watson avisou para o amigo - Por que não se veste para sairmos, já que o milagre do banho aconteceu? - a pergunta cheia de ironia, fez Sherlock levantar a cabeça e encarar o amigo intrigado.
- Porque, meu caro amigo, você é contra o colonialismo? - É, talvez não fosse a pergunta antes feita por John que houvesse deixado Holmes tão instigado.
- O quê? - perguntou Watson, se recuperando da repetia mudança de assunto.
Olhando para o amigo, ele viu que o mesmo não estava brincando. Achava-se tolo por ainda se admirar pela reação do amigo. Aliás, por ainda conversar com ele.
- Está surdo? Já sei o que te dar de presente no seu aniversário, então, um aparelho de surdez - e sorriu. O doutor fez uma careta em resposta. - Vamos amassar bem para que você entenda. Sei que você é contra o colonialismo, ou seja, a imposição de uma cultura sobre a outra, mas queria saber por quê.
- Bom - ele pigarreou, se segurando para não responder grosseiramente ao amigo que sabia no que consistia o colonialismo. - Digamos que eu não sou a favor de nada que é imposto. Ninguém é obrigado a gostar ou fazer coisas que não lhe interessem. - deu de ombros - Agora eu que lhe pergunto, porque essa pergunta?
- Estava colocando minha cabeça para funcionar. Você já pensou que os próprios colonialistas e defensores dessa causa, além de concordar com essa imposição de cultura ainda impõe sua própria opinião sobre o colonialismo? - Watson fez uma careta de confusão - Entende? O buraco é mais embaixo. Há um erro quando se pensa neste caso como uma ameaça de vingança. É muito mais que isso, é uma intriga política das grandes!
Os passos de Watson na escada nem foram ouvidos por um concentrado Holmes. O doutor adentrou a casa e vasculhou se tinha algo interessante na bagunça que o amigo, impassível no pensamento, fazia questão de manter.
- Lestrade lhe mandou isso – começou John, jogando um pedaço de papel nas pernas de Sherlock. O mesmo leu o papel rapidamente e finalmente encarou o amigo:
- Pronto, Lestrade já arranjou alguém para cismar – bufou – Em todo o caso, sem exceção, ele escolhe uma carta do jogo e lhe coloca em xeque-mate.
- Tenho que concordar com você, Holmes, mas, no caso, talvez ele esteja certo – informou Watson, ainda mexendo na zona do amigo. – Ravi não-sei-o-que, o assistente do morto, é o maior suspeito.
- Teoricamente, sim, mas vigiar-lhe agora e mandar o que o ex-assistente fez o dia todo não adianta! – amassou o papel e o jogou para o alto, raivoso – Eles, mais uma vez, meu caro, estão ignorando as entrelinhas! – e dito isso, pegou um copo cheio de algum líquido e bebeu um gole.
John assentiu com a cabeça, sem paciência para ficar discutindo com Sherlock a proporção da importância de um papel. Ele sabia que, no final, Holmes ignoraria tudo aquilo, inclusive as fichas dadas mais cedo, e usaria de seu mais valioso método: sua mente. Sempre dava certo.
- Holmes, o que está bebendo? – perguntou, andando até ele, pegando o copo de bebida e cheirando para detectar o que era aquilo. – Está bebendo líquido de embalsar de novo? – inquiriu irritado. Será que ele não tinha jeito?
- Na verdade, - Holmes sorriu triunfante – eu misturei dessa vez, estou farto de você sempre adivinhar. Parabéns, acertou cinquenta por cento. Eu adicionei soro fisiológico também.
O doutor balançou a cabeça negativamente, se perguntando mais uma vez por que insistia em julgar Holmes como uma pessoa normal. Ele nunca seria assim. Quem em sã consciência, ou na própria loucura mesmo, beberia líquido de embalsar e soro fisiológico como se fosse suco de abacaxi com hortelã? Quem, também, sobreviveria com essa mistura?
Holmes não é mesmo qualquer um.
- Certo, o que faremos agora?
- Você provavelmente sairá com Mary. É um entardecer bonito e o vento está refrescante agora, recomendo um passeio ao ar livre. Nada mais romântico – e forçou um sorriso.
- Você entendeu o que eu quis dizer. – fez uma careta.
- Sim, entendi muito bem, tanto que respondi a sua parte, falta a minha. Vou sair para jantar. Nada que te interesse, mas obrigado pela preocupação.
- Sempre solicito. Pois bem, uma boa adivinhação. Vou passear com minha noiva – forçou a palavra que deixava claro o status do relacionamento – Agora, se me dá licença.
- Você já foi embora daqui há muito tempo, sem pedir licença. Agora não é mais necessário – exclamou sorrindo.
-#-
- Cada dia mais bela, Irene. – Sherlock elogiou sua amada, dando-lhe um singelo beijo na mão.
Em seguida, puxou a cadeira para que a bela mulher sentasse e, feito isso, ele empurrou sua cadeira e sentou-se nela. Ajeitou-se com o guardanapo, colocando em seu pescoço, preso a roupa. Dobrou as mãos de seu casaco até metade de antebraço e mexeu nos talheres, os simetrizando milimetricamente.
Irene acomodou seu guardanapo em seu colo e sorriu, esperando que Holmes estivesse a encarando quando esta olhasse para ele.
Decepcionada pela falta da atenção, mas orgulhosa demais para demonstrar qualquer sentimento ou interesse sobre, somente pigarreou, educadamente, e abriu um pequeno sorriso satisfeito quando o homem a sua frente lhe olhou.
- Esta cadeira é bem confortável, não? O assento estofado, revestido, muito mais cômodo – afirmou enquanto analisava o lugar onde estava sentado.
- É, eu sempre escolho os melhores restaurantes – murmurou presunçosa, não deixando que a conversa sem sentido de Sherlock lhe parecesse algo mais do que umas palavras normais. – Soube que está trabalhando em um novo caso.
Ela mudou de assunto bruscamente, como o próprio Holmes sempre fazia.
Ele finalmente parou para vislumbrá-la, encarando seus olhos brilhantes com fascínio e um sorriso triunfante nos lábios.
- Essas paredes ultimamente estão bem fofoqueiras. – respondeu somente, enquanto levantava a mão chamando por qualquer garçom.
- É, digamos que os ingleses já perderam um pouco da famosa quietude que os caracteriza.
Irene pendeu a cabeça levemente para um lado, analisando a expressão de Holmes. Mas ele nada deixou que seu rosto expressasse e logo o garçom estava ao lado da mesa oferecendo-lhes um cardápio. Holmes prontamente recusou.
- Traga-me somente dois chás, por favor. – o rapaz assentiu, saindo dali. Irene somente o olhou, esperando uma explicação.
- Eu não havia sido convidada para jantar? – ela inquiriu, já que por si só Holmes não se defenderia.
- Lembrei-me que preciso fazer uma visita a um velho amigo. – sorriu de seu jeito característico - Creio que um chá será suficiente para você me contar o que soube sobre meu novo caso.
- Algo me diz, que essa visita será bem interessante. Posso saber quem será o anfitrião?
- Não. – ele sussurrou, sorrindo.
- Eu posso lhe fazer companhia nesse passeio? – ela arqueou as sobrancelhas, como um desafio.
- Pode não parecer, mas meu grau de sanidade ainda é alto e, portanto, mesmo gostando de trabalhar sozinho, eu nunca dispensaria a companhia de uma bela mulher como você. – e bebericou o chá que havia acabado de chegar como se nada tivesse acontecido.
Continua...